A reforma administrativa patina
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No início deste mês, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse ao Estadão que pretendia submeter a reforma administrativa diretamente ao plenário, sem passar pelas comissões, para acelerar seu andamento na Casa. A proposta foi protocolada no fim de outubro, mas ainda não começou a tramitar. Destravá-la, no entanto, depende apenas de um despacho do próprio Motta, que considera a reforma uma das prioridades de seu mandato.
Quem não está familiarizado com os ritos do Legislativo provavelmente enxergará alguma incoerência entre a fala e as ações do presidente da Câmara, mas uma reportagem publicada pelo Estadão na semana passada ajuda a explicar a razão desse aparente contrassenso. Entre os deputados federais, somente 78, ou 15,2% do total, se declararam abertamente favoráveis à reforma, enquanto 134, ou 26,1%, disseram ser contrários à proposta.
Todos os 513 deputados foram consultados ao longo do mês passado, por telefone, e-mail, assessoria de imprensa e também presencialmente no Congresso e em eventos públicos. A despeito disso, mais da metade deles não quis responder ou não deu retorno à reportagem, o que diz muito sobre as reais chances de aprovação da reforma.
Por ser uma proposta de emenda à Constituição (PEC), ela precisa de maioria qualificada para ser aprovada – ou 308 votos. Se o texto começasse a tramitar sem que mais apoios estivessem garantidos, sessões esvaziadas deixariam ainda mais clara a falta de interesse dos parlamentares para tratar do assunto neste momento, uma desmoralização para Motta perante seus pares e a sociedade.
Faltando menos de um ano para as próximas eleições, nenhum parlamentar, a não ser os que se identificam com o campo político da direita, vai arriscar a chance de perder algum voto por apoiar um tema tão espinhoso e impopular. A pressão de associações de servidores públicos também tem produzido efeitos. Ao menos 30 deputados que haviam manifestado apoio à PEC pediram para que suas assinaturas fossem retiradas da proposta.
Impor limites aos supersalários é um pouco mais palatável aos deputados, mas tampouco há apoio suficiente para aprovar apenas essa medida. Entre os 513 deputados, 217 disseram ao Estadão ser a favor da extinção das remunerações que superem o teto remuneratório do funcionalismo público, que corresponde a R$ 46.366,19, salário pago a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas mesmo entre os deputados do PT esse apoio não é unânime. Embora integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva se digam favoráveis ao fim dos supersalários, nenhum ministro declarou apoio formal ao texto da Câmara, apresentado pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ). É puro cálculo político, pois, afinal, o governo, no fundo, nunca quis uma reforma administrativa – nem ampla nem modesta – e vê nos servidores públicos e funcionários de estatais um relevante ativo eleitoral.
De certa forma, seria até hipocrisia se o Executivo se colocasse contra os penduricalhos que engordam os salários do Judiciário e do Ministério Público. Afinal, a profusão de pretensas verbas indenizatórias tem sido uma verdadeira inspiração para as carreiras do topo do funcionalismo público do Executivo, como os auditores da Receita Federal e os membros da Advocacia-Geral da União (AGU).
Esses privilégios alcançam poucos, mas contribuem para manchar a imagem da maioria dos servidores junto à população. Apenas 1,34% dos funcionários públicos ativos e inativos recebe mais que o teto, de acordo com estudo conduzido pelo Movimento Pessoas à Frente e pela República.org.
São apenas 53,5 mil pessoas em um universo de mais de 4 milhões, mas, juntos, eles consumiram nada menos que R$ 20 bilhões entre agosto de 2024 e julho deste ano. Não por acaso, eles integram carreiras que estão entre as mais bem articuladas e com maior poder de influência em Brasília, inclusive no Congresso.
Na melhor das hipóteses, a reforma administrativa ficará para 2027; na pior, ficará para depois. Até lá, o Estado brasileiro continuará a ser uma máquina de reprodução de desigualdades, mazela que não parece comover nem os deputados nem o governo Lula.
