No ataque ao BC, o país corre risco
Por Míriam Leitão / O GLOBO
No Banco Master houve fraude. O Banco Central comunicou a Noticia do Fato ao Ministério Público, que a entregou à Polícia Federal para investigar, como tem que ser. Há outras comunicações de crimes, que devem levar a novas investigações. Fraude é diferente de um desequilíbrio entre ativo e passivo, ou de uma sucessão de operações arriscadas. A pressão política ou jurídica para tentar reverter a liquidação só terá sucesso se o país decidir rasgar todo o manual de fiscalização e supervisão bancária, e a Justiça passar a anistiar crime financeiro. O ministro Dias Toffoli quando marca a acareação da próxima terça-feira iguala o regulador e um regulado que está sob investigação. O ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, ao afirmar que a liquidação foi precipitada e exigir explicação comete também um absurdo, e fora de sua competência.
O Master tentou vender a um banco público, o BRB, uma carteira de ativos inexistentes. Ela havia sido montada de forma fraudulenta com a ajuda da Tirreno, uma empresa criada em novembro de 2024 por um ex-funcionário e ex-sócio do Master. Os ativos foram inventados para esconder o enorme rombo. Para se ter uma ideia, o banco tinha um patrimônio líquido, segundo balanço de 2024, de pouco mais de R$ 4 bilhões, e essa fraude é de R$ 12 bilhões. É aritmético. O banco estava quebrado, o balanço estava virado, portanto tinha que ser liquidado.
Foi difícil ver exatamente o que estava acontecendo no banco. Em novembro de 2024, a Fitch elevou a nota do Banco Master. Elevou. A Fitch é definida como uma das Big Four, uma das quatro maiores classificadoras de risco. O banco já estava enfrentando uma crise de credibilidade e com dificuldade de captar. O Master se cercou de pareceres jurídicos atestando que estava tudo certo no banco.
Para realizar seu trabalho, o BC teve que se municiar de paciência e técnica de supervisão, fazendo uma verdadeira varredura nos ativos do banco. Para entender detalhes desse trabalho é bom conferir as notas taquigráficas do depoimento do presidente da instituição, Gabriel Galípolo, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em 25 de novembro. A auditoria avançou mostrando cada vez mais irregularidades. Diante dos primeiros indícios de crime, entre março e abril deste ano, o BC comunicou a Noticia do Fato ao Ministério Publico. O MP achou consistente a denúncia feita pelo Banco Central e entregou à Polícia Federal para investigar. A investigação confirmou as suspeitas e, por isso, a Justiça iniciou o processo que levou à prisão de Daniel Vorcaro e outros sócios.
Durante meses, o BC pediu explicações ao Banco Master sobre as inconsistências no balanço. O Master sempre dava explicações insuficientes. A cada novo passo da fiscalização, o BC encontrava novos indícios de crimes. E todos foram comunicados ao MP.
Tudo começa com a notícia, em março, de que o BRB iria comprar 58% do capital total do Master. Isso ocorre quando o Master estava há meses em uma grave crise de credibilidade, e ficou sem liquidez. O banco chegou a recorrer várias vezes a linhas do FGC de empréstimos emergenciais. O que chamou mais a atenção do Banco Central é que normalmente instituição que está com problemas de liquidez para de crescer. Vários conseguiram sair de problemas momentâneos desta forma. Banco sem liquidez, não concede novos empréstimos. No Master era diferente, ele continuava aumentando o total dos supostos créditos. Isso era claramente suspeito. E por aí começou a investigação.
O ministro Dias Toffoli aceitou o pedido da defesa de Vorcaro e trouxe o caso para si. O argumento é que nas investigações foi citado um deputado. O problema é que a transação imobiliária com o deputado não foi concluída e nada tem a ver com o caso investigado. Ainda assim, Toffoli manteve o caso em seu gabinete, decretou sigilo, e marcou para o dia 30 a acareação entre o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. O TCU, por sua vez, deu três dias para o BC explicar a liquidação.
Quem viu as liquidações que ocorreram na crise bancária dos anos 1990 sabe que as pressões políticas e o ataque jurídico aos dirigentes do BC sempre acontecem. Desta vez, a pressão chegou mais forte e mais desinibida. O país decidirá nesse caso se terá um sistema financeiro confiável ou se vai ser legitimado o vale-tudo.
