Coronavirus sem politicagem - FERNÃO LARA MESQUITA
Muito além da cloroquina /VESPEIRO
Alexandre Fernandes, 44 anos, empresário de Joinville, esportista, não fumante, sem nenhuma “co-morbidade”, era um dos membros da comitiva de Jair Bolsonaro na fatídica viagem a Mar-A-Lago, o resort de Donald Trump em Palm Beach, Florida, no começo de março de que quase todos os participantes menos os presidentes brasileiro e americano voltaram contaminados pelo coronavirus.
Fernandes desembarcou no Brasil dia 11 de março, uma 4a feira, sentindo um certo excesso de cansaço, dor no corpo e um pouco de febre. Na 5a ligou para seu médico, o imunologista dr. Roberto Zeballos, passou no consultório em São Paulo e colheu material. Sábado já tinha o resultado: positivo para coronavirus.
Domingo começou a falta de ar. Fernandes baixou ao hospital Vila Nova Star para a primeira tomografia. O pulmão estava cheio de manchas. 20% comprometido. A saturação de oxigênio baixara a 85 quando o normal é em torno de 98. Além do cateter injetando 1 litro de oxigênio por minuto nas narinas, passou a ser tratado com remédios para baixar a febre e antibióticos para prevenir infecções oportunistas.
Segunda-Feira já não tinha forças para comer nem podia passar sem o cateter de oxigênio na dose de 2 litros por minuto. Na 3a já não tinha forças para ir até o banheiro sozinho. Na 4a passou a 4 litros de oxigênio por minuto. Na 5a o PCR, um indicador de imunologia que marca inflamação a partir do grau 4, chegara a 14 e o jovem saudabilíssimo de apenas seis dias antes não conseguia erguer o celular para … despedir-se da família.
“Senti minha vida indo embora”…
Fez a segunda tomo e a imagem que surgiu era sinistra. 80% do pulmão estava afetado. Foi para a UTI com os médicos discutindo a iminente entubação, momento a partir do qual a medicina praticamente se rende e tudo fica nas mãos de deus.

Mas ele escreve reto por linhas tortas.
Antes da decisão final o dr. Zeballos recorre ao dr. Marcelo Amato, pesquisador de renome internacional e um dos maiores pneumologistas do Brasil. Vários médicos consultados pelo Vespeiro reputam-no como “um cientista”. A sorte estava a favor de Alexandre. Amato acabara de ler um estudo do Hospital Jinyntan, de Wuhan, relatando 201 casos de pacientes com nível crítico de pneumonia relacionada ao coronavirus tratados com um novo esquema publicada apenas três dias antes no Journal of the American Medical Association (aqui). O que se relata ali é um tratamento controvertido que envolve uma espécie de “escolha de Sofia” da medicina. Mas o estado de Alexandre era crítico, a esposa dele também é médica e a proposta, embora contra-intuitiva, ia na direção de suspeitas compartilhadas por imunologistas com experiência no tratamento de quadros pulmonares semelhantes aos do coronavírus. E, agora, tinha o endosso de um dos maiores especialistas do Brasil. Todos os ingredientes necessários para uma decisão de risco como aquela estavam reunidos.
Quando falam em ciência, Bolsonaro saca o revólver
15 de abril de 2020 | 03h00
Nesta era da tecnologia, em que se combatem doenças com penicilina, vacinas e cirurgias corretivas de órgãos usando alta tecnologia cibernética, “homens da cobra” vendem mezinhas caseiras em feiras livres e praças. Não falta quem acredite nas lorotas de redes sociais (vulgo fake news) absurdas, como as que atribuem às vacinas doenças que evitam como se, ao contrário, levassem à morte. Pessoas cultas e respeitáveis adotam superstições – tais como não pronunciar a palavra câncer para evitar tumores malignos – com a naturalidade de quem toma água.
O capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro representa no posto mais alto da República esse pelotão de inimigos figadais (a palavra é exata, porque se refere ao fígado, segundo a poetisa americana Elizabeth Bishop, o órgão que no brasileiro faz as vezes de cérebro) da ciência. A ala de seu governo que se diz ideológica segue, de fato, crendices pré-históricas do tempo do Mito da Caverna, de Platão, como lembrou seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Nele a humanidade vivia presa num buraco, privada da luz solar, vendo desenhos das chamas de uma fogueira na pedra. E disposta a matar a pedradas quem subisse à superfície e levasse a revelação do Sol no céu.
Bolsonaristas autênticos, que fizeram carreata no domingo 12 de abril na Avenida Paulista, interrompendo o trajeto das ambulâncias com doentes graves para os hospitais, berrando a plenos pulmões palavrões impublicáveis, acreditam que a Terra é plana na era das viagens espaciais. E, como criam os dignitários papistas que condenaram o Galileu Galilei do eppur si muove (no entanto, se move), imóvel. Idólatras, como os adoradores do bezerro de ouro, desafiando o decálogo do Deus do profeta Moisés no Sinai, amaldiçoam a evolução das espécies de Darwin, adotando o criacionismo do Gênesis. Hoje não dão a mínima para a Fiocruz e, então, pegariam em armas pela revolução contra a vacina da febre amarela, imposta por Oswaldo Cruz com apoio do presidente Rodrigues Alves, que morreria da pandemia da gripe espanhola no começo do século 20, ironia da deusa da História, Clio.
Jair Bolsonaro tem sido um Messias fiel nessa luta contra a ciência. Em março de 2016, enquanto o País debatia o impeachment de Dilma Rousseff, ele liderou o grupo de parlamentares – do qual faziam parte seu filho Eduardo e os petistas Arlindo Chinaglia (SP), médico e líder sindical, e Adelmo Carneiro Leão (MG), professor – em defesa da “pílula do câncer”. Esse foi o caso mais bem-sucedido de picaretagem de charlatão em prol da fosfoetanolamina, mezinha inventada pelo professor aposentado da USP Gilberto Chience (que não se perca pelo sobrenome). Em clima emocional e com celeridade inusitada, contrariando evidências científicas e assumindo o risco de levarem doentes terminais a abandonarem a quimioterapia e a radioterapia, a lei foi aprovada e sancionada por Dilma pouco antes de ser deposta. O Supremo Tribunal Federal (STF) ouviu os especialistas e proibiu a venda da droga. Mas o presidente ainda prega sua liberação, contra a qual o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, lutou na Câmara dos Deputados.
Nenhum defensor da “pílula do câncer” relatou algum caso concreto de cura pela panaceia do dr. Chience. Mas, quatro anos depois, o episódio se repete na batalha ideológica entre bolsonaristas e oponentes, como o governador de São Paulo, João Doria, defensores e inimigos da hidroxicloroquina e da cloroquina. O ridículo debate político foi aberto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em irresponsável, como tantas, fala na Casa Branca, em 19 de março. Desde então Bolsonaro é garoto-propaganda da droga, exibindo o produto vendido no Brasil em lives nas redes sociais. E isso provocou tal procura que pacientes que tratam de malária, artrite reumatoide e lúpus, e a tomam sob controle médico, não o acham nas farmácias.
O jornalista Edilson Martins, ex-Pasquim, já teve 26 surtos da febre terçã e contou em perfil no Facebook: “Confirmada a doença, vinha um funcionário da Sucam, nas cidades, diariamente, num jipe, e dava a dose do dia. Extremamente perigosa, a medicação. Sendo grávida, a mulher abortava. Não era concedida ao paciente a prerrogativa de ficar com as pílulas ... O diabo do plasmódio atacava, é o que diziam os médicos, principalmente o fígado, derretendo meu sangue, me tornando um amarelão só. Os que sobrevivem, não poucos, têm como consequência, entre outras, impotência sexual, cirrose, já destruída sua capacidade de filtro”.
