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Lula: livre, sim; inocente, jamais

Eu juro. Eu tentei. Não foi falta de boa vontade. Tentei abrir minha mente e meu coração. Até pensei: “ouça o cara, Ricardo, vai que mudou; vai que, vá lá, tenha sido um pouco injustiçado mesmo, quem sabe?”. Mas não dá. Um pulha é um pulha. Um bilontra é um bilontra.

Lula, o ex-presidiário, ex-corrupto e ex-lavador de dinheiro, unicamente por vontade, obra e graça dos seus brodinhos do STF, já que absolutamente todas as provas e fatos mostram o contrário, continua sendo o que sempre foi, mais do mesmo, apenas mais velho.

Em seu primeiro comício público visando a eleição de 2022, mentiu como sempre, inventou como nunca e chegou ao cúmulo dos cúmulos do cinismo e da fantasia, ao declarar, com a costumeira falsa indignação: “a Petrobras, bem dirigida como foi no nosso governo…”.

Ao se vitimizar, disse “fui vítima da maior mentira jurídica em 500 anos de história”. Claro que foi. Tudo o que vimos e assistimos; todo o dinheiro recuperado; todos os depoimentos; todas as prisões; todas as provas… nada daquilo existiu. Foi tudo uma hipnose coletiva. Argh!

Para o líder da quadrilha (conforme o definiu o MPF), Moro é um criminoso, mas José Dirceu, um guerreiro do povo. Declarou-se inocente, o que não é nem nunca foi, nem muito menos se disse, agora, que seja. Investe, como de costume, na confusão. Repito: não é inocente.

O resto, eu não sei. Parei de assistir. Aliás, não deveria ter começado. Imagino que tenha descido a borduna no verdugo do Planalto. Para quem gosta de encontrar um lado bom em tudo, este será um. O meliante de São Bernardo e o amigão do Queiroz se pegando, hehe.

Será divertido o chumbo trocado de acusações de corrupção e rachadinhas. Será Queiroz, de um lado, e Palocci, do outro. O Lulinha, da Gamecorp, e o Flavinho, da mansão. Só não poderão falar mal dos amigos em comum na Suprema Corte, pois aí seria um tiro no pé.

Que Deus ouça minhas orações e, ou nos envie um anjo salvador, para encerrar esse maldito ciclo dos horrores, ou permita que eu ganhe na mega sena acumulada (com o dólar a R$ 6, tem de ser muito acumulada!!) e possa me mandar daqui. De preferência, para a Noruega.

Ricardo Kertzman / ISTOÉ

Maceió e Macapá são as únicas capitais com UTIs abaixo de 80%; 16 estão próximas do colapso

RIBEIRÃO PRETO, RIO DE JANEIRO , BELO HORIZONTE, RECIFE, CURITIBA , BRASÍLIA, MANAUS e SÃO PAULO

O agravamento da pandemia do novo coronavírus no país já faz com que apenas duas capitais tenham ocupação de leitos de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) abaixo de 80%. Outras 16 se aproximam do colapso, com mais de 90% de suas vagas em uso.

É o que mostra levantamento feito pela Folha com todos os estados e capitais do país. Só em Maceió e Macapá o cenário não estava tão crítico no início desta semana. No início do mês, eram dez as capitais com mais de 90% de ocupação.

Em outros locais, como Porto Alegre, Porto Velho, Aracaju e Rio Branco, a situação vivida nos hospitais assusta diariamente profissionais de saúde e filas por vagas viraram rotina nas três primeiras cidades.

No Rio Grande do Sul, pela segunda semana seguida o índice de ocupação de UTIs ultrapassa 100%, apesar de muitos hospitais terem aberto espaços improvisados para atender pacientes graves. Em Porto Alegre, a taxa chega a 102%.

Na última sexta-feira (5), a Procuradoria-Geral do Estado entrou com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) para fazer com que a União retome o custeio de todos os leitos de UTI destinados ao tratamento da Covid-19. De outra ponta, o estado teve um pedido de retomada das aulas presenciais negado pelo STF semana passada.

