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Após danos irreversíveis ao Xingu, Belo Monte terá que liberar mais água

André Borges, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 03 de dezembro de 2020 | 09h07 

BRASÍLIA - Depois de mudar o curso das águas do Rio Xingu para privilegiar a geração de energia, a Hidrelétrica de Belo Monte, em operação no Pará, será obrigada a liberar um volume maior da água que hoje retém em seu reservatório. A medida pretende atenuar as condições drásticas de vida que passaram a ser a rotina de um trecho de 130 quilômetros de extensão do rio, conhecido como a Volta Grande do Xingu.

As novas regras de vazão de água serão impostas pelo Ibama, responsável pelo licenciamento ambiental de Belo Monte, que é a maior hidrelétrica nacional. O Estadão apurou que a diretoria do Ibama já decidiu sobre a necessidade de revisar as regras que deverão ser acatadas pela Norte Energia, concessionária que opera Belo Monte.

A usina de Belo Monte, maior hidrelétrica brasileira
Desde 2009, o Ibama apontava os riscos que o volume de água da Belo Monte traria à região. Foto: Marcos Corrêa/PR

Em novembro de 2015, a Norte Energia fechou a barragem principal da usina, desviando uma média de até 80% da água para um canal artificial de mais de 20 quilômetros, onde foram instaladas as grandes turbinas da hidrelétrica. Com esse desvio, um trajeto de 130 km, que há milhares de anos convivia com um regime natural de seca e cheia, passou a ser submetido a um regime reduzido e constante de água, o que tem acabado com dezenas de espécies de peixes, tartarugas e frutos, além de comprometer a subsistência de milhares de famílias espalhadas em 25 vilas do trajeto do rio, entre indígenas e não indígenas.

O controle sobre a quantidade de água que passa ou não pela barragem é feito pela Norte Energia, por meio de “hidrograma de consenso” que prevê os volumes que devem ser liberados. Ocorre que esse documento técnico foi elaborado pela própria empresa, quando do seu licenciamento, em 2009. À época, relatórios do Ibama já chamavam a atenção para o fato de que os volumes previstos no hidrograma trariam riscos à região. Esses pareceres, porém, foram ignorados e o empreendimento recebeu autorização para ser construído.

Testes

Hoje, dez anos após a licença que autoriza as obras de Belo Monte, a situação se confirma. A Norte Energia alega que o trecho ainda passa por uma fase de “testes” e que isso deve ser analisado pelo prazo de seis anos, como previsto no edital da usina. O mesmo edital prevê, porém, que o Ibama pode alterar as regras de vazão do rio, conforme identifique situações que julgue necessárias.

Uma nota informativa do Ibama de 5 de outubro, a qual a reportagem teve acesso, menciona a conclusão de especialistas sobre o assunto, para afirmar que “a sobrevivência e a manutenção de todo o ecossistema da Volta Grande e dos modos de vida de comunidades não podem ser objeto de testes quando são contundentes e claras as evidências e indicativos de impactos graves e irreversíveis que já ocorrem e estão em curso”.

O pulso da inundação natural do Rio Xingu garantia a passagem de 20 mil a 25 mil metros cúbicos de água por segundo nos meses de cheia, de dezembro a junho. Com a construção da usina, a empresa adotou duas regras: libera 4 mil m³ por segundo em um ano e 8 mil m³ no ano seguinte. Esse regime artificial, porém, acabou por comprometer completamente a vida no trecho bloqueado do rio.

Impraticável

Ao analisar os resultados, a equipe técnica do Ibama concluiu que o cenário com 4 mil m³/s “é impraticável”. Sobre o cenário com 8 mil m³, declarou que os dados “são insuficientes para garantir que não haverá piora drástica nas condições ambientais e de modo de vida na Volta Grande do Xingu”.

Em sua nota técnica, que foi referendada pelo presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, o órgão afirma que, “desde o início dos estudos, não havia certeza de qual seria a vazão suficiente para prevenir ou mitigar os impactos” e que a Norte Energia propôs seu “hidrograma de consenso” como medida de mitigação.

Neste segundo semestre, o Ibama apresentou um “hidrograma provisório” para a operação de Belo Monte. A Norte Energia, porém, entrou com ação contra essa decisão, sob alegação de que o órgão mudava as regras do licenciamento no meio do processo e que agia assim por “pressão” do Ministério Público Federal. O caso foi parar no Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF1).

