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Voluntarismos fora da lei - O ESTADO DE SP

Sob a justificativa de colaborar para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, juízes vêm alterando o uso de recursos públicos, o que foge completamente de sua alçada. A contribuição do Poder Judiciário neste momento tão delicado do País consiste em aplicar a lei. Determinar a destinação de dinheiro público é competência do Legislativo e do Executivo. Além de adentrar no campo do arbítrio, voluntarismos fora da lei produzem desorganização e ineficiência no Estado. Não é assim que o País vencerá o enorme desafio da covid-19.

Na terça-feira passada, o juiz da 4.ª Vara Federal Cível de Brasília Itagiba Catta Preta Neto determinou o bloqueio dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário, colocando-os à disposição do governo federal para uso “em favor de campanhas para o combate à pandemia ou amenizar suas consequências econômicas”. Os recursos somam quase R$ 3 bilhões.

Não deveria existir o Fundo Partidário e tampouco o Fundo Eleitoral. Sendo entidades privadas, os partidos devem ser sustentados com recursos privados, oriundos de seus apoiadores. Mas o fato é que a lei criou tal deformidade – destinando dinheiro público a partidos políticos – e um juiz não pode dispor sobre a utilização desses recursos, o que já foi feito pelo Congresso, alegando que dos “sacrifícios que se exigem de toda a Nação não podem ser poupados apenas alguns, justamente os mais poderosos, que controlam, inclusive, o orçamento da União”.

Em recurso interposto pela Advocacia-Geral da União (AGU) contra a decisão da 4.ª Vara Federal Cível de Brasília, o presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1.ª Região, Carlos Moreira Alves, suspendeu no dia seguinte a liminar, por entender, entre outras razões, que o bloqueio pela Justiça dos fundos “interfere em atos de gestão e de execução do orçamento público, da mesma forma como interfere no exercício de competências constitucionalmente outorgadas a autoridades dos Poderes Executivo e Legislativo”.

Outra frequente interferência do Poder Judiciário em seara que não lhe compete refere-se a recursos devolvidos aos cofres públicos por meio de acordos judiciais com empresas e delatores. Segundo o Estado apurou, a Justiça já destinou à área da saúde cerca de R$ 2,5 bilhões relacionados a ilícitos. Além de não ser atribuição do Judiciário realizar a gestão desses valores, muitos desses casos não envolvem recursos públicos, e sim dinheiro privado que, mesmo depois da descoberta da manobra ilícita, não é restituído ao verdadeiro dono.

No mês passado, por exemplo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou que parte dos recursos oriundos do acordo da Petrobrás com autoridades dos EUA, cerca de R$ 1,6 bilhão, fosse aplicada no combate à covid-19. Trata-se do terceiro destino dado a tais valores. Originalmente, os recursos seriam usados para constituir um fundo anticorrupção, a ser gerido pelo Ministério Público. Diante do escândalo da medida, o Supremo destinou os valores para a educação e a proteção da Amazônia. Agora, parte do montante vai para o combate da covid-19.

É preciso advertir que esses “recursos recuperados pela Lava Jato”, aos quais a Justiça dá a cada momento um determinado destino, não são dinheiro público. No caso, são valores subtraídos da Petrobrás, uma sociedade de economia mista. Seus recursos são, portanto, de seus acionistas. A União é a maior acionista, mas há outros milhares de acionistas privados, cerca de 400 mil, que detêm grande parcela do capital acionário.

Há também decisões em que o Judiciário atua como se fosse o Executivo. Na Paraíba, a Justiça decidiu que R$ 3,8 milhões recuperados na Operação Calvário fossem usados para comprar 15 respiradores pulmonares. Em Mato Grosso, decisão judicial destinou R$ 566 mil recuperados na Operação Ararath ao Hospital Universitário Júlio Muller.

Por mais nobre que seja a finalidade, não há bom uso do dinheiro público fora da lei. O estado de calamidade pública não amplia nenhuma competência da Justiça. Determinar o destino de recurso público continua sendo atribuição do agente político eleito, como dispõe o regime democrático.

