A política e as crises - folha de sp
Acontecimentos ciclópicos, como a emergência sanitária que há mais de um ano se abate sobre todo o planeta em sincronia, deixam inevitavelmente marcas na política.
Basta notar o impacto da pandemia de coronavírus em duas das principais reviravoltas dos últimos cinco anos: a vitória do brexit no Reino Unido e o triunfo de Donald Trump nos EUA, ambas em 2016.
No primeiro caso, a convulsão neopopulista transformou-se, dobrada pela premência da epidemia, num governo conservador tradicional, sob a versão atenuada de Boris Johnson. No segundo, o negacionismo irresponsável ajudou a derrotar o incumbente da Casa Branca, fato pouco frequente na história eleitoral norte-americana.
O Brasil não ficaria de fora dessa grande onda. Consuma-se a desmoralização, em meio à trágica aceleração de internações e mortes, de um presidente da República estrambótico e irresponsável.
Em paralelo, o acerto de contas do establishment político e jurídico com a Lava Jato --em parte impulsionado pelos abusos cometidos por procuradores e juízes, em parte embalado pelo desejo de escapar das garras da lei-- devolveu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao jogo eleitoral de 2022.
De imediato, a peripécia parece que ajudou a precipitar na gestão de Jair Bolsonaro uma comichão rumo às vacinas e até ao uso de máscaras em atos públicos. Reação muito tardia, e por ora ainda deveras postiça e hipócrita para ser levada a sério, infelizmente.
Personalidades que traçavam rota para a candidatura presidencial agora refazem seus cálculos. É o caso do governador João Doria (PSDB), do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), do ativista Guilherme Boulos (PSOL) e do apresentador de TV Luciano Huck, pleiteante a aventureiro da rodada.
O quadro se reorganiza com a reabilitação do desafiante que encarna como ninguém os 13 anos do PT no governo, com suas notáveis conquistas, concentradas na área social, e trepidantes fracassos na economia dos anos finais e na convivência desabrida com a corrupção.
O quadro se reorganiza, mas não se define. Há variáveis poderosas em atuação --a pandemia, o desemprego, a fragilização das contas públicas, a escalada no preço dos alimentos, a valorização das abordagens técnicas dos problemas coletivos-- capazes de colocar tudo de pernas para o ar até o distante outubro do ano que vem.
Seria uma lástima se a reentrada de Lula no certame eleitoral reavivasse a polarização estéril com o bolsonarismo, o que parece animar militantes dos dois lados. O Brasil já conhece os estragos que o dogmatismo causa e não merece atravessar mais quatro anos de destruição do futuro a partir de 2023.
A chanchada sinistra do autoritarismo
14 de março de 2021 | 03h00
Pornochanchada já era. O Brasil vive agora uma chanchada trágica, encenada pelo mais incompetente e mais desastroso governo de sua História. Não há como estranhar as obscenidades de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo, especialmente quando dirigidas à imprensa. Suas barbaridades apenas expressam, de modo chulo, o padrão moral, intelectual e político do grupo instalado no centro do poder federal. Quando manda enfiar em lugar impróprio as máscaras destinadas à prevenção sanitária, o filho do presidente celebra, como seu pai, a mortandade dos brasileiros. Essa grosseria, tipicamente bolsonariana, foi postada em 10 de março, quarta-feira. No mesmo dia, um novo recorde de mortes pela covid, 2.349 em 24 horas, foi registrado. A família presidencial poderia celebrar um novo marco em sua história.
Também na quarta-feira o ministro Eduardo Pazuello, famoso por sua omissão quando pacientes morriam sufocados em Manaus, negou o risco de colapso nos serviços de saúde. “O nosso sistema de saúde está muito impactado, mas não colapsou nem vai colapsar”, assegurou. Em todo o País, governadores, prefeitos, secretários e médicos apontavam hospitais lotados e filas de doentes à espera de vaga em UTIs. Todos esses fatos eram componentes de um desastre muito maior: o desmoronamento, iniciado em 2019, da administração federal.
