Tolerância - César Mortari Barreira e Marcelo de Azevedo Granato, O Estado de S.Paulo
Em recente manifesto, centenas de profissionais do Direito de diferentes orientações políticas e ideológicas acusam o presidente da República de “arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros”. O manifesto, que abre com um “Basta!”, é antecedido por citação de Karl Popper de que a tolerância ilimitada pode acarretar o desaparecimento da tolerância, isto é, uma sociedade tolerante que não se defenda dos ataques dos intolerantes acabará por ver “a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância”.
Mas o que é ser tolerante? Não há uma resposta única a essa pergunta. Pode-se dizer, de início, que ser tolerante com alguém é mais do que suportar, por motivos pragmáticos, a conduta de determinada pessoa. Essa seria uma tolerância “negativa”: atura-se o suposto erro de uma pessoa por conveniência, como um mal menor, já que a alternativa de persegui-la por causa desse erro é ainda pior.
A distinção entre tolerância “positiva” e “negativa” aparece na obra de Norberto Bobbio, para quem a tolerância em sentido positivo se funda no convencimento de que a pluralidade de opiniões, em concorrência entre si, é condição essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento de uma sociedade democrática.
Isso não quer dizer que a tolerância suponha a renúncia das próprias convicções: o tolerante não deixa de pretender o triunfo da sua posição, crê apenas que o caminho até lá não pode excluir as demais posições. Ser tolerante não é ser indiferente.
De um ponto de vista jurídico, a tolerância associa-se ao princípio da igualdade. Segundo o artigo 5.º da Constituição, “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Assim, ele prescreve que todos somos iguais perante a lei, ainda que tenhamos características que nos diferenciam uns dos outros, em termos de raça, gênero, sexualidade, crença, convicções, etc.
Isso significa que a todas as nossas diferenças (que fazem de nós pessoas únicas) a Constituição atribui igual valor (o que faz de nós indivíduos iguais entre si). Ou seja, nossa igualdade jurídica requer a tolerância das nossas diferenças. Nas palavras do professor Luigi Ferrajoli, “o princípio de igualdade implica a tolerância, ou melhor, o respeito à igual valorização de todas as diferenças” (Ordines).
O tema da tolerância repercute ainda sobre a democracia. E é ela nossa chave de leitura do manifesto acima referido. A democracia, diz Bobbio, “pode ser definida como um sistema de convivência em que as técnicas da argumentação e da persuasão substituem as técnicas da coação para solução dos conflitos sociais” (Lode della tolleranza). Tolerância, do ponto de vista democrático, é opção pelo debate, pela argumentação, pela persuasão, em lugar da coação ou da perseguição.
Mas como encaminhar discussões, ponderações, conclusões de ordem pública num governo hostil à própria circulação de informações públicas? Hostilidade evidenciada, por exemplo, nas tentativas de estender o número de agentes públicos com poderes para classificar informações como ultrassecretas, secretas ou reservadas, de encobrir dados da covid-19, entre outras.
Esses comportamentos, temperados por atos anti-institucionais e uma interpretação débil do artigo 142 da Constituição, comprometem uma liberdade que já é negligenciada por muitos de nós: a liberdade política. Liberdade que, ramificando-se em direitos como o de imprensa, de opinião, de associação, consiste no “direito de todos os cidadãos de participar da tomada de decisões coletivas que lhes dizem respeito” (Bobbio, Teoria Geral da Política).
Afirmamos que essa é uma liberdade negligenciada, porque, já há alguns anos, como nota o professor Carlos Melo, “abandonamos a política, indo cuidar de nossas vidas nos bancos, nas universidades, em casa, na família. (...) Demo-nos por contentes com o aparente bom momento, sobretudo econômico (...). Não fomos capazes de garantir a democracia como valor fundamental para os nossos filhos e netos” (Democracia em risco?).
A realização pessoal se impôs ao empenho político. O manifesto a que nos referimos, assim como todas as recentes ações da sociedade civil em defesa da democracia indicam que podemos até preferir as liberdades econômica, de crença, de definir nosso modo de ser e de pensar à liberdade política, mas percebemos também que, quanto mais negligenciamos a segunda, menor será nosso controle sobre as primeiras.