Apuração de fraude no INSS não deve poupar ninguém
Por Editorial / O GLOBO
A sede do INSS em Brasília — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
Em mais uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes bilionárias na folha de aposentados e pensionistas do INSS, a PF prendeu o secretário executivo do Ministério da Previdência, Adroaldo da Cunha Portal, número 2 da pasta. Depois de decretada sua prisão domiciliar, Adroaldo foi demitido do cargo pelo ministro da Previdência, Wolney Queiroz. Surpreende que ainda tenha permanecido por oito meses após o escândalo vir à tona, mesmo citado em fases anteriores. A apuração do esquema fraudulento que lesou os aposentados precisa ser profunda e abrangente.
Um dos alvos da operação foi o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo no Senado. A PF chegou a pedir a prisão dele, alegando que se beneficiava do esquema como sócio oculto, mas o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou
Em maio, O GLOBO mostrou as relações estreitas entre Rocha e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado pelas investigações como figura central do esquema. Na época, Rocha disse ter conhecido Antunes num churrasco em sua casa, a que ele compareceu levado por um convidado. De acordo com Rocha, Antunes foi recebido em seu gabinete ao menos três vezes para tratar da legalização da importação de produtos à base de Cannabis para fins medicinais.
A investigação também levantou suspeita de vínculo entre Antunes e Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Há mensagens trocadas por Antunes com uma amiga do filho de Lula relativas a um repasse de R$ 300 mil destinados a alguém chamado de “filho do rapaz”, que a PF não identifica em seu relatório. “Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu envolvido nisso, ele será investigado”, afirmou Lula. Durante a operação da PF foram presos ainda Romeu Carvalho Antunes, filho de Antunes, e o advogado Eric Fidelis, filho do ex-diretor do INSS André Fidelis.
O escândalo dos descontos indevidos veio à tona em abril. O episódio levou à queda do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto (preso em novembro), e do então ministro da Previdência, Carlos Lupi. Há muito chamava a atenção a arrecadação crescente de sindicatos e entidades representativas com descontos em folha dos aposentados. Ao mesmo tempo, cresciam reclamações de segurados que alegavam não tê-los autorizado. O INSS desprezou os sinais e alertas de que havia algo de errado.
Descobriu-se nas apurações que a maior parte dos descontos não havia sido autorizada. As entidades forjavam documentos, e o INSS aceitava. O esquema operava desde 2019, mas cresceu no atual governo, quando a arrecadação dos sindicatos disparou. Em meio ao desgaste provocado à imagem de Lula, o governo decidiu ressarcir os aposentados. Até agora, pagou R$ 2,74 bilhões a 3,9 milhões de lesados.
O ressarcimento repara uma injustiça, mas não encerra a questão. É fundamental detalhar as fraudes, identificar as entidades representativas que forjaram documentos, entender as falhas que lhes permitiram funcionar por anos, investigar se houve cumplicidade de agentes públicos, de modo que os responsáveis possam ir a julgamento. Punir exemplarmente os integrantes desse vergonhoso esquema fraudulento, sejam quem forem, é a melhor maneira de desencorajar novas fraudes.
STF não deve impor obstáculos ao PL da Dosimetria
Por Mariana Muniz — Brasília/ O GLOBO
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Quando a proposta foi aprovada pela Câmara, os magistrados já sinalizavam, de forma reservada, que o texto tinha sido produzido após uma grande costura entre os Poderes e avaliavam que sua tramitação não representava um “atropelo” sobre prerrogativas da Corte.
Decisão do Judiciário
A legislação prevê que cabe ao juiz de execução penal avaliar individualmente se cada preso tem condições de progredir de regime. No caso de Bolsonaro, o juiz de execução penal é o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo.
A proposta que foi votada na Câmara foi relatada pelo deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP)e teve o apoio inicial de alguns ministros do Supremo.
Durante a sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na quarta-feira, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) destacou que o texto foi resultado de uma “ampla negociação”, envolvendo diretamente integrantes da Corte.
— O grande acordo envolve diretamente o ministro Alexandre de Moraes, que se entende no direito de interagir com senadores e deputados, sugerindo inclusive texto, enquanto ao mesmo tempo na tribuna da Suprema Corte verbaliza o contrário, que o Congresso vai muito mal. Este texto é fruto de um acordo do governo Lula, parte da oposição, o ministro Moraes dentre outros ministros que já verbalizaram aqui — disse.
Na terça-feira, Moraes criticou a defesa de “atenuantes em penas”. A fala foi feita durante o julgamento do último núcleo da trama golpista.