O papel mais patético nessa quarta-feira coube ao chefão da trupe, o presidente Jair Bolsonaro. Ele apareceu de máscara, num evento no Palácio do Planalto, defendeu a vacinação e até lamentou as mortes causadas pela covid. Em São Bernardo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de novo em condição de concorrer à Presidência, havia criticado a ação federal diante da pandemia. O senador Flávio Bolsonaro pediu aos seguidores a distribuição, em redes sociais, de uma foto de seu pai com a frase: “Nossa arma é a vacina”.
Vinte e quatro horas depois o Bolsonaro de sempre reapareceu, já sem máscara e com a truculência habitual. Apoiadores o haviam aconselhado, segundo fontes de Brasília, a desfazer a impressão de ter sido acuado por Lula. Mas havia sido. Isso foi evidenciado até pelo globo exibido em sua live de quinta-feira, uma resposta a quem o havia chamado de terraplanista.
Palavras grotescas, falsas e ameaçadoras compuseram a live. Contrariando fatos conhecidos e documentados, o presidente negou ter chamado de gripezinha a covid-19. Confundiu com estado de sítio as medidas preventivas, como o toque de recolher, determinadas por alguns governadores. Ele obviamente ignora o sentido de “estado de sítio”, tema tratado na Constituição.
Bolsonaro lembrou sua condição de chefe supremo das Forças Armadas. Raramente um presidente democrata menciona esse fato. Mas, além de falar sobre isso, lembrou o regime militar e pediu apoio ao povo para enfrentar os governadores. “Como é que eu posso resolver a situação? Eu tenho que ter apoio. Se eu levantar minha caneta BIC e falar ‘shazam’, vou ser ditador. Vou ficar sozinho nessa briga?”.
O palavrório é meio estranho, mas, apesar da obscuridade e dos subentendidos, a convocação lembra as ameaças de promover algo parecido com a mobilização comandada pelo presidente Donald Trump. Nos Estados Unidos, o presidente derrotado na última eleição incitou seus apoiadores a invadir o Congresso. Há alguns meses, Bolsonaro mencionou o risco de algo semelhante no Brasil se a eleição de 2022 for realizada sem voto impresso.
Bolsonaro chamou de herói nacional o torturador Brilhante Ustra, criou mal-estar com o governo chileno ao elogiar a ditadura do general Pinochet e cita com frequência o regime militar no Brasil. Referências à ditadura estão longe de ser meros componentes de uma retórica infeliz, grotesca e muitas vezes chula. O presidente, seus filhos e vários componentes da administração federal têm conseguido encenar uma paródia sinistra dos tempos ditatoriais.
O Ministério da Educação enviou a reitores de universidades federais um documento ameaçador, prometendo sanções, por “imoralidade administrativa”, a “manifestações de desapreço ao governo”. A censura é aplicável a professores e alunos. Um processo disciplinar foi aberto contra o ex-reitor e o pró-reitor de Extensão e Cultura da Universidade Federal de Pelotas. Ambos tiveram de assinar um termo de ajustamento de conduta para encerrar o processo.
Técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também foram pressionados. Receberam recomendação de limitar seus contatos com a imprensa e de evitar a divulgação de estudos antes de “aprovação definitiva” pela direção. O presidente do Ipea, Carlos von Doellinger, parece haver esquecido sua experiência dos anos 1970, quando ele mesmo e outros pesquisadores tinham amplo contato com jornalistas. Estudos eram produzidos sem censura. Artigos publicados na revista Pesquisa e Planejamento Econômico discutiam livremente a política econômica. Esse padrão, sustentado por João Paulo do Reis Velloso, um dos criadores do instituto, foi mantido por muito tempo. Talvez faltasse um governo bolsonariano.
JORNALISTA
2022, o ano que vem chegando mais cedo
14 de março de 2021 | 03h00
“Creio que nenhum homem tem plena consciência das engenhosas artimanhas a que recorre para escapar à sombra terrível do conhecimento de sua própria pessoa” (Joseph Conrad). Seria possível imaginar o mesmo de um país? Dizer, como o personagem de Shakespeare (em Macbeth): “Ai de ti, pobre país, quase com medo de conhecer a si próprio”. O Brasil sob o bolsonarismo parece cada vez mais enredado no autoengano e na autocomplacência, empenhado em perder-se em engenhosas artimanhas para escapar ao conhecimento de si próprio.
