A esquerda perdeu! Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo
O alarido das eleições, antes e depois dos resultados, terminou por produzir um barulho inusitado, o de que as esquerdas estariam avançando, recuperando antigas posições. Se antes as evidências já indicavam o contrário, apesar do esforço de institutos de pesquisas de apresentar “retratos” distantes da realidade, depois ficou ainda mais difícil, dada a sua perda de posições, com o PT desaparecendo das capitais do País. A esquerda perdeu. E fragorosamente.
Isso não significa que a extrema direita tenha ganho. O segundo turno apenas confirmou o que o primeiro já havia sinalizado. Candidatos bolsonaristas, como Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, e Capitão Wagner, em Fortaleza, não tiveram sucesso. O primeiro perdeu por 30 pontos porcentuais, não deixando nenhuma margem a dúvidas; o segundo, embora tenha sido mais competitivo, perdeu para o candidato da família Gomes. A estrondosa vitória de 2018 minguou em pouco tempo, deixando um acre sabor de insucesso.
Insucesso revelador da incapacidade de governar, de oferecer soluções para os urgentes problemas nacionais, para além da grave crise da pandemia, em que o único espetáculo apresentado é uma pantomima sem fim. Chegamos às raias do absurdo. O presidente e o ministro da Saúde advogam tratamentos preventivos, que inexistem para a comunidade científica do Brasil e de todo o planeta. Procuram somente mascarar decisões equivocadas, como a de dar vazão à distribuição de hidroxicloroquina indevidamente financiada e produzida. Discute-se também a obrigatoriedade ou não da vacina, quando não há vacina a ser distribuída. Discute-se sobre o modo de aplicação de algo no momento inexistente. É surreal!
O eleitorado demonstrou-se cansado dos ataques incessantes e das mentiras repetitivas, sem que as questões principais do País sejam enfrentadas. Figuras de inimigos imaginários expõem o seu descolamento da realidade quando as questões reais batem à porta, como a doença, a morte, a fome, a queda de renda, o desemprego e a ausência de expectativas. A dita “nova política” envelheceu em apenas dois anos. Haja senilidade precoce!
Daí não se segue, porém, que a esquerda tenha avançado nem que suas bandeiras, se é que existem, tenham sido adotadas. O PT, o mais importante partido de oposição, continua velho, não tem sabido se renovar. Manchado pela corrupção em seu exercício do poder e pela incompetência do último governo Dilma, continuou apegado à figura de Lula. Ou o partido se repensa ou permanece atrelado aos julgamentos inúmeros do ex-presidente e ao impeachment da ex-presidente. O partido devia deixar a posição de advogado de defesa de seus líderes e partir para uma agenda propositiva nacional. Não se olha para o futuro observando somente o retrovisor de um passado que, hoje, só a ele interessa, e nem sequer à totalidade de seus membros.
Os candidatos Boulos, em São Paulo, e Manuela, em Porto Alegre, só foram viáveis como alternativas de poder para os institutos de pesquisa. Realmente, jamais ostentaram tal posição. O primeiro perdeu por 20 pontos porcentuais e a segunda, por 10, tendo sido mesmo “avaliada” como estando na primeira posição no primeiro turno. Erros grosseiros. Curioso, aliás, que os institutos não mais consigam exercer influência na opinião pública, que já não segue tais pesquisas, por terem perdido credibilidade.
Note-se que um e outra são crias de Lula e com ele se identificam. Pertencem a partidos que eram satélites do PT e não conseguem, senão a muito custo, desvencilhar-se dessa identificação. Boulos quase chegou a ser ungido sucessor do ex-presidente quando de sua prisão, naquele espetáculo deprimente de resistência a uma ordem judicial. São caras novas do ponto de vista etário, porém velhas em sua trajetória e em suas propostas. Para quem tiver alguma dúvida basta ler os programas partidários do PSOL e do PCdoB. Falar de “moderação” dos candidatos beira a insensatez.
