Açude Germinal, em Pacoti, sangra nesta quarta-feira (30)
O açude Germinal, em Pacoti, começou a sangrar nesta quarta-feira (30). O reservatório tem capacidade para 2,11 hectômetros cúbicos de água. Outros dois, o Cocó e o Jenipapo, também estão com mais de 90% do volume. Segundo a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), também foram registrados aportes em 17 açudes do Ceará. O destaque foi para o Jaburu I, em Ubajara.
O aumento do volume dos reservatórios foi proporcionado pelas chuvas, registradas em 50 postos pluviométricos monitorados pela Funceme.
Em Iguatu, por exemplo, houve chuva de 59mm, nesta terça-feira (29). Já em Acopiara, foi registrada precipitação de 58 mm.
Oito açudes estão em situação de alto risco no CE

A aproximação da quadra chuvosa de 2019 (fevereiro a maio) traz preocupação sobre a situação estrutural de açudes no Ceará. O Relatório de Segurança de Barragens (RSB), divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA) em novembro de 2018, classifica, no Ceará, oito em situação de risco considerado alto, e 19 em médio. No Estado, a ANA tem cadastrados 188 reservatórios.
O relatório da ANA foi elaborado com base na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). No Ceará, os que apresentam classificação em alto risco são Ayres de Souza (Sobral); Forquilha (cidade de mesmo nome); Frios (Umirim); Lima Campos (Icó); Paulo Sarasate (Varjota); Pompeo Sobrinho (Choró); Roberto Costa - Trussu (Iguatu); e Várzea do Boi (Tauá).
Outros 19 apresentaram risco médio, e 80 não receberam nenhuma classificação. Em 2016, o Ceará tinha 10 de 25 barragens com estruturas comprometidas no Brasil, segundo relatório da ANA apresentado em outubro de 2017.
No relatório de novembro de 2018, não havia referência sobre as outras barragens, que foram citadas no documento anterior: Poço Verde (Itapipoca), Jaburu (Ubajara), Tijuquinha (Baturité), Cupim (Independência) e Pau Preto (Potengi).
Na região Centro-Sul do Ceará, dois açudes apresentam erosões - buracos, fissuras nas paredes e presença de vegetação: Lima Campos, em Icó; e Trussu, em Iguatu. Esses problemas trazem preocupação para os moradores, que aumenta com o desastre recente ocorrido em Brumadinho, Minas Gerais. A situação do Lima Campos é a mais grave. Há um enorme buraco e mais outros de dimensão menor nas duas faces da parede. O problema se agrava desde 2016.
Placas de cimento estão cedendo e há rachaduras que se estendem por mais de cinco metros. Um buraco com cerca de dois metros de profundidade, cinco metros de comprimento e quase um metro de largura, na ombreira direita da parede, próximo à galeria, desperta a atenção de visitantes e traz medo para os moradores da vila, que temem rompimento em caso de cheia do reservatório.
"Esse buraco vem aumentando a cada ano, mesmo com pouca chuva. A nossa sorte é que ainda não choveu para encher o açude", disse o agricultor e morador da Vila Lima Campos, há 30 anos, José Ferreira da Silva. Ele entrou na cratera para demonstrar a sua profundidade e ficou assustado com a extensão. "Existe sim o risco de arrombar a ponta dessa parede. "Com certeza, traz medo para todos".
O professor de Geotecnia do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC), Silvrano Dantas, observou que há necessidade de se fazer um estudo sobre a situação dos açudes no Ceará. "Se os açudes apresentam rachaduras, erosões, em condições pouco severas como as nossas, é um indicativo de problema, e por isso necessitam de cuidado, análise de risco e de obras de conservação, recuperação", pontuou.
Conserto
Silvrano Dantas defende a rápida ação do governo para estudo e definição de medidas corretivas. "Alguns são problemas conhecidos há muito tempo, mas que são negligenciados. A análise sobre as condições das barragens exige tempo e recursos". O professor observou que esse período em que muitos açudes estão secos ou com nível baixo seria oportuno para obras de conservação e conserto dos problemas estruturais.
O professor da UFC diferenciou as barragens de contenção de rejeitos de mineração em Minas Gerais dos açudes edificados no Ceará. "Aquelas barragens são aterros controlados, que recebem rejeitos e vão se ampliando, e os nossos açudes apresentam maior controle e maior segurança, desde que o projeto tenha sido executado corretamente".
Em fevereiro de 2018, o Diário do Nordeste publicou reportagem intitulada 'Quatro barragens estão com problemas estruturais graves' que mostrava que os reservatórios federais no Ceará, administrados pelo Dnocs, encontravam-se no nível de perigo classificado como 'alerta' - de magnitude média; e outros 15 em 'atenção'.
Na época, a preocupação recaía com os reservatórios Patu (Senador Pompeu); Quixeramobim, na cidade de mesmo nome; Várzea do Boi (Tauá); e Açude Frios (Umirim) que estão em nível de 'alerta'.
Cogerh
Por meio de nota, a Cogerh informou o seguinte: "As barragens Lima Campos e Trussu são de propriedade do Dnocs, e ao órgão caberia realizar as manutenções. Contudo, a Cogerh realiza, no início de fevereiro, licitação para contrato que garantirá a realização de serviços em diversos reservatórios das 12 bacias hidrográficas do Estado. Os açudes Lima Campos e Trussu poderão ser contemplados com esse processo licitatório, desde que haja anuência do Dnocs".
A assessoria de imprensa do Dnocs esclareceu que a Direção Geral anualmente encaminha relatório sobre as condições estruturais e de segurança das barragens federais para a ANA e para o Ministério da Integração Nacional - agora para o Ministério do Desenvolvimento Regional, mas não recebe os recursos devidos para a realização das obras. DIARIONORDESTE
Brasil, um rio de lama - José Nêumanne