Limites para erros
Por Merval Pereira / O GLOBO
Limites para erros
Nunca ficou tão claro quanto agora a necessidade de um Código de Conduta para o Supremo Tribunal Federal (STF). Uma coincidência benfazeja faz com que a presidência do Supremo esteja sendo exercida neste momento delicado pelo ministro Edson Fachin, que há anos defende tal código. Não é por acaso que Cortes Supremas de países como os Estados Unidos e a Alemanha fizeram o seu Código de Conduta em anos recentes, pois está ficando claro que os ministros, sem ter quem os controle, estão se perdendo em atitudes pessoais condenáveis. O contrato milionário da mulher do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master é um exemplo, mas são inúmeros os ministros de cortes superiores cujos filhos, mulheres e parentes driblam conflitos de interesse apoiados por uma mudança de legislação feita pelos próprios ministros.
Se os cidadãos perderem a confiança nos ministros do Supremo, a democracia estará em dificuldades. A credibilidade já ficara arranhada no caso da Operação Lava-Jato, pois os ministros do Supremo não se limitaram a barrar as ilegalidades que apontaram na relação do então Juiz Moro com os procuradores de Curitiba. Anularam todos os processos, liberaram todos os réus, mesmo os confessos, começaram a devolver dinheiro para os que admitiram que roubaram.
Além do decano Gilmar Mendes, que se gaba de ter sido o responsável pelo fim da Lava-Jato, o ministro Dias Toffoli tem se dedicado nos tempos recentes a anular os processos da Lava-Jato. Mas não se limita a esse caso. Tem tomado decisões polêmicas no caso do Banco Master, tantas e tão discutíveis que chamam a atenção. Desde o momento em que tomou a si o processo sob a alegação de que uma pessoa com foro privilegiado aparecera nas investigações, até a acareação entre representante do Banco Central e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tudo tem sido contestado, não só por políticos ou jornalistas, mas sobretudo por especialistas no Direito.
Um documento sobre negócios do deputado federal João Carlos Bacelar com Vorcaro, em caráter pessoal, foi a justificativa de Toffoli para avocar ao STF o caso, dias depois de ter viajado em jatinho particular em companhia de um advogado do Banco Master para ver a final da Libertadores em Lima. Uma conduta reprovável, a carona que se tornou hábito entre magistrados acumulou irregularidades.
A decretação de sigilo no mais alto grau foi a medida seguinte, que paralisou as investigações. Supreendentemente, Toffoli convocou uma acareação em pleno recesso do Congresso para contrapor versões entre os investigadores e o investigado, numa atitude que foi considerada pelo próprio Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, precipitada, pois os depoimentos oficiais ainda não haviam sido tomados. Onde estariam as contradições a serem dissipadas pela acareação?
A estranheza das decisões do ministro Dias Toffoli fez crescer o temor de que alguma medida extrema estaria sendo tramada nos bastidores para caracterizar como ilegal a liquidação do Banco Master. O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, havia dado uma declaração, que a muitos pareceu extemporânea, sobre a investigação, afirmando que atenderia a qualquer convocação para explicar seus detalhes e as razoes técnicas para a liquidação. Por que o ministro Toffoli não pediu essas explicações diretamente a Galípolo?
A possibilidade de que a acareação de Toffoli tenha o mesmo objetivo da decisão do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, que considerou precipitada a decisão do BC de liquidar o Master, “uma medida extrema”. Assim como o ministro do STF não tem razão técnica para convocar uma acareação, que o Banco Central já questionou formalmente, também o ministro do TCU não tem nenhum mandato para pedir explicações do BC. O mercado financeiro teme que esses movimentos inusitados tenham o objetivo de anular a liquidação, devolvendo o Banco Master a Daniel Vorcaro, que, além da tornozeleira eletrônica que ostenta, continua ostentando também uma influência política invejável.
Em mansão, Vorcaro recebeu Alexandre de Moraes e políticos para jantar
Por Lauro Jardim / O GLOBO
Em seus tempos de liberdade (muita liberdade, aliás), Daniel Vorcaro recebia políticos e autoridades para jantares numa mansão de R$ 36 milhões e 1,7 mil metros quadrados de área construída no Lago Sul, em Brasília.