Em Porto Velho, também não há leito de UTI disponível para pacientes infectados pelo novo coronavírus. A capital de Rondônia tem 184 vagas implantadas. Com isso, pacientes estão aguardando numa fila para acessar uma vaga no hospital.

Aracaju é outra capital que já tem as vagas em UTIs tomadas. Em uma semana, a ocupação de leitos públicos passou de 69% para 99%, restando só uma vaga no hospital estadual do Coração na segunda.

Pacientes já aguardam dias por leitos de terapia intensiva, e a situação também é crítica na rede privada, onde 94% das vagas estão ocupadas. Atividades não essenciais estão proibidas nos finais de semana e entre 22h e 5h, nos dias úteis.

Já Rio Branco chegou a 99% de taxa de ocupação na segunda (8), com apenas um leito de UTI livre.

Apesar do avanço da doença, o governo adiou para sábado (13) o início do cumprimento das medidas restritivas aos finais de semana, quando restaurantes, bares e supermercados estarão proibidos de oferecer atendimento presencial, funcionando só por delivery.

Além da lotação dos leitos, o estado ainda enfrenta aumento nos casos de dengue e enchentes com o transbordamento dos rios, que desalojaram dezenas de famílias.

Em todos os estados do Centro-Oeste a situação também está crítica. Em Goiânia, dos 257 leitos existentes, 98% também estão ocupados, índice que repete a média estadual, mesmo com a implantação de novos leitos.

Em Cuiabá e na região da Baixada, que inclui Várzea Grande, há 258 leitos, incluindo municipais e federais, com ocupação de 95%. Há uma semana, era de 83%.

O hospital municipal São Benedito, em Cuiabá, por exemplo, estava com as 40 vagas exclusivas para Covid-19 ocupadas na última segunda. No estado, a ocupação passou de 87% para 97% em uma semana.

Já em Campo Grande, o índice avançou e já está em 91% e, no Distrito Federal, que enfrenta o auge da crise, 93,2%.

O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), decretou toque de recolher das 22h às 5h na segunda (8), até o dia 22. Na terça (9), decretou estado de calamidade pública.

Além de Porto Alegre, as outras duas capitais da região Sul, Curitiba e Florianópolis, apresentam altos índices de ocupação de leitos, 96%.

Nesta terça a central de leitos registrava que 123 pessoas aguardavam por vagas na capital paranaense e na região metropolitana.

A secretária municipal de Saúde, Márcia Huçulak, anunciou que sete UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento) passarão a atender só pacientes graves, inclusive para internação. “O risco de contaminação é muito alto, então estamos clamando para que as pessoas não vão para as UPAs com sintomas leves ou outras doenças.”

No estado, que tem 97% de ocupação, há mais de mil pessoas à espera de vagas.

Além de lidar com a rotina de atendimento, o auxiliar de enfermagem Sidirley Blanck, de Corbélia, cidade de 17 mil habitantes da região oeste do estado, viveu a agonia da espera por UTI para sua prima, Silvia Lauxen, que ficou quatro dias intubada em um espaço improvisado no hospital. Só na segunda-feira ela conseguiu uma vaga em Nova Aurora, a 40 km.

“O nível da pandemia da Covid-19 está dia a dia pior, não esperava que fosse chegar nessa proporção. Os municípios estão fazendo o máximo de ações para que isso diminua, mas, de outro lado, grande parte da população não está entendendo a gravidade dessa doença”, disse.

O cenário é parecido em Santa Catarina, onde 96% dos leitos estão em uso na capital e no restante do estado. Nesta terça, havia apenas sete vagas em UTIs em hospitais de Florianópolis.

No Nordeste, São Luís, Recife e Natal têm 95% de vagas em UTIs ocupadas. Na capital maranhense, há apenas nove leitos livres e, para conter o avanço da doença, foram suspensas as aulas presenciais em escolas e universidades públicas ou privadas e o horário de funcionamento do comércio foi limitado das 9h às 21h.

No Rio Grande do Norte, dos 299 leitos disponíveis na rede estadual, 92% estão ocupados, enquanto na região metropolitana de Natal a ocupação chega a 95%.

