'Precisamos de sistemas que coloquem o homem em primeiro lugar', diz criadora da Economia Donut
18 de setembro de 2020 | 05h00
Criadora do conceito da Economia Donut, a inglesa Kate Raworth afirma que as crises sucessivas que o mundo vive no começo deste século indicam a necessidade de transformar o capitalismo em um sistema sustentável social e ambientalmente. “Precisamos criar sistemas econômicos que coloquem o bem-estar do homem em primeiro lugar, em vez de sistemas que persigam o crescimento - que são a fonte desses choques”, diz ela, que participa às 14h desta sexta-feira, 18, de debate online promovido pela Virada Sustentável. O evento tem o apoio do Estadão.
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O Modelo Donut associa a economia ao formato de uma rosquinha, em que o aro interno representa o alicerce social - serviços e produtos básicos como alimentos, saúde e habitação -, e o externo, o limite ecológico da Terra. Entre um e outro, está o espaço seguro e justo para a humanidade viver, enquanto pessoas sem acesso ao básico ficam no buraco interno da rosquinha. Em abril, a cidade de Amsterdã foi a primeira do mundo a anunciar que passará a adotar a Economia Donut.
Kate rechaça a ideia de que, hoje, o modelo se aproxima de uma utopia e afirma que o capitalismo não pode continuar perseguindo um crescimento econômico infinito. “O donut descreve um mundo em que todos têm o básico: comida, água, saúde, casa, voz política e renda. Quem pode viver sem essas coisas? São essas coisas que nos fazem humanos e em comunidade. Se isso é uma utopia, estamos perdidos em uma narrativa louca de extração econômica e destruição.” A seguir, trechos da entrevista.
Amsterdã foi, neste ano, a primeira cidade do mundo a anunciar que adotará o modelo da Economia Donut. O mundo começa a perceber que uma mudança no capitalismo é necessária para preservar o ambiente? A crise da covid-19 impulsiona essa mudança?
Sim. No século XX, nações focaram em crescimento econômico. Essa era a métrica e a metáfora do sucesso, mas o século XXI começou com a gravidade de uma série de crises profundas e recorrentes, com o derretimento financeiro em 2008, o colapso climático e mais recentemente o confinamento da covid. O fato de vivermos crises recorrentes nos diz que somos profundamente interconectados uns com os outro e com a natureza. E o ser humano é muito vulnerável aos choques. Precisamos criar sistemas econômicos que coloquem o bem-estar do homem em primeiro lugar, em vez de sistemas que persigam o crescimento - que são a fonte desses choques. A covid é apenas mais uma crise. Se essas crises continuarem, vejo mais políticos percebendo que não podem ter uma estratégia para lidar com finanças, outra estratégia para a mudança climática e outra para pandemias. É preciso uma abordagem política diferente. É interessante que Amsterdã escolheu lançar o modelo da Economia Donut em abril, quando sua taxa de infecção de covid estava no patamar mais alto. Eles lançaram sabendo que, uma vez que saíssem dessa emergência, precisariam de uma nova visão. O Modelo Donut traz uma direção, para onde queremos ir. Ele dá um sinal claro e poderoso do modo que queremos sair dessa crise.
O mundo já passou por outras crises profundas, como a de 2008, em que muita gente achou que o capitalismo teria de mudar, mas isso não se concretizou. Por que desta vez seria diferente?
O que é diferente desta vez é que há mais gente mobilizada ao redor de novas ideias. Temos movimentos crescendo ao redor do mundo, como o Extinction Rebellion (movimento ambientalista) e o Black Lives Matter (contra o racismo). Também temos visões positivas do futuro que queremos, como o Modelo Donut. Até mesmo os líderes corporativos estão dizendo que é hora de mudar. Mas é sempre uma luta fazer as novas ideias crescerem.
Dada a cultura em que vivemos hoje, a Economia Donut não se aproxima de uma utopia?
Não. O modelo se aproxima das condições de vida. Se a vida é uma utopia, isso é algo terrível em relação às sociedades desse começo de século. O donut descreve um mundo em que todos têm o que é básico: comida, água, saúde, casa, voz política e renda. Quem pode viver sem essas coisas? São essas coisas que nos fazem humanos e em comunidade. Se isso é utopia, estamos perdidos em uma narrativa louca de extração econômica e destruição.