Na semana passada, a Justiça Federal negou o pedido da concessionária contra o Ibama. “Foi devidamente justificada a alteração do referido hidrograma, diante de fatos e dados, bem como da incidência dos princípios da precaução e da prevenção”, afirmou o TFR1. “A conclusão que se chega é que o órgão ambiental não ultrapassou quaisquer dos seus limites administrativos no tocante à sua competência para realizar, justificadamente, alterações.”

Estiagem

Por meio de nota, a Norte Energia culpou a estiagem pela situação. “A vazão natural do Rio Xingu que chega ao reservatório da UHE (usina hidrelétrica) Belo Monte está abaixo dos padrões já observados em outros períodos de estiagem, sendo uma das cinco menores vazões já registradas desde 1968, quando foram iniciados os acompanhamentos de vazões”, declarou.

Sobre a decisão do TRF1, declarou que o assunto “está em análise”. A respeito da decisão do Ibama de determinar um novo regime de vazão para o Rio Xingu, declarou apenas que não foi comunicada.

Pressão

No ano passado, após uma vistoria local realizada por diversos órgãos públicos e especialistas, foi novamente comprovado que “não está demonstrada a garantia da reprodução da vida, com riscos aos ecossistemas e à sobrevivência das populações residentes”, por causa da pouca água no trecho. “A pressão política para que fosse emitida a licença no menor prazo possível foi um dos motivos para que se exonerasse do cargo a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva, ainda em 2008”, afirma o Ministério Público Federal.

Órgãos falavam em ‘tragédia ambiental'

Há mais de dez anos, Ibama, Fundação Nacional do Índio (Funai), universidades públicas e o Ministério Público Federal alertam para a situação de tragédia ambiental que poderia ser imposta aos 130 quilômetros de corredeiras, cachoeiras, ilhas, canais, pedrais e florestas aluviais que formam a Volta Grande do Xingu. Hoje, o MPF chama a atenção para “evidências científicas de que um 'ecocídio' fulminará um dos ecossistemas da Amazônia de maior biodiversidade”.

A decisão do Ibama de impor um novo regime de partilha das águas vai ao encontro do que propõe o MPF, apesar de ainda não haver detalhamento técnico sobre como essa operação se daria na prática, pois a usina opera a plena carga desde novembro de 2019.

A expectativa é de que, no lugar do “hidrograma de consenso” da concessionária, entre em operação um “hidrograma ecológico”, que não apenas priorize a geração de energia, mas passe a garantir as condições naturais e de adaptação para a Volta Grande do Xingu. Em esclarecimentos que o Ibama deu ao MPF, foi revelado que o “hidrograma de consenso” da empresa chegou a ser aprovado pela Agência Nacional de Águas (ANA) em 2009, mas isso ocorreu antes da emissão dos pareceres técnicos que rejeitavam a proposta. 

O futuro do Brasil - Fabio Giambiagi, O Estado de S.Paulo

No Brasil, já se disse que o futuro era o elemento unificador do país: no passado, podíamos estar mal, mas a ideia de que haveria um futuro desenvolvimento à nossa espera, como uma espécie de destino manifesto do País, dava-nos certo conforto para enfrentar as mazelas do dia a dia. E cá estou eu de novo falando do que nos aguarda. Ou, como diria o Caetano, “ou não”...

Revisitando os livros que organizei, sozinho ou com algum colega, eu já tinha produzido até agora nove coletâneas só de “agendas para o País”, desde o meu primeiro livro com esse perfil, que organizei em 2003 com A. Urani e José G. Reis. Como nos embates ideológicos alguma dose de veneno é inevitável, já fui objeto da crítica de que “Giambiagi produz sempre o mesmo livro”. Na vida temos de aprender a ter humor e devo reconhecer que a frase, embora ferina, tem um quê de verdade. Não me considero, porém, “culpado” por isso, pelo simples fato de que a realidade se repete!

Basta reler os títulos de alguns dos capítulos do meu livro de 2003 (há quase 20 anos!): Por que o Brasil cresce pouco?, Abertura e crescimento: passado e futuro, As razões do ajuste fiscal, Mercosul: após a ‘paciência estratégica’, o quê?, Reforma tributária: sonhos e frustrações, O setor elétrico: a reforma inacabada, A abertura do setor de petróleo e gás: retrospectiva e desafios futuros, etc. Os títulos não parecem de um livro de 2020?

