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‘Stalking’ em alta revela uma face perversa da violência contra mulher

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

A atriz Isis ValverdeA atriz Isis Valverde — Foto: Fabio Cordeiro / Editora Globo

 

A prisão de um homem acusado de perseguir a atriz Isis Valverde por duas décadas deu visibilidade a um crime pouco conhecido — o stalking, ou perseguição. Infelizmente, é prática mais comum do que se imagina. Em depoimento à polícia, a atriz afirmou temer não só por sua integridade física, mas também pela segurança de sua família. O acusado, do Rio Grande do Sul, chegou a contratar detetive particular para descobrir endereço e telefone da vítima e, desde o início do ano, passou a apresentar comportamento obsessivo e invasivo.

 

O stalking é mais um no longo rol de crimes contra as mulheres. De 2023 a 2024, os feminicídios cresceram 0,7%, as tentativas de feminicídio 19%, os registros de violência psicológica 6,3%. No ano passado, o país registrou o maior número de estupros (e estupros de vulneráveis) da História — 87.545 vítimas, quase dez por hora. Dos mais graves aos menos graves, todos fazem parte de um mesmo contexto vergonhoso.

 

No ano passado foram registrados 95.026 casos de stalking no país, 260 por dia, ou mais de dez por hora, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Houve aumento de 18,2% em relação ao ano anterior. O número real é provavelmente maior, já que o crime nem sempre é denunciado. “A subnotificação é alta porque muitas mulheres e homens normalizam esse comportamento”, disse ao GLOBO Isabella Matosinhos, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Muitos vivem essa situação, mas não a entendem como violência.”

 

A perseguição pode não parecer tão grave diante de outros horrores cometidos contra mulheres, mas o stalking pode ser um degrau perigoso na escalada de violência. O que começa com perseguição e ofensa pode avançar para agressões, descambar para lesões corporais e até feminicídios. Mulheres que vivem experiências desse tipo passam a se isolar, deixam de frequentar lugares aonde costumavam ir, padecem de angústia, insônia, pesadelos, depressão ou síndrome do pânico.

 

A Lei do Stalking é relativamente nova, só foi incluída no Código Penal em 2021. O crime é tipificado como perseguir alguém de forma reiterada, com ameaças à integridade física ou psicológica, de maneira presencial ou virtual. A pena prevista é de seis meses a dois anos de reclusão, além de multa. Quando cometido contra uma mulher por motivação de gênero, a pena dobra. A lei é bem-intencionada, mas na prática ninguém fica preso por muito tempo. Por se tratar de crime de menor potencial ofensivo, o agressor consegue em geral alívio na punição.

 

Cabe às instituições governamentais e ONGs ampliar canais de denúncias e estimular as vítimas a registrá-las, para que autoridades conheçam a dimensão do problema e ajam de acordo. À polícia, cabe investigar os casos. E à Justiça, punir perseguidores, agressores e assassinos de mulheres, com base na legislação robusta que o Brasil construiu nesse campo nos últimos anos. É preciso adotar tolerância zero com esses casos, quaisquer que sejam. Agir com celeridade e rigor diante da perseguição pode evitar um mal maior.

 

 

 

 

Lulinha e o Careca no voo JJ-8148

Elio Gaspari / Jornalista e escritor / O GLOBO
Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República, foi para o assento 6J. Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, foi para o assento 3A.

A revelação é do repórter André Shalders.

 

O fato de terem embarcado no mesmo voo para Lisboa meses antes da mudança de Lulinha para Madri não prova coisa alguma. O cheiro de queimado vem da conduta da tropa de choque do Planalto, bloqueando todas as tentativas da CPI do INSS para ouvir Lulinha. Bloquearam até mesmo o acesso à lista de passageiros do voo JJ-8148.

 

Já haviam bloqueado a tentativa de ouvir o irmão mais velho do presidente, diretor de um sindicato envolvido no roubo de dinheiro dos aposentados.

A associação de Lulinha ao Careca do INSS foi feita por Edson Claro, um ex-sócio do empresário, em depoimento à Polícia Federal, revelado pela repórter Mariana Haubert. Ele citou mesadas, viagens e licitações fraudadas que poderiam ter dado a Lulinha R$ 25 milhões. É muito dinheiro e compromete a credibilidade da denúncia.