Nosso modelo econômico é baseado no desejo de um crescimento contínuo, ideia incompatível com os recursos limitados da Terra. Como resolver isso sem aumentar o desemprego?
Temos um modelo que é estruturalmente viciado em um crescimento infinito. O sistema é financeiramente viciado ao trabalhar para conseguir sempre o maior retorno de juros. É politicamente viciado porque nenhum governo quer perder seu lugar na foto de família do G20. E é socialmente viciado, porque nos é vendida a história de que toda geração deve ser mais rica que a anterior. Estamos presos numa economia baseada em crescimento e temos de nos extrair disso, porque algo que cresce incessantemente se destrói. Em corpos, reconhecemos isso como cânceres. É bizarro que nas economias achemos que isso é sucesso. Por exemplo, neste momento, quando negócios estão indo atrás da taxa máxima de retorno, eles tendem a empregar o menor número de pessoas possíveis. Precisamos minimizar o uso de novos recursos do planeta e isso pode criar mais empregos. Ao invés de gerar desemprego para ter ganho financeiro, precisamos empregar mais pessoas para usar esses recursos mais de uma vez, de modo coletivo, criativo e cuidadoso.
Isso já é difícil para um país rico como a Holanda. Como fazer essa transformação em um país como o Brasil?
Adotar a Economia Donut é um desafio para qualquer país. Países ricos como Holanda estão ultrapassando de forma massiva os limites do planeta. A jornada que eles têm de fazer para voltar aos limites do planeta e sustentando o bem-estar de suas populações é algo sem precedentes. Não é fácil para eles, assim como não o é para um país como Bangladesh. Países de renda muito baixa, que vivem dentro das fronteiras do planeta, têm espaço para crescer em termos de parcela justa dos recursos da Terra, mas não podem fazer algo parecido com o que países como Holanda e Reino Unido fizeram. Não podem se industrializar da mesma forma que esses outros fizeram. E países como Brasil têm um déficit em atender as necessidades básicas de suas populações, mas, ao mesmo tempo, estão ultrapassando de forma excessiva os limites do planeta. Esses países têm um desafio duplo. É claro que os países com renda mais alta tem mais renda para lidar com isso, mas eles também têm de lidar com as expectativas de pessoas que se acostumaram com vidas que extraem muito da natureza. Um país como a Costa Rica é o que está mais perto para viver no Modelo Donut. Está próximo de atender as necessidades básicas das pessoas e apenas um pouco acima dos limites do planeta. Isso nos dá a sensação de que poderia ser possível, mas não é algo fácil para qualquer país do mundo.
Qual é o papel do setor privado na construção de um país nos moldes da Economia Donut?
É enorme, porque somos viciados no crescimento sem fim em parte por causa da estrutura e dos desejos dos negócios. O que interessa não é apenas o objetivo de um negócio, mas também a estrutura de propriedade dele. Se uma empresa é familiar, estatal, privada ou de seus próprios empregados, ela têm a expectativa e as demandas financeiras de seus donos. Se o financiador da empresa diz: ‘estou aqui pelos retornos mais altos que você pode me dar e, se você não me entregar, estou fora’, isso a conduz a ser mais extrativa. Mas tem um novo tipo de empreendimento surgindo. O Sistema B (movimento que apoia empresas a solucionarem problemas sociais e ambientais), empreendimentos sociais, cooperativas e empreendimentos cujos empregados são os donos são conduzidos por objetivos (sustentáveis) e se asseguram de que o modo que são financiados estão alinhados com seus objetivos. Temos de alinhar o design dos negócios com o objetivo de ser regenerativo. Caso contrário, os negócios não serão parte da solução.
O Brasil está se tornando conhecido internacionalmente por não proteger a Amazônia. Como isso afetará a economia brasileira?