Além do absurdo de transformar uma terapia não testada, como “a pílula do câncer” e a cloroquina, numa arma mortal de palanque eleitoral, sobrevive a evidência preocupante: eleito por uma grande maioria de brasileiros aptos a votar, terá Jair Bolsonaro permissão para exercer a medicina sem a formação acadêmica exigida em lei? E, o que é mais grave, parodiando o que o marqueteiro de Hitler, Josef Goebbels, dizia sobre a cultura para a área da medicina, ofício de salvar vidas, e imitando a arma com os dedos: “Quando me falam em ciência, saco meu revólver”.
JORNALISTA, POETA E ESCRITOR
A pandemia e o MPT - O ESTADO DE SP
Se no período imediatamente posterior ao da entrada em vigor da reforma trabalhista aprovada em 2017 o Ministério Público do Trabalho (MPT) atuou numa linha mais política do que técnica, opondo-se à modernização de uma legislação anacrônica herdada do Estado Novo varguista, agora, nestes tempos de pandemia do novo coronavírus, o órgão vem exercendo de modo exemplar as funções para as quais foi criado.
Desde o avanço da pandemia da covid-19, os procuradores do MPT já receberam quase 6 mil denúncias contra empresas em todo o País e abriram cerca de mil inquéritos civis. A maioria dos casos envolve denúncias de omissão dos empregadores em matéria de segurança do trabalho. Há, também, reclamações de carga excessiva de trabalho de funcionários colocados em home office e casos de trabalhadores contaminados que demoraram para ser afastados. As queixas são encaminhadas pelos próprios trabalhadores ou pelos sindicatos aos quais estão filiados. Há, ainda, casos que são comunicados de modo sigiloso por meio de um aplicativo.
Até o início de abril, os procuradores trabalhistas também já tinham impetrado 25 ações civis públicas. E, além de estarem participando de várias audiências de conciliação, estão sendo acolhidos seus pedidos de liminares que obrigam as empresas a fornecer álcool em gel, máscaras e luvas e a adotar programas de limpeza de ambientes e de distanciamento mínimo recomendado pelas autoridades sanitárias e de flexibilização da jornada de trabalho para evitar aglomerações.
Segundo dados do MPT, as denúncias abarcam todos os setores da economia e o maior número de reclamações vem do Estado do Rio de Janeiro. Em seguida, vêm os Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Ao receber as reclamações, os procuradores notificam as empresas pela internet e pedem que enviem informações no prazo de cinco dias. Com base nelas e apoio técnico dos Centros de Referência em Saúde dos Trabalhadores, vinculados ao Ministério da Saúde, o MPT faz recomendações às empresas, por videoconferência. E, dependendo da resposta, o caso é encerrado.
Uma das queixas mais importantes, seja pelos valores envolvidos, seja pelo número de trabalhadores, foi feita contra uma grande empresa que atua na exploração de zinco, cobre e chumbo no Estado de Mato Grosso. Depois que suas atividades foram suspensas por uma liminar pedida pelo MPT, ela se comprometeu a acatar as recomendações, beneficiando 1,5 mil funcionários. Há, também, reclamações contra dezenas de aplicativos de entrega em domicílio, cujos motoboys reivindicam mais equipamentos de proteção e ajuda financeira para os que foram afastados por suspeita de contaminação.
O mais surpreendente, contudo, é a desproporção entre o alto número de denúncias recebidas pelo MPT e o baixo número de ações judiciais. Esse é um fato positivo, revelando que os procuradores e os advogados das empresas têm dado preferência mais à negociação do que à litigância. Essa disposição ao diálogo decorre do ineditismo dos impasses surgidos nas relações trabalhistas por causa da pandemia do novo coronavírus.
Como os problemas são novos, as partes tiveram de aprender a lidar com eles. E como entre fevereiro e março vários textos legais foram aprovados com o objetivo de introduzir medidas de urgência na legislação trabalhista, os procuradores – a exemplo dos advogados trabalhistas – tiveram de estudar e avaliar as inovações. Enquanto as associações de advogados consultaram especialistas e passaram a distribuir circulares para seus associados, a cúpula do MPT editou uma série de notas técnicas para instruir seus membros sobre como agir. Além de prudente, o órgão primou pela responsabilidade – virtude que lhe faltou até recentemente, quando muitos procuradores, exorbitando de suas prerrogativas e agindo com motivação mais política do que jurídica, vinham tentando intervir em fusões e incorporações da iniciativa privada, sob pretexto de preservar empregos.