Pelo menos em uma dessas noites, Alexandre de Moraes esteve presente — embora sem sua mulher, Viviane, cujo escritório de advocacia tinha o ex-banqueiro como o seu melhor cliente.
Neste jantar, ocorrido no último trimestre do ano passado, quando já vigia o contrato de R$ 129 milhões de Viviane com o Banco Master, Moraes dividiu as conversas com políticos poderosos do Centrão, deputados, ex-ministros do governo Bolsonaro e, naturalmente, com o gentil anfitrião.
Era o único ministro do STF entre os cerca de vinte convidados, todos homens.
Segundo o relato de um dos participantes deste e de outros jantares na casa brasiliense de Vorcaro, eram noites de conversas amenas.
Nem é preciso discutir a possibilidade de algum assunto do Master ter sido conversado naquela noite. Até porque, se fosse o caso, teriam ocasiões mais discretas para isso. Mas parece claro que a simples presença de um integrante da Corte num jantar na casa do melhor cliente de sua mulher pode soar inconveniente.
26 perguntas para 2026: em ano eleitoral, dúvidas e desafios vão da disputa nacional ao Judiciário
Por Caio Sartori / O GLOBO
O ano que vem chega com a expectativa em torno da eleição presidencial, na qual Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscará um quarto mandato. Até outubro, no entanto, muitas perguntas precisam ser respondidas — tanto em relação ao petista quanto à oposição, que ainda tem pouca clareza sobre o melhor caminho a seguir. As questões para o ano que se aproxima, contudo, não se limitam à disputa pelo Planalto. Há dúvidas sobre as eleições estaduais, o Congresso e o Judiciário. A fim de jogar luz sobre essa miríade de incertezas, O GLOBO listou 26 perguntas sobre 2026.
Eleição presidencial
1 - TARCÍSIO DE FREITAS SERÁ CANDIDATO À PRESIDÊNCIA?
Nome preferido do Centrão e de setores econômicos que defendem uma oposição forte ao presidente Lula no ano que vem, o governador de São Paulo vive um constante vaivém. Às vezes dá sinais de que quer encarar o desafio, mas publicamente sinaliza que tentará a reeleição no estado. O desafio de construir uma candidatura presidencial chega ao fim do ano com novo obstáculo: o lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao jogo como pré-candidato da direita.
2 - O SOBRENOME BOLSONARO VAI ESTAR NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL?
A fim de manter o capital político dentro da própria família, Jair Bolsonaro, preso, determinou que Flávio é o nome escolhido para assumir seu espólio eleitoral. Muitos veem no gesto um jogo de cena, sem garantia alguma de que será consolidado, mas fato é que o desempenho do senador nas pesquisas faz o PL interpretar que o sobrenome pode impulsionar a eleição de deputados e senadores. Além dele, a ex-primeira-dama Michelle costuma ser apontada como opção, inclusive para a vice em uma chapa de Tarcísio.
3 - ALCKMIN SE MANTÉM COMO VICE NA CHAPA DE LULA?
Adversário de Lula no passado, Geraldo Alckmin virou um vice considerado leal pelo petista. O PSB, ao qual é filiado, defende com unhas e dentes a manutenção da chapa. Dois fatores poderiam prejudicar a continuidade: alguma missão eleitoral imposta a Alckmin em São Paulo ou a necessidade de liberar o posto de vice na chapa para um partido mais ao centro.
4 - QUAIS PARTIDOS VÃO COMPOR A ALIANÇA DE REELEIÇÃO DO PRESIDENTE?
A tendência é que Lula reedite a coligação de partidos de esquerda e centro-esquerda que formou em 2022. Legendas de centro e centro-direita, sobretudo MDB e PSD, têm divisões regionais muito fortes. Assim, uma eventual neutralidade dessas siglas na eleição presidencial, liberando os estados, já seria comemorada pelo Planalto.
5 - LULA VAI RECUPERAR POPULARIDADE NO ÚLTIMO ANO DO MANDATO?
Depois de um primeiro semestre de queda acentuada na aprovação, Lula se recuperou no início do segundo semestre, mas viu o cenário estabilizar nas últimas pesquisas. Hoje, há empate técnico entre aprovação e desaprovação, segundo a maioria das pesquisas. Anos eleitorais costumam impulsionar a avaliação de governos, já que presidentes têm mais oportunidades para expor os feitos da gestão.