Ninguém fica para trás - O ESTADO DE SP

Desde que, no início de fevereiro, o Planalto superou um primeiro momento de hesitação e enviou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para repatriar cerca de 70 brasileiros confinados em Wuhan, na China, o foco de origem do coronavírus, o Brasil tem cumprido com rigor seu dever patriótico de resgatar os nacionais em outros países afetados pela pandemia.

A repatriação implica uma operação complexa que envolve os Ministérios das Relações Exteriores, da Defesa e da Saúde. Por medida provisória, o Itamaraty recebeu cerca de R$ 60 milhões para este fim. Segundo a pasta, a grande maioria de brasileiros em busca de repatriação é de turistas com dificuldades por causa das medidas de quarentena dos países em que se encontram e dos cancelamentos dos voos comerciais. O Itamaraty está cadastrando aqueles que não têm condições financeiras ou estão em países com restrições mais severas, através dos canais oficiais das embaixadas e consulados e da Agência Nacional de Aviação Civil. O Grupo Consular de Crise conta ainda com a colaboração do Ministério do Turismo e da Embratur para viabilizar embarques, incluir brasileiros em voos de repatriação de outros países, liberar vistos emergenciais e organizar deslocamentos em regiões com restrições de trânsito.

“A prioridade continua a ser dada para que os brasileiros possam ser acomodados em voos comerciais”, declarou em nota o Itamaraty. Na ausência desses voos ou em casos de fechamento de espaço aéreo, “estamos vendo maneiras de pagar voos fretados”, disse o chanceler Ernesto Araújo. “Tentaremos, claro, negociar pelo valor mais em conta possível com as companhias aéreas para trazer de volta os brasileiros. Será a única possibilidade em muitos casos.” Em última instância, pode ser necessário mobilizar aeronaves da FAB.

Nas últimas semanas o número de brasileiros repatriados chegou a 11,5 mil. Cerca de 5 mil ainda estão retidos em países diversos. O maior contingente está em Portugal, de onde já foram resgatados mais de 6 mil nacionais. Cerca de 1.500 ainda aguardam a repatriação. Apesar da quantidade, a situação é menos crítica do que em países onde a circulação é rigorosamente proibida.

O Equador, por exemplo, adotou medidas restritivas de circulação de pessoas e fechou suas fronteiras. Na semana passada, através de um voo fretado da Gol, foram resgatados 160 brasileiros retidos no país. No Peru, mais de mil brasileiros que estavam em Cusco e Lima foram repatriados em voos fretados, além de dois aviões da FAB, mas aqueles em cidades mais distantes ainda enfrentam dificuldades. Como mostrou reportagem do Estado, alguns brasileiros em Arequipa e mesmo em Cusco foram impedidos de sair dos hotéis em que estão em quarentena para embarcar nos voos oferecidos pela embaixada.

Em Cuba, pelo menos 25 turistas brasileiros correm o risco de ser multados ou presos caso deixem a sua hospedagem e, além disso, encontram dificuldade em programar sua saída por causa da escassez da rede digital. Na Índia, onde o governo nacional decretou um rígido confinamento, quase 180 turistas distribuídos em 27 cidades buscam resgate. Na Tailândia, cerca de 200 brasileiros aguardam repatriação.

Há casos especialmente complicados, como o dos quatro brasileiros que embarcaram em um cruzeiro em Buenos Aires com destino a San Antonio, no Chile. Com mais de 1.800 pessoas a bordo, ao menos 2 estão infectadas com a covid-19 e outras 4 morreram. Dois dos brasileiros foram transferidos junto com os demais passageiros sem sintomas para outra embarcação. Agora, os dois navios seguem para Fort Lauderdale, na Flórida, mas as autoridades locais já se manifestaram contrárias ao desembarque.

São em momentos de crise como esta que a palavra “pátria” recobra a sua conotação mais familiar e primitiva de “casa paterna”. Em meio ao pânico disseminado por todo o planeta, a repatriação é um processo delicado e complexo. Felizmente, a Nação brasileira está combinando diligência e agilidade para trazer seus filhos em segurança de volta ao lar.