Para o relator da ação penal da trama golpista, diminuir penas definidas em processos justos passaria um “recado de que o Brasil tolerará novos flertes contra a democracia”.
— Não é possível mais discursos de atenuante em penas, em penas aplicadas depois do devido processo legal, aplicadas depois da ampla possibilidade de defesa. Porque isso seria um recado à sociedade de que o Brasil tolera ou tolerará novos flertes contra a democracia — afirmou Alexandre de Moraes.
O PL da Dosimetria buscou reduzir as penas sem conceder uma anistia ampla, como queriam os bolsonaristas. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a dizer que um perdão ao pai era seu “preço” para retirar a pré-candidatura à Presidência, que desagradou o Centrão. O projeto foi aprovado com o aval de Jair Bolsonaro.
Escândalo do INSS azeda o Natal de Lula
Por Vera Magalhães / O GLOBO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala com a imprensa no Palácio do Planalto — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
O governo estava em clima de confraternização natalina, comemorando a recuperação nas pesquisas e o saldo da batalha do tarifaço, quando foi pego no contrapé pela nova fase da investigação do escândalo do INSS, que atingiu o número 2 do Ministério da Previdência, o vice-líder do governo no Senado e chegou bem perto da família de Lula.
Quando revelado, no primeiro semestre, o caso de descontos ilegais nos benefícios previdenciários de milhões de aposentados e pensionistas do INSS foi responsável por uma queda na popularidade de Lula e reavivou, na cabeça de grande parte do eleitorado, a associação entre ele e seu partido, o PT, com casos de corrupção. A pesquisa Quaest divulgada nesta semana coloca o enfrentamento da corrupção como uma das áreas mais mal avaliadas do governo. Para 55% dos entrevistados, a forma como a administração lulista lida com o assunto é ruim ou péssima.
Toda a estratégia de comunicação do Planalto no caso do INSS consistiu em jogar a culpa na gestão Bolsonaro, uma vez que o esquema dos descontos sem autorização dos beneficiários começou no governo anterior. Mas, desde o princípio, a lista das entidades envolvidas e o fato de o volume de recursos desviados ter aumentado explosivamente a partir de 2021 dificultaram esse jogo de empurra.
Agora a coisa piora de figura, porque um senador governista é apontado pela Polícia Federal como sócio oculto do esquema criminoso, e o secretário executivo do ministro Wolney Queiroz, nomeado já depois das investigações, está em prisão domiciliar, pois apareceu numa planilha apreendida pela Polícia Federal como receptor de propina de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
No tradicional café da manhã de fim de ano com jornalistas que cobrem o Planalto, quando pretendia bater bumbo nas notícias auspiciosas do ano (aprovação da reforma do Imposto de Renda, reversão do tarifaço e recuperação nas pesquisas) e plantar as sementes da campanha à reeleição, Lula teve de passar pelo constrangimento de dizer que, se houver qualquer familiar seu envolvido no escândalo das aposentadorias, deve ser investigado. Não é a primeira vez que o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é citado em casos espinhosos para o PT e os governos petistas.
Nesta nova fase das investigações do INSS, a Polícia Federal apreendeu mensagens em que Antunes determina o repasse de R$ 300 mil à empresa de Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. Na mensagem, o Careca do INSS se refere a ela como amiga do “filho do rapaz”. O nome “Fábio” aparece em diálogos entre Antunes e a empresária.
O caso e, sobretudo, as menções a Lulinha são um prato cheio para o bolsonarismo, que vinha sem bandeira ao longo de todo o ano, com a condenação e a prisão de Bolsonaro e outros reveses, como a cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro por faltas, determinada nesta quinta-feira pelo presidente da Câmara, Hugo Motta. Bater na tecla de ligar Lula e o PT a escândalos de corrupção foi uma das tônicas da receita que levou Bolsonaro, até então num partido nanico e tido como um deputado do baixo clero com pouca viabilidade política, a vencer a eleição de 2018.
Essa estratégia já vinha sendo construída por Bolsonaro nas redes sociais desde pelo menos 2016, na discussão do impeachment de Dilma Rousseff e, mesmo com a revisão de uma série de decisões da Lava-Jato, inclusive a condenação de Lula, pesquisas mostram que a associação do presidente e de seu partido com a “roubalheira” colou de forma indelével junto a uma parcela do eleitorado que já foi tucana e migrou fortemente para a direita nos últimos anos.