“Não vou iludir a população afirmando que basta abrir leitos. É imperativo que a gente adote o isolamento social”, afirmou a governadora Fátima Bezerra (PT) na última sexta.

Em João Pessoa, o índice subiu para 90%, enquanto Fortaleza se manteve em 87%. Salvador tem 85% e Teresina, 84%.

No Sudeste, 82% dos leitos na capital paulista estão ocupados e dois hospitais municipais chegaram a 100% de ocupação na terapia intensiva: Brigadeiro e José Soares Hungria (Pirituba).

No Rio, a ocupação das UTIs públicas era de 93% na segunda, com 16 pacientes aguardando transferência.

Em Minas Gerais, Belo Horizonte voltou a autorizar a abertura apenas de serviços essenciais para evitar que a rede fique lotada (está em 86%).

No Espírito Santo, a região metropolitana de Vitória chegou a 80% na taxa de ocupação de leitos. “É preciso que a gente compreenda que a abertura de leitos não é a solução definitiva. Precisamos interromper a cadeia de transmissão do vírus, enquanto a gente não tiver vacina para todos”, afirmou o governador Renato Casagrande (PSB) durante a entrega de 20 leitos de UTI no fim de semana.

Em Palmas há apenas três leitos de UTI livres para o tratamento de doentes da Covid-19, o que fez a prefeitura suspender o funcionamento das atividades não essenciais, missas e cultos.

Após a abertura de 40 leitos, o índice em Belém caiu de 84% para 82%.

“Antes de abrir mais leitos precisamos adequar o atendimento a quem já está no hospital. Faltam respiradores, material de intubação e até máscara N95. Não está faltando oxigênio, mas a alta demanda fez com que os pontos de oxigênio não sejam mais suficientes em alguns hospitais, que precisam transferir os pacientes para outras unidades onde ele possa receber esse suporte”, disse o médico Wilson Machado, diretor de comunicação do sindicato da categoria no Pará.

Em Manaus, que começou a flexibilizar as medidas de restrição ao comércio em 15 de fevereiro, a abertura de novos leitos não evitou o aumento na taxa de ocupação das UTIs entre o dia 1º e a última segunda, quando 90% das vagas estavam ocupadas.

Nas duas capitais com índices abaixo de 80%, porém, o cenário não é de tranquilidade, já que houve avanço em relação à semana anterior na ocupação de leitos.

Em Maceió, passou de 64% para 73%, e em Macapá, de 72% para 75%.

O STF continua morto como corte constitucional

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 15h30

A resposta automática que se obtém a cada vez que alguém crítica algum desmando do Supremo Tribunal Federal, por mais grosseiro que seja, é: tudo bem, mas o STF é o pai e a mãe das instituições brasileiras, e por isso tem de ser respeitado em qualquer circunstância. “Decisão do Supremo não se discute; se cumpre”. Por conta dessa aberração lógica, pela qual os onze ministros devem ter poderes divinos (e responsabilidade zero pelas decisões que tomam) fica eliminada da conversa a única obrigação real do STF – aquela, justamente, que faz dele um alicerce do Estado de direito. É a sua função, essencial, de decidir se a Constituição brasileira está ou não está sendo cumprida. 

STF
A estátua da Justiça, em frente ao prédio do STF, em Brasília Foto: Dida Sampaio/Estadão

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Dobrando a aposta

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O STF atual faz tudo, menos cuidar do respeito à Constituição. O que essa última decisão do ministro Fachin tem a ver com alguma coisa constitucional? Ele decidiu que todos os processos que envolvem o ex-presidente Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, incluindo aquele em que ele já foi condenado em terceira e última instância, não valem mais nada. Por que não valem? O ministro não diz nada sobre a culpa do réu - provada em três instâncias, perante nove juízes diferentes, no caso da primeira condenação. Diz apenas que Lula não deveria ter sido processado em Curitiba, e sim em Brasília. 