Se volto aos mesmos temas de sempre, como se vivêssemos num eterno Dia da Marmota, em que os acontecimentos se repetem regularmente, é porque no País não apenas a economia demora a “engatar uma segunda” há tempo, como estamos discutindo algumas reformas há mais de 20 anos e os problemas se repetem, num script exasperante. O Brasil cansa.

Naquele mesmo livro de 2003, Reformas no Brasil: Balanço e Agenda – onde a epígrafe era “O Brasil não tem problemas, mas apenas soluções adiadas”, frase genial de Câmara Cascudo –, tive o privilégio de, entre os diversos autores, contar com capítulos de um amigo que depois viria a se tornar ministro da Fazenda; de outro que seria diretor do Banco Central; de um terceiro, economista-chefe de um dos grandes bancos nacionais; e, finalmente, de nada menos que outros seis que posteriormente se tornaram excelentes funcionários de organizações multilaterais.

Os problemas se repetem, mas com o tempo não dá para abusar dos amigos. Assim, depois de ter perturbado vários deles, entendi que era um bom momento para tratar dos velhos problemas, porém com nomes novos, e propus à editora organizar um livro com o denominador comum de serem todos autores jovens, num elenco em que o único “coroa” seria o organizador.

O livro – que chegará às livrarias no próximo dia 10 – tem como título O Brasil do Futuro (Editora GEN), envolvendo um jogo de palavras, por tratar do amanhã, mas também por conter capítulos de autores que já começam a frequentar o debate, juntamente com outros ainda mais jovens, que têm as credenciais para vir a fazê-lo com assiduidade nas próximas décadas. Para mais de um capítulo liguei para amigos ocupando altos cargos e perguntei: “Que nome você me sugere que pode estar sentado no seu lugar daqui a 10 ou 15 anos?”. Foi uma satisfação reunir esses autores e trabalhar com eles.

Aos temas que são os “mesmos suspeitos de sempre” (a capacidade de crescimento da economia, o ajuste fiscal, o conflito federativo, o grau de abertura da economia, a agenda da infraestrutura, etc.) adicionei nesta oportunidade, seguindo a sábia sugestão de um velho amigo, um bloco de capítulos sobre os chamados “novos desafios”, associados ao mundo em mutação no qual vivemos. Essa parte do livro inclui um capítulo sobre o futuro dos meios de pagamento, um segundo sobre como o fenômeno do Big Data está penetrando em todas as áreas da produção, uma reflexão sobre como a inteligência de dados pode ser utilizada para a redefinição das políticas públicas e uma análise sobre o futuro do trabalho num mundo “uberizado”.

Vivemos num país complexo, onde as transformações são complicadas. Por outro lado, em que pese a perpetuação de alguns eternos desafios, outros foram sendo vencidos. Hoje temos juros baixos e uma inflação parecida com a do chamado Primeiro Mundo, a miséria é inferior à de 30 anos atrás, conseguimos aprovar uma reforma previdenciária digna desse nome, etc. Esses foram temas de capítulos que foram “sumindo” das minhas coletâneas, felizmente.

Uma das coisas que me fazem conservar a chama do otimismo em relação ao Brasil é que neste país temos vários elementos positivos. Um deles é o fato de termos um contingente de pessoas extremamente qualificadas para ocupar a função pública. Foi assim no passado com funcionários de primeiro, segundo e terceiro escalões que desempenharam com brilho suas funções – alguns dos quais tive a honra de contar entre os autores de livros meus.

Tenho a certeza de que vários desses jovens autores de agora escreverão páginas boas de nossa História nos próximos 30 anos.

 

ECONOMISTA

PT x PDT: apoios no Nordeste acirram disputa na esquerda de olho em 2022

Bernardo Melo / o globo

 

RIO – O saldo de quatro vitórias de PDT e PSB em capitais do Nordeste acirrou a disputa com o PT pelo protagonismo na esquerda em 2022. Com os resultados, petistas e pedetistas devem ficar em palanques opostos na maioria dos estados nordestinos, comprometendo a chance de unidade na única região em que chapas da esquerda tiveram vitórias em 2018.

 

Lideranças do PT criticam alianças pedetistas com DEM e PSDB em estados como Bahia e Rio Grande do Norte, onde há oposição a governadores petistas. Já as cúpulas de PDT e PSB veem o crescimento em prefeituras na região e a conversa com siglas fora da esquerda como formas de viabilizar uma candidatura de Ciro Gomes à Presidência, fugindo do que avaliam como “vontade de hegemonia” do ex-presidente Lula.

