O Censo Escolar do MEC apresenta resultados decepcionantes
Por Editorial / O GLOBO
Não são animadores os resultados do último Censo Escolar, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC). Os números da pré-escola recuaram no ano passado. As crianças em creches aumentaram ligeiramente, mas ainda ficaram abaixo da meta. O Ensino de Jovens e Adultos (EJA), destinado a estudantes que não completaram a educação básica, retrocedeu. As matrículas em cursos profissionalizantes cresceram, porém aquém do desejado. A melhor notícia é o crescimento das matrículas em tempo integral, mesmo assim também abaixo do ritmo ideal.
A pré-escola registrou 34 mil matrículas a menos, caindo para 5,3 milhões. Pelas metas do próprio MEC, o segmento já deveria ter sido universalizado desde 2016, mas 7% das crianças entre 4 e 5 anos ainda estão fora da sala de aula. Não é muito diferente com as creches, para crianças de até 3 anos. As matrículas subiram de 4,12 milhões para 4,18 milhões no ano passado, mas a meta era contemplar ao menos 50% da faixa etária, ou 5 milhões. A falta de creches tem impacto relevante no mercado de trabalho, pois elas representam apoio importante para mães que trabalham fora.
O EJA também desapontou: perdeu 198 mil alunos em 2024, oitavo ano seguido de queda. Mesmo o Nordeste, que concentra o maior número de estudantes (1,2 milhão), perdeu 90 mil alunos. É uma lástima num país que deveria se esforçar para aumentar a escolaridade de seus cidadãos, permitindo que eles busquem melhores oportunidades de trabalho. A queda está ligada à pouca flexibilidade dos cursos e à falta de apoio aos estudantes. Quase metade da população brasileira (49,2%) não concluiu o ensino médio.
Há também notícias positivas. Uma delas é o aumento de matrículas em tempo integral, caminho conhecido para melhorar a qualidade do ensino. Houve 624 mil novas matrículas, e o total alcançou 7,9 milhões. Mas o ritmo de crescimento arrefeceu em relação a anos anteriores. O ensino profissionalizante e técnico, essencial para ampliar a conexão com o mercado de trabalho, cresceu 6,7%, chegando a 2,57 milhões de matrículas, mas ainda está longe da meta de 4,8 milhões.
O MEC tem resistido a dar publicidade aos dados do ensino. O Censo Escolar foi divulgado com atraso de três meses. Os números da alfabetização só se tornaram públicos na semana passada, depois de sonegados por meses, sob o argumento de que havia discrepâncias. Por que não divulgar e apontar a discrepância? Não é deixando de publicar informações que o MEC conseguirá melhorar a qualidade do ensino. Cedo ou tarde, elas sempre vêm à tona, expondo as deficiências. Em que pesem os avanços, o retrato traçado pelo Censo Escolar é de estagnação, mostrando que o governo não consegue cumprir nem as próprias metas. É nisso que o MEC deveria se concentrar, em vez de esconder informações.
O alerta sobre a anistia que Lula recebeu do STF após fala de Gleisi
Por Bela Megale / O GLOBO
Lula recebeu um alerta direto de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), após a fala da ministra Gleisi Hoffmann sobre a anistia feita na noite de quinta-feira.
O presidente foi informado da indignação que a afirmação de Gleisi gerou na corte e recebeu o recado de que qualquer apoio do governo à investida do Congresso de interferir nas penas do 8 de janeiro estabelecidas pelo Supremo abriria uma grande crise com o tribunal.
Poucas horas depois de admitir debater a redução de pena aos condenados do 8 de janeiro, Gleisi Hoffmann concedeu entrevistas e foi às redes sociais dar explicações sobre sua afirmação. Ela disse que fez uma fala “mal colocada” e reiterou que é prerrogativa do STF definir as penas dos condenados pelos ataques golpistas.
— Eu fiz uma fala que ficou mal colocada mesmo, no sentido de dizer que o Congresso tem legitimidade para fazer qualquer debate, inclusive, discutir o que acha sobre as penas. Mas qualquer revisão criminal cabe exclusivamente ao Poder Judiciário, sendo que, no caso do 8 de janeiro, o responsável por isso é o STF — disse Gleisi à coluna.
