Busque abaixo o que você precisa!

Inquérito de Moraes é algo jamais visto na história deste País

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 16h02

No arrastão que vem fazendo há tempos contra fabricantes de notícias falsas, inimigos das instituições e outros indesejáveis da vida política nacional, o ministro Alexandre de Moraes tem incluído, desde o início, uma penca de parlamentares em pleno exercício de seus mandatos; só no último rapa, no começo desta semana, decidiu quebrar o sigilo bancário de dez deputados e um senador, e mandou a Polícia Federal apreender objetos de propriedade de um outro. Pode, isso? Pode, porque Moraes diz que sua investigação é legal, e se os seus colegas acharem que é legal, a coisa toda fica legal, seja lá o que for – é assim que funciona e é assim que o STF entende que deve ser praticada a democracia no Brasil de hoje. (O ministro Edson Fachin já decidiu que está tudo certo com a operação de Moraes; o plenário ainda tem de dar a palavra final, mas quem pode duvidar do resultado?).

O inquérito de Moraes é algo jamais visto na história deste País. É um procedimento secreto; nem o público, nem os investigados e nem mesmo os seus advogados têm acesso à papelada legal da operação. Os envolvidos não são acusados oficialmente de nenhum crime previsto nos 341 artigos do Código Penal. Na verdade, nem sabem o que são. Suspeitos? Indiciados? Réus? O Ministério Público, que tanto quanto se saiba é quem tem a exclusividade de fazer investigações criminais no Brasil, não participa de nada disso.

O STF, enfim, apresenta-se como vítima, polícia, promotor e juiz no mesmo caso – está dizendo, ao que parece, que só ele, STF, tem o direito de investigar os delitos que o atingem e, no fim, de julgar quem é culpado e quem não é.

Inquérito de Moraes é algo jamais visto na história deste País
O ministro do STF, Alexandre de Moraes; magistrado é relator do inquérito das fake news Foto: Gabriela Biló/Estadão

No ambiente de anarquia legal em que o Brasil se acostumou a viver nos últimos anos, onde a lei não é o que está escrito, mas o que os tribunais dizem que é, nada disso é realmente uma surpresa. Mas chama atenção, em todo caso, a passividade com que o Congresso Nacional aceita que os seus membros sejam tratados como bandidos vulgares por um outro Poder da República. O ministro Moraes confisca bens dos deputados e manda que eles apareçam na polícia para depor. As mesas da Câmara Federal e do Senado não dão um pio. Os deputados obedecem quietinhos às ordens que recebem. Ninguém iria aceitar se fosse o Executivo que fizesse isso. Mas como é “o Supremo”, todo mundo acha que não há problema nenhum.

Não há dois tipos de deputados – os que estão sob a proteção das leis, porque o STF aprova a sua atuação política, e os que não estão, porque incomodam os ministros da corte. Mas é exatamente esta situação que vem sendo aceita no Brasil. Quando a imprensa senta a pua no Congresso e nos congressistas – e tudo o que pode fazer é isso, falar – é imediatamente acusada de “criminalizar” a política e agredir a sagrada majestade do Legislativo. O ministro Moraes pode fazer o que bem lhe dá na telha e ninguém acha nada de errado nisso. Os deputados podem estar dizendo coisas horríveis do STF; em matéria de má conduta, não estarão fazendo nada de diferente do que fazem cerca de 200 parlamentares acusados na Justiça por crimes que vão do estelionato ao assédio sexual, conforme o Estado de S. Paulo divulgou em levantamento sobre o atual Congresso publicado em 2018. O STF jamais deu a mínima para essa aberração, e ninguém considera que haja aí qualquer desrespeito à democracia.

 

'Está chegando a hora de colocar tudo em seu devido lugar', diz Bolsonaro após ação do STF

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 09h37

BRASÍLIA - Após afirmar ontem que tomará "medidas legais" para proteger a Constituição, o presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer nesta quarta-feira, 17, que considera ter havido "abusos" na ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para quebrar o sigilo bancário de dez deputados e um senador aliado ao seu governo. Em seguida, afirmou que "está chegando a hora de colocar tudo em seu devido lugar", sem explicar ao que se referia.

Ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que está "fazendo o que deve ser feito" e que "não será o primeiro a chutar o pau da barraca", em resposta a uma mulher que o pediu ajuda para reagir às investigações no STF que apuram o financiamento de atos antidemocráticos e ataques a ministros da Corte. 

"Tem gente que nasceu 40 anos depois do que eu e quer dizer como eu devo governar o Brasil. Estou fazendo exatamente o que tem que ser feito. Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Eles estão abusando, isso está a olhos vistos. O ocorrido no dia de ontem, quebrar sigilo de parlamentar, não tem história vista numa democracia por mais frágil que seja. Está chegando a hora de colocar tudo em seu devido lugar", disse.

Jair Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro; ao fundo, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo Foto: Gabriela Biló/Estadão

Bolsonaro afirmou ainda que todos, sem exceção, devem entender o que é democracia. "Não devo nada a ninguém do que estou fazendo. Está chegado a hora de acertarmos o Brasil no rumo da prosperidade e todos entenderem o que é democracia. Democracia não é o que eu quero, nem você, nem o que um poder quer, o que outro poder quer. Está chegando a hora, fique tranquila", declarou.

Embora não tenha citado diretamente a quem se referia, Bolsonaro tem feito declarações com ameaças a outros poderes por entender que há uma tentativa de fragilizá-lo, com decisões do Supremo e do Congresso que, na sua visão, invadem as atribuições do Executivo. Ele chegou a afirmar, há algumas semanas, que poderia não cumprir ordens judiciais.

Gabs@oprimogabs

"Não serei o primeiro a chutar o pau da barraca."

Ele falou no sentido de que o Pau já foi chutado, ele já tem conhecimento disso.

Bolsonaro Enigmático </span></p></div></blockquote></div></div></div></div></div></div></div></div></article>        </div>
                    <div class=

Nada dúbio - CARLOS ANDREAZZA / O GLOBO

A interpretação bolsonarista para o artigo 142 da Constituição merece detido exame, pois sintetiza a mentalidade autocrática que fundamenta o projeto de poder golpista encarnado em Jair Bolsonaro — que tem lastro, como lembra a ameaça de intervenção, ainda em abril de 2018, do então comandante do Exército, general Villas Bôas, à véspera de o Supremo julgar habeas corpus de Lula, e que se expressa tanto em nota formal ou entrevista de militar quanto em ato de grupo extremista atacando o STF (por ora) com rojões.

Projeto de poder impulsionado por um inconformismo essencial: o de o presidente da República, mesmo eleito por 57 milhões de votos, não ter mais poder que os outros Poderes.

As Forças Armadas seriam, pois, o canal por meio do qual resolver, concretamente e para além dos fogos de artifício, essa inaceitação do equilíbrio republicano: a eloquência dos tanques para que a suposta vontade popular fosse respeitada, Congresso e Supremo subjugados por aquele — Bolsonaro — que falaria diretamente ao povo.

O texto constitucional trata da “autoridade suprema” do presidente sobre as Forças — o que passou a ser compreendido como atribuição ilimitada e difundido como explicação de por que haveria hierarquia entre Poderes: o Executivo, sendo o senhor das armas, acima dos demais.

Foi contra essa leitura doente que reagiu Luiz Fux ao explicitar qual seria a delimitação do papel das Forças Armadas. Que não são o quarto Poder. Que não são poder moderador. Que não podem intervir em outro Poder; a prerrogativa do presidente — que o autoriza a empregá-las — não podendo ser usada contra Legislativo e Judiciário.

O conteúdo da decisão é impecável. A forma, porém, monta uma armadilha para o STF. Por que a pressa, se o discurso golpista não tem gatilhos para se materializar agora? Por que correr a uma solução liminar, se o ímpeto golpista busca apontar ativismo para alegar golpismo alheio e se vitimizar-legitimar? Por que não proteger a Corte e robustecer uma exposição magistral dirigindo-se ao colegiado, no colegiado, para ratificação do colegiado?