O PDT ampliou de 131 para 144 o número de municípios nordestinos em que venceu nas urnas, enquanto o PT caiu de 114 prefeituras conquistadas em 2016 para 91 este ano. Candidatos pedetistas se elegeram em Fortaleza e Aracaju, e a sigla também compôs as chapas vencedoras no Recife e em Maceió, ambas encabeçadas pelo PSB. Na capital sergipana, o partido fez oposição ao PDT.

O PT não venceu nenhuma das 18 cidades do Nordeste com mais de 200 mil eleitores, com derrotas em Feira de Santana e Vitória da Conquista no segundo turno. Com mais de 400 candidatos a prefeito na região, o PT foi, porém, a sigla de esquerda com mais votos no primeiro turno em todo o Nordeste: 2,5 milhões, logo à frente de PDT e PSB, que tiveram quase cem candidatos a menos cada.

— Fomos majoritários no campo da centro-esquerda. O resultado mostra que nossa aliança com o PSB é o embrião deste campo para 2022 — disse o presidente do PDT, Carlos Lupi.

Na segunda-feira, em entrevista à Rádio Bandeirantes, Ciro citou o “lulopetismo radical” como um dos derrotados nestas eleições, ao lado do “bolsonarismo boçal”. Elogiado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Ciro defendeu o diálogo “da centro-esquerda à centro-direita” para 2022. Dirigentes de PDT e PSB defendem que esta aliança não seja encabeçada pelo PT.

Para a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), as alianças locais já sinalizam caminhos distintos na esquerda.

— Quem fala demais dá bom dia a cavalo, mas o problema não são as declarações do Ciro, e sim o campo em que o PDT está se colocando. Não vemos essas alianças ao centro, e sim, à direita — afirmou Gleisi.

Necessidade de diálogo

Na Bahia, o crescimento nas eleições municipais de PSD e PP, ambos partidos da base do governador petista Rui Costa, levou o senador Jaques Wagner (PT-BA) a se colocar como possível candidato à sucessão no governo do estado, numa tentativa de já atrair as siglas aliadas. O PDT se aliou em Salvador ao DEM, do prefeito ACM Neto, que elegeu seu sucessor, Bruno Reis, e deve ser o principal candidato contra o bloco de Costa em 2022.

Em Natal, a reeleição de Álvaro Dias (PSDB) deu fôlego ao projeto do PDT de disputar o governo do Rio Grande do Norte com o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, de quem Dias foi vice. A atual governadora é a petista Fátima Bezerra, que deve brigar pela reeleição.

Após o duelo acirrado entre os primos João Campos e Marília Arraes no Recife, tornou-se provável que PT e PSB estejam em campos opostos na próxima disputa pelo governo pernambucano. Em Sergipe e Alagoas, a tendência também é de enfrentamento em 2022, mesmo que os partidos não encabecem as chapas.

No Piauí, estado em que o PDT busca se reconstruir após ser reduzido a apenas uma prefeitura, o partido  se aliou na capital Teresina ao candidato do PSDB, Kleber Montezuma, representante da oposição ao grupo do governador Wellington Dias (PT). Dias deve apoiar um nome de consenso dos partidos de sua base, entre MDB, PL e o próprio PT, para disputar a sucessão daqui a dois anos.

Ainda:‘Bolsonaro dos extremos’ não teria apoio do DEM em 2022, diz ACM Neto em entrevista

Na entrevista à Rádio Bandeirantes após o segundo turno, Ciro Gomes criticou o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), por votar usando uma camisa com os dizeres “Lula livre”. Dino argumentou que foi um esforço pela unidade política “do campo nacional-popular”.

Partido da base do governo Dino, o PDT tornou-se líder de prefeituras conquistadas no Maranhão (41) e apoiou no segundo turno em São Luís o candidato de oposição Eduardo Braide (Podemos). O senador Weverton da Rocha (PDT-MA) é cotado para encabeçar uma chapa pedetista ao governo do estado em 2022, enquanto outros nomes da base do governador também tentam se viabilizar à sucessão, como o vice Carlos Brandão, que apoiava Duarte Junior (Republicanos) no segundo turno da capital.

Segundo Dino, é necessário aguardar a "decantação" dos resultados destas eleições municipais antes de avançar nos acertos de alianças e apoios para 2022. Dino defende um diálogo entre as siglas de esquerda, incluindo PT e PDT, para viabilizar um nome deste campo à Presidência.