A ministra também reforçou que o projeto de anistia que tramita na Câmara não visa atender às “tiazinhas do 8 de janeiro”. Ela afirmou, em tom crítico, que a proposta busca favorecer o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais que participaram de seu governo e hoje respondem pela tentativa de golpe de Estado na Justiça.
Magistrados do STF sinalizaram não querer escalar a crise com o governo federal, após a fala de Gleisi, mas afirmam que estão atentos sobre os novos posicionamentos da ministra das Relações Institucionais sobre o tema. Gleisi é a responsável pela articulação política entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.
Violência e falta de dinheiro: as razões pelas quais Lula desidrata no Nordeste
Por Bruno Soller / o estadão de sp
Os últimos dez anos do Brasil têm sido de um grande retrocesso. O país vem acumulando problemas atrás de problemas, que tiveram uma aceleração gritante durante a quebra econômica no governo Dilma Rousseff, responsável por ocasionar um processo de impeachment, culminando no afastamento definitivo do cargo da presidente da República. Com popularidade abaixo dos 10%, Dilma e sua equipe econômica lideraram um processo de retração na economia, que fez com que o Brasil recuasse uma média anual de 1,2% ao ano, durante seu segundo mandato. Com Michel Temer, um leve suspiro de reencontro de contas, com uma pauta mais reformista, mas que teve seu circuito interrompido, após o estouro do caso JBS, fazendo com que o governo tivesse grande perda de apoio popular e ficasse encurralado, respondendo por novas tentativas de impeachment.
Durante esse período, a eclosão da violência urbana, fez com que Temer ousasse e iniciasse uma intervenção militar-administrativa no Estado do Rio de Janeiro. O ex-presidente criou o ministério da Segurança Pública, escalando o ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann para comanda-lo e o general Braga Netto como interventor no Palácio da Guanabara. Com a pauta da segurança pública quente, Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército Brasileiro, ganhou ainda mais viabilidade no cenário eleitoral, de 2018, com a expectativa de que seria uma resposta ao caos instaurado no País. Vencidas as eleições e com Sérgio Moro, o juiz da Lava Jato, nomeado Ministro da Justiça, as apostas para a solução do problema aumentaram ainda mais. No entanto, a crise da covid-19, fez com que a pauta mundial mudasse e quase nada mais se discutia sobre a questão da segurança, ainda mais com os toques de recolher que a pandemia obrigava para a não dissipação da doença.
Os efeitos econômicos da pandemia e uma postura que desagradou milhões de brasileiros com falas bastante controversas e posicionamentos pouco usuais, fizeram com que Bolsonaro não conseguisse a reeleição e trouxesse para a cena eleitoral um velho conhecido dos brasileiros, que até pouco tempo cumpria pena por corrupção, mas que trazia na memória popular um certo período de bonança, com o boom das commodities e a ampla oferta de crédito: o ex-presidente Lula. Sua campanha prometia um retorno ao que os brasileiros de classe mais baixa viveram antes dessa década perdida, e tinha na simbologia da “picanha e cerveja” um eixo comunicacional que mostrava um resgate de prosperidade. Nas regiões onde há um grande contingente populacional de classe D, Lula obteve uma diferença abissal em relação a Bolsonaro. No Nordeste brasileiro, região que mais concentra essa camada social, Lula teve mais que o dobro dos votos de Bolsonaro e venceu por 69% a 31% dos válidos.
Crescendo em 10 anos, o seu PIB, em apenas 8%, o Brasil é o segundo pior país em desempenho econômico entre 2015 e 2025, quando comparadas as 20 maiores economias do mundo, ganhando apenas do Japão, que cresceu 6%, nesse intervalo. Quando se olha para a China e Índia, ambas pertencentes ao Brics, bloco econômico dos emergentes, a discrepância é ainda mais notada, já que cresceram 74% e 77%, respectivamente. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos, que sofreram com crises e são postos em xeque nos últimos tempos sobre o seu futuro econômico, aumentaram seu PIB em 28% nessa mesma época. Esse resultado que perpassou por gestões das mais variadas colorações ideológicas, trouxe o País até a situação vigente e que não tem conseguido ter respostas do governo eleito, justamente com o foco em reverter esse cenário.