Com o rápido crescimento do desmatamento, o Brasil está ganhando um tipo de fama que não é bom. As pessoas veem o aumento do desmatamento, a negligência e o abuso do direito das terras das comunidades indígenas. É claro que o país perde respeito internacionalmente, mas também está perdendo a maior riqueza da terra – a biodiversidade – para o ganho de curto prazo do uso do solo. Essa situação tem de mudar, assim como o comportamento destrutivo e exploratório. Caso contrário, poderá não haver reparação mais tarde.
Em passagem rápida pelo Ceará, Bolsonaro cumprimenta apoiadores em Juazeiro

O presidente Jair Bolsonaro passou pelo Ceará, na manhã desta quinta-feira (17), em meio a uma pausa na viagem para a Paraíba. O avião presidencial pousou no aeroporto de Juazeiro do Norte por volta das 9h quando Bolsonaro desceu e falou com apoiadores.
Dezenas de pessoas se aglomeraram para cumprimentar o presidente, que desceu sem o uso da máscara. Sem distanciamento social, foram pelo menos dez minutos de contato direto com os cearenses.
O presidente tirou selfies com crianças e fez acenos aos moradores. A Polícia Federal e a Polícia Militar fizeram a segurança presidencial durante o episódio.
O mecânico Salomão Batista saiu do Crato, município vizinho, para ver o presidente de perto. "Eu venho da cidade do Crato. Cheguei cedo aqui pra ver o nosso presidente. Estou muito feliz. É um presidente simples, humilde e gente boa demais", disse.
Não houve tumulto. O General de Exército e Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, General Heleno, acompanhou Bolsonaro no contato com as pessoas no local.
Evento
O presidente da República fez uma passagem rápida pelo Ceará antes de seguir viagem para o Estado da Paraíba. O motivo da viagem é uma inauguração de uma usina fotovoltaica no município paraibano de Coremas, localizado a 230 km de Juazeiro do Norte.
Retorno
No retorno da agenda na Paraíba, o presidente Jair Bolsonaro visitou o município de Missão Velha. Fora da agenda presidencial, Bolsonaro e os seguranças dele visitaram um mercadinho em meio a um aglomerado de pessoas. Sem máscaras, o presidente bebeu refrigerante, jogou sinuca, fez fotos e abraçou apoiadores.

O presidente caminhou pelas ruas do município em meio a centenas de pessoas. Muitos deles sem máscaras e sem respeitar o distanciamento social, que é recomendado pelos órgãos de saúde. Um cantor amador chegou a fazer homenagem a Bolsonaro com voz e violão no meio das ruas do município.
Última visita

A última visita ao Ceará, antes da passagem rápida por Juazeiro do Norte, ocorreu em junho quando houve a inauguração da Transposição das águas do Rio São Francisco.
O presidente foi recebido pelo prefeito de Juazeiro do Norte, Arnon Bezerra (PTB) e o filho dele, deputado federal, Pedro Bezerra (PTB), além do líder da bancada federal, deputado Domingos Neto (PSD), que o presenteou com uma manta de carneiro, típica do município de Tauá, cidade de Domingos, e da região dos Inhamuns.
Na visita, além do presidente, também estiveram presentes o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho; a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, também integrou a comitiva. Diarionordeste
Não se pode transformar covid-19 em ‘futebol político’, diz OMS
Redação, O Estado de S.Paulo
O principal especialista em emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, disse que era importante para todos os países ter "mensagens consistentes" sobre a pandemia do novo coronavírus e não torná-la um “futebol político”. A declaração veio após ser questionado, nesta quinta-feira, 17, sobre comentários contraditórios do presidente Donald Trump e das autoridades de saúde dos Estados Unidos.
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Trump se opôs na quarta às declarações do diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Robert Redfield, que disse que uma vacina para a covid-19 poderia ser amplamente lançada em meados de 2021 e que as máscaras poderiam ser ainda mais eficazes.
“O que é importante é que os governos, instituições científicas, deem um passo para trás, revisem as evidências e forneçam as informações mais abrangentes e fáceis de entender para que as pessoas possam tomar as medidas adequadas”, disse Ryan durante evento que marcou o Dia Mundial da Segurança do Paciente. "É entender a confusão, preocupação e apreensão. E não rir disso e não transformar em algum tipo de futebol político."