— Partidos como DEM e PSDB estarão com o bolsonarismo, se estiver forte, ou terão projeto próprio em 2022. Eles não pegarão seu capital político e colocarão numa chapa do Ciro. Isto é inviável.

Sem concessão, modelo de operação deve ser chave à Transposição

Tida ainda como incerta, a decisão do Governo Federal de desistir do processo de privatização da transposição do Rio São Francisco foi recebida como algo positivo por representantes do agronegócio cearense. Contudo, o sucesso do projeto, que deverá ser tocado pelo Poder Público, seguirá dependendo da definição do modelo de gestão do equipamento e utilização dos recursos hídricos nos quatro estados nordestinos que deverão ser beneficiados após a conclusão.

“É acertadíssima (a decisão do Governo Federal de não privatizar a transposição)”, disse o produtor agrícola, engenheiro e membro do conselho estadual sobre recursos hídricos, João Teixeira. Ele comentou uma informação publicada pelo jornal Folha de São Paulo de que algumas divergências entre ministérios deverão fazer o Governo Federal desistir do processo de concessão da transposição. A medida deverá ser confirmada ainda nesta semana durante reunião do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).

“Em todos os países que a gente tem conhecimento, como nos Estados Unidos, França e Israel, o eixo de transposição ou sistema de água é de múltiplos usos, para consumo animal, indústria e outros, e o ente público age com os usuários, que fazem uma administração conjunta”, disse Teixeira. “Nós não temos nenhum modelo que usa o projeto totalmente privatizado, temos modelos mistos, não tendo foco no lucro, porque na hora que você privatiza, a empresa precisa de lucro e isso pode encarecer a tarifa de água. O ente privado não tem autoridade de polícia também, então o Estado tem de estar presente”, completou. 

> Sucesso da concessão da Transposição depende de modelo adotado

> Custeio da operação da transposição do São Francisco ainda é incerto

> Liberação regular de águas do São Francisco no Ceará ainda permanece indefinida

> Transposição do Rio São Francisco tem histórico marcado por paralisações

O empresário ainda comentou que o Governo precisará ouvir a sociedade civil, assim como entidades de classe (agronegócio e indústria), e os governos estaduais para conseguir definir um modelo de gestão para viabilizar o projeto. Ele comentou que será preciso garantir que o fornecimento de energia para a operação da transposição seja competitiva, apresentando custos semelhantes aos destinados às distribuidoras no Sudeste do País.

“Precisamos discutir o modelo de gestão do projeto e ter garantido uma cota de energia do sistema Chesf a preços que são fornecidos às distribuidoras de energia no Sudeste, que recebe preços reduzidos. Se esse preço for igual aqui para o ente que gerencia o projeto, você já viabiliza ele”, disse.

A opinião é corroborada pelo economista Alex Araújo. Ele ponderou ainda que não haveria muitas diferenças entre as gestões da iniciativa privada e do Poder Público, se o modelo de operação foi definido de forma a otimizar a utilização dos recursos hídricos. Segundo Araújo, ao definir a melhor maneira de usar as águas da transposição, o Governo poderia construir um modelo de gestão que seja capaz de viabilizar todos os usos necessários, considerando a produção agrícola, uso animal, produção industrial e consumo humano.

“Questões de sistema como esses da transposição têm uma relação forte com o custo de manutenção. Se ele for muito pesado, ele pode ser uma restrição ao Poder Público pelo problema fiscal que o Governo Federal tem hoje, mas seria preciso conhecer os dados e definir melhor como o uso da água será feito para se definir esse modelo de operação sem a iniciativa privada”, apontou Araújo. 

Modelo

Já o presidente da Câmara Setorial do Agronegócio da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), José Amilcar, defendeu que a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) possa custear parte da operação da transposição no Estado. Amilcar apontou que o Governo Federal poderia negociar com os governos estaduais que as empresas públicas de gestão hídrica possam pagar por uma parte do projeto. A medida levaria a água da transposição para a Capital, deixando os recursos dos reservatórios para o agronegócio cearense.