6 - QUAIS SERÃO OS GRANDES TEMAS DA DISPUTA NACIONAL?
Nos últimos meses, a segurança pública passou a ser uma das armas da oposição para emparedar o governo Lula, mas há divergência entre analistas sobre a capacidade do tema de dominar uma eleição nacional. O esperado é que as diferentes pautas econômicas tomem conta do jogo, e é nisso que Lula pretende se concentrar. Ao mesmo tempo, o presidente indicou que pode criar no ano eleitoral o Ministério da Segurança Pública, uma forma de demonstrar preocupação com o tema.
7 - ELEITOR VAI REFORÇAR A POLARIZAÇÃO OU EXPOR CANSAÇO COM O CENÁRIO?
Em um cenário de Lula versus alguém da família Bolsonaro, os dois vão concentrar quase todos os votos, como foi em 2022, ou um terceiro nome conseguirá ter bom desempenho? A última pesquisa Genial/Quaest de 2025 deu sinais de que, a despeito da rejeição alta dos dois lados, ambos ainda concentram a maioria esmagadora das intenções de voto.
8 - DESINFORMAÇÃO COM IA VAI EXPLODIR E MARCAR CAMPANHA?
Com a proliferação acentuada da inteligência artificial nos últimos anos, a eleição do ano que vem cria expectativa sobre quão usada para fins indevidos a IA vai ser. Diante de uma legislação ainda em construção, há temor acerca do potencial que as ferramentas têm para produzir desinformação, sobretudo por meio de vídeos ou áudios hiperrealistas.
Estados
9- QUAIS PREFEITOS VÃO SE DESINCOMPATIBILIZAR PARA DISPUTAR ELEIÇÃO DE GOVERNADOR?
Diversos prefeitos que desfrutam de boa avaliação em suas respectivas cidades são cotados para disputar governos estaduais em 2026. Entre eles, estão Eduardo Paes (Rio), João Campos (Recife) e João Henrique Caldas, o JHC (Maceió). Até o de São Paulo, Ricardo Nunes, é uma possibilidade, caso Tarcísio tente o Planalto. O começo do ano deve marcar as primeiras admissões públicas da intenção de se candidatar. Eles têm até 4 de abril para se desincompatibilizar das prefeituras.
10 - PAES, NO RIO, VAI CONSEGUIR ATRAIR PARTIDOS DO CENTRÃO QUE HOJE ESTÃO VINCULADOS AO GOVERNO CLÁUDIO CASTRO?
Depois de se reeleger com folga na cidade em uma aliança mais composta pela centro-esquerda, Paes tem feito gestos à direita e tenta atrair alguns dos partidos com maior capilaridade no estado, sobretudo a federação composta por PP e União Brasil. Ao mesmo tempo, caminha para ter de novo siglas progressistas como PT, PSB e PDT. Na vice, pretende abrir espaço para alguém de fora da capital.
11 - QUEM SERÃO OS CANDIDATOS EM SÃO PAULO, COM OU SEM TARCÍSIO DISPUTANDO A REELEIÇÃO?
Caso Tarcísio decida disputar a Presidência, haverá uma corrida interna na direita pela candidatura no maior estado do país. O prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), é um dos cotados, e é sabido que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, sonha com o cargo. Na oposição, ainda há pouca clareza, mas o PT estuda lançar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a fim de ter um palanque forte para Lula em São Paulo, mesmo sabendo que a tendência na eleição de governador é de vitória da direita.
12 - QUAIS CANDIDATOS VÃO DISPUTAR A ELEIÇÃO DE MINAS, ATÉ AGORA BASTANTE INDEFINIDA?
Outro estado com cenário indefinido é Minas Gerais, o segundo mais populoso do país. O vice-governador da gestão Romeu Zema (Novo), Matheus Simões (PSD), pretende se lançar. Outro da direita é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Na oposição, há várias possibilidades ventiladas. São nomes como o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, que, no entanto, é do mesmo PSD que filiou Simões — a despeito de ser aliado de Lula.
13 - O PT MANTERÁ O DOMÍNIO NA BAHIA, MESMO COM ACM NETO LIDERANDO AS PESQUISAS?
Apesar de o governador Jerônimo Rodrigues (PT), apto à reeleição, ter índices satisfatórios de aprovação, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) lidera as primeiras sondagens eleitorais. Na Bahia, contudo, o histórico mostra que os candidatos do PT até podem começar atrás, mas costumam pegar o embalo da nacionalização da campanha e virar o jogo.