Excesso de generosidade 0 O ESTADO DE SP
O governo – e, por conseguinte, o País – continua a pagar caro pela opção do presidente Jair Bolsonaro de não fazer política. Sem articulação no Congresso, o presidente ainda se permitiu confrontar agressivamente os governadores, estratégia adotada desde antes de estourar a crise da covid-19 e substancialmente ampliada em meio à pandemia. Como resultado disso, viu, impotente, governadores e parlamentares se articularem na Câmara e aprovarem, por larga margem (431 votos a 70), um generoso projeto de lei para socorrer Estados e municípios.
Não há dúvida de que recai sobre os entes subnacionais o maior fardo da crise, já que estão na linha de frente do combate à pandemia. Não bastasse isso, esses entes já vinham enfrentando severas restrições de caixa, fruto de seguidas administrações perdulárias e da pasmaceira econômica. Ou seja, o novo coronavírus colheu Estados e municípios em seu pior momento, formando uma tempestade perfeita.
Cabia, então, à União ajudar os entes subnacionais a atravessar a tormenta. Já havia um projeto de socorro aos Estados em tramitação desde antes da crise, apelidado de Projeto Mansueto, em referência a seu autor, o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida. Nesse texto, os Estados sem capacidade de pagamento seriam autorizados a contrair até R$ 10 bilhões por ano em empréstimos com aval da União. A contrapartida seria a adoção de duros ajustes, como privatizações de companhias de saneamento, corte de benefícios fiscais e supressão de vantagens salariais para servidores.
O texto aprovado na segunda-feira pela Câmara eliminou a possibilidade de empréstimos, mas adotou outra forma de socorro: a União compensará Estados e municípios que sofrerem queda na arrecadação de ICMS estadual e ISS municipal entre abril e setembro, período em que se imagina que a pandemia comece a arrefecer. Caso se confirme a previsão de uma frustração de 30% dessas receitas, haverá uma compensação da ordem de R$ 80 bilhões. É o dobro do que o governo estava disposto a bancar, conforme proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes. Haverá, ainda, a suspensão de dívidas com o BNDES e a Caixa, o que deve acrescentar R$ 9,6 bilhões ao pacote de socorro.
O pior de tudo é que o plano aprovado não prevê contrapartidas. Ou seja, os Estados e municípios não serão obrigados a cortar nenhum gasto com funcionalismo nem reduzir o tamanho da máquina para receber o dinheiro. Poderão manter intacta a estrutura que propiciou o colapso de suas contas e que, em grande medida, inviabilizou o funcionamento da máquina estatal.
Desse modo, o pacote é mais um incentivo para que muitos Estados e municípios, hoje praticamente falidos, mantenham seu comportamento imprudente. Numa situação normal – e numa gestão zelosa –, uma queda de arrecadação costuma ser seguida de medidas para cortar gastos excessivos, especialmente os que dizem respeito a privilégios inaceitáveis em qualquer circunstância. Com o pacote aprovado, os governos não terão com que se preocupar, já que a perda de arrecadação será bancada de qualquer maneira pela União.
Não à toa, os parlamentares consideram a compensação uma espécie de “seguro”. Já o ministro Paulo Guedes prefere chamá-la pelo nome real, “cheque em branco”. O projeto aprovado impede que a compensação sirva para ampliar benefícios fiscais ou para aumentar despesas que não tenham relação com o combate à pandemia. Mas esse limite não é garantia de nada, dada a notória criatividade esbanjadora de vários governadores e prefeitos, hábeis em transformar em permanentes despesas que deveriam ser provisórias e para incluir na conta da União – leia-se, dos contribuintes de todo o País – seus esqueletos fiscais.
