Centro não é o ponto entre dois extremos - Míriam Leitão
O PT jogou o jogo democrático, Bolsonaro faz a apologia da ditadura. A frase que abre esse parágrafo eu disse em 2018, em comentários e colunas, no segundo turno das últimas eleições. Era a conclusão da análise dos fatos e das palavras dos grupos políticos que disputavam a eleição. Fui hostilizada por dirigentes petistas do Rio dentro de um avião, processei por difamação um servidor do Planalto no governo Dilma. Sou vítima de constantes fake news e agressões do gabinete do ódio do governo Bolsonaro. Já fui criticada em público pelo ex-presidente Lula mais de uma vez e fui vítima de mentiras sórdidas ditas pelo presidente Jair Bolsonaro. Poderia com base nisso afirmar que os dois são iguais? Objetivamente, não. Seria falso. Posso concluir que ambos não gostam de mim, mas isso é o de menos. Não é uma questão pessoal.
Em dois anos e quatro meses, Bolsonaro superou as piores expectativas. Na pandemia, ele mostrou seu lado mais perverso. A lista é longa. Deboche diante do sofrimento alheio, disseminação do vírus, criação de conflitos, autoritarismo. O país chegou ao número inaceitável de 400 mil mortos com um presidente negacionista ameaçando usar as Forças Armadas contra a democracia. Em Manaus, no último fim de semana, ele repetiu que poderia lançar os militares contra as ordens dos governadores. “Se eu decretar, eles vão cumprir”. Esse clima de beligerante intimidação prova, diz um general, uma “necessidade doentia de demonstrar ter poder”. Segundo essa fonte, “cada vez que se declara detentor dessa suposta força, demonstra na verdade não tê-la”. Seja qual for a análise da mente distorcida do presidente, o fato é que ele ameaça o país com a ruptura institucional no meio de um doloroso sofrimento coletivo.
O ex-presidente Lula teve uma política ambiental de excelentes resultados na gestão da ministra Marina Silva e do ministro Carlos Minc. O país viu avanços na inclusão de pobres e negros. Na economia, houve erros e acertos. No campo institucional, escolheu ministros do Supremo qualificados e nomeou procuradores-gerais da lista tríplice. Bolsonaro quer devastar a floresta, capturar as instituições e seu governo exibe preconceito como se fosse natural.
Bolsonaro faz ataques sistemáticos aos veículos de imprensa e aos jornalistas. Lula ameaçou impor o que ele chamou de “regulação da mídia”, mas recuou diante da resistência dos órgãos de comunicação. Ameaças nunca devem ser subestimadas, mas as instituições sabem lidar com um governante que tenha um mau projeto. Mais difícil é se defender de um inimigo da democracia como Bolsonaro.
As decisões recentes do Supremo Tribunal Federal tiraram as penas que recaíram sobre Lula e ele tem dito que foi inocentado. Tecnicamente sim, porque não é mais um condenado pela Justiça. O PT defende a tese de que foi tudo uma conspiração contra o partido. Falta explicar muita coisa, mas principalmente a materialidade do dinheiro que foi devolvido por corruptos e corruptores ao poder público.
Bolsonaro usou o sentimento anticorrupção sem o menor mérito, como se vê na sucessão de rachadinhas, funcionários fantasmas, pagamentos em dinheiro vivo e transações imobiliárias que rondam a família. Isso sem falar nas relações estreitas com personagens obscuros, como o miliciano Adriano da Nóbrega.
Partidos de outras tendências políticas devem trabalhar para oferecer alternativas ao eleitor brasileiro, porque a democracia é feita da diversidade de ideias e de propostas. O erro que não se pode cometer é dizer que essa é a forma de fugir de dois extremos. Isso fere os fatos. Não existe uma extrema-esquerda no país, mas existe Bolsonaro, que é de extrema-direita. No governo, ele multiplicou as mortes da pandemia e sempre deixa claro que se puder cancela a democracia.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
Pré-candidato oculto, Huck procura Alckmin e ouve palavras de incentivo em conversa sobre 2022
O apresentador Luciano Huck e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) tiveram um encontro virtual nesta quinta-feira (29), no momento em que ambos se movimentam nos bastidores com vistas às eleições de 2022 —o primeiro com foco na Presidência e o segundo de olho no Governo de São Paulo.