A tolerância é princípio constitutivo da democracia. Bobbio o afirma nos mais diferentes contextos, como quando considerou um “bom sinal” o diálogo entre católicos e comunistas na década de 1960, na Itália. Esse diálogo demonstrava uma Igreja menos política e um Partido Comunista menos teológico: uma “ventania de espírito laico”, ele afirmou (Lo spirito laico). Atualmente vivemos um desafio de outra ordem. A ventania, agora, insinua-se como ventana, que tolera a desordem e repudia o diálogo.
DOUTOR EM TEORIA E FILOSOFIA DO DIREITO PELA UERJ, COORDENADOR CIENTÍFICO DO INSTITUTO NORBERTO BOBBIO; E DOUTOR EM DIREITO PELA USP E PELA UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI TORINO, INTEGRANTE DO INSTITUTO NORBERTO BOBBIO E PROFESSOR DA FACAMP
Tempos confusos - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
05 de julho de 2020 | 03h00
Tempos confusos os que temos vivido. A tal ponto que estranhamos o que aconteceu no meio da semana: chamou a atenção o fato de o governo não haver arranjado nenhuma confusão nova. Isso depois de, sem se dar ao luxo de explicar melhor ao País as razões, o presidente haver dispensado vários ministros nas pastas da Educação e da Saúde. Pelo menos até a última sexta-feira, quando escrevo este artigo, não demitiu ninguém ou ninguém se sentiu na obrigação de abandonar o Ministério. Nem mesmo se viu o presidente ou seus porta-vozes atribuírem à oposição ou a alguém mais notório o estar “conspirando”. Daí a calmaria.
É assim que vai andando o atual governo, meio de lado. Sem que os “inimigos” façam qualquer coisa de muito espetacular contra ele, é ele próprio que se embaraça com sua sombra. De repente, quando não há nenhum embaraço novo, nenhuma “crise”, o presidente não se contém: fala e cria uma confusão.
É verdade que o governo federal não teve sorte. Não foi ele que criou a pandemia que nos aflige nem a paralisação da economia, que já vinha de antes. Mas a confusão política, desta ele se pode apropriar: foi coisa inventada pelo próprio presidente e seus fanáticos.
Por certo ela se agrava com a crise econômica e a da saúde pública. Mas o mau gerenciamento das crises e da política é o que caracteriza os vaivéns do governo Bolsonaro. No Congresso Nacional e nos tribunais (apesar de tão malfalados nos comícios pelos adeptos presidenciais) tem havido resistências à inação governamental e a suas investidas contra as instituições.
Comecemos pelo que mais importa, a saúde pública e a de cada um de nós. O governo federal desconsiderou os riscos da situação epidêmica no início e, depois, passou o bastão às autoridades locais. Compreende-se que sejam estas, mais perto das populações, a gerenciar o dia a dia. Mas o papel simbólico é sempre, para o bem e para o mal, de quem exerce a Presidência da República, tenha ou não culpa no cartório. Além disso é o que prescreve a Constituição, no seu artigo 23, sobre as competências comuns, entre as quais está a de zelar pela saúde pública, como deixou claro o Supremo Tribunal Federal (STF) em sua decisão a esse respeito.
Da mesma maneira é inacreditável que em tão pouco tempo o governo haja substituído dois ministros na pasta da Educação e que o País ainda não saiba quem será o próximo ministro. Os anteriores o pouco que fizeram foi suficiente para darmos graças por se terem afastado. Mas quem virá? E logo numa área crucial para o País.
Governo que não tem rumo nas principais áreas sociais dificilmente encontrará a lanterna mágica para nos levar a bom porto. Não são apenas pessoas mal escolhidas. É a falta de projetos, de esperança, o que nos sufoca.