Mas a terrível sombra está a ficar mais visível com o agravamento da pandemia, e com suas consequências. Paradoxalmente, é o que poderá talvez permitir que escapemos, nos próximos 18 meses, do autoengano coletivo, que seria trágico. Terrível como possa ser, o Brasil, a duras penas, pode estar se conhecendo melhor. Afinal, Bolsonaro e sua grei são parte integrante de nossa realidade. Cumprirá a cada um de nós procurar construir coalizões – de pessoas, de partidos – aptas a apresentar-se à sociedade em geral (não apenas a nichos identitários, corporações estabelecidas e interesses consolidados) como alternativas de poder viáveis e construtivas.
Não será fácil. No presidencialismo à brasileira o poder incumbente dispõe de enormes vantagens, particularmente quando a busca da reeleição constitui sua inequívoca prioridade. O poder que detém o presidente de nomear, demitir, vetar e cooptar não deve ser subestimado. Nem sua presença nas redes sociais ou o expressivo contingente do eleitorado que lhe confere o status de mito.
Em algum momento será preciso convergir para nomes, a política assim o exige. Mas tão importante quanto o quem é com quem mais (pessoas, partidos, grupos sociais), com que tipo de proposta sobre os principais desafios do País, com que tipo de interpretação sobre onde estamos, como até aqui chegamos e para onde se está propondo que caminhemos.
Carlos Pereira, em artigo recente (Folha 8/2), comenta a diferença entre montar uma coalizão para uma disputa eleitoral e gerenciar uma coalizão para efetivamente governar, à luz das dificuldades de coordenação, custos de governabilidade e perspectivas de sucesso legislativo. Após um ano e meio de recusa, Bolsonaro foi obrigado a aceitar uma coalizão e a empenhar-se pessoalmente na eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado. Mas, como notou o autor, “estando o presidente disposto a jogar o jogo do presidencialismo multipartidário, precisa aprender a gerir a sua coalizão de forma profissional e não amadora”. Sua forma de gerir a coalizão alcançada tem se mostrado volátil e estouvada, mas claramente concentrada em sua reeleição. Que depende da consolidação e ampliação de seu eleitorado fiel, do cultivo das corporações que tem como suas e da transferência de responsabilidades para governadores, prefeitos e para a mídia profissional.
A extraordinária disfuncionalidade do Executivo federal no combate à covid é o exemplo mais flagrante e doloroso dessa inépcia, mas não o único. Afinal, é de nosso presidente a afirmação: “O País está quebrado, e eu não consigo fazer nada”. Eis a continuação da mensagem, implicitamente sugerida: porque não me deixam fazer o que eu gostaria, ou o que precisaria ser feito, a culpa não é minha. Em outra fala, saiu-se com variante muito mais grave: “Alguns acham que posso fazer tudo. Se tudo tivesse que depender de mim, não seria este o regime que nós estaríamos vivendo”. Nada surpreendente para quem em janeiro afirmara que “quem decide se um povo vive sob uma democracia ou uma ditadura são as Forças Armadas”. As duas frases não deveriam surpreender a quem conheça sua trajetória, no Exército e no Congresso, ou a quem se dê ao trabalho de assistir, na íntegra, ao vídeo da famosa reunião ministerial de 22 de abril de 2020, verdadeira ressonância magnética de um organismo disfuncional.
A História ensina que uma sociedade enjaulada em acerbas polarizações é particularmente vulnerável a populismos fraudulentos. Existem sempre instigadores que despertam e incendeiam a ambição de populistas e tiranos em potencial. Como existem sempre os facilitadores que, ainda que percebam o perigo representado por aquela ambição, imaginam-se capazes de controlar os arroubos autoritários do populista (ou do tirano) enquanto se beneficiam de seu estilo de assalto a instituições estabelecidas. Como aponta com pertinência Aung San Suu Kyi, “não é o poder que corrompe, mas o medo. O temor de perder o poder corrompe aqueles que o exercem. E o medo do açoite do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele”. Persio Arida retomou o tema em excelente live recente, a propósito do Brasil de hoje.