No que diz respeito a este último partido, o governador Flávio Dino, que despontava como liderança nacional, não conseguiu eleger seu sucessor. Ciro Gomes, por sua vez, teve uma vitória expressiva em Fortaleza, conseguindo bater o candidato bolsonarista, mas não demonstrou presença nacional. O quadro geral é o PT perdido em questiúnculas internas, brigando com sua imagem, e os outros partidos com imensas dificuldades de apresentar uma verdadeira alternativa política.
Os extremos como que caíram de suas extremidades, não puderam se equilibrar. Tontos, giraram em torno de si mesmos, sem a menor abertura para o outro, o País e seus problemas. A direita avançou com força em suas vertentes liberais, conservadoras e fisiológico-patrimoniais, com tinturas, às vezes, social-democratas. Por outro lado, os candidatos social-democratas igualmente se aproximaram dessas posições, voltadas para a ponderação, o bom senso e as urgências dos municípios. Quando questões nacionais afloraram, foram na mesma direção, como se os cidadãos estivessem a exigir uma nova postura para 2022.
PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS. E-MAIL: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
Inércia estatista - FOLHA DE SP
Na vasta lista de promessas descumpridas e previsões frustradas que marcam a gestão do ministro Paulo Guedes, da Economia, há poucos casos tão embaraçosos quanto o das privatizações.
Há quase dois anos no cargo, Guedes não conseguiu vender nenhuma empresa diretamente controlada pelo Tesouro Nacional, mas as juras de avanços acabam de ser renovadas para 2021.
O novo plano prevê a alienação de nove estatais federais no ano que vem, além de preparação e execução de leilões envolvendo até 106 ativos, com potencial de atração de R$ 367 bilhões em investimentos, segundo o governo.
Na relação estão a capitalização da Eletrobras e a venda dos Correios, as duas empresas com maior potencial arrecadatório, mas cuja desestatização também sofre forte resistência no Congresso.
Além dos obstáculos técnicos, superáveis, o problema principal tem sido a baixa competência do Executivo em conduzir politicamente os entendimentos.[ x ]
São vários os benefícios potenciais de um processo ambicioso e bem executado de privatização.
Além do ganho de receita, que apenas no caso da Eletrobras pode chegar a R$ 60 bilhões, o que se busca é reduzir o dreno de recursos públicos ao longo do tempo e melhorar a eficiência e a produtividade da economia, o que também depende de boa regulação.
Dentro do universo de empresas estatais federais, existem as que geram receitas próprias —e não precisam de aportes rotineiros do Tesouro— e outras que dependem da administração direta. Os altos salários e milhares de cargos são alvo de cobiça de políticos.
Um relatório produzido pelo Ministério da Economia, reunindo dados de 46 companhias controladas pela União, mostrou que 18 dessas estatais receberam R$ 17 bilhões em aportes no ano passado, quase a metade do que se gastou com o Bolsa Família.
Numa perspectiva temporal mais longa, o custo fica ainda mais evidente —em 10 anos são quase R$ 200 bilhões, um quarto do que se espera obter com a reforma da Previdência no mesmo período.
Nem tudo é fracasso, porém. Há avanços nas vendas de subsidiárias da Petrobras, com o objetivo de fomentar concorrência no refino e transporte de combustíveis.
O BNDES, ademais, vem reduzindo sua carteira de ações, que também abrange empresas privadas. Apenas com a venda de um lote de ações da Vale foram arrecadados R$ 10 bilhões há poucas semanas.
Mas a esta altura é preciso colher resultados mais céleres com a venda ou liquidação de várias dessas participações diretas. Não parece certo que será assim, já que até aqui o que prevaleceu foi a tendência estatista do presidente Jair Bolsonaro e de seu núcleo militar.