Talvez esteja aí a falta maior do presidente: ele fala como qualquer pessoa, o que pode parecer simpático. É um [ ]uomo qualunque[/ ]. Diz o que lhe vem à cabeça, como qualquer mortal. Mas esse é o engano: o papel atribuído pelas pessoas ao presidente, qualquer deles, exige que ele, ou ela, mesmo sendo simples (para não dizer simplório), não pareça ser tão comum na hora de decidir ou de falar ao povo sobre os destinos da Nação.
Em certos momentos muita gente no País pode até apreciar a semelhança entre si e o chefe de Estado. A maioria mesmo: pois não foi ele quem ganhou as eleições? Afinal o presidente, dirão, é uma pessoa como qualquer outra. Mas quando há crises é quando mais se precisa que haja comando, rumo. Talvez por isso os “homens comuns” no poder acabem por ser incomuns, singulares na sua incapacidade de definir um rumo. Quando têm personalidade autoritária, investem e esbravejam contra as instituições democráticas. No Brasil, elas têm respondido bem ao desafio.
Onde iremos parar? Não tenho bola de cristal, mas é melhor parar logo. Se pudesse eu lhe diria: presidente, não fale; ou melhor, pense nas consequências de suas falas, independentemente de suas intenções. Sei que é difícil, afinal eu estava em seu lugar quando houve o “apagão” e também durante algumas crises cambiais. Não adianta espernear: vão dizer que a “culpa” é sua, seja ou não. E, no fundo, é sua mesma. Não se trata de culpa individual, mas política. Quem forma o governo (sob circunstâncias, é claro) é o presidente. A boca também é dele. Logo, queiramos ou não, sempre haverá quem pense que o presidente é responsável. Vox populi, dir-se-á...
É assim em nosso sistema presidencialista. E talvez seja assim nas sociedades contemporâneas. Com a internet as pessoas formam redes, tribos, e saltam as instituições. Por isso é mais necessário do que nunca que haja lideranças. Em nossa cultura e em nosso regime, já de si personalistas, com mais forte razão os líderes exercem um papel simbólico, falam pela comunidade. O líder maior é sempre o presidente, pelo menos enquanto continuar lá. Por isso é tão importante: se não souber falar, se tiver dúvidas, que o presidente se cale. Como nesta última semana.
Melhor, contudo, é que se emende e fale coisas sensatas, que cheguem ao coração e façam sentido na cabeça das pessoas razoáveis.
SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Responsabilidade fiscal condiciona gestão da dívida
O Tesouro Nacional dependeu de bancos e fundos de investimento para a captação líquida, em maio, de R$ 86,7 bilhões em títulos públicos, elevando em 2,17% a dívida pública em relação a abril, para R$ 4,25 trilhões. Foi o melhor mês para a colocação de papéis federais desde abril de 2018 e o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, afirmou ao serviço noticioso Broadcast da Agência Estado que não tem havido dificuldade para a venda de títulos. Mas isso depende de juros baixos, previstos para os próximos três anos. (O custo médio das emissões em oferta pública da dívida mobiliária interna caiu de 6,94% ao ano em dezembro de 2019 para 5,62% em maio de 2020.) “Se houver qualquer dúvida sobre o comprometimento fiscal do Brasil, essa taxa de juros pode voltar a crescer, com impacto direto na dívida pública”, advertiu Mansueto. “É importante que continuemos mandando os sinais corretos sobre o ajuste fiscal”, disse.
A melhora do mercado para os papéis públicos foi favorecida por maior estabilidade da conjuntura global, mas não há consenso quanto aos próximos meses por conta das relações comerciais conflituosas entre China e Estados Unidos, onde a crise sanitária voltou a se agravar. Esses fatores têm impacto tanto sobre a economia brasileira como sobre a gestão da dívida do País.
Em maio, enquanto bancos e fundos aumentavam suas carteiras de títulos federais, os estrangeiros voltaram a reduzir aplicações – a participação desses investidores entre os principais detentores da dívida caiu de 9,36% em abril para 9,11%. Na comparação com dezembro, os estrangeiros diminuíram sua participação em 1,32 ponto porcentual, ou mais de R$ 56 bilhões.