Relatório feito para o governo classifica jornalistas e influenciadores como ‘detratores’

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 18h53

BRASÍLIA – O governo federal contratou uma empresa que classificou jornalistas como “detratores” em uma avaliação feita de postagens de influenciadores sobre o Ministério da Economia e o ministro Paulo Guedes

Paulo Guedes
Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro Foto: Gabriela Biló/Estadão

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A lista foi revelada pelo jornalista Rubens Valente, do UOL, e mostra que o relatório separou os nomes em três grupos: os “detratores” do governo Bolsonaro, do Ministério da Economia e/ou do ministro Paulo Guedes, os “neutros informativos” e os “favoráveis”. No relatório, a empresa orienta o governo a lidar com os influenciadores. As medidas vão de esclarecimentos ao "monitoramento preventivo". 

Intitulado de “Mapa de influenciadores”, o relatório analisou postagens feitas em maio de 2020 sobre Guedes e seu ministério. Entre os classificados como “detratores” estão a colunista do Estadão e apresentadora do Roda Viva, da TV Cultura, Vera Magalhães, Guga Chacra, Xico Sá, e Cynara Menezes.

A BR+ Comunicação, paga para fazer o monitoramento, tem contrato com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que é aproveitado pelo Ministério da Economia por meio de um Termo de Execução Descentralizada de junho de 2020, no valor total de R$ 2,7 milhões, que inclui outros serviços de comunicação. 

O Ministério da Economia foi procurado pela reportagem, mas não se manifestou. 

Em nota, a BR+ Comunicação afirmou que o uso termo “detrator”, costumeiramente utilizado para se referir a traidores da pátria, “foi um erro de processo, já corrigido pela empresa”. “Nosso padrão de monitoramento, que é uma técnica comum e utilizada por todas as assessorias, utiliza as expressões ‘Negativo’, ‘Positivo e ‘Neutro’. Pedimos desculpas ao cliente e aos influenciadores pelo mal entendido, que, reiteramos, já foi sanado”, diz a nota.

Gleisi: ‘Fundo do poço para o PT foi em 2016’

 

Alexandra Martins

Na eleição de 2020, o PT foi o partido que mais conquistou assentos nas Câmaras Municipais de cidades com mais de 500 mil habitantes, onde vive mais da metade da população. Já no total de municípios, ficou em sétimo lugar, com o MDB na liderança, mas na frente de outros partidos do seu campo, como PDT, PSB, PSOL e PCdoB, conforme mostrou em gráfico o cientista político Jairo Nicolau.

Em número de prefeituras, caiu de 254 para 183, ficando dez posições atrás do primeiro colocado, novamente o MDB, que obteve 784. Diferente da performance no Legislativo em grandes centros urbanos, não obteve o comando de nenhuma capital. Fato inédito, amargo, mas que não representa a derrocada do partido se considerados os números de votos obtidos na eleição, como mostra o desempenho de vereadores eleitos, afinal, o melhor indicativo da força de um partido é o voto para a Câmara Municipal, como entende Nicolau.

Em entrevista ao BRP na noite de segunda, 30, sob a ressaca dos resultados, a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), lamentou a derrota em Recife, afirmou que ainda não foi feito um balanço geral da eleição dentro do partido, falou de eventuais parceiros para 2022, ano este que será “estratégico” para o PT, elogiou o crescimento político de Guilherme Boulos (PSOL) e avaliou que na eleição deste ano o partido começou a “estancar a sangria”, uma vez que o fundo do poço fora já atingido em 2016.

Gleisi Hoffmann. Foto: Wagner da Silva.

BRP – Para onde se deslocou o voto do PT nesta eleição?

Gleisi Hoffmann – Acho que ninguém tirou voto do PT porque não perdemos votos nesta eleição. Se compararmos com 2016, ficamos no mesmo patamar de votação. Nós perdemos algumas prefeituras e alguns vereadores, mas em termos de voto, nós ganhamos, porque houve um deslocamento das candidaturas e dos eleitos para centros maiores. Nós fomos o partido que mais fez vereadores nos municípios maiores de 500 mil habitantes. E também fomos o que mais levou candidatura para o segundo turno. Isso fez parte de uma tática eleitoral nossa, de priorizar grandes centros, reposicionar o partido, voltar para as regiões metropolitanas, principalmente na área do Sudeste. Então eu acho que isso nós conseguimos fazer.