Tudo de que Lula não precisava era um telhado de vidro nessa seara, no momento que Bolsonaro está preso e o bolsonarismo andava meio atônito, sem eixo em torno do qual tentar aprumar a candidatura de Flávio.
Empresas suspeitas de lavar dinheiro do PCC têm contratos com prefeituras que somam R$ 522 milhões
Um grupo de 13 empresas suspeitas de participarem de um esquema de lavagem de dinheiro —que inclui a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital)— assinou ao menos 66 contratos com 11 prefeituras do estado de São Paulo nos últimos quatro anos.
Os contratos, somados a 57 termos aditivos que prorrogaram os períodos de fornecimento e prestação de serviços aos municípios, correspondem a um total de R$ 584,6 milhões repassados dos cofres municipais para essas empresas suspeitas.
As suspeitas de lavagem de dinheiro são investigadas pela Polícia Civil paulista na Operação Falso Mercúrio, que levou ao bloqueio de R$ 6 bilhões, incluindo 49 imóveis, e à apreensão de 257 veículos. As informações sobre valores dos contratos com prefeituras foram levantadas pela Folha a partir de publicações no Diário Oficial do Estado.
As contratações são para o fornecimento de softwares educacionais e conteúdo pedagógico, oferecimento de cursos profissionalizantes, aluguéis de centenas de veículos oficiais, de impressoras, e a compra de materiais de limpeza e de higiene, comida, móveis, uniformes para campeonatos de times de várzea e itens de papelaria.
Procuradas pela reportagem, as prefeituras afirmaram que as contratações seguiram rigorosamente o processo previsto em lei, que os contratos têm sido cumpridos regularmente e que não foram procuradas pelas autoridades policiais.
Já as empresas disseram que estão cientes da investigação, mas ainda não tiveram acesso aos documentos policiais, que suas atividades ocorrem dentro da legalidade e que estão à disposição das autoridades para colaborar.
Um documento da investigação aponta que o método para a lavagem de dinheiro era a "mescla patrimonial", ou seja, a passagem de dinheiro do crime misturado a receitas aparentemente lícitas nas contas bancárias das empresas, o que dificulta o rastreamento pelos órgãos de controle.
A investigação conseguiu descrever o caminho do dinheiro sujo, desde a coleta por suspeitos de integrar o PCC —entre eles, pessoas que respondem pela exploração de uma rede de caça-níqueis e um condenado por tráfico de drogas— passando por intermediários e chegando aos beneficiários finais. Segundo o documento, também há investigados suspeitos de praticar estelionato e extorsão.
Documentos encontrados em celulares apreendidos pela Polícia Civil mostram transferências bancárias entre as empresas dos suspeitos de fazerem a coleta do dinheiro sujo e as firmas ligadas aos beneficiários finais, Eduardo Moreno Lopes (o Tio) e Thiago Telles Batista de Souza (de apelido Tom Cruise).
Lopes é sócio de duas empresas —a Kompre Limp e a Stoka, ambas distribuidoras de materiais— que firmaram contratos com prefeituras da região metropolitana de São Paulo.
Ele também tem familiares como sócios de outra empresa citada na investigação, a Center Lopes, que opera no ramo de aluguel de veículos e firmou contratos que somam ao menos R$ 15,5 milhões com a Prefeitura de Barueri desde 2022.
Em outras oito empresas, Lopes é identificado como "operador" dos valores que passam por elas. Isso porque fez pagamentos dessas firmas para as empresas de intermediários no esquema, segundo apontam comprovantes encontrados nos celulares.
Já Telles é apontado como operador de três firmas que integraram o esquema, todas com contratos públicos.
A Prefeitura de Barueri responde por 69% dos valores de contratos (ou R$ 359,4 milhões) encontrados no Diário Oficial do Estado desde janeiro de 2022. Cotia está em segundo lugar, com R$ 72,3 milhões, ou cerca de 14% do total.