Nenhum dos oito magistrados que julgaram a correção da primeira sentença achou nada de anormal ou de irregular, ao longo destes últimos cinco anos. Não se achou nada porque nunca houve nada de errado com as condenações de Lula, nem quanto à sua culpa nem quanto a qualquer outra questão. Isso de julgarem o indivíduo aqui ou ali é uma das questõezinhas processuais mais elementares da praça; qualquer advogado de porta de cadeia, quando não tem mais o que dizer em favor do réu, pode alegar que ele não está sendo julgado no “foro” certo. Que raio de grande assunto constitucional é esse, para ser decidido no Supremo – onde, ainda por cima, o ministro que julga o caso joga no lixo cinco anos de decisões da Justiça?

A decisão do ministro Fachin, caso confirmada, vai provar uma vez mais que o STF continua morto como corte constitucional. Virou um escritório de despachos com a função de colocar para fora da cadeia gente que deveria estar dentro, de corruptos primitivos a traficantes de droga. Está sendo intensamente usado, ao mesmo tempo, como ferramenta para satisfazer interesses políticos do mais baixo nível – hoje em dia, quando perdem uma votação no Congresso, ou querem impor a sua vontade sem que se vote nada, os interessados correm direto para o STF. Se estiverem do “lado certo da contradição” – o lado em que está a maioria dos onze ministros – vão levar. No caso, um ministro que trabalhou ativamente no PT decidiu, na prática, que Lula pode ser candidato às próximas eleições presidenciais de 2022. 

O STF, ao proceder como tem procedido, não apenas deixou de exercer o seu dever básico de fiscal do cumprimento da Constituição. Está, com decisões como a de Fachin, agindo concretamente contra ela. Não pode existir segurança jurídica, nem estado de direito, e nem democracia, quando o principal tribunal de justiça do país funciona como um partido político e seus juízes operam como militantes partidários ou ideológicos. O que vale, aí, não é o que está escrito na lei. É o que satisfaz as ideias e os interesses de cada ministro, dos seus amigos e dos seus clientes. É onde estamos.

Ele é ruim assim - Por Carlos Alberto Sardenberg

A questão é: o presidente Bolsonaro acredita mesmo que quem se preocupa com a pandemia é um maricas ou está apenas fazendo jogadas? Pela segunda hipótese, as declarações impiedosas dele — “vão chorar até quando?” — têm o objetivo de, primeiro, esquentar suas bases e, segundo, de desviar a atenção dos desvios de seus filhos — a compra da mansão — e de seus fracassos.

Pela primeira hipótese, ele é um homem despreparado, insensível, com comportamentos desprezíveis, como esse de zombar da morte.

A tentação imediata é responder: um pouco das duas coisas. Talvez seja por aí — o presidente faz jogadas. Mas não parece ter o tirocínio, nem a capacidade emocional para armar jogadas consistentes. Parece mais um homem sob um ataque de nervos quando percebe as coisas desmoronando a seu redor.

Sim, Bolsonaro ainda tem uns 30% de aprovação. A oposição não tem um candidato presidencial já nas ruas como ele está o tempo todo.

Mas, vamos reparar. Estamos nos aproximando dos 11 milhões de casos de Covid-19. Cada uma dessas pessoas tem relacionamentos — familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho. Quanto dá esse grupo, em média? Dez, 15 pessoas? Qualquer que seja a conta, não estará errado verificar que milhões de brasileiros tiveram contato com alguém próximo doente. São esses os frescos atingidos pela pergunta: “Vão chorar até quando?”.

Sem contar os parentes de pessoas que, nos dias de hoje, não encontram leitos para internar seus entes queridos.

O presidente tenta passar a responsabilidade para os governadores e prefeitos, mas essa conversa fica prejudicada quando o próprio Bolsonaro confessa que está agora em busca de vacinas — as mesmas que desprezava.

Não é possível que, tirante os bolsonaristas de raiz e os idiotas que têm de procurar vacina na casa da mãe, os demais brasileiros, a imensa maioria, caiam nessa conversa o tempo todo.

Surgiram sinais interessantes. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, na frente de gente do Ministério da Saúde, foi claro: não sejam negacionistas, preguem o uso de máscaras, o distanciamento, evitar aglomerações, a busca da vacina.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, inverteu a tese de Bolsonaro, segundo a qual o cuidado com a saúde não pode matar a economia. Disse o ministro: sem saúde, não há economia. Logo, a principal medida econômica é vacinar em massa.