As pesquisas de opinião mais recentes têm apontado para uma desidratação completa do governo Lula, justamente no Nordeste brasileiro, região em que desde 2006, tem sido sua maior força eleitoral. Pesquisa Genial/Quaest mostrou um aumento de 9%, no tempo de dois meses (janeiro a março de 2025), da desaprovação do governo nessa parte do País. Em um trabalho qualitativo conduzido pela RealTime Big Data para o blog De Dados em Dados, com exclusividade, é nítida a decepção dos eleitores com o que têm vivido na prática. A empresa conduziu 14 grupos de foco em toda a região Nordeste, em municípios da costa, do agreste e do sertão e concluiu que os dois fatores que mais afligem os nordestinos são justamente os pontos que o retrocesso da década impulsionou: a violência e a falta de renda.
Nas capitais e regiões metropolitanas, a tomada de bairros por facções criminosas tem gerado um sentimento de revolta nos moradores, que são por vezes impedidos de visitar parentes por morarem em regiões tomadas por algum grupo criminoso que está em guerra com outro que domina a região da visita. Um morador do bairro Mandacaru, em João Pessoa, na Paraíba, por exemplo, relata que não recebe sua mãe em casa há mais de ano, porque ela vive em um bairro dominado por uma facção diferente da que domina seu bairro. Na cidade, a Okkaida, inspirada no grupo terrorista islâmico Al Qaeda, vive em confronto com a Estados Unidos, criando uma situação de mortes e medo entre os moradores. A raiva e o temor são tamanhos que muitos entrevistados que votaram em Lula, relembram da frase do presidente que relativiza o crime de roubo de celular, mostrando que a pauta não é prioridade para o governante. O fato de Lula ter sido preso e condenado por corrupção, não inspira em sua figura, autoridade para falar sobre o assunto. Essa realidade se espraia por cidades como Fortaleza, Recife e Salvador, e por mais que a responsabilidade constitucional da segurança seja dos governos estaduais, o maior debate se dá sobre a legislação penal brasileira e ganha ares federais e responsabilização da presidência da República, do Congresso e do STF.
Ao partir pro interior nordestino, a pauta segurança muda de relevância e cai no que é chamado de “novo cangaço”. Assaltos em estradas e crimes de menor impacto do que os protagonizados pelos narco cartéis são os pontos mais discutidos. Ainda há alguma calmaria e menos medo. Mas, é aí que se enxerga o drama da falta de recursos na pele. O empobrecimento e endividamento das pessoas, que não têm mais dinheiro para sequer garantir a segurança alimentar de suas famílias. Em Alagoinhas, na Bahia, entrevistados comentam sobre ter que repartir um ovo em três para conseguir dar alguma proteína para seus filhos. O aumento exponencial do preço dos alimentos é um drama para a maioria das famílias, que vivem hoje da informalidade e de auxílios federais.
A tentativa do governo em garantir o empréstimo do FGTS esbarra em um choque de realidade que é a falta de pessoas formalizadas no mercado de trabalho. Ao invés de querer ganhar um salário mínimo e ter seus descontos em folha para trabalhar de 8 a 10 horas por dia, a grande maioria tem buscado em bicos e utilizado das tecnologias digitais para conseguir o seu sustento. Dessa percepção de realidade é que muitos sentem falta e colocam Lula como um político ultrapassado, que está discutindo soluções para um mundo que não existe mais, como aquele de quando foi presidente, no início do século.
Com a insegurança dominando a discussão e a falta de recursos impactando o dia a dia, não é possível dizer que as pessoas possuem qualquer qualidade de vida no cenário atual brasileiro. Fazendo um comparativo com as demais eleições que a América do Sul tem vivido, o Brasil parece reunir o maior problema de cada uma delas em um combo extremamente difícil de se resolver para os próximos dez anos. Com a insegurança de um Equador e a pobreza e falta de renda que ditaram as eleições na Argentina, o Brasil de 2026 vai ter que buscar um caminho que pelo menos freie essa desarrumação existente. Lula, com pouco mais de 1 ano para reverter esse cenário, está cada vez mais distante de se apresentar como solução e pode acabar seu terceiro mandato com uma nova mancha em sua vitoriosa carreira: a de não entregar o que prometeu.