A redução do prazo de vencimento da dívida – a parcela vencível nos próximos 12 meses aumentou de 21,54% em abril para 23,25% em maio – foi tratada pelas autoridades como consequência “normal” de um tempo de turbulências.
O Banco Central (BC) deverá empregar parte do lucro obtido com a valorização em reais das reservas em dólar na aquisição de títulos públicos. Mantido o bom senso que tem marcado a atuação do BC, isso permitirá captar mais recursos necessários para o custeio das enormes despesas com a crise sanitária, especialmente as relativas aos auxílios financeiros aos mais carentes.
Covid-19: óbitos de idosos deixam efeitos sociais nas demais gerações

O caminhar um pouco vagaroso não há mais. Nem o contar de histórias, às vezes, até repetidas, mas fundamentais para que tantas gerações saibam o que ocorreu naquela família, naquele lugar. Foi embora o som da voz mais pausada cuja dona - em tempos convencionais - ainda guardava o hábito de sentar na calçada. Partiu quem viu o bairro, as ruas, as pessoas se transformarem ao longo de décadas. A Covid-19 os levou.
No Ceará, assim como em inúmeras partes do mundo, os idosos são a imensa maioria das vítimas silenciadas pela doença. No Estado, até junho, a proporção é que a cada 10 óbitos pela doença, 7 foram de pessoas com 60 anos ou mais. De março a junho, 6.180 pessoas perderam a vida no Estado devido à Covid-19. Destes, 4.578 eram idosos. Para além dos lutos individuais, a perda concentrada (e quase simultânea) de milhares de pessoas mais velhas traz grandes efeitos sociais: fragiliza ainda mais o contato das demais gerações com a velhice e enfraquece as memórias da história social de cada território.
No bairro Parquelândia, em Fortaleza, o "Seu Magalhães" já não cumprimenta os conhecidos, com o característico traço gentil. A loja de autopeças fechou, após mais de 30 anos de funcionamento. Seu Magalhães deixou 3 filhos, 4 netos e a esposa. José Raimundo Vieira Magalhães tinha 76 anos. Foi um dos milhares de idosos mortos em decorrência da Covid-19 no Ceará, onde, estima o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,32% dos 9,1 milhões de habitantes, são idosos.
No dia 5 de junho, após dias internados no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Seu Magalhães perdeu a vida. A neta, jornalista Camila Magalhães de Holanda, chamada carinhosamente de "vida" pelo avô, assim como os demais parentes, não pode velar o corpo de Magalhães. A pandemia que leva, sobretudo, idosos, é também cruel para qualquer tentativa de rito de encerramento. As lembranças, agora, são muitas. Multiplicam-se. Camila o descreve como um homem alegre, leve e positivo.
Na família de Magalhães, Camila e o irmão, ambos com mais de 20 anos, são os netos mais velhos. Outros dois ainda são pequenos. "Nós fomos os únicos netos por muitos anos. Vivemos muito mais coisas que o meu primo de 7 anos e a outra prima de 1 ano. Minha prima não vai ter o vô maravilhoso que eu tive. Não vai saber o que é o vô levar no parquinho, o que é o vô buscar na escola, o vô amassar o feijão. Não vai saber o que andar de buggy com o avô", afirma ela. Lacunas compartilhadas em tantos outros lares.
Proporção
No Ceará, do total de 6.180 mortes por Covid entre março e junho, 44,61% foram de pessoas entre 60 e 79 anos. Outras 29,97% foram de pessoas com mais de 80 anos. Além de serem as pessoas que mais morrem por Covid-19, os idosos são também o grupo etário com o maior crescimento na taxa de contaminação registrado no decorrer dos meses. Em março, a cada 100 pessoas contaminadas no Ceará, 17 tinham 60 anos ou mais. No final de junho, essa proporção era de 22 idosos contaminados a cada 100 infectados.
Mas, o que exatamente deixa os idosos tão suscetíveis? O primeiro ponto, explica o professor da Faculdade de Medicina da UFC e membro do Comitê da Covid-19 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Jarbas Roriz Filho, é o envelhecimento do sistema imunológico. Nas pessoas mais velhas, relata ele, há uma diminuição do funcionamento do sistema imunológico, tanto do sistema inato como do adaptativo.