Protegendo Lulinha, a tropa de choque do Planalto blindou-o. Defesa digna do goleiro Safonov, do PSG. Pareceu uma tática eficaz. Sua vulnerabilidade está na fermentação das pistas. Trata-se de saber quem é o “filho do rapaz” que teria recebido R$ 300 mil do “Careca”.

 

Louvando seu governo, Lula disse na quinta-feira, que “se tiver filho meu metido nisso será investigado”. A Polícia Federal tem mandato para isso e não precisa de autorização do Planalto. O caso da CPI do INSS é diferente; os parlamentares têm mandato, mas uma oitiva precisa de autorização da maioria dos integrantes da comissão. O que se viu nos últimos meses foi a blindagem do filho e do irmão do presidente. Não estava em questão investigá-los ou não, tratava-se apenas de ouvi-los, e a tropa de choque do governo barrou os requerimentos.

 

Lulinha pode explicar sua presença num vôo para Lisboa algumas fileiras atrás do Careca do INSS. Em outubro do ano passado, um mês antes do voo JJ-8148, uma auditoria do INSS já havia apontado que os descontos indevidos nas contas dos aposentados chegavam a R$ 45 milhões.

 

Lulinha e suas conexões

No primeiro mandato de Lula, seu filho acabou encrencado com a empresa de telefonia Telemar. Graças a um banqueiro amigo, conseguiu um contrato para sua empresa de vídeos, a Gamecorp. A Telemar investiu R$ 2,5 milhões na Gamecorp, mas ela não prosperou. Lulinha é biólogo por formação. Antes de se tornar empresário, foi monitor no Jardim Zoológico de São Paulo. Isso tudo aconteceu há quase 20 anos. Era um tempo em que Geraldo Alckmin, seu adversário, chamava-o de “cara de pau”, mas pedia perdão pela “deselegância”.

 

Os personagens do rolo do INSS

A crise da quadrilha que roubava o dinheiro dos aposentados do INSS lembra cenas da ida de Luke Skywalker à Cantina de Mos Esley, onde estavam os seres mais detestáveis da galáxia. Roubando a cena, lá está o Careca do INSS que negociava com maconha medicinal, junto com uma ricaça socialista que foi casada com um delegado da Polícia Federal. Luke foi salvo por Obi Wan Kenobi, que apareceu no bar com sua espada de laser e livrou o rapaz.

 

Gleisi x Wagner

As relações de Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, com Jaques Wagner, líder do governo no Senado, não eram perfeitas. Com a encrenca da votação da dosimetria, pioraram. Por iniciativa de Gleisi, eles bateram boca nas redes sociais. Coisa inédita.

 

Dosimetria

A calma de Lula ao anunciar que vetará o projeto da dosimetria, pois “esse é o jogo”, sugere que ele está certo de que seu veto não será derrubado.

Para derrubar um veto são necessários os votos de 41 senadores. Se o veto cair no plenário, ele poderá continuar dizendo que este é o jogo jogado.

 

A pena de Bolsonaro

Admita-se que o veto de Lula ao projeto de lei de redução das penas impostas aos hierarcas da trama golpista e à sua infantaria vândala do 8 de Janeiro não seja derrubado. Nesse caso, Jair Bolsonaro, condenado a 23 anos em regime fechado, só terá direito à progressão da pena em abril de 2033, quando terá completado 78 anos. Desde 2018, quando foi esfaqueado em Juiz de Fora, Bolsonaro passou por pelo menos quatro cirurgias, totalizando 22 horas. Sua saúde é sabidamente precária, por conta de uma facada recebida de um desequilibrado, movido por motivos políticos.

 

Um ex-presidente que morre preso interessa ao país?

O ministro do Exército, Sylvio Frota, engrandeceu-se ao contestar o luto oficial concedido pelo presidente Ernesto Geisel a Juscelino Kubitschek, em 1976 ?

O próprio Geisel engrandeceu-se, meses depois, permitindo que a viúva de João Goulart trouxesse o marido morto para São Borja, desde que o carro, saindo de Uruguaiana, não parasse por todo o percurso de 180 quilômetros?