João Doria tem entre seus desafios aplacar taxa de rejeição
SÃO PAULO -Apesar da reeleição do prefeito Bruno Covas (PSDB) em São Paulo e do aumento de municípios conquistados pelo PSDB no estado, o governador João Doria (PSDB) terá que se reconciliar com o eleitor paulista se quiser ter sucesso numa candidatura à Presidência em 2022. A rejeição ao tucano não se restringe à capital. Aliados sugerem que ele comece o processo de quebra de resistência participando mais da política estadual — reunindo-se com prefeitos, por exemplo.
A declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que Doria precisa se “nacionalizar” para ter chances em 2022, um dia após o segundo turno, recolocou a bola no chão, quando aliados do governador ainda estavam na ressaca eleitoral. FH abordou, entretanto, apenas uma parte dos desafios que se anunciam para um projeto presidencial de Doria.
Lideranças do PSDB dentro e fora de São Paulo relataram ao GLOBO na última semana que consideram mais urgente, por ora, o governador reverter o desgaste de imagem em São Paulo. A conta é simples: o governador tem que ser dono de, no mínimo, 10 milhões de votos no estado para ser um candidato viável ao Planalto — algo como 30% do eleitorado paulista. Faltando dois anos para um novo encontro com o eleitor, eles acreditam que o tucano tem condições de recuperar popularidade.
Na capital, uma pesquisa Datafolha constatou, em novembro, que 61% dos eleitores não votariam de jeito nenhum em um candidato apoiado pelo tucano. No mesmo mês, o Ibope mostrou que 51% dos paulistanos consideravam a administração dele ruim oui péssima. No interior, a rejeição tende a ser menor, mas, nem por isso, menos preocupante.
Estrategistas que acompanharam as eleições municipais para o PSDB em São Paulo fazem o seguinte diagnóstico: o governo Doria tem índices positivos de avaliação, mas não consegue transferi-los para a imagem do governador. “É um armário cheio de troféu que não se reverte em melhora de imagem”, diz um deles.
Os resultados obtidos pelo PSDB nas urnas este ano aumentam a suspeita de que há um problema com a figura do governador.
Em São Paulo, o partido conquistou 184 prefeituras, o maior volume da sua história. No país, embora tenha eleito menos prefeitos, será a sigla que governará mais brasileiros a partir de 2021— 34 milhões.
Vitória de covas reanimou
Na sede do governo estadual, há confiança de que a CoronaVac — vacina do laboratório chinês SinoVac que está sendo desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan— trará uma reversão da impopularidade de Doria e exposição nacional. Entretanto, há no PSDB a avaliação, de forma majoritária, que a corrida pelo imunizante não pode ser a única aposta do governador.
São muitas as hipóteses hoje para a perda de sua popularidade. Alguns acreditam que o figurino do empresário deixou de ser um ativo eleitoral e precisa ser revisto para 2022.
Outros sugerem que Doria comece a participar da política paulista, algo que ele terceirizou em sua gestão, depois do discurso de posse, em 2019, em que proclamou:
—Aqui, agora, é ambiente de trabalho. Não vamos mais receber prefeitos e prefeitas do interior, quem quer que seja, para apenas tomar cafezinho, tomar água.
A vitória de Covas reanimou aliados do governador. Alguns deixaram o comitê do partido após a comemoração de domingo passado prometendo arregaçar as mangas desde já.
De acordo com os resultados obtidos pelo PSDB nas urnas em São Paulo, Doria dispõe do maior exército para fazer esse enfrentamento no país. O desafio será fazê-lo chegar em 2022 com condições de ser apoiado por esses prefeitos eleitos. O governador tem sob seu comando o segundo maior orçamento público do país — só perde para o que é administrado pelo presidente Jair Bolsonaro.
Para o presidente do PSDB, Bruno Araújo, Doria já é um nome forte para a eleição presidencial, e o maior desafio está em fazer uma aliança ampla em torno de uma candidatura de centro, antes de discutir nomes.