"Temos barreira de proteção no organismo e células que vão de imediato combater o microorganismo que entra no nosso corpo e depois esse sistema imunológico gera uma memória imunológica de fabricação de anticorpos. Então, em todas essas etapas a capacidade de resposta do idoso é menor e torna ele mais vulnerável à ocorrência de infecção de modo geral", diz.
O médico destaca ainda que há outros aspectos "que vão além da idade". Por exemplo, a funcionalidade do indivíduo. Isto é, se são idosos ativos, com hábitos mais saudáveis. "Existe a idade cronológica e a idade biológica, então, a pessoa pode ter uma idade mais avançada, mas o organismo estar bem, com bom nível de saúde. Uma pessoa com 80 anos que tem excelente funcionalidade e poucos problemas, tem uma expectativa de vida maior do que alguém que tem menos anos, mas tem doenças crônicas descompensadas, que não cuida da alimentação", ressalta o médico.
Para além da dimensão sanitária, a pandemia gera dilemas sociais e emocionais. Nesse momento atípico e trágico, o grupo etário que, em geral, já é marcado por estigmas e privações também é afetado frontalmente. A professora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e gerontóloga, Adriana de Oliveira Alcântara, chama atenção para a relação com o envelhecimento que precede a pandemia: "no que tange à velhice, assistimos ao preconceito num país que idealiza a juventude antes da pandemia, a gerontofobia sempre existiu. E, hoje, passamos a ter data de vencimento. O valor da vida diminui devido à idade? Não. E, por isso, não está 'ok' de jeito nenhum aceitar naturalizar a morte de um grupo cujo critério é determinado pelo tempo de vida da pessoa".
Ela reitera que "envelhecer junto à família é um desafio, os contatos intergeracionais nem sempre são partilhados. Será que um quer saber do mundo do outro? Como conquistar a geração que é fascinada pelas conversas via WhatsApp, para ouvir as histórias do 'meu tempo'? Por outro lado, os velhos querem saber do mundo dos jovens? A saída é a intergeracionalidade".
A professora analisa que a tragédia da pandemia dá chances para que as pessoas possam rever conceitos, comportamentos. Ela acrescenta: "Qual o lugar dos nossos velhos nas nossas vidas? Como compreendemos o isolamento destes junto aos seus familiares, antes e depois da pandemia? Terá sido mesmo uma situação inédita trazida pela Covid-19? Temos, agora, uma provocação para pensarmos sobre o sentido do tempo".
Patrimônio
"Não há comunidade, nem futuro, sem valorizar o seu patrimônio herdado, transformado, produzido e transmitido", destaca o sociólogo e integrante do Conselho Gestor do Ponto de Memória no Grande Bom Jardim, Adriano Almeida. É de lá que ele e tantos moradores da periferia de Fortaleza têm testemunhado inúmeras perdas para a Covid-19 de pessoas que são referências em suas comunidades.
Adriano ressalta: "a morte é o desaparecimento de um ente social. Com ela, se vai uma perspectiva do olhar sobre os fatos, sobre a realidade. Com ela, uma janela para a paisagem da vida se fecha, ou, pelo menos, uma das versões da verdade se apaga". Registrar para não desaparecer é tarefa, conta ele. Por isso, desde 2012, o Ponto de Memória GBJ recolhe informações sobre guardiões da memória daquele território.
O sociólogo acrescenta que, nesse momento, "a ficha não caiu ainda", por "estarmos no olho do furacão, e por não estarmos ainda juntos fisicamente, a dor e o luto têm sido familiar e dos próximos. Somente mais tarde, sentiremos o baque e teremos a dimensão do vazio e da profundidade deste fosso patrimonial provocado pela Covid-19". Diarionordeste
Usina de Quixadá, do fracasso da mamona à boa esperança da venda
EGÍDIO SERPA /DN
Há interessados na compra da usina, mas na cabeça de nenhum deles, certamente, está hospedada a ideia de produzir biodiesel da mamona, uma oleaginosa cuja produção em escala inexiste na geografia cearense.