 

Ramagem nos EUA

É improvável que o governo americano extradite o ex-deputado Alexandre Ramagem. A extradições são complicadas por si mesmas. No caso de Ramagem, um ex-chefe da Abin, tem um acervo de informações de algum valor para os americanos. Ele contará tudo o que sabe, até porque seu arquivo, aberto, lhe é útil. Fechado, leva água para uma ameaçadora extradição.

 

Galípolo cuidou do BC

O Banco Central pode ter demorado a detonar o Master, mas cuidou de proteger seus passos. Quando Gabriel Galípolo disse em sua entrevista de fim de ano que documentou todos os encontros e reuniões para tratar do caso, justificou o passado e preveniu o futuro. Como a documentação prosseguirá, o presidente do Banco Central avisou que a instituição continuará a se proteger contra iniciativas no generoso tapetão do Judiciário.

Como ensinam os talonários dos bicheiros do Rio: “Vale o que está escrito”.

 

Eduardo Bolsonaro

Eduardo Bolsonaro conseguiu seus 15 dias de fama. Cassado, viu cumprir-se seu temor de que a Casa Branca o abandonaria depois da carta ameaçadora (e vã) de Trump a Lula. Daqui para a frente seu caminho será íngreme e debaixo de chuvas, com poucas companhias.

 

Malvadeza com Haddad

Por uma questão de lealdade, Fernando Haddad fará o que Lula mandar, mas atirá-lo na cova dos leões da sucessão pelo governo paulista é malvadeza.

O atual governador, Tarcísio de Freitas, tem a reeleição praticamente garantida. Se ele sair para a Presidência, poderá indicar Gilberto Kassab para a disputa. Kassab e Tarcísio cultivam o eleitorado do interior como se fosse o único. A capital, derrotando Guilherme Boulos por uma margem de quase 1 milhão de votos, mostrou que não é curral.

 

Pelo lado de Haddad, ele ganhou a prefeitura de São Paulo em 2012, quando era chamado de poste de Lula. Quatro anos depois, tentou a reeleição mas foi batido. Em 2018 foi para o sacrifício como candidato à Presidência, com Lula na cadeia e Jair Bolsonaro no seu apogeu. Em 2022 parecia favorito na disputa com Tarcísio de Freitas, um carioca que mal conhecia o estado. Perdeu.

STF escolhe a insegurança jurídica

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

Ignorando sua própria decisão de 2009, STF insiste no erro de rejeitar o marco temporal, confronta o Congresso e amplia a insegurança no campo, em prejuízo dos próprios indígenas 

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para reafirmar a inconstitucionalidade do chamado marco temporal para demarcação de terras indígenas. Desse modo, o Supremo caminha para reincidir no erro que cometeu em setembro de 2023, quando derrubou a própria tese que fixara 14 anos antes, no julgamento da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima.

 

Ao fazê-lo, o Supremo aprofundou a insegurança jurídica no campo e perpetuou a vulnerabilidade dos povos indígenas, alimentando, na prática, intermináveis conflitos pela posse da terra que poderiam ser dirimidos pela fixação do marco temporal.

 

O marco temporal é uma tese que fixa como referência para demarcação de terras as áreas em posse dos indígenas no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. Diz o art. 231: “São reconhecidos aos índios (...) os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Ou seja, os constituintes originários assentaram na Lei Maior que os indígenas não têm direito sobre qualquer porção de terra que eventualmente venham a ocupar, e sim “sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. O tempo verbal escolhido pelo Legislativo é inequívoco.

 

Entende-se o espírito. O que se pretendia – aliás, uma pretensão tão atual quanto há 37 anos – era impedir o prolongamento indefinido dos processos de demarcação de terra, retrocedendo-se até sabe-se lá quando. Ademais, havia o claro objetivo de pacificar o campo por meio da fixação de um critério objetivo para a definição das áreas demarcadas.

 

Ao contrário do que apregoam seus críticos, o marco temporal, ao fixar como referência a data da promulgação da Constituição, não consiste em uma arbitrariedade, muito menos representa uma “violência colonial”. Ao contrário, funciona como um critério objetivo para conferir previsibilidade ao processo demarcatório, encerrando controvérsias históricas e reduzindo conflitos fundiários. De acordo com o Censo 2022, há 1,7 milhão de indígenas no Brasil, o que corresponde a 0,83% da população. No entanto, esse contingente já ocupa cerca de 14% do território nacional, considerando apenas as terras que foram regularizadas.