Mas, infelizmente, nas demais prefeituras menores, em cidades médias e menores, não conseguimos manter o número de prefeituras. Não teve uma migração de votos. Se compararmos com 2016, nós não perdemos votos, isso é um fato. Acho que (o deslocamento) não foi para a esquerda porque, com exceção de São Paulo com a campanha do Guilherme Boulos, tanto o PDT, o PSB e o PCdoB perderam votos. Acredito que a migração principal foi para esses partidos do centrão, não para a direita liberal, me refiro ao centrão mesmo, esses partidos mais, digamos, pragmáticos e não programáticos da política por envolver uma questão local, por ter força municipal com deputados.

BRP – O que te chamou atenção nesta eleição?

Em primeiro lugar, a campanha sistemática de desconstrução do partido que fizeram no segundo turno. É impressionante porque em muitas cidades e municípios, onde ou estávamos na frente ou empatados nas pesquisas, vimos que nos últimos dias teve uma ação bem orquestrada, bem dirigida para bater nessa questão do PT, da corrupção, de voltar a esse discurso, a questão dos valores, com voto mais evangélico e conservador, tudo por meio de fake news. É muito impressionante a força com que isso atuou no finalzinho das eleições para impedir que as nossas candidaturas tivessem sucesso. E a reversão dos resultados que considerávamos maiores, porque acompanhávamos a evolução, que acabou não acontecendo.

Foi uma eleição em que os recursos públicos contaram muito porque teve muita liberação de recurso público. Para você ter uma ideia, agora com a pandemia, teve de repasse extraordinário da União para municípios R$ 56 bilhões, dos quais R$ 46,5 bilhões foram gastos de junho a setembro. E não tinha amarra para gastar, tanto que o nível de reeleição foi muito alto nesta eleição, de 63%, contra 45% em 2016. Então, esses partidos que estavam mais bem posicionados, da base de apoio, aliados do Bolsonaro, aproveitaram muito isso.

Constatamos que agora teremos de ver o que aconteceu nessa questão dos pequenos municípios, que eu acho que passa muito pela organização local do partido. Nós estamos discutindo isso.

Pensando adiante, quais partidos o PT mais considera agora para futuras coligações com vistas a 2022, considerando que PSB e PDT parecem não querer conversa com o PT no momento?

A prioridade, claro, são os partidos da esquerda da oposição. Óbvio que essa situação do PDT e PSB, que tentam ajustar aí uma coligação entre eles, eu acho mais difícil, mas não impede conversas porque até 2022 muita água vai rolar por debaixo da ponte. O PSOL e PCdoB são partidos que nós temos como prioritários para conversar. É claro que temos que ver também como desenvolve a situação até lá, do governo, a questão econômica que vai pesar muito, como que as forças vão se colocar, como o centrão vai agir em relação ao governo Bolsonaro, especialmente alguns partidos de centro com quem já tivemos conversação.

Eu acho que com o MDB é mais difícil porque eles estão tomando uma postura mais liberal, e para nós essa questão da economia, da agenda econômica, é muito importante, porque nosso público são os trabalhadores.

Com relação ao PSD, não acredito que tenha uma aproximação tão pronta assim, a menos que dê muita água no governo Bolsonaro, os partidos não queiram ir com a direita liberal, façam uma outra opção, mas eu acho que é mais difícil. Acredito que nós vamos ter de fazer um caminho mais com os partidos de esquerda mesmo neste momento.

A senhora ficou abatida com a derrota em Recife?

Abatida, não diria. Eu fiquei triste porque o que levou aquele resultado foi um método muito ruim de campanha, utilizado por um partido que a gente tem como um partido, que se não é de esquerda é centro-esquerda, enfim, que tem princípios, que se não nacionalmente, pelo menos lá no Nordeste se posiciona mais desse lado. Utilizaram uma campanha contra a Marília Arraes que é os mesmo método da direita e da extrema direita, de desconstrução, de fake news, de pegar questões de valores, mentindo sobre isso, atacando o PT, a questão da corrupção. Isso me entristeceu muito porque nós já fomos aliados lá, apoiando o PSB. Tudo o que nós queríamos era ter direito a uma candidatura e a Marília mostrou vigor na candidatura, ela lutou sozinha lá. É uma grande liderança que, inclusive, se desponta no cenário nacional, com possibilidade mais tarde de crescer muito.

Dá para curar essa ferida?

Olha, se for falar de imediato, a gente diz não. Mas acho que temos que ponderar tudo que aconteceu, fazer um balanço, saber como o PSB vai se comportar daqui para frente no plano nacional. Se seguir esse caminho do PDT, de aliança com o DEM, fica muito difícil.

Já fizeram uma DR dentro do partido?