Nos próximos 18 meses o Brasil deverá decidir se afinal deseja assumir-se como uma democracia vibrante, reconhecida como tal pelo resto do mundo; ou se persistirá na trajetória de incerteza crescente sobre nosso futuro econômico, social e político. E a correr sério risco, à luz de eventos dos últimos dias, de reeditar o tipo de polarização que marcou tanto nossa experiência em 2018 como os últimos trágicos 12 meses de pandemia.
ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FHC E-MAIL: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
O EFEITO SUPREMO - LARRY ROHTER
Ao anular as duas condenações de Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez tremer num só golpe dois pilares da democracia brasileira: os sistemas político e judiciário. Afirmou que estava apenas cumprindo com as exigências da lei, mas até criança sabe que a lei e a justiça são coisas bem distintas. E neste caso ele ofereceu uma interpretação da lei muito questionável, que já semeou o caos no campo eleitoral e partidário e diminui as chances de a justiça ser feita.
Primeiro, o político: o Brasil agora terá de conviver, atemorizado, com a probabilidade do maior pesadelo imaginável na eleição de 2022: um confronto direto entre Jair Bolsonaro e Lula. Seria uma escolha pouco apetitosa. Foi o cantor Lobão que disse que “Lula era um ladrão e Bolsonaro é um facínora”, mas imagino que muitos brasileiros pensam da mesma maneira. Fico aliviado em ter apenas o direito de opinar, e não o de votar.
Foi estranhamente mansa a reação inicial do atual presidente, que me levou a crer que ou ele está dissimulando, ou vive no mundo da lua. “Acredito que o povo brasileiro não queira sequer ter um candidato como esse em 2022”, disse, porque “as bandalheiras que esse governo fez estão claras perante toda a sociedade”. Bolsonaro tem razão na segunda afirmação. Mas também está clara a incompetência de alguém responsável pela morte de 270 mil brasileiros e que sugere o charlatanismo como solução. Entre a corrupção e a ameaça mortal, entre roubar seu dinheiro ou roubar sua vida, qual o mais desastroso? Mas, sim, ter Lula novamente no Planalto seria um retrocesso terrível para o Brasil. Bolsonaro foi eleito para fazer a devassa exigida pela sociedade, que ele ainda não fez e nunca vai fazer. A pústula da corrupção continua afligindo o corpo político, ou até ganhando força, e um retorno de Lula significaria um indulto completo, o esquecimento de toda a roubalheira dos anos em que o PT esteve no poder. Seria também a garantia de futuras manobras ardilosas, ainda mais sofisticadas, para não ser pego de novo.
Por isso, achei a declaração de Arthur Lira, presidente da Câmara, tão reveladora. “Lula pode até merecer” uma absolvição, avaliou. “Moro não.” Por quê? Porque Moro incomoda os beneficiários do famigerado “mecanismo” dos partidos do centrão, PT e MDB, retratado pelo diretor de cinema José Padilha. Moro errou feio ao aceitar o Ministério da Justiça e foi longe demais em seu zelo de desinfetar o poder. Mas a suspeição dele, no exato momento em que parece que Lula vai sair ileso, é um ato cínico que corrói a imagem de imparcialidade do Judiciário que o STF pretende defender.
Devemos lembrar que Lula não foi exonerado. Pode ser que ele tenha sido julgado no foro inadequado, mas os fatos de Atibaia e do Guarujá não mudaram e continuam gritantes. É preciso repetir isso diariamente, até a exaustão, porque Lula vai adotar a técnica da grande mentira aperfeiçoada por Donald Trump e alegar que tem a ficha totalmente limpa. Também é previsível que vai bancar a vítima, alvo de uma caça às bruxas e um complô político.
A volta de Lula também seria ruim para os interesses de longo prazo do próprio PT.
Desde sua fundação em 1980, o partido está atrelado à figura de seu fundador mais célebre. Mas Lula completará 77 anos em outubro de 2022, e sua eterna hegemonia pessoal impede o surgimento não apenas de novas lideranças, mas, pior ainda, de novas ideias. Neste sentido, sua ausência em 2018 teria sido uma oportunidade disfarçada para o PT, se Lula não tivesse insistido em se inserir na campanha como “mártir” e bandeira eleitoral.