 

A rigor, nada mudou no País que justificasse a guinada jurisprudencial encampada pelo STF de 2009 para cá. A não ser, claro, a composição da Corte, bem mais suscetível à pressão política e social de grupos organizados. Ao descartar um precedente sólido sem qualquer base factual ou jurídica nova, o STF fragiliza sua autoridade e transmite a mensagem de que decisões cruciais para o Brasil podem ser revistas ao sabor das circunstâncias. Ora, o papel contramajoritário da Corte presta-se para lhe garantir a liberdade para defender a supremacia da Constituição a despeito das pressões de momento.

 

Não menos grave é o descompasso entre o STF e o Congresso. Diante da esdrúxula decisão tomada pela Corte em 2023, o Congresso reagiu dentro das regras do jogo democrático, aprovando uma lei para restabelecer o marco temporal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o projeto, mas o veto foi derrubado. Ato contínuo, o debate avançou para o nível constitucional, com a tramitação da PEC 48/2023, aprovada em dois turnos pelo Senado há poucas semanas e ora sob análise da Câmara. Em vez de aguardar a conclusão desse processo, o STF decidiu se antecipar, reafirmando sua posição e, na prática, contratando mais um embate institucional de consequências imprevisíveis.

 

É preciso de uma vez por todas construir um arranjo institucional para que a questão seja pacificada. Não é impossível: há o precedente do Código Florestal, uma sofisticada legislação que é exemplo para o mundo, fruto de um debate democrático em que todos cederam um pouco para superar uma das questões mais espinhosas da pauta nacional. Se isso não acontecer no caso do marco temporal, prevalecerão a indefinição, a disputa entre os Poderes e a insegurança jurídica – não só para os agricultores, mas também para os povos originários.

A cassação de Eduardo e Ramagem

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados declarou a cassação dos mandatos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ) com fundamento no art. 55, inciso III, da Constituição. Segundo esse dispositivo, perderá o mandato o deputado ou senador “que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada”. Ou seja, ambos foram cassados por faltas.

 

De acordo com o parágrafo 3.º daquele mesmo dispositivo constitucional, nos casos de faltas ou perda de mandato ordenada pela Justiça Eleitoral, a cassação será apenas “declarada” pela Mesa Diretora, vale dizer, não está sujeita à decisão do plenário. Portanto, declarar a cassação de Eduardo não era mais do que uma obrigação da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. Em março, o agora ex-deputado fixou residência nos EUA e, desde então, já extrapolou o limite de faltas injustificadas na atual sessão legislativa.

 

O caso de Ramagem, em tese, é mais complicado. Conforme o art. 55, inciso VI, perderá o mandato o parlamentar “que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado” – precisamente o caso dele. Mas, em primeiro lugar, não foi essa a fundamentação jurídica dada pela Mesa Diretora para cassar seu mandato. Ademais, a perda não é automática. O parágrafo 2.º do art. 55 diz que “a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por maioria absoluta”. Logo, ao decidir cassar Ramagem sem passar pelo plenário, a Mesa Diretora extrapolou o que diz a Constituição.

 

Não é absurdo supor que, ao optar por declarar a cassação de Ramagem por faltas, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), quis evitar um novo constrangimento ao recorrer a um dispositivo constitucional que o autoriza a não submeter sua decisão ao crivo do plenário. Motta argumentou que Ramagem “está condenado ao regime fechado, está no exterior por vontade própria” e “está muito claro que, se ele decidir ficar no exterior, ele não vai cumprir o mandato” e, “se voltar ao Brasil, ele também não vai cumprir o mandato, já que foi condenado”.

 

Parece muito lógico, mas não foi assim que ele decidiu agir no caso da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), que está igualmente no exterior e que foi condenada criminalmente, com trânsito em julgado, a regime fechado de prisão. Motta levou ao plenário a votação sobre o destino de Zambelli, conforme o que prevê a Constituição, mas a cassação da deputada foi rejeitada por insuficiência de votos. Ato contínuo, o STF, que determinara a cassação, anulou a sessão da Câmara e reiterou a ordem para que a Mesa Diretora declarasse a perda do mandato e desse posse ao suplente, situação que amplificou o embate entre o Congresso e o STF.