Coronavírus não é habeas corpuS - Luiz Fux, O Estado de S.Paulo

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), capitaneado pelo zeloso presidente Dias Toffoli, editou a Recomendação 62/2020, indicando a juízes e tribunais a adoção de medidas preventivas contra a propagação do coronavírus no sistema de Justiça Penal e socioeducativo. A recomendação foca na redução do ingresso de custodiados, em cuidados adicionais para as audiências, incluindo a suspensão das audiências de custódia, e na ação conjunta entre os Poderes para a elaboração de planos de contingência, inclusive em relação às visitas.

Os fundamentos do CNJ são acertadamente calcados em razões humanitárias. O Estado, posto garantidor da saúde e da integridade física e mental do preso, deve atuar ex ante, evitando uma catástrofe num cenário de aglomeração carcerária e de alta transmissibilidade viral

No entanto, a prevenção humanitária engendrada pelo CNJ não pode ser interpretada como uma concessão automática e geral de habeas corpus. Trata-se de recomendação, não de uma determinação do CNJ, cabendo aos juízes e tribunais a ponderação, caso a caso, entre os valores saúde e segurança pública.

O próprio Supremo Tribunal Federal (STF), dias após o ato do CNJ, deixou de deferir pedido cautelar que requeria a liberação de custodiados por crimes não cometidos com violência ou grave ameaça. Neste ponto, forçoso é dizer que a elite delinquente não gosta de sujar o colarinho e normalmente não comete crimes de sangue. De qualquer modo, nesse julgamento, a preocupação do Supremo Tribunal destinou-se à segurança da sociedade. Durante os debates restou claríssimo que não poderiam ser favorecidos presos por crimes hediondos e equiparados, crimes contra a administração pública, como corrupção e peculato, crimes de organização criminosa e de tráfico de drogas, além de outros delitos de maior potencial ofensivo, ressalvados os casos de doenças já detectadas e não passíveis de tratamento no ambiente carcerário.

Diante de vírus com transmissão massiva, a regra é a liberação dos presos do regime semiaberto, com as cautelas de estilo. No entanto, por si só o regime da pena não é suficiente para a liberação do preso. Afinal, a liberdade do custodiado não pode custar mais à sociedade do que a sua manutenção no cárcere. Essa também tem sido a preocupação de países que adotaram recomendações humanitárias semelhantes, tais como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Polônia e a Itália.

É dizer: sob pena de se instituir uma política criminal perversa e de danos irreversíveis, a aplicação da Recomendação n.º 62/2020 não pode levar à liberação geral e sem critérios dos custodiados. Os bons propósitos da recomendação prevalecem se conjugados com critérios rigorosos para a liberação excepcional do preso. 

Destaco pelo menos três critérios: 1) obediência à legislação penal e processual penal, que se sobrepõem à recomendação do CNJ; 2) análise das consequências de eventual liberação do preso, ante a gravidade do crime praticado e a possibilidade concreta de, fora do sistema, aquele indivíduo violar as recomendações de isolamento social ou, ainda, cometer novos crimes; 3) análise da possibilidade de isolamento dos presos acometidos da covid-19 em área separada do próprio sistema prisional ou de encaminhamento pata a rede de saúde pública ou particular.

Quanto a este último ponto, ressalto que ainda não há casos de contaminação nos presídios, fator que decerto demandaria providências excepcionais, mas localizadas, dos poderes públicos. Preventivamente, outras medidas também devem ser adotadas, como a testagem dos presos, especialmente aqueles que ingressarem no ambiente carcerário durante a pandemia.

Aliás, a alta comissária para os direitos humanos das Nações Unidas, Michelle Bachelet, orientou os países a “examinarem maneiras de libertar aqueles particularmente vulneráveis à covid-19, entre os detidos mais velhos e doentes, assim como os infratores de baixo risco”. Reforçando esse critério mais restritivo, merece destaque estudo conduzido por Keith Ditcham, pesquisador especializado na análise da polícia e da criminalidade organizada do Britain’s Royal United Services Institute, segundo o qual cenários como os do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e do Egito serão mais difíceis de administrar se um número considerável de prisioneiros for libertado, especialmente quanto às dificuldades de reencarceramento. Nesse ponto, cabe alertar que o Ministério da Justiça e da Segurança Pública apurou que até dia 3 deste mês de abril foram liberados mais de 31.640 presos, muitos deles com ligação com o crime organizado.