A conversa, a convite de Huck, ocorreu durante a manhã e durou cerca de 40 minutos, por meio da plataforma Zoom. Nenhum dos dois expõe publicamente a intenção de disputar os cargos, embora eles próprios e seus aliados venham articulando projetos nesse sentido.
"Foi um bate-papo para trocar uma ideia. O Luciano Huck tem espírito público, e candidatura é uma questão de avaliação do momento adequado", disse o tucano à Folha, ao confirmar a conversa. O apresentador, procurado via assessoria, não informou detalhes do encontro.
Segundo Alckmin, os dois discutiram assuntos como o momento político e a busca por uma terceira via competitiva para a corrida ao Planalto, diante do cenário de virtual enfrentamento entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT).
Huck compõe uma frente com outros cinco presidenciáveis que querem construir uma alternativa ao que classificam como polarização entre extremos. O grupo, que conta com os governadores tucanos João Doria e Eduardo Leite (ambos do PSDB), lançou em março um manifesto em defesa da democracia.
Da parte do apresentador, uma das intenções ao abrir o canal de diálogo com Alckmin é ouvi-lo sobre as experiências de suas duas candidaturas à Presidência (em 2006 e 2018) e sobre a vivência na administração pública, algo que é uma lacuna na biografia de Huck e desperta críticas de detratores.
"Tenho ouvido as pessoas neste momento difícil e importante da vida nacional, com toda a questão sanitária, econômica e social", afirmou Alckmin, que desconversou sobre sua possível candidatura para o governo e se disse concentrado nas atividades como médico e aluno de doutorado.
No entanto, como mostrou a Folha, o ex-titular do Palácio dos Bandeirantes intensificou as costuras para disputar o cargo. Ele cogita até mudar de partido (PSD, PSB, PSL e Podemos são algumas das alternativas) para consolidar a candidatura, hoje dificultada pelos planos de Doria no estado.
"Isso tudo tem tempo", respondeu Alckmin, ao ser indagado sobre as possíveis candidaturas dele próprio e de Huck. "O que não podemos perder de vista é que a política tem validade e que é preciso valorizar a boa política. Eu estimulo as pessoas a participarem. A pior política é a da omissão", emendou.
O comunicador vem recusando pedidos de entrevista da Folha para falar sobre política e sua eventual candidatura. Nem ele nem a TV Globo informam se o contrato do titular do programa "Caldeirão do Huck" terá renovação. Segundo pessoas próximas, o atual compromisso vence em meados deste ano.
Alckmin e Huck já se conheciam e trocaram elogios públicos nos últimos anos. Um dos elos entre os dois é o economista Andrea Calabi, que é padrasto do apresentador e, entre 2011 e 2014, foi secretário da Fazenda da gestão do tucano no Governo de São Paulo.
"Sou amigo do padrasto dele, o Andrea Calabi, que é um grande quadro. Gosto do Luciano. Foi um bom papo", relatou Alckmin, que exaltou também sua relação com o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (ex-MDB, PSB e PSDB), principal conselheiro político do apresentador.
Durante a campanha presidencial de 2018 —que terminou com um decepcionante quarto lugar para o ex-governador de São Paulo, com 4,76% dos votos válidos—, Huck disse à Folha que tinha respeito e admiração pelo tucano, a quem qualificou como "um cara correto" e bom administrador.
"O Alckmin é um político competente, mas é a velha política", declarou na ocasião o apresentador, que esteve perto de concorrer ao Planalto naquele ano, mas acabou recuando.
Alckmin lamentou a desistência na época, sustentando o discurso de que incentiva entrada de novos nomes na cena pública. "O Luciano é um líder, tem espírito público e preocupação em melhorar o Brasil, as condições de vida da população. Tenho certeza que dará sua contribuição", afirmou.
Outro líder tucano que sempre estimulou o apresentador a fazer carreira política é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que já o descreveu como alguém que carrega o estilo do PSDB.
Desta vez mais engajado na preparação de uma candidatura, Huck tem mantido agenda intensa de diálogo com políticos que vão da centro-esquerda à direita.
Nas últimas semanas, ele conversou com os tucanos Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, e Tasso Jereissati, senador pelo Ceará, ambos cotados no PSDB para disputar o Planalto.