Noves fora os aspectos jurídicos e políticos dos casos de Eduardo e Ramagem, a cassação de ambos encerra duas trajetórias notoriamente marcadas por condutas que afrontaram o interesse nacional e os fundamentos do Estado Democrático de Direito: Eduardo atuou para prejudicar o Brasil nos EUA a pretexto de salvar o pai, Jair Bolsonaro, da cadeia; Ramagem, por sua vez, envolveu-se numa tentativa de golpe de Estado e foi condenado por isso.

 

Este jornal, fundado sob inspiração dos ideais republicanos e liberal-democráticos, vê-se na obrigação de registrar que a cassação de um mandato eletivo é sempre um evento grave e indesejável. Ao fim e ao cabo, trata-se da frustração de uma delegação conferida pelo voto direto, expressão maior da vontade livre e soberana dos eleitores, pilar da democracia representativa. Portanto, não é um desfecho que possa ser celebrado sem reservas, sobretudo quando se trata de deputados que receberam, somados, pouco mais de 800 mil votos.

 

Justamente por isso, a perda do mandato deve ser vista como medida extrema, a ser adotada apenas quando o próprio comportamento do parlamentar a torna inevitável. O voto popular não é salvo-conduto para a irresponsabilidade nem muito menos autorização para práticas incompatíveis com o exercício do mandato. A legitimidade conferida pelas urnas exige, como contrapartida, absoluto respeito às instituições, decoro e compromisso inequívoco com o País – requisitos básicos que, em ambos os casos, não foram observados.

Uma PEC feita para palanque

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Às vésperas do recesso parlamentar, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da jornada de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho por um dia de descanso). A PEC, que propõe redução de jornada das atuais 44 horas para 36 horas semanais, foi incluída como matéria fora da pauta na reunião da comissão, sem aviso prévio. Aprovada em votação simbólica, será avaliada no plenário da Casa.

 

Há muitos senões na proposta, encampada com euforia pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva – a PEC do Senado é de autoria de Paulo Paim (PT-RS) e relatada por Rogério Carvalho (PT-SE), e há outra, semelhante, na Câmara, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Pudera, considerando-se o gosto do petismo por projetos demagógicos com potencial eleitoral, independentemente de seus fundamentos. Trabalhar menos sem queda na remuneração é, por óbvio, o sonho dos que vivem de salário. O problema está na conhecida diferença entre sonho e realidade.

 

O senador Rogério Carvalho citou em relatório pesquisa do DataSenado indicando que 85% dos trabalhadores acreditam que jornadas menores melhorariam a qualidade de vida. A conclusão simplista foi a de que o bem-estar levaria a um aumento de produtividade. Ora, nesse caso, a surpresa é de que a resposta não tenha se estendido a 100% dos entrevistados. Quanto ao efeito econômico, acreditar que seja possível reduzir a jornada de trabalho sem reduzir produtividade, PIB e renda é uma visão simplesmente errada.

 

No fim de 2024, quando a jornada 6x1 ganhou as redes sociais, o economista Daniel Duque, da FGV, publicou estudo, divulgado pelo Estadão/Broadcast, no qual calculava em 2,6% a perda de renda da economia no caso de redução para 40 horas semanais e de 7,4% na redução para 36 horas. Nesse segundo caso, a queda do PIB seria semelhante à sofrida pela economia brasileira na recessão de 2014 a 2016.

 

O debate do Congresso precisa ser realista, porque, afinal, o País estará, deliberadamente, renunciando a uma parcela expressiva de seu crescimento se optar pela mudança. Há economistas, por exemplo, que defendem a remuneração por hora trabalhada, ao invés do salário fixo, para elevar a flexibilidade da jornada sem alterar a produtividade.

 

A Constituição determina jornada de trabalho não superior a oito horas diárias por seis dias da semana. Ao reduzir a jornada para cinco dias, a proposta traz uma charada ao sugerir a transição progressiva ao longo de quatro anos, com redução de 44 para 40 horas semanais no ano seguinte à aprovação (o que já corresponderia a 5x2); a partir daí, uma hora por ano, até chegar a 36 horas, ou quatro dias e um sexto. O caminho para chegar a isso é uma incógnita.

 

Estudo do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV, mostra que de 1995 a 2024 o único setor a registrar crescimento robusto de produtividade foi a agropecuária, que ampliou em 5,8% ao ano. Na indústria, que deveria liderar a economia, o saldo foi de queda de 0,3% ao ano.