OMS lança plano para melhor proteger os trabalhadores da saúde
Quatorze por cento dos casos globais de covid-19, ou seja, 4 milhões dos 29 milhões confirmados, são de profissionais de saúde, destacou a OMS, nesta quinta, apelando aos governos por maiores esforços para proteger este setor tão atingido pela pandemia.
Em alguns países, esse percentual chega a 35%, sublinhou o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, em seu discurso no Dia Mundial da Segurança do Paciente - este ano especialmente dedicado a homenagear os trabalhadores da saúde.
Na maioria dos países, esses profissionais não representam mais do que 2% ou 3% da população total, então os números mostram o alto risco que esses trabalhadores enfrentam. “A covid-19 nos lembrou do papel vital que os trabalhadores da saúde desempenham em salvar vidas”, disse Tedros, que afirmou que, na atual pandemia, eles lidam não só com o risco de contágio, mas também de discriminação ou mesmo de ataques verbais ou físicos.
Além disso, segundo a OMS, um em cada quatro profissionais de saúde afirma ter sofrido ansiedade ou depressão durante a pandemia e um em cada três sofreu insônia.
Por ocasião do Dia Mundial, a OMS, em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), lançou uma Declaração sobre a Segurança dos Trabalhadores da Saúde que inclui diversos apelos à ação dos governos.
A declaração preconiza, entre outras coisas, o desenvolvimento de programas nacionais de proteção destes trabalhadores, medidas legais que garantam a "tolerância zero" aos ataques aos profissionais do setor, e melhor acesso a serviços de apoio psicológico. / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
Fome aumenta 43,7% em 5 anos e Brasil tem 1ª piora em segurança alimentar, diz IBGE
17 de setembro de 2020 | 10h00
Mais de um terço da população brasileira apresentou algum grau de insegurança alimentar no biênio 2017-2018, maior índice registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 2004, quando o levantamento foi feito pela 1ª vez. A pior situação está no Norte e no Nordeste, onde menos da metade das casas tinha garantia de alimento.
Segundo o estudo, 84,9 milhões de brasileiros - de uma população estimada em 207,1 milhões -moravam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar em 2017 e 2018. Do total, 10,3 milhões enfrentavam insegurança alimentar grave - não tinham acesso suficiente a alimentos e passavam fome, incluindo crianças. O aumento foi de 43,7% desde a pesquisa anterior, em 2013.
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Os números fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira, 17. Foi a primeira vez na série histórica que houve queda nos níveis de segurança alimentar dos brasileiros. É considerado em insegurança alimentar um domicílio que apresenta incerteza quanto ao acesso de comida no futuro ou que já apresentam redução de quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos.
Quanto maior o índice de insegurança alimentar, menor é o consumo por pessoa de hortaliças, frutas, produtos panificados, carnes, aves, ovos, laticínios, açúcares, doces e produtos de confeitaria, sais e condimentos, óleos e gorduras, bebidas e infusões, além de alimentos preparados e misturas industriais. A preferência, nesses casos, é por cereais e leguminosas, farinhas, féculas e massas, e pescados. A compra de arroz e feijão é maior nos domícilios que apontam dificuldade no acesso a alimentos em relação àqueles que não apresentam.
Foi a primeira vez que o índice de segurança alimentar no Brasil apresentou queda. Em 2004, 65,1% da população do País dizia ter acesso garantido à alimentação. O número passou para 69,8% em 2009 e para 77,4%, em 2013. Na mais pesquisa mais recente, porém, caiu para 63,3%.
Gerente da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, André Martins vê como uma das prováveis causas da queda a grave crise econômica pela qual passava o País. "Muitas pessoas passaram da segurança alimentar para uma insegurança alimentar leve", comentou.
A situação mais grave é vista no Norte, onde apenas 43% dos domicílios tinham acesso garantido a alimento. No Nordeste a situação era um pouco melhor, mas ainda assim não chegava à metade das residências (49,7%). A Região Sul, por sua vez, apresentava os melhores porcentuais (79,3%), seguida da Sudeste (68,8%) e Centro-Oeste (64,8%).