Nós tivemos uma conversa pela manhã (segunda, 30) com o presidente Lula, com nossos governadores,  alguns dirigentes, alguns líderes e nós vamos ter uma reunião do Diretório Nacional do PT na próxima segunda-feira (7) para fazer um balanço eleitoral, dos nossos números, os problemas que detectamos. Nós tivemos um cenário muito difícil de disputa. Primeiro essa questão da reconstrução do partido. Você não faz recuperação de salto, nós levamos um tombo muito grande político. Desde 2013, com aquelas manifestações, a gente tem tido derrotas políticas consecutivas.

Ali eclodiu o ovo.

Foi, sim, o momento em que isso começou a ser orquestrado, não que as manifestações iniciais que tínhamos fossem para isso. Mas depois elas foram capturadas por esse sentimento da direita, da população de incômodo e canalizaram contra o PT. Acho que isso foi feito com maestria por eles. Mais o golpe da Dilma, a prisão do Lula, Lava Jato. Eu diria até que nesta eleição (2020) nós estancamos a sangria porque a gente vinha decaindo. Acho que paramos, deixamos de cair, reorganizamos um pouco a nossa tropa, a nossa estratégia e tática em relação à reocupação de espaço, fomos para o enfrentamento e temos que continuar isso.

O fundo do poço então foi 2016?

Acredito que o fundo do poço de eleição foi mesmo em 2016 e depois toda a desconstrução feita em 2018 com a ascensão da extrema-direita, mesmo a gente indo para o segundo turno, tendo eleito a maior bancada, já foi uma bancada menor que a anterior. O fato de nós termos mantido nossa votação nesta eleição (2020) e termos nos reposicionado um pouco para esses grandes centros mostram que temos condições de enfrentar essa situação. Agora, claro, precisamos fazer um balanço interno, arrumar melhor nossa organização, continuar avançando na questão de comunicação… Tem vários desafios para o PT, mas eu diria que é uma retomada.

Como vê essa questão geracional em relação aos votos recebidos por Boulos?

Primeiro quero saudar a campanha do Boulos em São Paulo. Nós fizemos parte dela. Acho muito importante para a esquerda termos lideranças em ascensão, como é o Boulos, ter partidos de esquerda fortalecidos. O PT, claro, tem uma grande importância, tem mais capilaridade nacional, não deixa de ser importante pelo resultado dessas eleições, vai continuar na luta, vai continuar se reconstruindo. Então eu acho saudável para a esquerda isso. É ruim olhar para os parceiros de esquerda e ver que todos diminuíram. Eu gostaria de ter um outro quadro, que todos pudessem ter avançado pelo menos, não diminuído.

A gente saúda, temos o maior respeito pelo Boulos, é uma pessoa que a gente considera muito. Óbvio que o PT tem o desafio geracional, é um partido mais velho que o PSOL, que é um derivado do PT que se construiu. E nós temos o desafio com a juventude.

Nós apostamos muito em candidaturas jovens, de mulheres. Em Curitiba, que é uma capital difícil, nós lançamos candidatura lá que não era para ganhar, era para fazer o enfrentamento, mas tivemos um bom resultado por exemplo na Câmara Municipal. Nós tínhamos uma vereadora e elegemos três. Dois negros, jovens. Isso foi muito importante porque você faz uma renovação geracional e também comportamental. Temos investido nisso. Mas volto a dizer, isso é um processo, não é uma coisa que você estala o dedo e acontece. Tem que investir e vamos continuar investindo.

Acha que o próximo momento do PT é 2022 ou 2026?

2022 para nós é muito importante porque o PT é um partido de projeto nacional, não local. Estamos muito focados em 2022 e organizando o partido para isso, e conversando com a esquerda para que a gente possa ter robustez para enfrentar essa situação toda. 2022 para nós é um momento estratégico. Mas claro também que 2026 entra no radar.

Boulos entra nessa conversa?

Boulos é uma liderança que se coloca num patamar nacional. Óbvio que o PSOL também está pensando em 2022, mas é muito cedo para falar de nomes. Acho que a gente tem abertura para fazer a construção de um caminho para a unidade da esquerda, que seja um projeto para o país, e depois a gente discute. O PT tem nomes, tem o Lula, que é nossa grande liderança, mas obviamente que nós queremos fazer a discussão de um projeto nacional, e vamos procurar e tentar fazer isso em conjunto. BR POLITICO

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