A discussão de outros nomes pelo tucanato é um empecilho para o projeto de Doria, que esperava a essa altura contar com um apoio majoritário da legenda a seu nome. O governador de São Paulo e Huck possuem uma relação cordial, embora operem agendas próprias no chamado centro democrático.
Paralelamente ao plano da candidatura nacional, Doria trabalha para fazer do atual vice, Rodrigo Garcia (DEM), seu sucessor no Bandeirantes. A estratégia é filiar Garcia ao PSDB, brecando as intenções do grupo de Alckmin de retornar ao poder. Aliados do governador preferem que o veterano dispute o Senado.
O ex-governador submergiu depois da derrota no pleito de 2018, começou a dar aulas no curso de medicina de uma universidade privada, voltou a atender como médico e iniciou um curso de doutorado, que ele planeja concluir ainda neste ano, a tempo de se dedicar à campanha de 2022.
Ciro, Doria, Huck, Leite? Não: nas redes sociais, só dá Bolsonaro e Lula
Um terço dos eleitores diz não querer Bolsonaro nem Lula em 2022. Se somados, nomes como João Doria, Ciro Gomes ou Luciano Huck poderiam ter intenções de votos suficientes para ir ao segundo turno. Mas, na prática, a fragmentada “terceira via” ainda faz pouco ou nenhum barulho em um dos principais termômetros da democracia moderna: as redes sociais.
Monitoramento da consultoria de análise de dados Bites obtido pela EXAME mostra que a liderança absoluta que Bolsonaro e Lula apresentam nas pesquisas se reflete também na internet.
Nem mesmo a primeira tentativa de união do grupo mais ao centro foi capaz de mudar o cenário. Na carta em defesa da democracia, que uniu seis presidenciáveis em 31 de março, o movimento de repercussão nas redes pode ser considerado quase irrelevante, diz André Eler, diretor adjunto da Bites e que acompanhou em todas as últimas eleições as movimentações de comportamento nas redes.
"Ainda que juntando seis candidatos, a carta foi um fracasso nas redes sociais", diz. "Não chegaram a fazer cócegas na liderança de Bolsonaro ou Lula. É muito pouco o que esses nomes oferecem de repercussão."
Na métrica batizada de “Tração”, criada pela Bites para medir a capacidade de repercussão e interações nas redes sociais, nenhum dos possíveis presidenciáveis da “terceira via” consegue ultrapassar de forma consistente o valor de 1 ou mesmo de 0,5 no índice.
Enquanto isso, Bolsonaro tem caído, mas ainda figura muito à frente dos demais, acima de 5 ou 6. Já Lula voltou a fazer barulho nas redes após ficar novamente elegível no começo de março, quando chegou a 5 em tração pela métrica da Bites e empatou com Bolsonaro. Foi a primeira vez que um possível candidato rivalizou com o presidente em repercussão nas redes desde o começo do mandato.
Desde esse pico, a tração do petista passou a novo patamar, e figura frequentemente por volta de 1 ou 2, bastante atrás de Bolsonaro, mas se firmando à frente do restante dos concorrentes. (veja no gráfico abaixo, que mostra a tração de alguns dos nomes que lideram na última pesquisa.)
O comportamento das redes, embora restrito a fatias específicas da população, pode dar mostras das tendências no campo eleitoral. É o que aconteceu com Bolsonaro em 2018, quando o presidente dominou as redes muito antes de dominar as pesquisas.
Na última pesquisa de intenção de votos EXAME/IDEIA, divulgada na sexta-feira, 23, Lula e Bolsonaro têm cerca de 30% dos votos cada. Atrás deles, aparecem uma infinidade de nomes em possíveis cenários de primeiro turno. Nesse pelotão, há pequena liderança para Ciro Gomes (PDT), Luciano Huck (sem partido), João Doria (PSDB) e Sergio Moro (sem partido), todos com menos de 10% dos votos cada.
A principal dúvida para 2022 é se os eleitores se aglutinariam em torno de um único candidato de centro ou centro-direita caso alianças fossem formadas. A pouca repercussão nas conversas online mostra que, entre ter intenções de votos somados e conseguir de fato angariar essa mesma quantidade sozinho, há um abismo.