Uma outra pesquisa, divulgada no final de agosto pelo Unicef mostrou um cenário semelhante. Em meio à pandemia, um em cada cinco adultos não teve dinheiro para comprar mais comida quando o alimento de casa acabou. O estudo mediu os impactos da covid-19 em crianças e adolescentes, em três aspectos: segurança alimentar, renda familiar e acesso à educação. O levantamento mostrou que, das famílias em insegurança alimentar, 27% afirmaram ter passado por pelo menos um momento em que os alimentos acabaram e não tiveram como repor, enquanto 8% deixaram de fazer alguma refeição por falta de dinheiro.
Além disso, o aumento no preço do arroz durante esse período da pandemia impôs nova dificuldade às famílias. Um pacote de cinco quilos de arroz, que normalmente custa R$ 15, chegou a custar R$ 40. O governo federal descartou um tabelamento para combater a alta de preços do produto e disse que trabalha para que o cenário volte à normalidade.
Os pesquisadores do IBGE também perguntaram uma avaliação aos entrevistados sobre seus padrões de alimentação, moradia, saúde e educação. Quase a metade (49,7%) das famílias que relataram sentir insegurança alimentar grave classificaram como ruim o seu padrão de saúde, enquanto quase dois quintos (33,9%) dessas famílias avaliaram como ruim o seu padrão de alimentação.
Pressionado por desmate, Mourão quer usar militar de reserva para criar 'Força Tática da Amazônia'
17 de setembro de 2020 | 10h34
Brasília - O governo Jair Bolsonaro decidiu criar uma nova força de fiscalização, com poder de polícia, para atuar na região amazônica. O plano é ter uma “Força Tática da Amazônia", dedicada de forma integral e permanente ao combate a crimes na floresta, em paralelo ao trabalho que já é realizado pelo Ibama e pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente.
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O Estadão apurou que o plano, que é liderado pelo vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, já é estudado pela área jurídica do governo e pelo Ministério de Meio Ambiente, para buscar uma forma de viabilizar a nova força. A ideia é que esse novo grupo seja formado, majoritariamente, por militares inativos, com experiência na região.
Diferentemente do que ocorre hoje com a presença de militares na região, que têm apenas poder de repressão, esse novo grupo terá autorização para prender, multar e apreender ou destruir equipamentos, funções que hoje são restritas a agentes do Ibama e do ICMBio que atuam em campo. Por essa razão, esse grupo não pode ser vinculado ao Ministério da Defesa, mas sim ao Meio Ambiente.
Internamente, o governo busca uma solução jurídica para viabilizar a criação da nova força, o que poderá ocorrer por meio de estruturas existentes. A análise do governo para tirar o plano do papel inclui a possibilidade de o governo enviar proposta ao Congresso - por medida provisória ou projeto de lei -, alterando o estatuto do próprio Ibama, para permitir a criação de um “braço” distinto do órgão para realizar essa tarefa. Se for necessário, o governo poderá até recorrer à criação de um novo órgão federal dentro da pasta. Na prática, o que o governo pretende é desvincular esse novo agente do Ibama ou ICMBio, mantendo-o um grupo fechado, para atuar exclusivamente em operações na Amazônia.
O Ministério do Meio Ambiente não quis comentar o assunto. A vice-presidência da República também não se manifestou até o fechamento deste texto.
A nova força policial, planejada por Mourão e endossada pelo ministro do Ambiente, Ricardo Salles, será formada, basicamente, por militares da reserva que possuam experiência na região. O Estadão apurou que o plano não é criar uma base física permanente na Amazônia, por razões de segurança. Esse grupo deve ser sediado em Brasília, mas voltado em tempo integral para ações na região, com deslocamento sempre que necessário.
Independentemente de qual será a estrutura administrativa do novo grupo, o governo ainda enfrenta restrições orçamentárias para viabilizar o plano. A ideia do governo é que a “Força Tática da Amazônia” seja contratada por meio de concurso público, o que tem sido vetado reiteradamente pelo governo, em todas as áreas.
Apesar das dúvidas, a cúpula do governo que atua no projeto afirma que a decisão está tomada, que o vice-presidente está convencido de que essa é uma “necessidade” e a “única alternativa” para ter uma fiscalização permanente na Amazônia. A expectativa inicial é de algo entre 100 a 150 servidores sejam contratados para essa função em 2021.