—O resultado das urnas devolve a autoestima ao partido depois do tropeço eleitoral em 2018, e nos reabilita com parte substancial do eleitor brasileiro. O desafio é construir um grau de unidade que permita alternativas ao eleitor em 2022 — disse Araújo.
Já para o presidente do PSDB em São Paulo, Marco Vinholi, questões referentes a uma candidatura presidencial de Doria devem ser discutidas mais adiante.
—Vamos trabalhar com seriedade e responsabilidade, com a preocupação em fazer o que é correto, sobretudo em período de pandemia. Deixamos 2022 para 2022 — afirmou. O GLOBO
De olho em 2022, João Doria tem entre seus desafios aplacar taxa de rejeição
Silvia Amorim / O GLOBO
SÃO PAULO -Apesar da reeleição do prefeito Bruno Covas (PSDB) em São Paulo e do aumento de municípios conquistados pelo PSDB no estado, o governador João Doria (PSDB) terá que se reconciliar com o eleitor paulista se quiser ter sucesso numa candidatura à Presidência em 2022. A rejeição ao tucano não se restringe à capital. Aliados sugerem que ele comece o processo de quebra de resistência participando mais da política estadual — reunindo-se com prefeitos, por exemplo.
A declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que Doria precisa se “nacionalizar” para ter chances em 2022, um dia após o segundo turno, recolocou a bola no chão, quando aliados do governador ainda estavam na ressaca eleitoral. FH abordou, entretanto, apenas uma parte dos desafios que se anunciam para um projeto presidencial de Doria.
Amin Maalouf: ‘O mundo está sem uma bússola moral’
06 de dezembro de 2020 | 05h00
A nova guerra fria entre Estados Unidos e China, o crescimento do ódio e da violência em diferentes partes do mundo e uma “floresta Amazônica de informação”, em referência à quantidade de notícias que inundam o cotidiano nos tempos atuais. Esses são alguns exemplos que o escritor libanês Amin Maalouf usa para descrever o momento pelo qual passa o mundo.
Esta semana, Maalouf fez uma palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Depois, concedeu entrevista ao Estadão, na qual abordou a disputa entre China e EUA, a ausência de liderança internacional, o futuro do populismo e até o lugar do Brasil no mundo.
Meu sentimento é de que existem dois riscos principais: a incapacidade de lidar com várias crises, em todos os níveis, e o fato de estarmos caminhando em direção a uma nova guerra fria. Se olharmos para a pandemia, não há resposta mundial. Se pegarmos as preocupações ambientais e todos os fenômenos ligados ao meio ambiente, não há uma mobilização global para enfrentá-las. Enquanto isso, caminhamos para uma nova corrida armamentista, agora entre EUA e China. No momento, vivemos sob a neblina da pandemia. Não temos uma bússola moral. Mas este momento em que o mundo parou é o correto para fazer uma reflexão sobre para onde estamos indo e como corrigir o rumo.
Como o sr. descreveria essa nova guerra fria?
Temos um poder que ainda é o principal, os EUA, militarmente, economicamente e também tecnologicamente. A China vem atrás, mas muito rápido e com muitas cartas na mesa. Claro que também tem fraquezas, mas há realmente um risco de colisão e conflitos em todas as formas: comerciais, tecnológicas, políticas. Provavelmente, haverá uma corrida armamentista, já existe uma disputa para conquistar aliados. Está claro que existe alguma aliança entre China e Rússia, e uma coalizão de países que temem a expansão chinesa, como Japão, Austrália e Índia. Há muitos países e movimentos interessados em ter uma relação forte com a China. E é preciso lembrar que o mundo hoje não é governado por uma ordem global. Tudo hoje é mais fluido e ambíguo. A China não carrega uma ideologia, como a União Soviética tinha, mas há claramente um modelo de sociedade e de escolhas políticas. O que é novo é a posição econômica da China, sem as fraquezas soviéticas, que pode ter um papel que a URSS não conseguiu ter.
Voltando à ideia da bússola moral. Por que ela acabou?