Da lista de produtos agrícolas do Ceará, a mamona é só uma bissexta referência.
Mas, mesmo assim, alguém do setor de novos negócios da Petrobras imaginou, projetou e convenceu a empresa a construir e operar, em 2008, uma usina de biodiesel, em Quixadá, tendo como matéria prima a ... mamona.
E mamona cultivada pela agricultura familiar.
Oito anos depois, já livre dos seus antigos e corruptos diretores, alguns dos quais foram presos na Operação Lava Jato, a Petrobras anunciou o fechamento da usina, que, nos dias de hoje, está exposta à venda.
Há interessados na sua compra, mas na cabeça de nenhum deles, certamente, está hospedada a ideia de produzir biodiesel daquela oleaginosa, cuja produção em escala inexiste na geografia cearense.
Soja ou caroço de algodão pode ser a opção.
Mas a produção nordestina de soja é insuficiente (e, mesmo que o fosse, daria mais lucro com a exportação); e a de algodão, também, pelo menos neste momento.
No fim de 2007, numa concorrida reunião do Agropacto, no auditório da superintendência do Banco do Brasil, um calejado agroindustrial advertiu: é impossível cultivar mamona em solos improdutivos, e anteviu a inviabilidade econômica da usina de Quixadá. Seria – como foi -- jogar fora o dinheiro público, um costume da época.
Uma fonte do Governo do Estado não escondeu ontem a esta coluna o objetivo político do fracassado empreendimento.
Mas ela considerou que, sendo aquela unidade industrial uma usina moderna, cuja produção pode ser diversificada, “a perspectiva é de que seus futuros novos donos a tornarão um investimento viável no curto prazo, abrindo novas e amplas perspectivas para a economia e para o mercado de trabalho do Sertão Central do Ceará”.
A conferir.
AVENTURA
Por causa da pandemia do novo coronavírus, a aviação comercial brasileira endoidou.
O economista cearense Luiz Edson Saraiva Serpa e sua mulher, Nadja, que residem há 50 anos em São Luís, foram submetidos ontem pela Azul Linhas Aéreas a uma maratona inacreditável.
O que seria uma viagem de apenas 60 minutos transformou-se numa penosa excursão de 12 horas.
Eles saíram de São Luís às 14 horas de sexta-feira, viajaram até Confins, em Belo Horizonte, onde fizeram uma conexão para a paulista Campinas, mais ao Sul ainda, de cujo aeroporto de Viracopos, finalmente, embarcaram para Fortaleza, onde desembarcaram às 2 horas da madrugada deste sábado.
De tudo isso, a parte boa foi o preço das passagens, que coube no bolso do casal.
Eles retornarão à capital maranhense na terça-feira, 7, repetindo a mesma aventura aérea que os trouxe até aqui para visitar a mãe dele e de mais 12 irmãos, de 99 anos, avó de 50 netos e bisavó de 37 bisnetos.
ELETROELETRÔNICO
Informa a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônico (Abinee):
A produção do setor cresceu 15,6% em maio na comparação com o mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal, conforme dados divulgados pelo IBGE. Esse incremento ocorreu após três quedas consecutivas.
O isolamento social devido à Covid-19 impactou a produção industrial desde a última semana do mês de março, afetando o mês inteiro de abril.
No acumulado de janeiro a maio de 2020, a produção industrial do setor eletroeletrônico recuou 16,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse resultado decorreu da queda de 16,8% da área eletrônica e da retração de 16,0% da elétrica.
COMBUSTÍVEIS
Informação do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos):
A receita de suas empresas associadas (os postos de combustíveis) teve queda de até 80%. Na média, a perda de faturamento foi de 50% nos últimos três meses. Mas – esta é a boa notícia – as vendas estão fazendo uma curva ascendente.