Finalmente, o vice Mourão disse que o lockdown deve ser aplicado onde necessário. Verdade que ele não manda nada, mas sua fala deve exprimir algum grupo do governo.

É verdade que nenhum deles avançou o sinal para dizer: gente, o presidente está errado.

Mas imaginem o que Bolsonaro deve ter sentido quando ouviu a fala do presidente do Senado, que ele ajudou a eleger. A menos que Rodrigo Pacheco tenha dito reservadamente que estava fazendo jogo de cena, a fala explica boa parte da raiva do chefe do Planalto. Na verdade, mesmo que fosse jogo de cena.

Também dizem que Bolsonaro está conseguindo desmontar o combate à corrupção e, assim, proteger seus filhos.

Engano. Ele se beneficia desse abafa, mas não é o arquiteto. O ministro Luís Roberto Barroso tem razão quando diz que todo mundo na elite brasileira tem algum parente, amigo, correligionário, ente querido envolvido em falcatrua. Gente que foi apanhada no Mensalão e na Lava-Jato — e que agora está reagindo.

Bolsonaro pegou carona no desmonte do combate à corrupção. A armação geral precisa de gente mais competente e mais fria, como Gilmar Mendes e outros ilustres membros das corte superiores, os grandes advogados de réus da Lava-Jato e, sim, experientes políticos do Centrão. Notando-se: o Centrão não tem amores para sempre. Só enquanto vale a pena. Disso, Bolsonaro sabe.

Carlos Alberto Sardenberg - assinatura

Por Carlos Alberto Sardenberg / O GLOBO

DRAUZIO VARELLA: 'PARTE DA POPULAÇÃO BRASILEIRA NEGLIGENCIA A MORTE'

Drauzio Varella / ÉPOCA

 

Tenho 77 anos, idade suficiente para ser realista e não repetir os equívocos da juventude. Eu esperava que as coisas seriam difíceis no Brasil durante a pandemia em razão dos obstáculos que boa parte da população brasileira enfrenta diariamente. Mas não imaginava que seriam tão difíceis. Sabia que quem vive do pequeno comércio sofreria, que aqueles que têm condições de moradia mais precárias teriam dificuldade em isolar os seus. Mas nunca imaginei que fôssemos viver um enfrentamento selvagem, com festas, aglomerações e a disseminação do vírus por pessoas que parecem não se preocupar com a vida de seus próprios familiares. A palavra correta para descrever o comportamento de muitos brasileiros é a selvageria. E temo estar ofendendo os selvagens ao fazer uso dela.

O caos a que estamos assistindo nos hospitais é um efeito direto da violência que domina parte do povo brasileiro. Basta olharmos os dados. Crianças morrem sem parar em tiroteios. Na Europa, nos Estados Unidos, episódios assim teriam impacto nacional e suscitariam uma grande discussão. Aqui, estamos anestesiados. Quando alguém é assaltado na rua, dá graças a Deus por não ter levado um tiro. A violência contra a mulher é absurda e tem aumentado. Quando vemos bares lotados enquanto mais de 2 mil pessoas morrem por dia vítimas do coronavírus, não é violência? Em meio a uma pandemia, aquele que se expõe porque sabe que poderá ter melhores condições de tratamento acaba expondo outras pessoas que não têm a mesma sorte. Coloca em perigo também seus pais e avós. Como esperar, então, que uma pessoa capaz de colocar a própria família em risco tenha consciência do mal que causa à sociedade?

Uma parte da população brasileira negligencia a morte. Nada parece comover essa gente. Nem os números crescentes de vítimas, nem as famílias desesperadas nas portas dos hospitais, em cenas mostradas diariamente pela TV. E se as 260 mil vidas perdidas não sensibilizaram esse grupo, nada sensibiliza. Estamos assistindo agora às consequências de tudo que foi feito de errado: o desmonte do Ministério da Saúde, em que técnicos foram substituídos por militares; o negacionismo do governo e do presidente da República; a ruína do programa nacional de vacinação em decorrência da falta de vacinas; e as aglomerações. Sabíamos que seria complicado isolar a população brasileira quando boa parte dela vive em condições precárias. Mas não precisávamos contar com o negacionismo, com o desestímulo ao uso de máscaras e o incitamento, por parte do presidente, para que as pessoas ignorassem os perigos do vírus.