Já correu na boca do nosso povo a piada de que, na criação do mundo, o anjo Gabriel perguntou a Deus por que Ele dotara grande parte do subcontinente sul-americano de muitas belezas naturais, mas o teria poupado de desastres corriqueiros em outras plagas, tais como terremotos, tsunamis e monções. “Ah, mas você precisa esperar pra ver o povinho que vou por lá”, teria respondido o Misericordioso. A anedota pode ter alguma graça, mas é preconceituosa e injusta. A não ser que se considere o fato de que nosso povo vive num Estado de Direito e lhe cabem a prerrogativa e o dever de eleger seus governantes. Está aí a tragédia de Brumadinho a mostrar no noticiário do dia a desídia, a incompetência, a ganância e a insensatez do poder público, cujos ocupantes são escolhidos pela sociedade. E estes estão entre os principais responsáveis pelas mais inacreditáveis tragédias produzidas pela mais que imperfeita obra humana.
Tragédia sem ideologia
Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo
29 Janeiro 2019 | 03h00
Em entrevista à Rádio Eldorado, o ministro Ricardo Salles disse que o meio ambiente “não é questão de direita e esquerda” e “não pode ser capturado por barreiras ideológicas”. Quem haveria de discordar? O ministro tem toda razão, mas nem por isso deixou de jogar pesadas críticas sobre a esquerda.
Segundo ele, a esquerda tem mania de se apossar da defesa do ambiente como se fosse a única preocupada com a preservação do planeta, mas, ora, ora, tanto a tragédia de Mariana quanto a de Brumadinho ocorreram ou durante ou em seguida aos governos da petista Dilma Rousseff em Brasília e Fernando Pimentel em Minas.
Logo, o ministro não quer que a discussão seja entre esquerda e direita, mas ele bem que deu um empurrãozinho para que assim seja. E lembrou que, logo no início, o presidente Jair Bolsonaro sobrevoou a região mineira e sete ministros foram pessoalmente lá. Tomara que esse empenho no calor dos acontecimentos decante em medidas realmente eficazes. Já imaginaram uma terceira Mariana?
Sete anos após transbordar, Orós atinge 2º pior volume da história
"Quando o açude está cheio não fica barco emborcado, ninguém fica parado, sem trabalho. O açude Orós já foi uma riqueza, com caminhões subindo cheio de peixes, mas agora é só sequidão, quase não tem mais pesca. Só Deus para nos salvar". A observação é da pescadora, Lucélia Alves de Lima, de 40 anos e que desde os sete começou a pescar nas águas do segundo maior reservatório do Ceará. Assim como no Castanhão, o cenário do Açude Orós é desolador. O reservatório acumula apenas 5,5% de sua capacidade total, que é de 2.109 milhões m³. A água se distanciou das fazendas, inviabilizando ou reduzindo as atividades agropecuárias locais.
Estiagem mantém Açude Carão sem água há cerca de 6 anos

"É triste não ter água em casa. O cacimbão mais próximo de onde eu moro fica a mais de um quilômetro. Muitas vezes tenho que comprar água pagando caro se quiser manter as panelas no fogo, a casa limpa e os animais saciados". É meio-dia na casa da agricultora Eveline Santos (46), moradora da comunidade de Córregos, em Tamboril, região Norte do Estado. No velho fogão a lenha, as panelas borbulham. O almoço está quase pronto. O cheiro do feijão enche a pequena cozinha e já dá água na boca. Nos dois potes de barro, a pouca água de beber é utilizada com parcimônia pela família de três pessoas que moram nas proximidades do Açude Carão, único reservatório que abastecia a cidade, e que agora está seco.
Pouca chuva
Eveline possui duas cisternas, uma delas de calçadão, que capta a precipitação que cai sobre uma calçada de cerca de 210 metros quadrados e escoa para o reservatório, ao lado da casa.