Enfim, cada magistrado deve ter em mente a seguinte percepção consequencialista: a liberação de presos de periculosidade real é moralmente indesejada, pela ânsia de conjuração da ideia de impunidade seletiva, e não pode tornar a dose das recomendações humanitárias um remédio que mate a sociedade e seus valores, criando severíssimo risco para a segurança pública.

Em suma: coronavírus não é habeas corpus.

VICE-PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

As dores do isolamento

Pandemias assolam a humanidade há séculos. Ficaram famosas a Peste Negra, no século 14, e a Gripe Espanhola, no século 20. Milhões morreram, por falta de meios para frear essas catástrofes sanitárias.

Coronavírus: Cloroquina traz esperança, mas com cautela

Hoje tudo mudou. A Ciência se tornou um recurso essencial para a vida humana, e orienta as mais eficazes iniciativas de contenção e mitigação das epidemias. Ficou comprovado que um dos meios de reduzir a velocidade de transmissão de vírus letais como o coronavírus é o isolamento social. Mal menor, porque ele também traz problemas, principalmente sobre a saúde mental. É preciso estudar esse aspecto, para encontrar os meios de controlá-lo.

Várias experiências de isolamento humano têm sido estudadas: o inverno polar, por exemplo, pode atingir o equilíbrio emocional dos pesquisadores e militares residentes naquelas lonjuras congeladas. Outras situações extremas têm sido objeto de estudo por psicólogos e psiquiatras: estações espaciais, submarinos, prisões, e até UTIs.

Mais do blog: O que aprendemos com os casos de coronavírus

As epidemias virais, já incluindo a Covid-19, foram avaliadas nesse aspecto por recente trabalho de revisão bibliográfica publicado por um grupo de pesquisadores ingleses. Foram muitos os efeitos identificados: psicológicos (depressão, estresse, transtornos do sono), corporais (obesidade, dores, baixa imunidade), e sociais (assédio e violência), para citar apenas alguns.

O grupo identificou os principais agentes estressores: longa duração da quarentena, falta de informação, medo de infecção, tédio, perda de renda, fome e, não bastasse isso tudo, o temor de ter sido infectado. Alguns trabalhos analisados relataram sintomas persistentes que potencialmente evoluiriam para ansiedade, transtornos de estresse pós-traumático e pânico.

Um outro grupo de pesquisa, trabalhando na China nos últimos meses, inquiriu mais de 1200 pessoas em quase 200 cidades, 85% das quais com 20-24 horas por dia em casa. 75% relataram enorme medo de infectar seus familiares. Pouco mais da metade apresentou sintomas de impacto psicológico moderado a severo, quase 30% apresentaram ansiedade e cerca de 20%, depressão. Sintomas físicos também foram detectados: dores musculares, tonteira, dor de garganta.

As recomendações emanadas desses trabalhos foram simples e intuitivas. A primeira: aumentar a percepção individual de controle sobre o risco, por meio de frequente higiene das mãos, proteção da boca e do nariz com o braço ao espirrar ou tossir, e uso de máscaras. A segunda: fortalecer o capital social da população isolada (confiança na sociedade), por meio do constante fluxo de informação sobre a pandemia, avaliação da eficácia real de terapias propostas, e atualização sobre as rotas de transmissão do vírus.

O isolamento social é indispensável, mas não inócuo: tem um custo psicológico, além dos prejuízos sociais e econômicos. Não há outra saída para retardar e frear o avanço da doença, mas é preciso dosar bem a duração do isolamento para obter resultados sem prejuízos psicossociais graves. Esse é o desafio que temos pela frente. O GLOBO

Revendedores de gás de cozinha apontam escassez em 7 estados; Petrobras nega

Marta NogueiraRodrigo Viga Gaier / FOLHA DE SP
RIO DE JANEIRO | REUTERS

Há escassez de gás de cozinha em sete estados brasileiros e no Distrito Federal, diante de uma maior demanda em meio à pandemia do coronavírus, segundo o presidente da associação brasileira dos revendedores do produto, Alexandre Borjaili.

Ele comentou ainda que há indicações de que o governo e a Petrobras, responsável pelo abastecimento de GLP no Brasil, não estavam preparados para o aumento da demanda do produto.