O Brasil é o quinto país em contingente populacional e o segundo em mortes por Covid-19. Não precisava ser assim. O Brasil tem um dos programas de vacinação mais eficazes do mundo, capaz de vacinar 1 milhão de pessoas por dia. É uma referência em imunização. Mas, hoje, vacina 180 mil, no máximo. Tínhamos uma população que respeitava o calendário de imunização e que vacinava suas crianças. Hoje, temos a autoridade maior do Estado que contesta a eficácia da vacina. Diante de um futuro tão incerto, agravado pelas novas variantes mais contagiosas do vírus e pela vacinação lenta, nos encontramos reféns de uma cambada de irresponsáveis. Se houvesse mais responsabilidade, haveria menos contágio e uma menor probabilidade de tomar medidas mais drásticas de isolamento — como o que está acontecendo nos estados em que o caos se instalou no sistema de saúde. Tudo poderia ter sido diferente.

Era janeiro de 2020 quando comecei a ler sobre o que estava acontecendo na China, na cobertura da imprensa internacional. Sabia-se pouco, havia muita especulação e a verdade é que a China é um país que nem sempre tem circulação livre de notícias. Sabíamos que praticamente não havia mortes abaixo dos 70 anos de idade e que as mortes acima dos 80 eram de cerca de 12%. Não parecia nada muito pior do que as epidemias de gripe. Eu vi uma palestra do doutor Anthony Fauci, pela internet, em que ele dizia: “Olha, não há razão para essa preocupação toda. Nós vamos ter uma doença, um coronavírus mais agressivo, mas a mortalidade não parece ser maior que a da gripe”. Foi quando eu caí na besteira de gravar um vídeo falando isso. Eu disse: “Não há necessidade desse medo todo. Esses coronavírus causam resfriados. E não é por causa disso, aparentemente, que teremos um problema maior”. O ministro do Meio Ambiente pegou esse vídeo do começo de janeiro e replicou em março, quando tudo havia mudado.

No estado do Rio de Janeiro, mais de 33 mil pessoas perderam a vida desde o início da pandemia. Na imagem, um grafite retrata o combate ao vírus no bairro do Estácio, na capital fluminense. Foto: Bruna Prado / Getty Images
No estado do Rio de Janeiro, mais de 33 mil pessoas perderam a vida desde o início da pandemia. Na imagem, um grafite retrata o combate ao vírus no bairro do Estácio, na capital fluminense. Foto: Bruna Prado / Getty Images

Percebi que estávamos diante de um problema grave quando a doença chegou à Itália. Era a segunda semana de fevereiro, e a primeira mensagem que recebi foi um relato de uma colega italiana falando sobre os efeitos da epidemia por lá. Ela usava um tom dramático, que, confesso, me causou má impressão. Mas o quadro pulmonar que ela descrevia tinha tudo a ver com os coronavírus. Foi então que eu me dei conta: “Se esse coronavírus provoca um quadro pulmonar com essas características, pode ser muito mais grave do que eu estava imaginando. Do que muitos estavam imaginando”.

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O caos - ISTOÉ

Na contramão do mundo, enquanto a crise se agrava, Jair Bolsonaro negligencia a compra de vacinas, sabota o isolamento social e o uso de máscara, tentando transferir a crise para os governadores, criando uma cortina de fumaça para sua irresponsabilidade. É o principal culpado pela tragédia. E não foi por falta de aviso. Desde o início da pandemia, há um ano, técnicos e especialistas têm advertido para os perigos da Covid-19 e seus potenciais desdobramentos no País. O ex-ministro
Luiz Henrique Mandetta alertou o presidente logo no início que o número de óbitos poderia chegar a 180 mil se o governo
não interviesse. Hoje, essa cifra já ultrapassa 260 mil.

