O custo da vitória de Michel Temer

Como não é proibido a um liberal ser bem-humorado, o economista Roberto Campos – quando desafiado por tabelas e estatísticas complexas – dizia que os números são como os biquínis: mostram muito, mas escondem o essencial.
Que Michel Temer venceu, venceu. A Câmara dos Deputados rejeitou a denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot que o transformaria no primeiro presidente no exercício do mandato a ser processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas às vezes o diagnóstico de uma vitória ou derrota guarda pouca relação com os resultados dos campos de batalha. Claro, se Temer tivesse tangenciado o número mágico de 308 votos a seu favor (necessário a aprovar emendas à Constituição) teria mostrado musculatura, capacidade de resistir aos apelos corporativos e à pressão por mais gastos. Sem alcançá-lo, o presidente, seus ministros, spin doctors, e aliados perderam a luta pela definição da realidade. Temer ganhou, mas não levou.
Para especialistas, população não foi para as ruas porque está descrente
RIO — No dia 17 de abril do ano passado, quando a Câmara autorizou a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, 79 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar (PM), ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Manifestantes pró e contra o afastamento da petista foram separados por um muro, como forma de prevenir atos violentos. Ontem, cerca de 350 pessoas se reuniram no gramado em frente ao Congresso, no final da tarde, para pedir que os deputados autorizassem a investigação por corrupção passiva contra o presidente Michel Temer. Durante o dia, o gramado da Esplanada dos Ministérios tinha três manifestantes — dois desistiram e foram embora, sobrou um.
Análise: Temer mostrou conhecer como poucos a alma do parlamento
Uma das máximas atribuídas a Antônio Carlos Magalhães era de que na política é necessário saber dar a cada aliado o que ele espera de você: alguns querem dinheiro, outros poder, outros proteção. E é fundamental não confundir as demandas. O resultado da sessão desta quarta-feira coloca o presidente Michel Temer no panteão dos detentores dessa arte da política.
Desde que tornou-se alvo da delação da JBS, revelada pelo GLOBO, Michel Temer usou tudo o que tinha em mãos: distribuiu cargos, abriu os cofres públicos a demandas duvidosas, entregou um mar de emendas parlamentares para as bases políticas de deputados, recebeu no gabinete presidencial todo tipo de deputado, sem qualquer linha de corte.
Todo poder ao Centrão
José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo
03 Agosto 2017 | 00h32
A líder do PSB orientando voto contra mas avisando que votaria a favor de Temer sintetiza o que foi ontem a apreciação da primeira denúncia contra o presidente da República pela Câmara: os partidos valem nada. Ao menos como representação política. Tanto que o grosso da barganha feita pelo Planalto para sustentar o chefe não foi com lideranças partidárias, mas com bancadas temáticas: ruralistas, sindicalistas, sonegadores.
Organizadores lamentam baixa adesão em atos
Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo
03 Agosto 2017 | 04h02
As principais entidades que se organizaram para pedir a abertura de processo contra o presidente Michel Temer fizeram protestos em São Paulo e nas principais capitais brasileiras considerados esvaziados até mesmo por seus líderes.
Impopular, impune e presidente
Eloísa Machado de Almeida*, O Estado de S.Paulo
03 Agosto 2017 | 04h13
A decisão do plenário da Câmara concede imunidade frente à acusação de corrupção passiva feita em denúncia baseada nas conversas nada republicanas de Michel Temer com Joesley Batista e no vídeo de Rodrigo Rocha Loures com sua mala de dinheiro. Essa imunidade impede que as investigações prossigam enquanto Temer ocupar a Presidência, mas não afeta a apresentação de novas denúncias nem que se dê continuidade às investigações após deixar o cargo.