Nem Huck, nem vacinas
Antes de Lula voltar ao páreo, nenhum candidato havia de fato ameaçado a liderança digital de Bolsonaro.
Mesmo em momentos de críticas ao presidente, como quanto ao manejo da pandemia, os adversários de centro não conseguiram transformar as derrotas do governo em vitórias políticas concretas para si.
O maior nome no meio digital, o apresentador Luciano Huck, chega a ter mais seguidores do que Bolsonaro (52 milhões nas principais redes, ante 39 milhões do presidente) e picos de tração que rivalizam com Lula. Mas esses ápices nas redes acontecem quando Huck fala sobre sua família ou seu programa de televisão, e não sobre política, diz Eler.
O mesmo vale para o também apresentador Danilo Gentili, que passou a figurar nas análises após notícias de que está sendo sondado por nomes como João Amoêdo, presidente do Novo. Gentili, como Huck, não conseguiu até agora engajar sua audiência falando de política. Já Amoêdo, nas últimas semanas, figura abaixo de 0,4 em tração, sem conseguir se aproximar de Lula ou Bolsonaro.

(Arte/Exame)
Antes um dos nomes mais cotados para 2022, o ex-juiz Sergio Moro quase desapareceu das discussões online desde que deixou o governo há um ano. Sua tração no índice da Bites é uma das menores, menos de 0,1 ao longo de 2021, atrás de nomes como os governadores do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB, frequentemente na casa do 0,4), ou da Bahia, Rui Costa (PT, perto de 0,3 em tração). Em análises qualitativas, as menções e interações com Moro ficaram também mais negativas, e o ex-juiz passou a ser visto como "traidor" por parte de sua antiga base.
Em situação parecida está João Doria (PSDB), que se elegeu sob o mote "Bolsodoria", mas passou a antagonizar com o presidente em meio à pandemia. O momento com maior tração de Doria foi na semana entre 16 e 22 de janeiro, em meio ao início da vacinação com a Coronavac, quando o governador de São Paulo superou valor de 1 em tração, seu recorde neste ano.
Depois disso, não só seu engajamento cai para menos de 0,5 nas últimas semanas, como o tucano não consegue angariar muitos comentários positivos. O governador de São Paulo não atrai o apoio da esquerda e é linchado pela parcela da direita que é fiel ao bolsonarismo.
Mesmo com a repercussão gerada pela Coronavac, Doria tem, no geral, tração e número de seguidores similares aos de Ciro Gomes (PDT). "Fica claro o quanto ele naufraga nas redes a partir do momento em que começa a se contrapor ao Bolsonaro”, diz Eler, da Bites. “Apesar de vitórias políticas como a vacina, a análise qualitativa da imagem do Doria nas redes ainda é muito negativa.”
Outros nomes com quase nenhuma repercussão digital são Luiz Henrique Mandetta, Eduardo Leite e Marina Silva, que frequentemente chegam a ter menos de 0,1 ou 0,2 ponto em tração no índice da Bites.
A "ameaça Lula" ficou menor?
Enquanto o centro patina, as movimentações nas últimas semanas mostram como o ex-presidente Lula consolidou sua posição na internet e se descolou do pelotão de centro. E, desta vez, com sinais de que a rejeição a seu nome pode ser menor.
No passado, a polarização com o PT sempre funcionou bem para Bolsonaro nas redes. Em 2018, quando Lula ou o então candidato do PT, Fernando Haddad, começavam a crescer, Bolsonaro subia em tração diante da possibilidade de volta dos petistas ao poder, segundo as análises da Bites na ocasião.
Neste mês, esse movimento não ocorreu. A capacidade de Lula de movimentar as redes dobrou desde a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, que o tornou novamente elegível. A alta foi de mais de 90% de interações por post (mesmo com os perfis do ex-presidente tendo também feito mais posts desde então). No total, o número de interações subiu mais de 200%, segundo o monitoramento da Bites.
No mesmo período, de cerca de 45 dias, Bolsonaro caiu por volta de 25% em interações por post.
"Por muito tempo, Lula perdeu relevância e ficou aquém da capacidade de mover as redes que o Bolsonaro tem. Isso ainda se verifica na prática, a gente vê que Bolsonaro ainda é o protagonista. Mas especificamente na semana da decisão do Fachin, Lula conseguiu empatar, e agora voltou ao radar”, diz Eler.
