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Mentiras criminosas e mentiras amenas

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 03h00

Bem-aventurados os que nunca tiveram uma crise de enxaqueca, pois não suportaram o sofrimento por horas, ou até dias. Janelas e cortinas são fechadas: a luz e o som são inimigos da cabeça à deriva. Para este pobre paciente, é impossível pensar, amar, comer, conversar, ler. Impossível desfrutar da beleza do mar, de uma borboleta, de uma flor, do riso de uma criança. Quase impossível viver, tal é a intensidade da dor.

Planalto
Grandes e pequenas mentiras de governantes manipulam uma parte da sociedade e falsificam a realidade Foto: Pablo Valadares/Estadão

João Cabral de Melo Neto sofria desta doença crônica. Quando não queria dar entrevista ou participar de um evento, ele inventava uma enxaqueca. Essa mentira era apenas circunstancial: o grande poeta deu à nossa literatura “Num monumento à aspirina” um poema que traduz a verdade profunda daquela dor. 

E não é verdade que, em algum momento, pais e filhos probos lançam mão de mentirinhas? 

Certas mentiras plausíveis não causam danos a ninguém, ao contrário das grandes e pequenas mentiras do poder, que podem provocar tragédias avassaladoras. Em março de 2003, uma coalização comandada pelo governo norte-americano de George W. Bush bombardeou e invadiu o Iraque, causando centenas de milhares de mortes e a destruição desse país. Relatórios do serviço de inteligência britânica negaram que o Iraque do ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, e provaram que este país nada tinha a ver com os ataques de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas em Nova York. Além disso, em julho de 2016, o Relatório de Investigação sobre o Iraque – Relatório Chilcot – questionou os argumentos do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, que se unira a Bush e seus falcões para bombardear o país árabe. Uma das conclusões do inquérito coordenado por sir John Chilcot é que a guerra era desnecessária. Blair foi a público para pedir desculpa. O jornalista e escritor Robert Fisk (1946-2020), o mais premiado correspondente no Oriente Médio, declarou com um humor britânico: “Se o Iraque fosse o maior exportador de batatas, não teria sido destruído”. 

No dia 6 de maio, o jornal Haaretz noticiou que mais de 185 israelenses – cientistas, professores, escritores, militares da reserva – assinaram uma carta alertando o Tribunal Penal Internacional (Haia) a não aceitar as conclusões do governo de Israel sobre supostos crimes de guerra cometidos contra a população civil palestina da Faixa de Gaza, de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia. Esta carta – com uma dezena de signatários premiados – pede ao TPI que as organizações de direitos humanos israelenses investiguem a sistemática discriminação contra os palestinos nos territórios ocupados e examinem crimes específicos, tais como: apropriação de terras palestinas para a construção de colônias, e várias formas de injustiça sancionadas por tribunais militares de Israel. Aliás, não apenas militares, como destacou o Haaretz num editorial (8/6/21): “Por décadas, os tribunais têm se baseado num sistema legal discriminatório. Mas é um sistema difícil de defender no âmbito internacional, e não pode ser aceito como algo lógico ou moral por qualquer pessoa sensata”.

Nesse sentido, o Relatório Chilcot e ONGs como o B’Tselem (Centro de informações israelenses para os direitos humanos nos territórios ocupados) questionam as mentiras de governantes e buscam recuperar constantemente uma verdade histórica. 

Segundo o jornal The Washington Post, o ex-presidente Trump tinha divulgado mais de 16 mil notícias falsas ou enganosas até janeiro de 2020. O presidente do Brasil e seu “Gabinete do ódio” parecem inspirar-se nessas mentiras e, com frequência, as copiam e divulgam em suas redes sociais. Certamente vão continuar a divulgar outras fantasias criminosas até o fim desse primeiro e, espero, último mandato presidencial. 

Grandes e pequenas mentiras de governantes manipulam uma parte da sociedade e falsificam a realidade. Nos depoimentos de várias autoridades governamentais convocadas pela CPI da pandemia, as mentiras alternavam com falas contraditórias, como se péssimos atores e atrizes encenassem uma peça farsesca. 

O que de positivo se pode esperar de um governo movido pela mentira? Até mesmo a agenda, dita liberal, mais parece conversa fiada. Não há agenda nem projeto para o País. Há, sim, fake news em profusão e um vazio de propostas para a sociedade brasileira. O que predomina é o caos. Nesse caos, assistimos a uma desmontagem sistemática de conquistas republicanas, muitas ainda incompletas ou em gestação, pois a construção de um estado democrático sólido é árdua e incessante. Não serão quatro anos perdidos, e sim décadas. 

À frente de tudo isso, um presidente desqualificado que, desde o dia da posse, só se preocupa com sua reeleição, usando um discurso absurdamente mentiroso e cínico de que sua própria eleição em 2018 foi fraudada e de que haverá fraude em 2022. Ele diz sem rodeio que será reeleito a qualquer custo, insinuando a adesão de policiais, milicianos e extremistas à tomada do poder. Esse talvez seja o verdadeiro e único projeto do senhor Messias, de sua prole e de bajuladores interesseiros, todos sem um pingo de vergonha, mas que envergonham a muitos brasileiros e ao mundo. 

É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE’

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