 

Mike Ryan, diretor-executivo de emergências da OMS, declarou que o Brasil vive uma “tragédia” e que a situação deve servir de lição ao mundo. “Nenhum outro país está lutando com números recordes de mortes e o sistema de saúde à beira do colapso. Ao contrário, várias outras nações que foram atingidas severamente caminham para a normalidade”, registrou o “New York Times”. O aumento de mortes em uma semana foi de 11%, em comparação aos sete dias anteriores. No mundo, ao contrário, a queda foi de 6%. Mais de 12% dos óbitos do planeta acontecem no Brasil. O infectologista Anthony Fauci, principal autoridade da força-tarefa criada pela Casa Branca contra a doença, disse que a situação no Brasil é “muito difícil”. O País está na contramão do mundo. E virou uma ameaça global, capaz de gerar variantes novas e ainda mais letais. No início do ano, as imagens do colapso na saúde no Amazonas rodaram o mundo e se tornaram um retrato do flagelo. Agora, o Brasil pode virar Manaus.

Em todas as regiões a situação se agrava. Várias capitais enfrentam colapso e ultrapassam a marca de 100% dos leitos de UTI ocupados. Hospitais viraram campos de guerra. Em Porto Alegre, os médicos passaram a escolher os pacientes com mais chances de sobreviver. Os hospitais privados de referência de São Paulo também atingiram a capacidade máxima. Imagens de funcionários horrorizados com as mortes e os dramas que enfrentam, impotentes, se multiplicam. “Estou triste, a população errou, os governantes erraram”, desabafa a médica Ilana Debarba Nedeff que atua em uma Unidade Básica de Saúde em Camboriú (SC). “Cheguei a um nível de exaustão física e mental enorme. Já tomava medicação antidepressiva e precisei aumentar a dose, senão não ia aguentar”, afirma. É impossível não se emocionar diante da tragédia que se repete em todo o País. É o que aconteceu com o governador baiano Rui Costa, no dia 1º, ao pedir que os cidadãos respeitassem as regras de isolamento. “Quantas vidas vale uma bebedeira?”, indagou o governador aos prantos. “Teremos as duas semanas mais duras e graves da pandemia. Serão as mais trágicas e difíceis para todos os estados brasileiros”, resumiu o governador João Doria, que colocou o estado de São Paulo na fase vermelha (apenas serviços essenciais funcionam e há restrição de circulação a partir das 20h).

Colapso no sul

O Distrito Federal adotou o lockdown, seguido da Bahia. Minas Gerais o decretou em 60 cidades. Em Uberlândia, havia 184 doentes na fila por um leito em UTI. Essa cidade, assim como Porto Alegre, corre o risco de viver o mesmo colapso que atingiu Manaus em janeiro, dada a curva de aceleração de casos. Porto Alegre é outra capital que vive um momento crítico, com ocupação de 102% dos leitos de UTI. Lá, pela primeira vez, o Hospital de referência Moinhos de Vento precisou alugar um caminhão refrigerado para guardar os corpos das vítimas. O governo da Bahia alugou outros 10 para manter os corpos de Salvador. Desde que Santa Catarina atingiu capacidade máxima de internação, em 21 de fevereiro, ocorreram 43 mortes na fila por leitos de UTI. Vários estados endurecem as medidas restritivas, incluindo Maranhão, Pernambuco e Rondônia. “O País inteiro está entrando numa situação de colapso”, diz João Gabbardo, ex-número dois de Mandetta e atual coordenador-executivo do Centro de Contingência de São Paulo. Pela primeira vez desde o início da pandemia, o Brasil inteiro apresenta piora de indicadores da Covid-19, registra a Fiocruz. “É a ponta do iceberg de um patamar de intensa transmissão”, diz a instituição. Dos 26 estados, 18 estão com mais de 80% dos leitos e UTI destinados à pandemia ocupados. A taxa de transmissão atingiu a marca de 1,13, de acordo com o Imperial College de Londres. É um aumento expressivo em relação à semana anterior, quando estava em 1,02.

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