Só quatro em cada dez cursos de Medicina atingem as notas mais altas de avaliação do MEC
Por Paula Ferreira / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA- Apenas quatro em cada dez cursos de Medicina do País alcançaram as notas mais altas no Conceito Preliminar de Cursos (CPC), índice do Ministério da Educação (MEC) que avalia a qualidade das graduações. Entre as 309 graduações avaliadas, somente 40,4% obtiveram médias 4 e 5, ideais para cursos da área.
O número de cursos de Medicina aumentou significativamente nos últimos anos. Entre os fatores por trás desse cenário, estão o programa Mais Médicos, que incentivou a abertura de graduações em cidades remotas e o grande retorno financeiro desses cursos. Associações de classe e ligadas ao ensino superior privado têm se mobilizado no Congresso e no Judiciário em defesa de diferentes critérios para liberar mais escolas médicas.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão ligado ao ministério, divulgou nesta sexta-feira, 11, os dados dos indicadores de qualidade do ensino superior. Os números incluem dados do CPC, do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do Índice Geral de Cursos (IGC) — que avalia as instituições—, e do Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD).
Neste ciclo, o Inep avaliou 9.812 cursos da área de saúde e engenharias. Além medicina, o Inep avaliou carreiras como Arquitetura, Engenharia civil, Fisioterapia, entre outras.
As notas do CPC variam de 1 a 5, sendo as notas 4 e 5 as adequadas para cursos como Medicina. O indicador avalia universidades públicas e privadas. Para construir a nota, o MEC considera o desempenho dos estudantes no Enade, além de outros critérios como dados sobre o corpo docente, infraestrutura e recursos didático-pedagógicos da graduação.
De acordo com os dados, a maior parte das graduações na área têm nota 3 (50,5%), considerada regular. Em seguida, 38,5% dos cursos avaliados têm conceito 4, e somente seis cursos, o que corresponde a 1,9%, chegaram na nota máxima.
No ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a criação de novos cursos e vagas na área devem atender ao edital do programa Mais Médicos, que considera a escassez de profissionais de saúde nas regiões do país, além de outras características.
Enade
Um dos componentes do CPC, o Enade avalia o desempenho dos estudantes em sua área. Para isso, é aplicada uma prova com 40 questões, das quais 10 são de conhecimentos gerais e outras 30 de conhecimentos específicos. O conceito também varia de 1 a 5. Neste ciclo, foram avaliados cerca de 31 mil alunos de 309 cursos de Medicina no país.
Conforme os dados do MEC, em 44,9% dos cursos de medicina avaliados o desempenho dos estudantes obteve notas 4 e 5. O nível regular foi a realidade de 33,6% das graduações, e 20% (um em cada cinco cursos) tiveram desempenho ruim, com notas 1 e 2.
A prova do Enade é aplicada anualmente, mas a cada ciclo avalia áreas do conhecimento diferentes. As provas são aplicadas nas turmas de estudantes ingressantes e concluintes das áreas sob avaliação.
Diferença entre universidades privadas e públicas
O Enade avaliou 190 cursos de medicina em instituições privadas com e sem fins lucrativos, e confessionais. Desses, 27,3% tiveram baixo desempenho, com nota 1 e 2. Já entre os 113 cursos de universidades públicas, apenas 6,1% tiveram notas mais baixas.
No patamar mais alto da avaliação, apenas 28,9% dos cursos de medicina privados tiveram notas 4 e 5. O porcentual é 72,5% entre os cursos de medicina de universidades públicas.
No CPC a diferença também permanece entre públicas e privadas: 36,8% dos cursos privados em medicina ficaram nas faixas 4 e 5. Entre os cursos de universidades públicas, o porcentual foi de 46,9% nesse patamar.
Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Celso Niskier, destacou os resultados positivos do setor privado na totalidade de cursos e a abrangência do setor. Segundo ele, “muitos cursos estão concentrados nas faixas mais altas dos indicadores”. Ele afirmou ainda que a partir dos resultados as instituições podem aprimorar o trabalho.