14 - CARLOS BOLSONARO VAI CONSEGUIR SE ELEGER SENADOR EM SANTA CATARINA OU AS RIXAS NA DIREITA VÃO PREJUDICÁ-LO?
Os últimos meses têm mostrado a dificuldade que o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) enfrenta para trocar de domicílio eleitoral e se candidatar ao Senado por Santa Catarina, com diversas rixas na direita. A ver se o eleitorado do estado bolsonarista vai abraçá-lo ou rechaçar a tentativa do “estrangeiro
Congresso
15 - QUAL SERÁ O IMPACTO DAS EMENDAS PARLAMENTARES NO ÍNDICE DE REELEIÇÃO DE DEPUTADOS?
Com fatias robustas do orçamento nas mãos de deputados e senadores, que desfrutam de enorme capacidade de mostrar ao eleitorado entregas palpáveis, será interessante observar o impacto disso no índice de reeleição para a Câmara. Em 2022, o percentual de renovação (39%) caiu bruscamente em comparação com 2018 (47%), ano que havia registrado um forte apelo por “mudança”.
16 - O BOLSONARISMO VAI CONSEGUIR TOMAR CONTA DO SENADO?
Aliados de Bolsonaro deixam cristalina a prioridade conferida à eleição do Senado. É lá, afinal, que se pode impor com propriedade uma agenda contrária ao Judiciário. Uma das grandes dúvidas sobre as eleições é se o campo político terá força para conquistar maioria na Casa, emparedar o STF e dificultar a vida do futuro governo.
17 - QUAIS GOVERNADORES VÃO SE DESINCOMPATIBILIZAR ATÉ ABRIL PARA TENTAR VAGAS NO SENADO?
Além de prefeitos que podem se desincompatibilizar para tentar governos estaduais, governadores em segundo mandato tendem a buscar uma cadeira no Senado. Alguns exemplos possíveis estão no Rio, com Cláudio Castro (PL); Rio Grande do Sul, com Eduardo Leite (PSD); Paraíba, com João Azevêdo (PSB); e Espírito Santo, com Renato Casagrande (PSB).
18 - A RELAÇÃO ENTRE O GOVERNO E O CONGRESSO CONTINUARÁ ACIRRADA?
Seja pela votação de pautas defendidas pela oposição ou por insatisfações da cúpula do Congresso com movimentos do governo, o ano que se encerra registrou atritos constantes entre os Poderes. Fica a dúvida de como será a relação no ano eleitoral, quando parlamentares costumam tomar posição sobre o jogo presidencial.
19 - O SENADO VAI APROVAR A INDICAÇÃO DE JORGE MESSIAS PARA O SUPREMO?
Ficou para 2026 o desfecho da indicação do ministro da AGU, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Insatisfeito com a escolha por Messias, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ainda não deu uma nova data para a sabatina. A última vez em que a Casa barrou escolhas do presidente da República para a Corte foi em 1894.
20 - DEPOIS DE UM ANO PENDULAR, QUAIS AGENDAS HUGO MOTTA VAI PRIORIZAR NA CÂMARA?
O 2025 do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi marcado por idas e vindas na relação com o governo e a oposição. Foi “lulista” em alguns momentos, mas em outros deu espaço para pautas caras à direita. É diferente do que Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, fez no governo Bolsonaro, quando se colocou como aliado nítido do então presidente e o apoiou na tentativa frustrada de reeleição
Judiciário
21 - FACHIN VAI CONSEGUIR CRIAR UM “CÓDIGO DE CONDUTA” PARA MINISTROS?
Defendida por pesquisadores, a ideia de criar um código de conduta para ministros de tribunais superiores passou a ser ventilada pelo presidente do STF, Edson Fachin, em dezembro. A intenção, contudo, esbarra em alas da Corte. Entre as regras, haveria diretrizes claras para participações em eventos privados, por exemplo. A principal referência é o Tribunal Constitucional Alemão.
22 - QUAIS PROCESSOS CRIMINAIS TENDEM A DOMINAR A PAUTA DO STF APÓS AÇÃO DO GOLPE?
