Conjuntura vai definir potência da bomba deixada por Moro a Bolsonaro
O depoimento do ex-ministro Sergio Moro (Justiça) sobre a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal é uma peça sem meio-termo: ou será vista no futuro como uma bomba ou como um traque.
A grande incerteza no cenário político é determinante para avaliar o impacto das acusações, que agora Moro espertamente diz que não se tratam de imputação de crime —claro, se o fossem, ele poderia ser pego prevaricando por não ter denunciado os fatos antes.
Juridicamente, não é uma bala de prata incontestável, mas certamente muito ruim para Bolsonaro.
Os cuidados tomados pelo ex-ministro ao longo do depoimento explicitam o risco que corria, e conforme a Folha ouviu de integrantes de tribunais superiores, muito dependerá de subjetividade.
Dois pontos embasam a acusação de obstrução de Justiça, mais um dos inúmeros crimes de responsabilidade que Bolsonaro vem acumulando no exercício do cargo.
A obsessão clara pela mudança da Superintendência da PF no Rio, seu quintal político, e a referência à necessidade de retirar Maurício Valeixo da direção-geral do órgão ao comentar inquérito no Supremo que teria chegado a "10 ou 12 deputados bolsonaristas".
Nos tempos em que a Lava Jato estava no auge, o então procurador-geral Rodrigo Janot chegava a pedir prisão por bem menos que isso. Não se espera o mesmo de Augusto Aras, mas a pressão estará sobre ele.
Bolsonaro nem faz questão de desfazer a narrativa, tanto que o primeiro ato de seu novo chefe da polícia foi remover o superintendente do Rio. A quem o perguntou sobre isso, respondeu com insultos apopléticos.
Mas serão critérios subjetivos que apontarão se isso foi uma ingerência passível de denúncia ou apenas o exercício de prerrogativas presidenciais.
Moralmente, a resposta está dada, mas a paisagem é bem mais nebulosa. O Supremo, onde Bolsonaro será ou não denunciado, vive mais um momento de tensão interna.
Ministros, a começar pelo presidente Dias Toffoli, acharam que Alexandre de Moraes ultrapassou a linha ao barrar o favorito de Bolsonaro, Alexandre Ramagem, para a PF em decisão provisória na semana passada.
Mas a queixa de Toffoli, devidamente transparecida a público, também incomodou colegas. Afinal de contas, a corte havia se unido quando o Moraes foi atacado por Bolsonaro, e agora isso seria um sinal de dissenso.
Além disso, como lembrou um ministro, a decisão de Moraes só existiu porque o Supremo havia autorizado a investigação da acusação de Moro de que o presidente queria mexer na PF. A vinculação da liminar à apuração é automática, o que dificulta o argumento bolsonarista de que Moraes conspira contra si.
Notável, nesse caso, é a economia de palavras dos togados mais próximos do pensamento lava-jatista encarnado por Moro. Um deles, Luiz Fux, será o novo presidente do Supremo em setembro.
O desempenho do presidente na rampa do Planalto no domingo, apoiando manifestantes que pediam o fechamento do Judiciário e do Congresso, e os agora sucessivos episódios de violência bolsonarista pelo país, engrossam o caldo de má vontade institucional com o mandatário máximo.
O presidente tem aberto o balcão de negócios para atrair os 200 votos do centrão que impediriam, em tese, um impeachment de prosperar. Dilma Rousseff (PT) também o fez antes de cair em 2016, sem sucesso como se sabe.
O que não há neste momento é ambiente político para tal iniciativa de impedimento, o que não quer dizer que uma continuidade do desastre humanitário da Covid-19 e a cada vez mais indefensável posição do Planalto no trato da pandemia não possam minar apoio público a Bolsonaro.
Com o inevitável agravamento da crise econômica, os estratos mais pobres que substituiram parte da classe média no contingente de 1/3 do eleitorado que aprova o presidente tendem a ser os mais afetados.
Isso tudo qualificará o calibre do tiro disparado por Moro no sábado, com um ajuste de tempo insondável em meio a tanta turbulência capitaneada por um vírus e por um presidente que obriga seu ministro da Defesa a dizer que não é golpista duas vezes em um mês.
Um enfraquecido presidente pode ser do agrado de políticos do centrão e de ministros militares, na ilusão de controle, mas também ficará mais suscetível a um evento sísmico maior, como a aceitação de uma denúncia pelo Supremo.
Para Moro, candidato a candidato a algo, a começar a Presidência em 2022, todas as fichas foram colocadas na mesa. Com uma base seguidora tão fiel quanto a de Bolsonaro, talvez se o caso no Supremo não der em nada bastará a ele gritar "fake news!" e ir em frente, a exemplo do seu ex-chefe.