Um dos elementos é a ausência de liderança. Não acho que os EUA ofereceram um exemplo de liderança moral nos últimos anos. Ainda há o elemento da democracia, mas a credibilidade não está lá. E a Europa não está tendo esse papel. Ela não teve capacidade e poder para exercer esse papel. Então, ninguém o exerce. É muito difícil enxergar onde estão os valores. De certo modo, é uma lei da selva. Olhe o que ocorreu no Cáucaso, entre Armênia e Azerbaijão, uma guerra sem intervenção de nenhuma autoridade internacional. Há ausência de uma autoridade que evite guerras e resolva problemas.
Quando Hungria e Polônia desafiam a democracia podemos dizer que a UE está em crise?
A construção do bloco atravessa um momento difícil. O que aconteceu com o Brexit é um alarme real que pode ocorrer em outros países. Ela deveria ter sido construída sobre uma base mais sólida, quase como uma federação, que elegesse o seu presidente por voto popular, que tivesse um chefe do Executivo. Ela precisa da capacidade real de ter um papel e tomar decisões. Mas, infelizmente, é impossível.
Qual o papel da ONU?
No mundo ideal, a ONU deveria ter um papel mais importante, o que não é o caso hoje. Muitos fatores contribuem para seu enfraquecimento. Mas acredito que a ONU seja a única autoridade possível. Uma ONU revigorada, com mais poderes, capaz de intervir de maneira eficiente para resolver problemas. Mas isso depende dos principais poderes. É preciso reformar a ONU, torná-la menos burocrática, revisar seus métodos de tomada de decisão. Ela ainda é um organismo muito interessante.
Como o sr. avalia o aumento da radicalização islâmica?
É muito preocupante. Esse fenômeno está mudando a atmosfera política e intelectual de muitos países na Europa. Países que já tiveram atitudes tolerantes, como Holanda, Dinamarca, Suécia, agora têm certa impaciência com o que está acontecendo. São problemas que estão ficando maiores e ninguém parece ter a solução. A radicalização, por si só, é mais fraca do que já foi há 10 anos, mas há uma violência residual muito difícil de parar. Um jovem influenciado por propaganda, pega uma faca, sai à rua e mata alguém. É difícil evitar isso, mesmo com a melhor polícia e a melhor inteligência.
O sr. diz que a derrota de Trump não foi uma derrota do populismo. Pode explicar melhor?
Fiquei satisfeito de ver que muitos americanos decidiram mudar de governo, pois estava desconfortável com Trump, principalmente por sua personalidade. Mas é preciso olhar a realidade com objetividade: o apoio a Trump foi muito importante. Ele perdeu depois da pandemia e da crise econômica que destruiu tudo o que ele conquistou. Não fossem esses dois fatores, ele provavelmente teria vencido. Então, apresentar o que aconteceu como uma histórica derrota do populismo não parece verdadeiro. Foi um revés para um presidente cujo estilo não agrada a todos, que enfrentou uma situação única. O que ocorreu nos EUA não será determinante para o desaparecimento do populismo.
O sr. diz que vivemos em uma "floresta Amazônica de informação". Como sobreviver nessa selva?
É difícil distinguir o que é verdadeiro do que não é. Hoje, todo mundo pode se expressar e alcançar milhões. O único controle possível é pela educação, para permitir a uma pessoa olhar para uma informação e ter a capacidade de julgar se aquilo é sério ou não. É uma luta que temos de engajar as próximas gerações, pois não será decidida por governos e nem de uma vez por todas.
Qual a posição do Brasil no mundo hoje?
O Brasil tem uma posição interessante e um futuro brilhante. Ele está longe dos conflitos, não é afetado pelas disputas do mundo árabe. É um dos países emergentes que não é puxado por conflitos entre potências e é capaz de manter boas relações com ocidentais e países da Ásia. O Brasil pode evitar pagar o preço de conflitos e tem dimensões que lhe permitem isso, assim como reconstruir sua economia e avançar. Poucos países no mundo têm as vantagens geopolíticas do Brasil.