Se estão os ministros preocupados em preservar a ordem democrática, a melhor maneira será com um choque de plenário. É como o tribunal pode se blindar — movendo-se em conjunto, controlando e baixando o grau da febre monocrática. A armadilha a que me referi, a arapuca da fulanização: as decisões individuais — sobretudo se relativas a outros Poderes — como convite a que um populista autoritário reaja, sob a lógica personalista, chamando aquele de quem precisa como inimigo para a briga de rua.

Fux foi mais um a se lançar ao corpo a corpo. Como resposta, Bolsonaro divulgou nota também subscrita, gravemente, por Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, aquele que dirige as Forças Armadas.

Eis o trecho que importa — o governo incorporando a distorção autocrática do artigo 142 a suas manifestações oficiais, Exército, Marinha e Aeronáutica apregoados como braços do golpismo bolsonarista: “As Forças Armadas não cumprem ordens absurdas, como, por exemplo, a tomada de poder. Também não aceitam tentativas de tomada de poder por outro Poder da República, ao arrepio das leis, ou por conta de julgamentos políticos”.

Não há qualquer dubiedade na mensagem. O texto situa as Forças não como instituições impessoais do Estado, mas órgãos do governo de turno. O recado é claro. O impeachment, por exemplo, é julgamento político. Tem lugar no Parlamento, em ação sob controle do Supremo.

O ministro da Defesa —tragando as Forças Armadas — diz que não aceitará impeachment contra Bolsonaro, recurso previsto na Constituição, e que o consideraria tentativa de tomada de poder? Sim.

Quando do impedimento de Dilma Rousseff, grupos políticos acusaram golpe contra a presidente — e as Forças Armadas, corretamente, não se envolveram. Por que se pronunciam agora, ademais se nem processo há, senão para informar à sociedade que têm partido?

O ministro da Defesa — arrastando as Forças — diz que um julgamento do TSE poderia ocorrer “ao arrepio das leis” para a tomada de poder? Sim.

Quando julgou-se, por exemplo, a chapa Dilma/Temer, grupos políticos acusaram golpes de todos os lados — e as Forças Armadas, corretamente, não se meteram. Por que se pronunciam agora, ademais em litígio que toca num general, senão para informar à sociedade que têm partido?

Em entrevista à “Veja”, o general Ramos, da Secretaria de Governo, falou sobre a implausibilidade de um “julgamento casuístico” tirar do poder um presidente eleito com 57 milhões de votos. Deu exemplo: “Um julgamento do TSE que não seja justo.”

E o que determinaria o que será justo? A aplicação do artigo 142 conforme pregado pelo bolsonarismo. Que não é só Sara Geromini. Que também vai fardado. Que avisa — né, general Ramos? Para que o “outro lado” não estique a corda. Qual é o outro lado? Quem é a oposição segundo esse inconformismo? A República.

 

Posição dura da PGR em inquérito de atos antidemocráticos sugere recado a Alexandre de Moraes

Mensagens O posicionamento da PGR foi o ponto mais relevante das operações autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes nesta segunda (15) e terça (16). Depois de ser contrário a quase todas as medidas no inquérito de fake news, desta vez o órgão foi o autor dos pedidos de diligências na investigação dos atos antidemocráticos. Alguns foram considerados bastante duros, como quebras de sigilo. A avaliação no mundo jurídico é que a posição de Augusto Aras serve como um recado ao Supremo.

É meu Segundo esta análise, a mensagem ao STF é que, embora participe, o PGR não considera legítimo o inquérito das fake news. O dos atos antidemocráticos, por outro lado, foi aberto a seu pedido e segue o rito tradicional, com solicitações de medidas sendo feitas pelo Ministério Público.

Perto As datas das manifestações da PGR nos dois inquéritos corrobora a avaliação. As petições foram enviadas entre o dia 20 e 27 de maio, o que deixa mais distante a possibilidade de ter sido uma mudança de postura de Aras em relação ao presidente, diante das críticas que vem sofrendo.

Outros olhos Há quem veja recado também que a investigação serve de alerta para Bolsonaro, pois agora há um inquérito tratado com lupa pela PGR, com medidas duras, sem poupar aliados e sem sinal de estar perto do fim. Ainda assim, há desconfiança sobre os posicionamentos do procurador-geral.