 

Há um custo econômico profundo na redução da jornada de trabalho, algo que o Congresso e o governo, em nome de imperativos eleitorais, estão ignorando.

A rocambolesca união governista

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O União Brasil é, de fato, um fenômeno. Durante meses, assim como outras legendas centristas ou aquelas classificadas como parte do Centrão, o partido conseguiu a proeza de permanecer no governo e, simultaneamente, atacar com frequência o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais recentemente, no apagar das luzes de 2025, a legenda protagonizou um novo capítulo de seu enredo politicamente rocambolesco, um exemplo bem-acabado da barafunda que é a base de apoio do governo.

 

Mais do que trafegar entre a adesão ao governo de ocasião, retribuída com cargos e verbas, e a eventual migração para a oposição, o presidente do União, Antonio Rueda, passou a exibir retórica francamente oposicionista e alinhamento explícito à candidatura presidencial da direita. Esse “governismo de oposição” pareceu ter chegado ao fim quando, ao lado do PP, o União Brasil oficializou a federação que os transformou num gigante eleitoral e, ao mesmo tempo, anunciou a saída da base de apoio ao governo, dando um ultimato a seus ministros para deixarem a pasta. A ponto de o então ministro do Turismo, Celso Sabino, ser expulso do partido por se recusar a desembarcar do ministério.

 

Pois bem. Sem qualquer constrangimento lógico ou político, o União Brasil passou agora a negociar a indicação de outro nome da própria legenda para ocupar o mesmo ministério que desprezara meses antes. A articulação foi costurada diretamente entre o Palácio do Planalto e o presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, um dos persistentes comandantes do Centrão, com o aval de Rueda. Poucos dias antes, Celso Sabino estava em Belém, sua base eleitoral, fazendo planos como ministro do Turismo, até descobrir que seria substituído – por indicação do mesmo partido que o desfiliara por se recusar a deixar o cargo. O nome indicado é o do deputado Damião Feliciano, paraibano como Motta. Não por acaso, a manobra gerou queixas duras, sobretudo da ala oposicionista da legenda.

 

É o Brasil. Um partido integra formalmente a base governista, ocupa ministérios e desfruta dos bônus do poder, mas se comporta como se estivesse na trincheira oposta, mirando a eleição presidencial de 2026. Quando convém, posa de aliado; quando o vento muda, veste o figurino oposicionista; e, quando a incoerência cobra seu preço, improvisa soluções que apenas aprofundam o desarranjo. O problema não é a flexibilidade política – virtude legítima em democracias complexas –, mas a ausência completa de coerência.

 

O episódio sintetiza duas patologias centrais do atual estado de coisas do sistema partidário brasileiro. A primeira é a fragmentação interna das grandes legendas, transformadas em federações informais de interesses regionais e pessoais. A segunda é o oportunismo elevado à condição de método, na qual cada decisão é guiada exclusivamente pela leitura, quase sempre errática, do humor do eleitorado e das apostas para o próximo ciclo eleitoral.

 

Antes que as gralhas gritem, convém dizer que Lula e o governo não são vítimas dessa incoerência conjugada com oportunismo, muito menos observadores passivos. Longe disso. Esse é o preço que o presidente tem a pagar tanto pela incompetência política no manejo de sua coalizão, que aguça – em vez de conter – a natureza fluida de Brasília, quanto pela dificuldade crônica do PT de dividir espaços reais de poder na condução de sua gestão. Ademais, basta acompanhar o ideário dos partidos envolvidos para constatar que nada têm a ver com o lulopetismo: a agenda que pregam, como a defesa de ajuste fiscal, menos impostos e redução do Estado, significa o oposto do que Lula e seus sabujos defendem. Nessa história, contudo, não há nem ingênuos nem heróis.

 

Este jornal insiste que o centro político é indispensável à governabilidade e à contenção dos extremos. Mas essa função pressupõe algum compromisso com a estabilidade institucional e com a palavra empenhada. Quando o pragmatismo degenera em incoerência e o cálculo eleitoral substitui qualquer noção de responsabilidade, o centro deixa de ser fiador da governabilidade para se tornar, ao contrário, um fator permanente de instabilidade.

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