Uma das conversas encontradas pela investigação nos celulares dos suspeitos mostra que, em ao menos uma ocasião, Lopes demonstrou que contava com dinheiro público para fazer negócio com outro investigado. Foi em dezembro de 2024, quando Manoel Sérgio Sanches tentava lhe vender um prédio.
Lopes responde que, para comprar o imóvel, precisava receber pagamento da Prefeitura de Cotia. No dia seguinte, ele informa Manoel que havia almoçado com o prefeito —à época, Rogério Cardoso Franco (PSD)—e recebido uma promessa de pagamento.
A empresa Center Lopes, da família do investigado, havia firmado com a gestão municipal um contrato de R$ 45 milhões para locação de veículos havia menos de um mês. Ao longo de 2025, a empresa seguiu firmando contratos com a prefeitura.
Os diálogos apontam que Lopes e Telles recebem valores em espécie e os intermediários, responsáveis pela empresa Key Car, negociam transferências bancárias. Os pacotes de dinheiro são entregues por motoboys.
Num dos diálogos com Lopes, Sanches tenta viabilizar um pagamento de R$ 400 mil a um dos beneficiários do esquema. A conta indicada para o pagamento é de uma casa de pôquer na Liberdade (no centro de São Paulo), o que desperta o receio do cliente.
Para convencê-lo, Sanches encaminha a Lopes um áudio de Alessandro Braga, sócio da Key Car, que argumenta que usar conta da casa de apostas seria vantajoso. No fim, Lopes aceitou.
A polícia encontrou cinco pagamentos relacionados a essa transação, num total de R$ 312 mil, feitos pela Assinco Informática à casa de pôquer. Questionada, a empresa disse que não teve acesso ao processo da Operação Falso Mercúrio, que tramita em segredo de Justiça.
Outro lado
As empresas Center Lopes, Kompre Limp e Stoka disseram que estão cientes da investigação e que não lhes foi concedido acesso aos processos na Justiça relacionados à Falso Mercúrio, o que as impede de comentar os detalhes do caso. Todas disseram que suas atividades ocorrem de forma regular.
Essas empresas repudiaram "de forma veemente qualquer tentativa de associação de seu nome ou de seu sócio a práticas ilícitas" e reafirmaram o compromisso com a legalidade. A empresa Arco & Flecha Distribuidora também rechaçou "qualquer tentativa de associação a práticas ilícitas ou a organizações criminosas" e disse que está "à disposição para colaborar com a Justiça e com as autoridades".
A Assinco Informática e a Micro Ka Informática afirmaram que aguardam permissão para acesso aos autos e que acreditam "não ser alvo da investigação".
Já a Gifi Comércio e a Nova SS Pães e Doces disseram que não tiveram acesso aos documentos da investigação, e que tentam compreender o contexto em que seus nomes foram mencionados. As duas empresas afirmaram que cumprem "rigorosamente todas as obrigações assumidas nos contratos firmados com o poder público."
Questionada, a Prefeitura de Barueri afirmou que "todos os contratos firmados com empresas prestadoras de serviços ou fornecedoras de materiais indicadas foram celebrados em estrita observância à legislação vigente, por meio de regulares procedimentos administrativos e licitatórios, com ampla publicidade e transparência".
Acrescentou que as empresas contratadas cumprem "regularmente as obrigações previstas nos respectivos contratos, os quais permanecem válidos e eficazes", e que não há qualquer decisão judicial para suspendê-los.
A Prefeitura de Cotia ressaltou que o contrato com a Center Lopes foi firmado pela gestão anterior. Disse também que "acompanha os desdobramentos da Operação Falso Mercúrio e reafirma que está à disposição das autoridades competentes."
Em nota, a Prefeitura de Osasco disse que "não há como saber a origem das empresas que participam das licitações, posto que, se cumpridos os requisitos legais de participação, não há como impedi-las" de participar. Ressaltou que aprova a Operação Falso Mercúrio.
As prefeituras de Embu das Artes, Santana de Parnaíba, Itapevi, Iracemápolis e Sorocaba também disseram que os processos de contratação das empresas investigadas seguiram a lei e que os serviços foram prestados normalmente.
Procuradas, as prefeituras de Araçariguama, Mairiporã, Mauá, Pindamonhangaba, Pirapora do Bom Jesus e Poá não responderam.