TIROTEIO

Como fazer campanha eleitoral daqui a um mês e pouco com tanta gente morrendo de Covid?

Do senador Eduardo Braga (MDB-AM), favorável à proposta de adiar as eleições municipais deste ano em um mês

Com Mariana Carneiro e Guilherme Seto

VEJA OS TEMAS ABORDADOS PELA COLUNA NESTA QUARTA (17)

  1. Posição dura da PGR em inquérito de atos antidemocráticos sugere recado a Alexandre de Moraes

  2. Novo ministro foi a favor de saída de Weintraub e diz a aliados que demissão está decidida

  3. Metrô de São Paulo teve 278 afastamentos de funcionários devido ao coronavírus

  4. 9 em cada 10 querem que dinheiro do fundão eleitoral vá para combate do coronavírus

  5. Líderes colocam dúvida sobre aprovação de proposta que adia eleição

  6. #Juntos e #Somos70% participam de live com partidos políticos para debater democracia

  7. Rio entrega no limite lista de compromissos para evitar expulsão do regime de recuperação

Painel

Editado por Camila Mattoso, espaço traz notícias e bastidores da política. FOLHA DE SP

Em plena quarentena, Brasil tem alta de 8% no número de assassinatos em abril

O Brasil teve uma alta de 8% no número de assassinatos em abril deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. É o que mostra o índice nacional de homicídios criado pelo G1, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.

De acordo com a ferramenta, houve 3.950 mortes violentas em abril de 2020. No mesmo mês no ano passado, foram 3.656. O crescimento ocorre mesmo em meio à pandemia da Covid-19, em um mês onde medidas de isolamento social foram adotadas em todo o país.

Já considerando o período de janeiro a abril, foram 15.868 vítimas de assassinatos neste ano, contra 14.580 em 2019, uma diferença de 1.288 mortes.

A alta no início deste ano vai na contramão de 2019, que teve uma queda de 19% no número de assassinatos em todo o ano. O Brasil teve cerca de 41 mil vítimas de crimes violentos no ano passado, o menor número desde 2007, ano em que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública passou a coletar os dados.

G1 já havia antecipado que um terço dos estados tinha apresentado alta nos assassinatos no último trimestre de 2019, o que acendeu o alerta para uma possível reversão da tendência de queda da violência no país, segundo os especialistas. A reversão foi confirmada no início deste ano.

Os dados apontam que:

  • o país teve 3.950 assassinatos em abril de 2020
  • houve 294 mortes a mais na comparação com o mesmo mês de 2019, uma alta de 8%
  • já de janeiro a abril, foram 15.868 crimes violentos, um crescimento de 9%
  • 19 estados do país apresentaram alta de assassinatos no quadrimestre
  • 7 registraram queda no período e 1 manteve o mesmo número de mortes
Brasil teve alta no número de vítimas nos primeiros quatro meses do ano — Foto: Rodrigo Sanches/Arte

Brasil teve alta no número de vítimas nos primeiros quatro meses do ano — Foto: Rodrigo Sanches/Arte

Leia mais...

Será que vai ter golpe? - FERNÃO LARA MESQUITA

É sempre aquela encruzilhada chave do catolicismo: “Pequei por pensamentos, palavras… e obras”. É nessa reticência que se instala a inversão fatal. O pecado em pensamento conduz diretamente à tortura: “Pensou ou não pensou?”. Como prová-lo? Já o pecado em palavras está aí para produzir “a prova” do pecado em pensamento. Mas, e os atos? Ora, os atos perdoam-se com meia dúzia de ave-marias. Não há que perder muito tempo com eles.

Todo mundo tem o direito de desejar o fechamento do Congresso, do Supremo e do que mais quiser e de expressar esse desejo. Só é proibido agir para isso com o uso de força, o que está totalmente fora do alcance do portador de cartazes em manifestações ou de quem bate palmas para eles. O STF agir contra essas pessoas, isso sim, está expressamente proibido por lei. Quando é o STF que viola a lei tem-se, de saída, uma afronta institucionalizada contra o estado de direito. Mas quando ele passa a agir sem provocação o estado de direito é literalmente aniquilado. Quando passa por cima das condições dentro das quais é lícito acionar contra alguém a arma mais forte do sistema nenhum outro direito do cidadão permanece em pé. 