BOA IDEIA
Luiz Girão, fundador e sócio da Betânia Lácteos, manda um recado ao ministro do Desenolvimento Regional, Rogério Marinho, de quem é amigo:
“Quer reduzir o custo do Projeto São Francisco de Integração de Bacias? Instale ao longo dos Canais Leste e Norte parques de geração solar fotovoltaica. A despesa com energia cairá para perto de zero”, garante Girão.
TURISMO
Será o turismo o setor que mais demorará a voltar às boas atividades de antes da pandemia do coronavírus. As empresas aéreas enfrentam prejuízos que só com a ajuda dos governos será superado.
O de Portugal já resolveu o problema da TAP, injetando nela 1,2 bilhão de euros.
Aqui no Brasil, porém, Azul, TAM e Gol aguardam o socorro do BNDES, que ainda não veio.
Novo saneamento: competição saudável
O Projeto de Lei 4.162/19 que trata do novo marco legal do saneamento aprovado na semana passada e que agora irá para sanção presidencial tinha por objetivo principal a atração de novos investimentos para levar água potável a 99% da população, rede de esgoto a 90% e universalizar o serviço até 2033. Trata-se de atualização há muito esperada e uma urgente medida para tentar resgatar um atraso antigo, dos tempos de Oswaldo Cruz no início do século 20.
Entretanto, apesar da ciência e dos fatos demonstrarem, sem dúvida alguma, a importância dos serviços de saneamento básico como condição essencial para a melhoria na saúde e bem-estar de todos os indivíduos, há atualmente uma discussão desfocada sobre a aprovação do projeto de lei: a questão primordial do projeto não é a “privatização” do setor de saneamento básico e a consequente mercantilização da água.
Em verdade, o que o PL 4.162/19 traz de inovação é a oportunidade de se promover, em igualdade de armas —level "playing field"— a competição como elemento acelerador dos investimentos e das melhorias nos serviços públicos de saneamento básico, visando a sua universalização.
O ajuste regulatório que se propõe no novo marco provoca um choque e traz para a realidade dos anos 2020 as atuais prestadoras de serviços públicos de saneamento básico —mais de 90% dos serviços prestados por autarquias, empresas públicas e empresas de economia mista— uma realidade na qual metas de expansão de rede, níveis de serviços, novos investimentos e inovação tecnológica deverão ser preocupação e obrigações principais dos prestadores de serviços, sejam eles públicos ou privados.
Os prestadores de serviços estatais, em especial as companhias estaduais de saneamento, terão que se atualizar, operacional, tecnológica e financeiramente, para fazer frente a um mercado competitivo de múltiplas oportunidades e fornecedores. Importante ressaltar que as regras de transição previstas estabelecem prazos suficientes para esta adaptação, assim como dão oportunidade para que os titulares dos serviços –os municípios– possam optar pela melhor alternativa: serviços prestados por investidores privados ou serviços prestados por entes estatais locais ou estaduais.
O novo marco é muito rico em regras para solucionar questões contratuais pendentes nos setor, tais mecanismos para venda de controle das empresas de saneamento estaduais, sem deixar de se observar a vontade dos municípios –titulares da competência constitucional dos serviços– ou seja, qualquer adaptação, renovação ou encerramento das atuais relações entre provedores dos serviços de saneamentos e os municípios, estes deverão ser ouvidos.
Outro dispositivo importante previsto no projeto de lei é a certeza da justa indenização por investimentos realizados e devidamente contabilizados, nas hipóteses da troca dos prestadores de serviços nos próximos anos de transição e adaptação ao novo marco regulatório.
Certamente, a inovação legislativa que estamos prestes a aprovar será ponto de partida para o resgate dos serviços de saneamento básico no Brasil, uma condição fundamental para alavancagem de novos investimentos, sejam públicos ou privados, em bases competitivas e condições equitativas mas que dependerá de outros elementos tão importante quanto, tais como um concerto político entre os diversos entes federativos envolvidos para um planejamento abrangente das diversas oportunidades e necessidades nos milhares de Municípios brasileiros.
Afinal, serviços de saneamento básico, apesar de serem passiveis de delegação, sempre será uma função precípua e essencial do poder público.