Resolvida a trama golpista, a Corte tem outros casos de grande repercussão sobre os quais se debruçar no ano que vem. Entre eles, o dos mandantes da morte de Marielle Franco, o da tentativa de obstrução de Justiça por parte de Eduardo Bolsonaro — via atuação nos EUA — e diversos processos envolvendo emendas parlamentares.
23 - STM VAI IMPOR UMA INÉDITA PERDA DE PATENTE AOS OFICIAIS CONDENADOS?
Após a inédita condenação no STF de oficiais das Forças Armadas por tentativa de golpe, caberá a outra Corte, o Superior Tribunal Militar (STM), fazer outra análise carregada de ineditismo: a da perda de patente e posto desses militares. Especialistas costumam apontar esse tipo de condenação, o de indignidade para a função, como o maior baque possível para um oficial.
24 - JULGAMENTOS DE CASOS SOBRE EMENDAS VÃO ELEVAR AINDA MAIS A TENSÃO COM O CONGRESSO?
Além das tensões entre governo e Congresso, o Legislativo também tem vivenciado embates frequentes com o STF. Um dos focos de apreensão são os processos envolvendo emendas parlamentares que correm na Corte. Os casos, sob relatoria do ministro Flávio Dino, têm potencial para esgarçar ainda mais a relação, dado que apenas a ponta do iceberg apareceu até agora.
25 - DEPOIS DA TRAMA GOLPISTA, STF VAI CONSEGUIR SER MENOS PROTAGONISTA OU CONTINUARÁ SOB OS HOLOFOTES?
Com acúmulo de protagonismo nos últimos anos, o ideal seria que o STF conseguisse sair um pouco dos holofotes, dizem analistas. Ao mesmo tempo, eles reconhecem que é difícil que isso aconteça: a judicialização virou um marco da política brasileira.
26 - COMO SERÁ A CONDUÇÃO DE NUNES MARQUES À FRENTE DO TSE NO ANO ELEITORAL?
O ministro indicado por Bolsonaro vai estar à frente da Corte eleitoral no ano da eleição. Há dúvidas sobre como será sua atuação, em contraponto a posturas enfáticas de defesa das urnas e do processo eleitoral como um todo adotadas pelos últimos presidentes.
PIB interrompe neste 2025 série de surpresas positivas
A economia brasileira deve crescer pouco acima dos 2% neste 2025, segundo a mediana das estimativas de mercado pesquisadas semanalmente pelo Banco Central. Para o Ministério da Fazenda, o avanço do Produto Interno Bruto será de 2,2%; para o próprio BC, de 2,3%.
Desse modo, as cifras ficam próximas entre si e também das expectativas de analistas coletadas no início do ano, de 2,01%. Interrompe-se, portanto, a série de surpresas positivas com PIB observada de 2022 a 2024, depois de superado o pior da pandemia.
Erros nas previsões para a atividade não são incomuns. Costumam ocorrer imprevistos relevantes, econômicos, políticos ou de outra natureza, como eventos climáticos. Os modelos de projeção são imperfeitos. Ainda que não fossem precários, as relações entre variáveis no passado não dão conta de inovações e mudanças estruturais.
Mais importante é se valer das estimativas para entender influências nelas desconsideradas.
Como tem observado Bráulio Borges, colunista desta Folha, o aumento do gasto público vinha sendo subestimado, não apenas o do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como os de estados e municípios. A alta da despesa animou de início uma economia deprimida desde 2015, com grande ociosidade de trabalho e capital.
Os efeitos colaterais do expansionismo orçamentário ficaram visíveis em 2024, com sinais de superaquecimento e inflação. O descrédito da política fiscal, crescente ao longo do ano passado e evidenciado também na taxa de câmbio, contribuiu para a alta dos preços e dos juros.
Há indícios de que mudanças no mundo do trabalho evitaram inflação ainda maior, mesmo com taxas de desemprego baixas. A reforma da CLT de 2017 flexibilizou contratos e diminuiu custos de contratação; houve mudanças tecnológicas, a influenciar a oferta de mão de obra.
Já o avanço do mercado de capitais e da concorrência bancária facilitaram o crédito, o que parece ter contido o efeito das taxas de juros elevadíssimas, fazendo com que atividade econômica arrefecesse mais lentamente.