“O Enade também cumpre um papel estratégico ao oferecer uma oportunidade concreta para que as instituições que não atingiram conceitos satisfatórios possam aprimorar seus processos formativos e pedagógicos”, disse.
Ministério quer mudar avaliação na área
Aplicado desde 2004, o Enade é alvo de críticas. Em 2019, um estudo feito pela Organização dos Países para Cooperação Econômica (OCDE), afirmou que o Enade tinha falhas e cobrava habilidades genéricas dos estudantes.
Além das críticas ao Enade, o CPC também é alvo de questionamentos. Como não há sanções aos estudantes a partir de seu desempenho no Enade, isso faz com que as universidades desenvolvam mecanismos para engajar o aluno no processo. Na visão de especialistas, essa é uma das características que demonstram a fragilidade das métricas, já que o Enade é uma das notas utilizadas para compor o CPC.
“Usar o CPC para ser medidor de qualidade pode gerar distorções, uma instituição pode ter um curso excelente, mas se os alunos boicotarem o Enade, ela não vai ter um bom CPC”, analisa o advogado Henrique Silveira, especialista no tema e sócio do escritório Matos Filho.
Outros aspectos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) são alvo de questionamentos, como as inspeções in loco. Uma das críticas é que essas visitas são ultrapassadas e não têm diferenciação de parâmetro entre as áreas do conhecimento, o que, na concepção de especialistas, torna o processo falho.
O Inep realiza cerca de 10 mil visitas para avaliação in loco por ano. As visitas estão entre os critérios para autorização de abertura de novos cursos e renovação de reconhecimento de cursos já em funcionamento.
O CPC, por exemplo, pode ser usado tanto como um indicador para induzir visitas in loco, como um requisito para pontuação em editais de abertura de novas vagas e cursos de medicina por meio dos critérios do Mais Médicos.
Como o Estadão mostrou, o MEC quer mudar a forma como os cursos de Saúde são avaliados in loco. A ideia é que os avaliadores que visitam as faculdades consigam analisar com mais rigor a parte prática da formação.
No caso dos cursos de Medicina, por exemplo, o MEC quer avaliar como é o aprendizado dos estudantes em cada um dos níveis de atuação na rede de saúde: a atenção básica e a especializada.
Nesta sexta-feira, 11, ao apresentar os dados dos indicadores, o diretor de avaliação da educação superior do Inep, Ulysses Teixeira, comentou sobre a possibilidade de mudanças na avaliação de medicina.
Ele destacou que a quantidade de itens específicos no exame é muito pequena, o que faz com que seja difícil avaliar o conteúdo de curso de seis anos.
Um estudo conduzido pelo Inep submeteu os itens específicos a especialistas na área que indicaram qual seria o resultado esperado para cada resposta. Dessa forma, o Inep calculou que 64,2% dos cursos avaliados estavam dentro do esperado; 23% acima do esperado; e 12,8% abaixo do esperado. O diretor destacou no entanto, que a métrica está em teste e ainda não é o parâmetro oficial considerado pelo órgão.
“O Inep fez mudanças na avaliação dos cursos de licenciatura e acreditamos que agora é a hora de pensarmos em alterações na avaliação dos cursos de medicina”, disse.
Lula não achou o pilantra do ovo
Adriana Fernandes
Jornalista em Brasília, onde acompanha os principais acontecimentos econômicos e políticos há mais de 25 anos / FOLHA DE SP
Os números do Datafolha, apontando que a maioria dos brasileiros vê a economia piorar, mostra o tamanho da encrenca que tem sido para o presidente Lula o desconforto da população com a alta dos preços dos alimentos.
A pesquisa revela que, para a maior parte dos entrevistados, o poder de compra dos salários vai encolher nos próximos meses. É um péssimo sinal para o futuro. O mau humor retroalimenta a irritação com o governo.
A expectativa de auxiliares do presidente era de uma reversão da imagem negativa da economia a partir do segundo semestre com o processo de desaceleração da inflação e a supersafra. Agora, já não há a mesma confiança.
O governo não consegue capturar a fotografia completa do cenário econômico e político que faz com que a maioria dos brasileiros tenha uma visão tão ruim da economia enquanto muitos indicadores seguem positivos. As pesquisas encomendadas não dão as respostas e a comunicação certamente não é o único problema.