Por isso, o governo quer que o projeto seja modificado no Senado, deixando explícito, por exemplo, que está proibido usar os recursos para conceder aumento salarial para o funcionalismo. Além disso, o ministro Paulo Guedes citou a possibilidade de veto presidencial. De um jeito ou de outro, o governo terá de trabalhar para evitar mais uma derrota. Um bom começo seria parar de tratar governadores e parlamentares como inimigos.
Trump suspende pagamentos à OMS durante a crise do coronavírus
O presidente americano Donald Trump disse na terça-feira (14) que ordenou seu governo a interromper, pelo menos temporariamente, o pagamento das contribuições dos EUA à Organização Mundial da Saúde (OMS) por causa da forma com que a entidade tratou a pandemia de coronavírus.
Durante uma entrevista coletiva na Casa Branca, Trump afirmou que a OMS "falhou em seu dever básico e deve ser responsabilizada". Ele disse que a organização promoveu desinformação criada pela China sobre o vírus –o que, na opinião do presidente, provavelmente levou a um surto maior do que o previsto.
O americano criticou a a entidade por ter "acreditado nas garantias dadas pela a China" e a culpou por um aumento de 20 vezes do número de casos em todo o mundo.
Pequim e Washington travam uma disputa de narrativas sobre a pandemia da Covid-19. Trump já se referiu várias vezes ao novo coronavírus como "o vírus chinês". O país asiático respondeu acusando o americano de xenofobia.
No início de março, autoridades do regime chinês divulgaram teorias sobre uma suposta conspiração e apontaram que o coronavírus foi levado à China por militares dos EUA.
Os Estados Unidos são o maior doador da OMS —em 2019, o país desembolsou US$ 400 milhões (R$ 2,06 bilhões), o equivalente a cerca de 15% do orçamento da organização sediada em Genebra.
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou este é o momento de a "comunidade internacional trabalhar em solidariedade para impedir o vírus e suas consequências devastadoras".
Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos de Donald Trump confronta a atuação de órgãos multilaterais.
Em janeiro de 2019, tanto os EUA quanto Israel deixaram a Unesco, agência de educação, ciências e cultura das Nações Unidas. Os dois países alegaram que o organismo estimula um sentimento anti-israelense —um dos exemplos citados foi o fato de a Autoridade Palestina ter sido aceita como membro em 2011.
No entanto, Washington já não contribuíra para o órgão desde 2011—até então, os EUA respondiam por 22% do total do orçamento da entidade.
O mesmo viés contra Israel foi citado quando Washington decidiu deixar o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em junho de 2018. COM FOLHA DE SP
Cotada para substituir Mandetta defende isolamento social e que Brasil já discuta ‘saída responsável'

BRASÍLIA - Defensora do isolamento social como "uma estratégia de contenção importante" para segurar a curva da Covid-19 no Brasil, a cardiologista e pesquisadora Ludhmila Hajjar, diretora de Ciência e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, diz que o país já está preparado para começar a rever a estratégia de restringir a circulação de pessoas. Uma das cotadas para substituir o ministro Luiz Henrique Mandetta no comando da Saúde, Hajjar defende o que chama de “uma saída pelo meio, que não seja extremista” para a flexibilização das normas restritivas.
- Como médica e pesquisadora, sou favorável ao isolamento como uma estratégia de contenção importante da doença. Mas essa precisa ser uma estratégia de transição. Na minha opinião, devemos iniciar estudos sérios e simulações para oferecer à população uma saída responsável e organizada do isolamento - afirmou ao GLOBO.
Covid-19: Wilson Witzel testa positivo para coronavírus
Hajjar diz que, para isso, é preciso um alinhamento entre medicina e autoridades públicas -“todas falando a mesma língua”- e se busque uma “estratégia equilibrada” capaz de garantir bons resultados no combate à Covid-19 e, ao mesmo tempo, minimizar o impacto econômico da doença no país.
Ela afirma, no entanto, que não se pode adotar “uma saída em massa e irresponsável”. A cardiologista diz que precisa ser “algo técnico, levando em consideração a nossa geografia, a variabilidade dos nossos Estados e a continentalidade do nosso país”.