Depoimento frágil de Moro evidencia fixação de Bolsonaro com PF do Rio

Jair Bolsonaro saiu descontrolado do Palácio da Alvorada. Esbravejou contra a imprensa e disse que não interferia na Polícia Federal. "Não tenho nada contra o superintendente do Rio", afirmou.
O presidente só não explicou por que, então, tentou forçar a substituição do chefe do órgão no estado quatro vezes em menos de um ano e meio. Segundo o ex-juiz Sergio Moro, o presidente fez pressões pela mudança em agosto de 2019 e em janeiro, março e abril deste ano.
Na quinta tentativa, seus desejos foram atendidos. Ele precisou atropelar o Ministro da Justiça e demitir o diretor-geral da Polícia Federal, mas finalmente conseguiu mexer no órgão em sua base política. A recusa do presidente em explicar os motivos desse lance é reveladora.
O depoimento de Moro sobre a intervenção de Bolsonaro na PF, tornado público nesta terça (5), foi considerado "fraquíssimo" por quem acompanha o inquérito. O ex-juiz se negou a imputar crimes ao presidente e apresentou poucas provas da intromissão do antigo chefe.
As oito horas de declarações do ex-ministro evidenciaram apenas a fixação de Bolsonaro com um único posto. Embora a PF tenha 27 superintendências regionais, Moro afirmou que o presidente dizia querer "apenas uma, a do Rio de Janeiro".
Em agosto, Bolsonaro disse que a justificativa era a baixa produtividade do órgão. Moro disse que aquele era um "motivo inverídico". Depois, o presidente citou como causas investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco que só ocorreram meses depois de suas primeiras investidas pela troca.
Quando a mudança se concretizou, Bolsonaro se enfureceu com jornalistas que perguntavam sobre a interferência. Pela manhã, mandou os repórteres calarem a boca. No fim da tarde, deu uma resposta pela metade: "O Rio é o meu estado".
Moro disse dez vezes à PF que os motivos da pressão de Bolsonaro "devem ser indagados ao presidente". Dessa vez, ele não poderá mandar os investigadores se calarem.
Depoimento de Moro faz com que ele seja contestado também na área criminal
Rarefeito Se do ponto de vista político as acusações de Sergio Moro angariavam pouca adesão, por causa de sua atuação na Lava Jato contra parlamentares e contra o ex-presidente Lula, o ex-ministro agora também é contestado do lado criminal. Ministros do STF, advogados, integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República avaliam que o depoimento de Moro trouxe poucas novidades e carece de elementos para que, de fato, possa provar crimes de Jair Bolsonaro.
Diminuto Os que não viram grandes novidades na oitiva de Moro a definiram com uma frase usada pelo ex-ministro: a montanha pariu um rato. O ex-juiz usou a expressão quando o The Intercept Brasil trouxe mensagens dele com procuradores da Lava Jato.
Ceticismo Em conversas com pessoas próximas, Augusto Aras, procurador-geral da República, tem dito que é impossível que o inquérito prospere para uma denúncia contra o presidente.
Quintal Apesar do desânimo geral, Moro levou à investigação mais uma demonstração incontestável do interesse de Bolsonaro pela Polícia Federal do Rio. O Painel revelou que o novo diretor-geral decidiu fazer a troca no comando do estado.
Vazio Para Ticiano Figueiredo, presidente do Instituto de Garantias Penais, o depoimento de Sergio Moro à PF mostrou que o ex-juiz tem percepção distorcida sobre o que são provas acusatórias. "No discurso de despedida, imputou uma série de crimes ao presidente. Quando chegou a hora de apresentar todas as provas, entregou um nada e depôs sobre um vazio", diz o advogado.
Novidades O novo comandante da PF, Rolando de Souza, definiu os nomes de sua diretoria. Para formar a nova cúpula, o diretor-geral vai promover a troca de cinco superintendentes, contando a do Rio.
Fica Um dos símbolos da Lava Jato de Curitiba, o delegado Igor Romário foi escolhido para permanecer no cargo de Dicor (Diretor de Combate ao Crime Organizado).
Facada Afetada pela redução de receitas com o corte da contribuição das empresas para o Sistema S, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) reduziu em 25% a jornada e o salário de seus empregados. A CNC, entidade irmã que reúne federações do comércio e serviços, optou por não reduzir as despesas. painel/folha de sp
Bolsonaro mostra conversa com Moro no celular e diz que ex-ministro vazou informações do governo
05 de maio de 2020 | 18h52
BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro chamou nesta terça-feira, 5, de “mentira deslavada” a acusação feita pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de que tentou interferir na Polícia Federal. Horas depois de ter se exaltado com a imprensa e mandado repórteres que o questionaram sobre o assunto calarem a boca, o presidente mostrou imagens de seu celular para dizer que o depoimento de Moro à Polícia Federal, no sábado, reforçou o que chamou de crime.