O abastecimento do chamado Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) está comprometido na Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, segundo levantamento da Associação Brasileira dos Revendedores de GLP (Asmirg-BR) junto às associadas.

"Não há uma transparência sobre o que a Petrobras está produzindo hoje e o que ela está importando", afirmou Borjaili, cuja associação representa mais de 20 mil revendedores de todo país, apontando também uma falta de transparência do governo para lidar com a situação.

"Há um agravante ainda, a partir de amanhã o governo começa a liberar uma ajuda emergencial a toda a população brasileira, a primeira coisa que vão fazer é comprar alimento e gás. Vai ter um aumento da demanda novamente", disse Borjaili, frisando que não há um planejamento por parte do governo para lidar com a situação.

Uma fonte da Petrobras afirmou que não há escassez de gás de cozinha, conforme relatado pelo presidente da associação de revendedores. E que a companhia está importando volumes acima da média que ainda precisam ser distribuídos pelas outras partes da cadeia.

"O volume de GLP está mais do que adequado para atender a demanda. O que ainda precisa ser otimizado é a logística de internação do produto. Mas isso é tarefa das distribuidoras e revendedores", afirmou a pessoa, que preferiu ficar no anonimato.

"Tem que colocar o guizo no pescoço dos gatos corretos", acrescentou.

Após negar no início desta semana a falta do insumo, o governo publicou uma nota nesta quarta-feira reconhecendo que há impactos no abastecimento de GLP, por um aumento de 23% da demanda em todo o país, "devido ao isolamento social para evitar o coronavírus, com as famílias ficando mais tempo em casa e adotando novos hábitos".

A pasta disse também que a Petrobras antecipou algumas ações para abril, importando volume equivalente a 27,4 milhões de botijões de gás de cozinha de 13 kg e ampliou sua atual infraestrutura de abastecimento.

Segundo o ministério, houve ainda o restabelecimento operacional de um duto que liga Santos à Mauá, acrescentando mais um ponto de entrega de GLP próximo aos principais centros de consumo do país e aumentando a velocidade de interiorização do produto.

Na segunda-feira, no entanto, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, chegou a afirmar em uma videoconferência transmitida na internet que havia oferta suficiente de GLP no Brasil e que ainda via espaço para uma queda adicional nos preços do insumo, reiterou Borjaili.

A afirmação fez com que a Asmirg-BR enviasse ao Ministério de Minas e Energia um ofício onde cobrava respostas.

"Estamos sendo rotulados como 'marginais', a cada vez que publicam que existe gás, tanto o Ministério Público como os consumidores querem entrar nas revendas para conferir, estamos prestes a sermos saqueados até mesmo nos botijões vazios, pela falta de transparência dos órgãos que regulam o setor", afirmou Borjaili no ofício, visto pela Reuters.

As informações sobre a falta de gás de cozinha vêm surgindo desde o final de março, o que levou a Petrobras a anunciar uma importação adicional do produto, após uma corrida às compras do botijão em meio a preocupações com a oferta devido a medidas de controle do coronavírus.

No ofício, a Asmirg-BR pede ainda previsões reais da Petrobras quanto ao refino e quantidade importada "diante da necessidade que o Brasil vive".

Procurada, a Petrobras enviou um posicionamento reiterando que está ampliando o fornecimento de GLP a fim de garantir o abastecimento do mercado e voltou a dizer que "não há risco de falta do produto nem há qualquer necessidade de estocar botijões de GLP".

A estatal ressaltou que o volume total contratado em abril para importação é quase o triplo do usual importado em períodos normais.

A empresa reconheceu ainda que houve uma redução do processamento das refinarias, devido a uma queda da demanda dos demais combustíveis como gasolina, diesel e querosene de aviação, e que a redução da produção de GLP pela empresa está sendo compensada pelas importações do produto.

Questionada se a companhia não poderia aumentar o refino de petróleo, com o objetivo de produzir mais GLP, a fonte disse que isso não valeria a pena, em um momento em que o consumo de outros combustíveis está em queda.

"Se produzirmos mais GLP, vamos ter que produzir mais gasolina, e a demanda de gasolina ainda esta muito baixa. Por isso, agora está valendo mais a pena importar um pouco mais.