De certa forma, a percepção negativa capturada pelos pesquisadores foi referendada com a divulgação, nesta sexta-feira (11), do IPCA de março.
Os preços da chamada alimentação no domicílio encareceram 1,31% em março, com as altas do tomate (22,55%), do ovo de galinha (13,13%) e do café moído (8,14%). Com ajuste sazonal, a inflação de alimentos está rodando acima de 10%.
Lula procura o culpado pela alta dos preços de alimentos e reclama do "pilantra" que elevou muito o preço do ovo e da "mulherzinha" do FMI, que fez previsões ruins para o crescimento do Brasil.
As críticas alimentam notícias, mas de nada adiantam. Lula não encontrou o pilantra que estaria fazendo o preço subir para prejudicar o seu governo.
O presidente tem poucos instrumentos para enfrentar no curto prazo o problema. Os ministros mais esclarecidos de temas econômicos já entenderam a situação. É não atrapalhar.
A cruzada tarifária de Donald Trump pode ajudar, mas depois da disparada do dólar desta semana com a reação da China, tornou o cenário muito mais incerto.
Censo Escolar do MEC apresenta resultados decepcionantes
Por Editorial / O GLOBO
Não são animadores os resultados do último Censo Escolar, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC). Os números da pré-escola recuaram no ano passado. As crianças em creches aumentaram ligeiramente, mas ainda ficaram abaixo da meta. O Ensino de Jovens e Adultos (EJA), destinado a estudantes que não completaram a educação básica, retrocedeu. As matrículas em cursos profissionalizantes cresceram, porém aquém do desejado. A melhor notícia é o crescimento das matrículas em tempo integral, mesmo assim também abaixo do ritmo ideal.
A pré-escola registrou 34 mil matrículas a menos, caindo para 5,3 milhões. Pelas metas do próprio MEC, o segmento já deveria ter sido universalizado desde 2016, mas 7% das crianças entre 4 e 5 anos ainda estão fora da sala de aula. Não é muito diferente com as creches, para crianças de até 3 anos. As matrículas subiram de 4,12 milhões para 4,18 milhões no ano passado, mas a meta era contemplar ao menos 50% da faixa etária, ou 5 milhões. A falta de creches tem impacto relevante no mercado de trabalho, pois elas representam apoio importante para mães que trabalham fora.
O EJA também desapontou: perdeu 198 mil alunos em 2024, oitavo ano seguido de queda. Mesmo o Nordeste, que concentra o maior número de estudantes (1,2 milhão), perdeu 90 mil alunos. É uma lástima num país que deveria se esforçar para aumentar a escolaridade de seus cidadãos, permitindo que eles busquem melhores oportunidades de trabalho. A queda está ligada à pouca flexibilidade dos cursos e à falta de apoio aos estudantes. Quase metade da população brasileira (49,2%) não concluiu o ensino médio.
Há também notícias positivas. Uma delas é o aumento de matrículas em tempo integral, caminho conhecido para melhorar a qualidade do ensino. Houve 624 mil novas matrículas, e o total alcançou 7,9 milhões. Mas o ritmo de crescimento arrefeceu em relação a anos anteriores. O ensino profissionalizante e técnico, essencial para ampliar a conexão com o mercado de trabalho, cresceu 6,7%, chegando a 2,57 milhões de matrículas, mas ainda está longe da meta de 4,8 milhões.
O MEC tem resistido a dar publicidade aos dados do ensino. O Censo Escolar foi divulgado com atraso de três meses. Os números da alfabetização só se tornaram públicos na semana passada, depois de sonegados por meses, sob o argumento de que havia discrepâncias. Por que não divulgar e apontar a discrepância? Não é deixando de publicar informações que o MEC conseguirá melhorar a qualidade do ensino. Cedo ou tarde, elas sempre vêm à tona, expondo as deficiências.
Em que pesem os avanços, o retrato traçado pelo Censo Escolar é de estagnação, mostrando que o governo não consegue cumprir nem as próprias metas. É nisso que o MEC deveria se concentrar, em vez de esconder informações.