O fator exógeno mais importante do ano foi a desvalorização mundial do dólar, resultante das trapalhadas de Donald Trump, que contribuiu para conter a inflação doméstica. O sucesso da agropecuária, a moderação dos preços mundiais dos alimentos e do petróleo, além de exportações chinesas de bens industriais baratos, foram outros atenuantes da carestia.
O gasto público total, embora nas alturas, cresceu menos. Como resultado, o pouso da economia é suave. No curto prazo, há convergência lenta do IPCA para a meta, sem choque no PIB.
O quadro mais amplo, porém, é de endividamento público crescente e níveis baixos de investimento, despesa governamental alta e ineficiente combinada a juros proibitivos para famílias e empresas. Por óbvio, não é receita de crescimento duradouro.
Otimismo com novo ano cresce, e 69% dos brasileiros projetam melhora na situação pessoal, diz Datafolha
Paulo Ricardo Martins / FOLHA DE SP
O brasileiro está otimista para 2026. Segundo pesquisa de opinião do Datafolha, 69% dos entrevistados acreditam que o próximo ano trará melhora em sua situação pessoal na comparação com 2025.
O resultado representa um salto de nove pontos percentuais em relação à última pesquisa. No fim do ano passado, 60% esperavam melhora na situação pessoal em 2025 –patamar mais baixo registrado durante o terceiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A pergunta feita pelo Datafolha aos entrevistados foi "Na sua opinião, 2026 será um ano melhor, igual ou pior a 2025 para você?".
Para 2026, 16% disseram que sua situação pessoal será igual à de 2025, e 11% acreditam que ficará pior. Um grupo de 3% dos entrevistados não soube responder à pergunta.
Nas projeções para 2021, os otimistas eram 68%, ante 19% que acreditavam que não haveria mudanças. Os que projetavam piora eram 10%, e 2% não sabiam responder.
A pesquisa também registrou alta no otimismo dos entrevistados em relação à situação do país em geral. Para 60% das pessoas ouvidas pelo Datafolha, 2026 será um ano melhor para os brasileiros na comparação com 2025 –no ano passado, esse percentual era de 47%. A pergunta feita pelo Datafolha foi "Na sua opinião, 2026 será um ano melhor, igual ou pior a 2025 para os brasileiros em geral?".
O resultado iguala o patamar de otimismo observado na virada de 2022 para 2023, logo após as eleições presidenciais que elegeram Lula para um terceiro mandato.
Ainda de acordo com a pesquisa do Datafolha, as mulheres estão mais otimistas para 2026 do que os homens. Um grupo de 74% das entrevistadas acredita que sua situação pessoal irá melhorar em 2026 –patamar que cai para 65% entre o público masculino.
O otimismo também é maior entre aqueles que possuem somente ensino fundamental –74% acreditam que a situação pessoal melhorará em 2026. Entre os que têm ensino superior, esse percentual cai para 62%.
Quanto menor a renda, maior é a expectativa para 2026: 61% dos que ganham mais de dez salários mínimos acreditam que o próximo ano será de melhora na situação pessoal. O número sobe para 72% entre os entrevistados com menos de dois salários mínimos de remuneração mensal.
Além disso, 78% dos entrevistados que votaram em Lula no segundo turno das eleições de 2022 esperam melhora na situação pessoal no próximo ano. Entre os que votaram no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), esse patamar cai para 61%.
Entre os que aprovam o governo Lula, 79% acreditam que sua situação pessoal vai melhorar em 2026, na comparação com 2025; 3% dizem que situação irá piorar. O otimismo cai para 59% entre aqueles que desaprovam a gestão petista, e 19% acham que a situação pessoal irá piorar em 2026.
Os brasileiros que moram no Nordeste estão mais otimistas para 2026 –75% deles acreditam que sua situação pessoal irá melhorar no próximo ano. O nível mais baixo é registrado no Sul (65%).
Para economistas, o otimismo sentido pela população é reflexo do bom desempenho de alguns dos principais indicadores da economia brasileira em 2025. No entanto, a expectativa é de que 2026 seja um ano um pouco menos favorável à economia brasileira.
"[2025] Foi um ano em que os preços dos alimentos se comportaram bem. Com menores taxas de desemprego e com a inflação de alimentos tão baixa, é natural que as pessoas estejam se sentindo bem. E a situação, de fato, está boa", diz Samuel Pessôa, pesquisador do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) e colunista da Folha.