Na semana entre 6 e 12 de março, a mesma da decisão de Fachin, Lula teve ainda outros picos de atenção, como em 10 de março, quando discursou em São Bernardo do Campo (SP). Voltou a ser amplamente comentado nas redes dias depois, no dia 13, quando tomou a primeira dose da Coronavac e gravou vídeo incentivando a vacinação e o isolamento.
O "empate" digital entre Lula e Bolsonaro na semana em que o ex-presidente voltou ao jogo eleitoral não aconteceu só pela alta do petista, mas também pela queda de Bolsonaro, uma vez que a tração do presidente está menor do que no começo do mandato. "Quando Lula deixou a prisão [em 2019], por exemplo, teve um patamar até mais alto do que desta vez. Mas, naquela época, Bolsonaro tinha uma capacidade de repercussão muito maior, então era muito mais difícil alcançá-lo”, diz o diretor da Bites.
Bolsonaro, por exemplo, vem perdendo seguidores no Instagram de forma mais consistente desde meados de abril, algo que só havia acontecido momentaneamente durante a saída de Sergio Moro do governo – naquela ocasião, seu número de seguidores foi recuperado já no dia seguinte.
Popularidade em baixa
Os movimentos das redes sociais vão em linha com as pesquisas de opinião acerca do trabalho do presidente. Dados da última sondagem EXAME/IDEIA nesta semana mostram que o governo de Bolsonaro chegou a seu recorde de desaprovação, em 54%. O presidente também aparece pela primeira vez empatado ou perdendo na margem de erro para Lula no primeiro e no segundo turnos em 2022.
O petista foi o que mais cresceu nas pesquisas, indo de 18% no primeiro turno em meados de março a 30% nesta semana. Bolsonaro se mantém estável, caindo ligeiramente de 33% para 30% das intenções de voto no período.
“Em relação à mudança de posição entre Lula e Bolsonaro, podemos fazer uma relação com a fatura que chega para o governo, que atravessa o pior momento”, diz o pesquisador Maurício Moura, fundador do IDEIA, em relatório sobre os resultados da sondagem (veja na íntegra). Moura cita questões como a lentidão da vacinação, a situação econômica e a segunda leva do auxílio emergencial ainda não distribuída como fatores que impactam na avaliação de Bolsonaro.
Lula também apresentou crescimento expressivo em sua base digital neste ano, ganhando mais de 1 milhão de seguidores até sexta-feira, alta de 13%. Bolsonaro cresceu 2%, com pouco mais de 640.000 novos seguidores. No entanto, o presidente tem menor margem para aumentar sua rede, que é quase quatro vezes maior que a de Lula.
Entre os potenciais presidenciáveis, o único com queda foi João Amoêdo, que perdeu quase 100.000 seguidores desde janeiro (baixa de 2%). O que mais ganhou seguidores percentualmente foi Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul, mas sua base ainda é pequena, com menos de 1 milhão de seguidores.
É possível, é claro, vencer eleições sem movimentar as redes sociais. Um dos maiores exemplos recentes aconteceu em São Paulo, quando o prefeito do PSDB, Bruno Covas, foi reeleito contra Guilherme Boulos. O candidato do PSOL tinha mais seguidores e mais engajamento, mas Covas venceu com facilidade no segundo turno.
Ainda assim, os números deixam claro que há pouco espaço até agora para construir uma candidatura de centro capaz de ir ao segundo turno. A “terceira via” não tem conseguido capitalizar as derrotas de Bolsonaro ou a rejeição a Lula. Precisará de muitos likes e retweets até chegar lá.
Em vídeos compartilhados nas redes, Lula e Ciro aparecem em clima de pré-campanha
Camila Zarur / O GLOBO
Ainda que 2022 esteja longe, nas redes sociais possíveis candidatos à eleição presidencial e seus partidos já estão em clima de pré-campanha. Nesta semana, um vídeo do ex-presidente Lula (PT) em meio eleitores foi compartilhado com um jingle que canta sobre a saudade da época que o petista estava no poder. Já o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) lançou uma série de vídeos curtos com propostas para o país.