Bolsonaro acusou o ex-ministro de permitir o vazamento de relatórios sigilosos do governo para a imprensa e chegou a dizer que ele pode até mesmo ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional. “É um homem que tinha peças de relatórios parciais, de coisas que eu passava para ele. Entregava para a Globo as coisas há muito tempo. Isso é um crime federal, talvez incurso na Lei de Segurança Nacional”, afirmou o presidente, sem especificar a que se referia.
O abandono da base petista que custou R$ 1 bi no Maranhão

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações decidiu contratar empresa para realizar os projetos básico e executivo de construção do novo Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão.
A recuperação da área de lançamento de foguetes deverá recompor as estruturas físicas do sítio da Alcântara Cyclone Space, empresa que operava o local.
O projeto do centro de lançamento de foguetes de Alcântara é mais um dos fracassos do governo petista de Lula e Dilma Rousseff. A Binacional Alcântara Cyclone Space foi criada por tratado entre Brasil e Ucrânia em 2003. Em 2015, no entanto, depois de consumir mais de 1 bilhão de reais em investimentos dos dois países, o negócio foi encerrado por Dilma.

O Ibama realizou no ano passado um relatório de visita ao sítio do Cyclone IV, que deverá servir de referência para o projeto de recuperação do local. No estudo, o Ibama anexa fotografias, mostrando o processo de degradação do que deveria ser o centro lançador de foguetes do Brasil.
O estudo do Ibama mostra galpões destruídos, veículos depredados, foguetes enferrujados no chão, áreas de depósitos alagadas e lixo jogado na área de preservação ambiental.
Brasil está indo bem no controle do coronavírus e pico nas classes altas já passou, diz presidente da XP

Na avaliação do presidente e fundador da XP, Guilherme Benchimol, o Brasil está indo bem no controle do coronavírus e o pico da doença nas classes altas já passou.
“Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está bem. Nossas curvas não estão tão exponenciais ainda, a gente vem conseguindo achatar. Teremos uma fotografia mais clara nas próximas duas a três semanas. O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”, disse Benchimol em transmissão ao vivo do jornal O Estado de S. Paulo.
Setenta dias após o primeiro caso confirmado do novo coronavírus, o Brasil soma 107.780 registros da doença e 7.321 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados na segunda (4).
O economista mencionou a dificuldade dos trabalhadores informais ficarem em casa, já que muitos não conseguem ter acesso ao auxílio emergencial do governo ou sequer têm conta em banco.
“É um desafio você pedir que a população inteira fique presa em casa. Um terço da população vive de diária e se não trabalhar hoje não vai comer, no máximo, na semana que vem.”
Ele cita ainda que outra dificuldade do Brasil é a falta de espaço no orçamento para um auxílio mais robusto como nos Estados Unidos, onde serão transferidos US$ 1.200 (R$ 6.684) para cada cidadão que recebe menos de US$ 99 mil por ano, o dobro para casais, mais US$ 500 por criança.
Benchimol, porém, se diz confiante e elogiou o trabalho de Luiz Henrique Mandetta no comando do Ministério da Saúde e vê o atual ministro Nelson Teich “na direção certa”
“Vamos sair dessa mais rápido do que as pessoas imaginam”.
O presidente da XP também está animado com o futuro da companhia. O plano de contratar 600 profissionais de tecnologia até o final do ano segue de pé. “Vamos continuar crescendo independente do cenário”.
Benchimol não vê grande influência da crise política atual, entre o Executivo e demais Poderes, na economia e acredita que o Congresso deve seguir com as reformas administrativa e tributária.
“Não me lembro do Brasil viver sem instabilidade política. Se não afetar a economia e reformas continuarem avançando, a crise política não atrapalha, é muito mais um barulho de curto prazo”.
O economista aponta que a instabilidade política deixa investidores estrangeiros receosos, mas não é a principal preocupação no momento.
“O desafio é a porta de saída, o câmbio que ele vai sair daqui a cinco, dez anos. Não adianta ele ter lucro de 100% e o dólar ir de R$ 5 para R$ 10", diz Benchimol em referência ao real desvalorizado, que torna investimentos no país mais baratos.
“O estrangeiro só vai vir de verdade e com disposição de longo prazo se o Brasil mostrar austeridade fiscal, a capacidade de gerir contas públicas, manter inflação controlada, câmbio e juros sob controle. Se o Brasil mostrar que é um ambiente confiável e estável economicamente, vai jorrar dinheiro como a gente nunca viu na história”.