Nesta quarta-feira, 16, Hamilton Mourão disse que o governo precisa ampliar sua atuação na região, “principalmente a questão da recuperação da capacidade operacional do Ibama, ICMBio e Funai”. O comentário foi uma repercussão às propostas apresentadas por 230 empresas do agronegócio e organizações não governamentais do meio ambiente, que incluam pedidos para reforçar as estruturas do Ibama e ICMBio.
O fato, porém, como apurou o Estadão, é que o governo não está preocupado, neste momento, em ampliar os quadros desses órgãos, mas em criar um novo grupo independente, formado majoritariamente por pessoal militar. Sem detalhar o novo plano, ele, que comanda o Conselho da Amazônia, disse que “temos de ter uma solução, porque, seu faço um concurso agora para aumentar a capacidade do Ibama e do ICMbio, não posso dizer que essa turma vai trabalhar só na Amazônia pelos próximos dez anos, porque é contra a legislação atual. Então, tenho de criar um novo mecanismo para contratar gente, para que essa turma saiba que só vai para a Amazônia. Senão, fica dois anos na Amazônia e depois vai querer ir para Fernando de Noronha”.
Ibama sofre com déficit de equipe
Reportagem publicada pelo Estadão em agosto revelou que o Ibama, que é o principal órgão do governo federal na proteção da maior floresta tropical do mundo, possui atualmente 591 agentes ambientais para enfrentar o avanço do crime ambiental, e isso não só na Amazônia, mas em todo o País.
Dados oficiais do órgão mostraram que o quadro atual de agentes é 55% inferior ao que o instituto detinha dez anos atrás. Em 2010, eram 1.311 fiscais em atuação. Trata-se do pior cenário de fiscalização desde a fundação do Ibama, em 1989.
A atuação desse grupo de profissionais é mobilizada para diferentes localidades do Brasil, conforme a necessidade e época do ano. A Amazônia costuma concentrar a maior parte desses servidores, principalmente no atual período de seca. Esse deslocamento, na prática, também cumpre o papel de proteger o fiscal, para não correr riscos de permanecer integralmente em uma região onde atua no combate ao crime.
Em junho, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, chegou a enviar ofício ao ministro Salles descrevendo a situação crítica do órgão e pedindo autorização para realizar concurso. Este previa a contratação de servidores não só para a fiscalização, mas também para analistas e técnicos administrativos. O Ibama solicitava, ao todo, a recomposição de 2.311 servidores, dos quais 970 poderiam atuar nas ações em campo. O impacto dessas contratações no orçamento de 2021 seria de R$ 66,6 milhões. Salles repassou o pedido ao Ministério da Economia, que não autorizou o concurso.
O quadro atual de servidores do Ibama, em todas as suas áreas, soma 2.800 funcionários, número que também remete ao momento mais crítico da instituição. Em 2007, por exemplo, chegou a ter 6.200 empregados.
Rio de Janeiro, fevereiro e março = José Nêumanne, O Estado de S.Paulo
De 1808, quando dom João VI desembarcou na baía, cuja visão encantou Cole Porter, a 1960, quando JK inaugurou a “novacap”, o Rio de Janeiro foi corte e capital da continental Pindorama: 212 anos de poder, charme e glória. Nestes últimos seis decênios, foi Estado da Guanabara, cidade estadual, desaparecida após 15 anos, ora capital do modesto Estado vizinho ao extinto Distrito Federal, a que foi anexado na fusão por obra e desgraça da fase mais brutal da ditadura militar.
Ironia de Clio, deusa da História, o terrível tribuno e talentoso orador que seria o melhor governador do País na menor e menos longeva unidade da Federação, Carlos Lacerda, foi cúmplice do golpe militar que destruiu a democracia liberal de 1946. E fez da “Cidade Maravilhosa” um teatro de horror. Tradutor e intérprete da tragédia Julius Caesar, de Shakespeare, o fluminense de Vassouras fundou o Rio moderno com os Túneis Rebouças e Santa Bárbara e o Parque do Flamengo. Fez ainda a adutora do Rio Guandu, solução para o incômodo cantado na marchinha Vagalume Rio de Janeiro, de Victor Simon e Fernando Martins, sucesso dos Anjos do Inferno no carnaval de 1954: “Rio de Janeiro, cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”.