As empresas Suzupaper Comércio de Papelaria e ASX Participações e Tecnologia, procuradas por email e telefone, não responderam. Os investigados Eduardo Lopes e Thiago Telles foram procurados por meio de seus emails pessoais, e também não responderam.
Milionária recebeu R$ 1,5 mi de Careca do INSS e cita filho de Lula em conversa
Mônica Bergamo / FOLH DE SP
A empresária Roberta Moreira Luchsinger, que estava entre os alvos da operação deflagrada nesta quinta (18) pela Polícia Federal no âmbito da operação Sem Desconto, recebeu R$ 1,5 milhão em três parcelas de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Ele é apontado pela PF como um dos líderes da organização criminosa que promoveu fraudes em descontos sobre aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Já a atuação de Luchsinger "como integrante vinculada ao núcleo político da organização criminosa" é considerada pela PF "essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais".
Herdeira de um ex-acionista do banco Credit Suisse, o suíço Peter Paul Arnold Luchsinger, que era seu avô, Roberta Luchsinger foi também casada com o ex-delegado da PF Protógenes Queiroz. Se diz socialista e, em 2017, anunciou que faria uma doação milionária a Lula, que estava sendo investigado pela Lava Jato.
Ela é também amiga de Luís Fabio Lula da Silva, um dos filhos do presidente da República, e seria um dos elos entre ele e o "Careca do INSS" para projetos na área de saúde.
O portal Poder360 revelou neste ano que um ex-funcionário do "Careca do INSS", Edson Claro, afirmou em depoimento à PF que o empresário dava uma mesada de 300 mil ao filho do presidente. Ele nega.
Em uma conversa com Antunes relatada pela PF ao STF, Roberta Luchsinger tenta tranquilizar o empresário em relação às reportagens que o vinculam ao filho de Lula.
"Na época do Fábio [em governos anteriores de Lula], falaram de Friboi, de um monte de coisa o (sic) maior... igual agora com você", afirma ela em áudio enviado ao "Careca do INSS", referindo-se a rumores disseminados pela oposição ao petista de que o filho dele era sócio do frigorífico.
O presidente Lula afirmou nesta quinta (18) que caso seu filho estiver envolvido nas fraudes no INSS, ele será investigado.
"Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso será investigado. Se tiver o [ministro da Fazenda Fernando] Haddad vai ser investigado, o [ministro-chefe da Casa Civil] Rui Costa com essa seriedade vai ser investigado", afirmou.
O advogado Bruno Salles, que representa Roberta Luchsinger, diz que a empresária foi contratada por Antunes para fazer consultoria empresarial na área de regulação. "Ela não sabia do envolvimento dele com a máfia do INSS quando foi procurada", diz Salles.
A PF afirma ainda em relatório enviado ao STF que a Brasilia Consultoria Empresarial Ltda., que fez os repasses de recursos a Roberta Luchsinger, é "empresa de fachada do grupo de Antônio Camilo Antunes".
Os recursos transferidos à empresária, ainda segundo a PF, tinham como justificativa serviços que não foram realizados.
As transferências da Brasília Consultoria Empresarial Ltda à RL Consultoria e Intermediações previam "pagamentos de cem mil reais para cada projeto específico" citado no contrato entre as empresas.
Segundo ainda a PF, os projetos tinham os nomes de "Projeto Energia", "Projeto Esmagadoras" e "Projeto Hidrogênio" "e fugiam por completo das atividades da Brasilia Consultoria Empresarial Ltda".
Os pagamentos do "Careca do INSS" a Roberta Luchsinger foram feitos em cinco parcelas de R$ 300 mil, por meio da Brasília Consultoria Empresarial S/A.
Em uma das mensagens apreendidas pela PF, o "Careca do INSS", segundo os policiais, "faz referência à necessidade de se fazer mais uma parcela de pagamento de 300 mil reais".
A PF diz ainda que, ao ser indagado por um funcionário acerca de quem seria o destinatário dos valores, Antunes responde: "O filho do rapaz".
Em seguida, diz ainda a PF, ele recebe uma mensagem com o comprovante de pagamento "de R$ 300 mil reais para RL CONSULTORIA E INTERMEDIAÇÕES LTDA, quantia que seria destinada, pelo sentido das mensagens ao 'filho do rapaz'".