O ministro surge...e recua - Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo
Fazia alguns meses que não se ouvia falar do ministro da Educação. Depois de mais de um ano nos surpreendendo (no mau sentido) quase diariamente com Abraham Weintraub, o sumiço do novo parecia até um bom sinal. Mas o pastor Milton Ribeiro percebeu que as sombras não são o lugar ideal para quem quer agradar ao chefe do Executivo.
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Em Brasília, muitos já diziam que ele não passaria do começo de 2021. E então, sem sequer comunicar o secretário de ensino superior do Ministério da Educação, editou uma portaria sobre, justamente, ensino superior. Teve ajuda de seus assessores mais próximos que, como ele, pouco entendem como funciona a educação no Brasil. Nos primeiros dias no MEC, Ribeiro perguntou o que era o Fundeb, fundo que financia toda a educação básica no País e precisava de definições urgentes na época.
Na quarta-feira passada, o Diário Oficial publicou uma portaria que determinava que universidades federais e particulares voltassem a dar aulas presenciais a partir de 4 de janeiro. Confusão armada. Federais foram pegas de surpresa e avisaram o desatento ministro que elas têm autonomia em suas atividades acadêmicas. Alertaram também que a pandemia está piorando. E juristas apareceram para lembrá-lo da Constituição, das leis e das regras sanitárias.
O texto da própria portaria era tão confuso que ele mesmo dizia que, em cidades onde houver impedimento, tudo poderia voltar ao online. O objetivo maior parecia ser mesmo armar aquela balbúrdia típica em tempos de bolsonarismo - não importa se é legal, o que vale é estar alinhado com o que pensam o presidente e seu grupo mais fiel.
Na live da semana retrasada, Ribeiro já tinha dado o tom da sua nova fase. Sorridente ao lado de Jair Bolsonaro, contou que esteve no Exército e exaltou a volta do ensino presencial. Não alegou qualquer motivo educacional ou preocupação com as crianças.
Questionado pelo presidente sobre quantos alunos havia no ensino fundamental, nem ele nem seu secretário Carlos Nadalin souberam responder. Fizeram cara de paisagem, sorriram e deixaram o chefe chutar um número qualquer.
Ribeiro lembra Ricardo Velez, o primeiro a ocupar o MEC no governo Bolsonaro. O ministro colombiano chamava ensino fundamental de primário e ginásio. E ficou famoso logo no segundo mês de cargo ao enviar uma carta a todas as escolas do País, como revelou o Estadão, pedindo que os alunos cantassem o Hino Nacional e fossem filmados dizendo o slogan de campanha do presidente recém-eleito. A ideia, assim como a da portaria de agora, pegou de surpresa seus secretários e surgiu depois de uma conversa com Bolsonaro, que “queria ver algo acontecer na educação”.
E, também como Velez na época, Ribeiro voltou atrás. Ambos passam longe do perfil grosseiro de Weintraub. Sem xingar ninguém, o ministro disse que se confundiu e tudo seria corrigido. Avisou que revogaria a portaria horas depois de ser publicada, ouviu representantes de universidades. Mas até agora se espera o que, de fato, vai acontecer.
Também aguarda na mesa de Ribeiro desde outubro uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) que recomenda que as escolas possam ter ensino remoto até dezembro de 2021. Mesmo se a pandemia estiver em situação melhor no País, o online é necessário para conseguir manter o distanciamento nas escolas, sem lotar as salas.
Bolsonaro chega ao meio de seu mandato mais uma vez com um MEC inoperante e atrapalhado. E ainda diante de uma crise educacional causada pelo coronavírus. É desolador ver como a manutenção no poder é tão mais importante que as crianças brasileiras fora da escola, sem alimentação, sem aprender nada durante um ano e que esperam ajuda para que possam se desenvolver de maneira digna.
*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)