O “Corvo”, personagem do caricaturista Lanfranco Vaselli, o Lan, foi o apelido dado a Lacerda por quem nunca perdoou seu vezo golpista, que levou Getúlio Vargas ao suicídio. Morto em 1977, ele não tomou conhecimento do atentado terrorista a bombas contra a adutora planejado pelos capitães Jair Bolsonaro e Fábio Passos, dez anos depois. O ato protestava contra os baixos soldos e o então ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, conforme ele disse à Veja: “Nosso Exército é uma vergonha nacional, e o ministro está se saindo como um segundo Pinochet”. O oficial foi processado por “deslealdade e indisciplina” e absolvido por decisão absurda do Superior Tribunal Militar, que considerou laudos “inconclusivos” de croquis provas a favor do réu.
O dono da bela voz que deixou gravados os textos imortais do bardo de Stratford-upon-Avon sobre a conjura contra César talvez concordasse com o terrorista fardado, após ver abortado seu projeto de disputar a Presidência, em 1965, com JK, também traído pelos militares. Mas a morte o privou de testemunhar o terrorismo malsucedido do atual presidente. E ainda o pouparia de ver o “mar de lama” que atribuía a seu inimigo maior, Getúlio Vargas, tornar-se uma poça, instalada nos jardins do Palácio Guanabara, de cujos aposentos cinco de seus sucessores no governo do Estado fundido foram levados para celas.
Quem acompanha o destino do Rio pode às vezes se deixar seduzir pelo lugar-comum de atribuir a características especiais da urbe construída entre o mar e a montanha seu inglório destino de hoje. De fato, o “Rio de Janeiro, fevereiro e março”, cantado pelo baiano Gilberto Gil, é o retrato ampliado de uma situação além do carnaval de fevereiro e do golpe de março (ou abril?). Nada há de específico nela que seja substancialmente diferente do restante do Brasil. Ampliada pelas lentes das redes de televisão nela instaladas, na metrópole onde Lacerda morreu e a famiglia Bolsonaro passou a mandar por decisão judicial, a realidade é estampada por um gaú-cho de Rondinha com carreira jurídica no Paraná, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin. Em ofício ao presidente do órgão, o carioca da gema Luiz Fux, ele descreveu o sistema criminal brasileiro como “injusto e desigual” para a população menos abastada e “leniente com os poderosos”.
O panorama atual do Estado é uma amostra que salta aos olhos com as distorções definidas de forma exata. O governador Wilson Witzel, militar de origem e juiz de ofício, foi afastado por seis meses pela Operação Placebo, que também investiga o vice, Cláudio Castro, que assumiu o cargo sem perspectiva de volta do titular. O pastor Everaldo Dias Pereira, tido como governador ad hoc na gestão punida, foi preso. Filhos do presidente da República, Flávio, Carlos e Eduardo, assumiram o lugar daquele que os batizou no Rio Jordão.
Disputa a reeleição o prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado de uma das confissões beneficiadas por lei esdrúxula do Congresso perdoando R$ 1 bilhão de multas por infrações, que mereceu do pai do trio o absurdo de vetar e sugerir aos asseclas no Congresso a derrubada do próprio veto. A desembargadora Rosa Helena Guita quebrou o sigilo do processo contra Crivella, argumentando que a medida, “ao contrário do que se argumenta, está escorada em extenso material probatório, fruto de criterioso trabalho de investigação”. Por enquanto, a sanção aplicada ao alcaide limita-se à expulsão do lugar de papagaio de pirata do presidente da República em solenidade oficial.
O domicílio eleitoral do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que há 18 meses engavetou o projeto que põe fim ao foro privilegiado de parlamentares, é o Rio. Como o dos beneficiados Flordelis dos Santos de Souza e Flávio Bolsonaro. Mas isso é mera coincidência geográfica.
JORNALISTA, POETA E ESCRITOR