Olhando a lista de líderes da campanha pela redemocratização há 40 anos, vê-se que quase todos eles já faleceram (Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Mário Covas) ou tiveram a dignidade de deixar o palco e se conformar com o papel de auxiliar, como Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Suplicy e Roberto Freire. Apenas Lula se obstina em não sair do cenário. Mas é um homem dos anos 1980, com ideias daquela época. Se o PT quer sobreviver ao inevitável desaparecimento de Lula, precisa começar o processo de transformação o quanto antes. Só que ele não permite.
Quem sabe, talvez o plenário do STF consiga desarmar a bomba ativada por Fachin. Mas a decisão “monocrática” dele já danificou o Judiciário como instituição. Bolsonaro apontou as afinidades ideológicas de Fachin para desqualificá-lo como “juiz petista”. Ao mesmo tempo, surgiram novas dúvidas sobre os julgamentos nos casos anulados e o destino de outros processos contra Lula. Todos serão deliberados em Brasília, onde a hostilidade contra a Lava Jato é notória. Como diriam Mônica e Cebolinha: Xiii!
Larry Rohter, jornalista e escritor, é ex-correspondente do “New York Times” no Brasil e autor de “Rondon, uma biografia” ÉPOCA
Apoiadores veem 'recado' oculto de Bolsonaro em live semanal
A live em que o presidente Jair Bolsonaro comparou o lockdown em Brasília a um "estado de sítio" atiçou apoiadores no WhatsApp e Telegram. Desde cedo, os grupos registram uma avalanche de mensagens sobre um trecho da fala do presidente, tratado como “senha” para os bolsonaristas tomarem as as ruas e protestem contra medidas restritivas impostas em função da disseminação descontrolada do coronavírus no país. Outros viram, ainda, como pedido de apoio por parte de Bolsonaro para executar um autogolpe.
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Ao atacar as medidas de restrição de circulação, Bolsonaro disse que, se levantasse sua caneta Bic para “dizer shazam” e reagir, seria um ditador. E apelou: “Vou ficar sozinho nessa briga? O meu exército, que tenho falado o tempo todo, é o povo. Sempre digo que devo lealdade absoluta ao povo brasileiro”, inclusive ao Exército, salientou. “Eu faço o que vocês quiserem. Essa é a minha missão de chefe de Estado”.
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A base se assanhou:
“Até o mais imbecil dos cidadãos brasileiros entendeu o recado do Presidente. Se o povo for para a rua pedir intervenção a ordem será cumprida. Mas temos uma grande maioria de parasitas nesse país”, postou um bolsonarista em um grupo no Telegram.
"O que o povo brasileiro está esperando? Taí o recado", escreveu outro apoiador, imediatamente aplaudido: "Se o povo for pra rua como em 64 ele está com o povo e tudo se resolve". Imediatamente, seguiram-se memes com fotos antigas de manchetes de jornais sobre o golpe militar de 1964.
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Não é a primeira vez que esse tipo de mensagem aparece em grupos bolsonaristas. Mas, quando o presidente está em situação de fragilidade política, memes e convocações golpistas inundam as redes. Foi o caso hoje. Ao longo do dia, pipocaram chamados para carreatas e manifestações contra restrições e toques de recolher.
“Prefiro morrer de vírus a morrer de fome, e ainda pior, ver meus filhos e netos morrerem de fome e escravizados”, afirmou outro.
Mas nem mesmo os próprios bolsonaristas parecem muito confiantes de que seu movimento vá vingar. Entre uma chamada à reação e outra, alguém desabafava. “O presidente só está pedindo, nas entrelinhas, ua única coisa: que o povo ocupe as ruas, mas parece que o povo tem preguiça. Meia dúzia de pessoas não assustam ninguém, é preciso uma paralisação nacional e ampla com objetivos bem específicos”, reclamou um militante.
Por Johanns Eller / O GLOBO
Lula em 13 pontos - ASCÂNIO SELEME
O fato da semana foi o discurso de candidato proferido pelo ex-presidente Lula dois dias depois de o STF ter anulado as penas a que foi condenado. Não custa destrinchar o seu teor para tentar melhor entendê-lo.