Há 15 meses o sr. Dias Toffoli, monocraticamente, instalou o vale-tudo ao censurar uma revista por expor seus podres. Subverteu, com isso, todas as condições dentro das quais a arma do STF pode ser acionada. E fez jurisprudência. Desde então cada ministro “ofendido” por um “pecador em palavras” está autorizado a agir para “fazer justiça” com as próprias mãos sucessivamente como polícia, como promotor e como juiz da própria causa. Não é preciso lei nem figura do Código Penal que defina a ofensa. Nem denúncia pelo Ministério Público, nem endereçamento ao tribunal definido pela lei, nem sorteio de juiz, nem indiciamento, nem defesa para os acusados.

De que outra ditadura têm medo, então, os nossos alarmados defensores do “estado democrático de direito”?

O divisor de águas é muito simples e claro: há democracia quando o povo manda no governo e este só tem os poderes que o povo explicitamente lhe conceder. Mas nas seções de mútuo endosso entre representantes das corporações beneficiadas por ela que a imprensa enviesada exibe à exaustão não há verdade nem democracia fora da Constituição de 1988. 

Mentira!

O caráter democrático de uma Constituição não se define por quais privilégios determinados grupos de poder inscrevem nela, e sim por quais meios ela é pactuada com quem vai acatá-la. Sem o referendo formal e explícito dado pelo povo, única fonte de legitimação do poder numa democracia, que nos Estados Unidos levou 13 anos de debates para ser alcançado e no Brasil nunca chegou sequer a ser proposto, uma Constituição não passa da “verdade revelada”, ou seja, da mentira da vez a que sempre se recorreu para justificar sistemas de opressão.

Agora anda em voga a questão das listas tríplices. “Sem lista tríplice não ha independência, nem democracia, nem transparência”, dizem nossos “democratas”. Certíssimo! Mas independência do que em relação a quem? Do Estado em relação ao povo, única fonte de legitimação do poder que, nas democracias, elege diretamente os seus promotores e demais encarregados de fiscalizar o governo, assim como os conselhos gestores de suas escolas públicas.

Não é de um óbvio ululante que a cadeia de lealdades que as listas tríplices macunaímicas estabelecem – primeiro, do servidor em detrimento do servido com a corporação que seleciona os três nomes passíveis de serem transformados em deuses e, depois, de todos com o suposto fiscalizado a quem cabe a escolha final – são a própria descrição da tragédia do Brasil?

Não seria a cegueira da imprensa para essa obviedade decorrência do fato de haver gente demais nas redações desfrutando, pessoalmente ou pela interseção de “cônjuge, companheiro ou parente em linha reta ou colateral, por consanguinidade ou afinidade, até o terceiro grau”, os privilégios do emprego estatal, que por isso os contemplam com a mesma boa vontade com que os ministros do STF contemplam os seus? 

De que outro modo é possível explicar que com a ajuda de 600 reais reduzida a 200 ou 300 e por apenas mais dois ou três meses por falta de dinheiro e metade da população desempregada ou subempregada não ocorra a nenhuma grande redação brasileira pôr em pauta os salários, a indemissibilidade, as aposentadorias, as lagostas e os vinhos tetracampeões que nem as pandemias derrubam? Ou as reportagens que expliquem como conseguem as excelências que tantas loas cantam ao “estado de direito”, mesmo com o gordo salário que consta dos seus holerites, manter suas dachas internacionais em euros ou em dólares?

A única invocação da Constituição brasileira interessada no Brasil é a que vier para reivindicar a reforma que ponha o País Oficial na dependência estrita da sua constante reconfirmação pelo País Real. E essa reforma começa por extirpar dela tudo o que não diga respeito a todos os brasileiros sem nenhuma exceção. Vender privilégios medievais como democracia e uma privilegiatura segura o bastante para exibir sua arrogância como “estado de direito” não engana ninguém.

* FERNÃO LARA MESQUITA É JORNALISTA; ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM ESTADÃO

Compartilhar Conteúdo

444