Embora o vídeo de Lula não faça parte da campanha oficial do ex-presidente, ele foi compartilhado por membros do partido, como os deputados Helder Salomão (ES) e Alencar Santana Braga (SP).
O jingle chiclete canta que está com saudades de votar no ex-presidente e da época que "tinha carne, cerveja e churrasco”. Em outro verso, a música diz “não estou aguentando dinheiro acabando, e nós sofrendo comendo só ovo”. Nas imagens aparecem Lula discursando e entre os eleitores, além de gravações de pessoas dançando — o que dá ao clipe uma cara de peça publicitária eleitoral.
O jingle, feito pelo músico Juliano Maderada, é uma paródia da música Tapão na Raba, cantada por Rai Saia Roda. No canal do Youtube do artista, Maderada Music Show, há outras canções feitas para Lula e contra o presidente Jair Bolsonaro.
Procurado, o petista disse que não está discutindo candidatura por ora.
Ciro Gomes, por sua vez, já tem apostado na divulgação de vídeos voltados para sua possível candidatura no ano que vem. Nesta semana, lançou uma série de gravações curtas em que fala as propostas do PDT para o país. O material já faz parte da estratégia de comunicação de João Santana, que já foi marqueteiro de Lula e da ex-presidente Dilma e foi contratado pelo ex-ministro por um contrato de R$ 250 mil por mês.
Os vídeos de Ciro seguem um visual mais limpo, comparado ao que está sendo compartilhado pelos petistas. O ex-ministro aparece em um fundo neutro e faz um breve discurso de menos de um minuto. Até o momento, três vídeos do tipo foram publicados: no primeiro, Ciro se direciona aos desempregados e trabalhadores informal; no segundo, critica os governos federais passados, afirmando que eles seguem o mesmo modelo desde a gestão de Fernando Henrique; e, no terceiro, fala sobre impostos e desigualdade.
Rumo ao nada - J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo
A imprensa brasileira desenvolveu ao longo das décadas, como a teoria da evolução garante que acontece com as espécies ao longo dos séculos, uma habilidade única. Mantém com vida artificial dentro do noticiário político, respirando por aparelhos, eventos de importância prodigiosa que têm uma característica muito simples entre si: não existem. É o que se poderia chamar de “não fato” – ou, mais precisamente, lendas que vão sendo repetidas de redação em redação, hoje em dia em tempo real, e que não têm nenhuma relação com qualquer tipo de coisa que possa ser certificada como realidade. É como o ar do pastel: está lá dentro, mas não serve para nada.
Você sabe o que é. Há uns 40 anos, ou por aí, aparece regularmente nas manchetes de jornal e no horário nobre da TV a seguinte frase: “MDB pensa em deixar o governo”. Precisa dizer mais alguma coisa? Um “não fato” como esse é provavelmente o melhor que se pode obter no gênero, mas há concorrentes. “Deputados estudam formação de frente comum”, por exemplo. Um clássico, sempre, são as CPIs. “CPI disso ou daquilo pretende investigar isso ou aquilo.” Há também a “apuração rigorosa”, o “novo estudo” e a “mobilização da oposição” – ou da “tropa de choque”. Nunca se apura nada, nem o estudo resulta em alguma coisa de útil, nem alguém se mobiliza para outra finalidade que não seja a de se aproveitar do erário ou fugir do Código Penal.
Mas e daí? Essas miragens sempre enchem páginas que correriam o risco de ficar em branco, ou minutos que poderiam passar em silêncio; pode ser inútil para o público, mas é útil para preencher espaço e tempo. Para sorte de comunicadores e veículos, a disposição do leitor em ser informado sobre fatos que não estão acontecendo é normalmente muito generosa; ele lê, esquece o que leu e acaba lendo outra vez. Passa um tempinho, e lá vem de novo: “MDB pensa em deixar o governo”. Nunca deixou, e não vai deixar nunca, mas a notícia volta. É a vida.