- Temos dois problemas: o impacto da doença na mortalidade, nos números da saúde, nas vidas das pessoas. E isso, realmente, tem que ser o nosso foco. Porém, não podemos desconsiderar o impacto sócio-econômico que essa doença está já causando na vida dos brasileiros. Temos que pensar em algo que não seja extremo. Temos que pensar na saúde da população, na economia, lembrando da dimensão continental do Brasil e das diferenças epidemiológicas nos estados e regiões - disse.
- Tecnicamente falando, nesse momento, devemos olhar, isoladamente, o comportamento da curva, o sistema de saúde in loco, a estrutura da população e a disponibilidade de testes. Se eu coloco tudo isso numa conta, consigo, regionalmente, ou de cidade em cidade, propor estratégias que sejam as mais adequadas para aquela determinada localidade.
Contrário ao isolamento social, o presidente Jair Bolsonaro vem estudando medidas para determinar a retomada das atividades em parte do país. Mais recentemente, o governo passou a avaliar a possibilidade de flexibilizar normas restritivas em cidades com baixo índice de casos da Covid-19.
O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vinha defendendo a adoção de medidas de contenção diferentes a partir das realidades locais. No último dia 6, anunciou a elaboração de um plano para o relaxamento de medidas de isolamento social em estados e cidades onde o sistema de saúde instalado não estivesse sobrecarregado devido à pandemia do novo coronavírus.
Segundo Hajjar, o ponto central nessa discussão são os testes em massa. Para ela, os exames podem ser eficientes para identificar aqueles que já estão imunizados. Dessa forma, seria possível começar a liberar parte da população para a retomada das atividades.
- Obviamente, não estamos pensando em disponibilizar testes para 200 milhões de pessoas, que nós não temos. Mas aumentar a possibilidade, com todo recurso e investimento que existem, com apoio de todos, essa é uma questão central. Ao aumentar o número de testes, conseguimos isolar os verdadeiramente positivos -- afirmou.
No início do mês, ela integrou o grupo de médicos recebido por Bolsonaro, no Palácio do Planalto. Durante o encontro, eles disseram ao presidente que ainda não era possível relaxar as medidas de isolamento social — fundamentais para que casos de Covid-19 não disparassem e o sistema de saúde não entrasse em colapso.
Bolsonaro recebeu profissionais de saúde para discutir a crise do coronavírus, mas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não foi convidado para o encontro.
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Hajjar diz que seu novo entendimento sobre à restrição da circulação da população se deve ao “dinamismo” da evolução da doença no país.
- No início da pandemia, a gente não tinha dados de como seria o comportamento dela no Brasil, tínhamos apenas probabilidades e, sem ter um tratamento recomendado e validado, sem ter uma vacina disponível, a única alternativa que tínhamos era a contenção social. O fato é que a gente tem que ter alguma sensibilidade para o que está acontecendo no nosso país e é por isso que acho que existe uma abertura para discutir uma saída com responsabilidade.
Cloroquina
Integrante de grupos de pesquisa sobre o uso da cloroquina, Hajjar diz que, em termos de dados mundiais, ainda não se tem um tratamento “comprovadamente eficaz” contra a Covid-19.
Segundo ela, hoje, há cerca de dez estudos em andamento no país sobre o uso da droga. O que se sabe, por enquanto, é que na experiência in vitro, no modelo fora do humano, o remédio é um medicamento que tem potencial de combater a infecção pelo novo coronavírus.
- Hoje, temos sugestões e opiniões, mas para ter certeza sobre sua eficiência, precisamos esperar um pouco - afirmou.
- A experiência brasileira adotou a utilização da cloroquina para pacientes internados ou na forma grave da doença. Eu, por exemplo, tenho usado a cloroquina nos meus pacientes. Entretanto, deixo claro que isso não está cientificamente comprovado. O que a gente espera é ter resultados de estudos, tanto nacionais, quanto internacionais, de qualidade para confirmar ou não a eficácia da droga. o globo