Cientistas acendem alerta para falta de credibilidade de previsões sobre coronavírus

Everton Lopes Batista / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

O desejo por respostas diante da pandemia do novo coronavírus faz cientistas publicarem dados de pesquisa a toque de caixa. A divulgação das informações tem como objetivo municiar governos para que adotem melhores medidas de combate à doença a partir de projeções.

Um grupo de pesquisadores europeus fez um alerta, afirmando que algumas das predições, baseadas em levantamentos frágeis em sua maioria, podem levar a enganos.

Em artigo publicado na terça (7) na revista científica britânica The BMJ (antigamente conhecida como The British Medical Journal), uma das publicações de maior prestígio na área da saúde, os pesquisadores analisaram 31 modelos usados em 27 estudos para detectar a infecção (diagnóstico), prever futuras complicações em pacientes com a doença e identificar os grupos de risco para a Covid-19.

Em todos esses modelos foi encontrado um alto risco de presença de viés, ou seja, resultados tendenciosos. A falta de uma amostra representativa de pacientes nas pesquisas, a exclusão de participantes no meio dos experimentos e análises estatísticas insuficientes são as principais causas apontadas pelos autores do artigo.

 

Nos seis estudos selecionados que desenvolveram um modelo para predizer o risco de mortalidade em pacientes com a Covid-19 ou suspeita de infecção, a porcentagem de mortes, ou seja, a taxa de letalidade, variou entre 8% e 59%.

Para os pesquisadores, essa distorção nos números é fruto de uma amostra enviesada, que excluiu participantes ainda doentes do estudo e, assim, o desfecho da infecção (morte ou recuperação) não fez parte dos resultados finais.

A escassez de dados clínicos de pacientes, ainda limitados aos dados de China, Itália e poucos registros internacionais estão entre as barreiras encontradas para a criação de bons modelos de previsão, dizem os pesquisadores.

No caso dos estudos criticados no artigo, os modelos desenvolvidos servem bem para descrever os dados coletados, anteriormente observados, mas são ineficazes para fazer previsões —o que, em estatística, é conhecido como sobreajuste.

Os 31 modelos descritos no trabalho foram divulgados como tendo boa ou excelente performance de predição, mas os pesquisadores que fizeram a crítica consideram esse posicionamento otimista.

“O alto risco de viés implica que esses modelos irão provavelmente ter uma performance pior do que a relatada [por seus criadores]. É necessária uma orientação metodológica no desenvolvimento e na validação dos modelos de predição, uma vez que previsões duvidosas podem causar mais danos do que benefícios quando usados para guiar decisões clínicas”, escrevem os autores do artigo.

A falta de uma base de dados confiável também é um entrave para que pesquisadores brasileiros possam fazer análises e criar modelos de previsão para a evolução da epidemia no país, segundo Paulo Inácio Prado, professor do Instituto de Biociências da USP e parte do Observatório Covid-19 BR, que reúne cientistas de diferentes universidades para monitorar a situação da doença no país.

Segundo Prado, a forma como os testes para detectar a infecção são feitos pode levar a estimativas que subestimem ou superestimem a letalidade do vírus.

Por exemplo, se apenas os casos mais graves são testados, a taxa de letalidade pode ficar maior do que é na realidade, já eles têm maior chance de terminar em morte do que os casos leves.

Por outro lado, uma testagem que privilegie os mais jovens, que geralmente têm menos complicações da doença, pode fazer com que a letalidade do vírus seja subestimada.

Em meados de março, o secretário-executivo do Ministério da Saúde João Gabbardo dos Reis afirmou que a prioridade nos testes é para os casos graves.

No Brasil, ao menos 800 pessoas morreram pelo novo coronavírus, de acordo com dados do ministério divulgados nesta quarta (8). A taxa de letalidade está em 5%.

Na Itália, país que registra o maior número de mortes até o momento, essa taxa está perto de 12%, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. Na Alemanha, o número fica próximo de 2%.

“A gente não sabe o que tem por trás da base de dados. O ministério e as secretarias deveriam dar mais informações sobre os bastidores desses dados. Assim, os pesquisadores poderiam fazer estimativas melhores”, conclui Prado. ​

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