1 - Arrebentado (de tantas chibatadas); razão para ter mágoas - Lula se queixou por ter apanhado muito ao longo dos anos. É verdade, mas ele não disse que havia motivos para apanhar. Seu governo produziu o mensalão e iniciou a partilha da Petrobras entre o PT e os demais partidos da sua base. O ex-presidente também foi julgado, condenado e preso por se beneficiar de vantagens indevidas de empreiteiras. Isso dói e magoa. Contudo, ele disse que não tem mais espaço nem tempo para guardar rancor. Só mais adiante vai se saber se o Lulinha Paz e Amor voltou mesmo.
2 - Reconhecida sua inocência - Lula inventou que foi inocentado nos casos do tríplex, do sítio e do instituto que leva o seu nome. Suas condenações foram anuladas e ele deve ser julgado por outro juiz. Pode tanto ser inocentado quanto ter sua pena prescrita ou ser condenado outra vez. Além disso, os processos do mensalão e do petrolão geraram cassações de mandatos e prisões em escala industrial na base de seu governo e no da sua sucessora Dilma Rousseff.
3 - Marisa morreu por pressão (da Lava-Jato) - Chute do ex-presidente. Mas não se pode negar que a ex-primeira-dama estava muito angustiada e pressionada em razão dos escândalos em que o marido e os filhos estavam metidos.
4 - Prato de feijão e farinha; picanha e cerveja - Lula retomou o discurso contra a fome que ajudou a elegê-lo em 2002, aproveitando o empobrecimento generalizado dos brasileiros. Falou no idioma que mais se entende no Brasil. Tem um legado importante na questão da inclusão social no Brasil para explorar no futuro.
5 - Armas para PM e Forças Armadas - O candidato afagou as instituições oficiais de segurança para corretamente descer o pau na política armamentista de Bolsonaro.
6 - O planeta é redondo - Mesmo ao ridicularizar o terraplanismo e o olavismo de Bolsonaro, Lula usou um tom sério porque não era hora de fazer graça.
7 - Citações e agradeci mentos - Foi honesto ao não esconder seu apreço à esquerda global, que sempre esteve ao seu lado. Até o famoso Foro de São Paulo ele citou. Lula não é extremista, mas claro que é de esquerda.
8 - Não ao liberalismo econômico - O ataque de Lula a Guedes (“Esse governo não tem ministro da Economia”) mostrou que seu caminho será outro. Neste discurso, e no que fez no Congresso do PT de novembro do ano passado, o ex-presidente não deixou dúvida sobre seu apetite intervencionista. Usou ainda o desgastado discurso antiamericanista (“Quando é que eu vou acordar de manhã sem ter que pedir licença para respirar ao governo americano") que ainda agrada a uma grande parcela da população.
9 - Preço da gasolina - No mesmo tom intervencionista, Lula atacou o preço dos combustíveis (“Por que cobrar em dólar se o Brasil não importa gasolina?”) e ainda se apropriou do discurso bolsonarista a favor de caminhoneiros.
10 - Imprensa - Atacou jornais e jornalistas, mas elogiou a edição do Jornal Nacional do dia em que o ministro Edson Fachin anulou suas condenações. Deixou claro que gosta mesmo é de imprensa a favor, chapa branca. Já se viu isso antes, nenhuma novidade.
11 - Vacina e máscaras - Sua posição no quesito pandemia lhe deu tantos pontos que até Bolsonaro correu para usar máscara e falar em favor da vacinação. Um dos maiores líderes da história política do país deu um exemplo a ser seguido. Falou o que o Brasil precisa ouvir. Deixou Bolsonaro pequeno, insignificante.
12 - Conversar com políticos e empresários - Lula disse que vai usar a sua maior habilidade, falar com todo mundo. Das muitas diferenças que o separam de Bolsonaro, esta é a mais visível. Lula sabe conversar, e bem. Sabe negociar e, mesmo contrariado, sabe ceder.
13 - Convite para mudar o país - O tom de candidato esteve presente em todo o discurso, mas no final ele foi emblemático. No convite para mudar o país usou a conhecida fórmula de quem diz conhecer o caminho e pede apoio do povo para conduzir o país nessa direção.