O duplo zero do momento são as matérias dando conta do que diz, do que faz e até mesmo do que pensa meia dúzia de cidadãos, ou mais, descritos pela mídia como “candidatáveis” à Presidência da República nas eleições de 2022. Não se para de falar deles, a propósito de tudo. Assinam manifestos. Fazem reuniões entre si. Solidarizam-se uns com os outros. Dão entrevistas. Lançam bulas de excomunhão contra o governo, o tempo todo. Falam para o Brasil. Falam para o mundo. Tudo bem, mas o que, no fim das contas, poderia ser um “candidatável”? Uma coisa é certa: os que desfilam por aí não são candidatáveis a candidatura nenhuma, não na vida real. Supõe-se que, para ser mesmo um “candidatável”, segundo o entendimento comum que se tem dessa palavra, o sujeito precisa ser capaz de se transformar num candidato de verdade – ou seja, em alguém que tem alguma chance de ser eleito, um dia, para algo de importância. Ou é isso, ou não é nada. Os “candidatáveis” de hoje não são nada.
Nenhum dos nomes que frequentam o noticiário de todos os dias tem a mais remota chance de chegar à Presidência da República – podem, com sorte, arrumar alguma coisa em seus Estados (deputado, por exemplo, não é difícil), mas ficam por aí. Se não são candidatos sérios a presidente, porque jamais serão eleitos, também não são “candidatáveis”.
25 de abril de 2021 | 03h00
A imprensa brasileira desenvolveu ao longo das décadas, como a teoria da evolução garante que acontece com as espécies ao longo dos séculos, uma habilidade única. Mantém com vida artificial dentro do noticiário político, respirando por aparelhos, eventos de importância prodigiosa que têm uma característica muito simples entre si: não existem. É o que se poderia chamar de “não fato” – ou, mais precisamente, lendas que vão sendo repetidas de redação em redação, hoje em dia em tempo real, e que não têm nenhuma relação com qualquer tipo de coisa que possa ser certificada como realidade. É como o ar do pastel: está lá dentro, mas não serve para nada.
Você sabe o que é. Há uns 40 anos, ou por aí, aparece regularmente nas manchetes de jornal e no horário nobre da TV a seguinte frase: “MDB pensa em deixar o governo”. Precisa dizer mais alguma coisa? Um “não fato” como esse é provavelmente o melhor que se pode obter no gênero, mas há concorrentes. “Deputados estudam formação de frente comum”, por exemplo. Um clássico, sempre, são as CPIs. “CPI disso ou daquilo pretende investigar isso ou aquilo.” Há também a “apuração rigorosa”, o “novo estudo” e a “mobilização da oposição” – ou da “tropa de choque”. Nunca se apura nada, nem o estudo resulta em alguma coisa de útil, nem alguém se mobiliza para outra finalidade que não seja a de se aproveitar do erário ou fugir do Código Penal.
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O duplo zero do momento são as matérias dando conta do que diz, do que faz e até mesmo do que pensa meia dúzia de cidadãos, ou mais, descritos pela mídia como “candidatáveis” à Presidência da República nas eleições de 2022. Não se para de falar deles, a propósito de tudo. Assinam manifestos. Fazem reuniões entre si. Solidarizam-se uns com os outros. Dão entrevistas. Lançam bulas de excomunhão contra o governo, o tempo todo. Falam para o Brasil. Falam para o mundo. Tudo bem, mas o que, no fim das contas, poderia ser um “candidatável”? Uma coisa é certa: os que desfilam por aí não são candidatáveis a candidatura nenhuma, não na vida real. Supõe-se que, para ser mesmo um “candidatável”, segundo o entendimento comum que se tem dessa palavra, o sujeito precisa ser capaz de se transformar num candidato de verdade – ou seja, em alguém que tem alguma chance de ser eleito, um dia, para algo de importância. Ou é isso, ou não é nada. Os “candidatáveis” de hoje não são nada.
Nenhum dos nomes que frequentam o noticiário de todos os dias tem a mais remota chance de chegar à Presidência da República – podem, com sorte, arrumar alguma coisa em seus Estados (deputado, por exemplo, não é difícil), mas ficam por aí. Se não são candidatos sérios a presidente, porque jamais serão eleitos, também não são “candidatáveis”.
O Brasil tem dois candidatos a presidente, Jair Bolsonaro e Lula. O resto é o resto.
*
O Irã, condenado oficialmente pela ONU por causa do tratamento abominável que dá às mulheres, ganhou um lugar no conselho que defende “a mulher”, nessa mesma ONU. Espera-se, agora, o manifesto de apoio das feministas brasileiras.
*É JORNALISTA



