Governo Trump aplica sanções financeiras a Moraes e escala atrito com o Brasil
Julia Chaib / FOLHA DE SP
O governo Donald Trump anunciou nesta quarta-feira (30) sanções financeiras ao ministro Alexandre Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), por meio da chamada Lei Magnitsky.
A legislação trata de graves violações aos direitos humanos, e a decisão de usá-la para um brasileiro é inédita. Os EUA aplicaram a mesma sanção a integrantes de cortes superiores da Venezuela no passado.
A medida foi publicada em site do Tesouro americano, que registrou a inclusão do ministro sob uma sanção da Ofac, Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, que pertence ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Por meio dessa decisão, o governo Trump determina o congelamento de qualquer bem ou ativo que Moraes tenha nos Estados Unidos, e também pode proibir entidades financeiras americanas de fazerem operações em dólares com uma pessoa sancionada. Isso inclui as bandeiras de cartões de crédito Mastercard e Visa, por exemplo.
Moraes tem dito a interlocutores que não tem contas ou patrimônio nos EUA.
O secretário de Estado do governo Trump, Marco Rubio, justificou a ação dizendo haver "graves abusos de direitos humanos" por parte do ministro do STF.
"Moraes abusou de sua posição ao autorizar detenções preventivas injustas e ao minar a liberdade de expressão. Ele ainda abusou de sua autoridade ao conduzir um esforço direcionado e politicamente motivado com o objetivo de silenciar críticos políticos, por meio da emissão de ordens secretas obrigando plataformas online —incluindo empresas de mídia social dos EUA— a banir contas de indivíduos por publicarem discursos protegidos", afirmou Rubio.
Ele ainda disse que os Estados Unidos "usarão todos os instrumentos diplomáticos, políticos e legais apropriados e eficazes para proteger a liberdade de expressão dos americanos de atores estrangeiros malignos que buscam miná-la".
A punição ocorre depois de o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados terem feito um périplo por Washington buscando sanções ao ministro do STF.
O congressista e alvos de Moraes nos EUA, como o ex-comentarista político da Jovem Pan Paulo Figueiredo, espalharam a autoridades americanas o discurso de que o magistrado do STF é responsável por censurar residentes e empresas no país e cometer violações aos direitos humanos.
Aprovada em 2012 pelo Congresso dos EUA, a lei agora aplicada leva o nome de Sergei Magnitsky, advogado tributarista e auditor russo que revelou esquemas de fraude fiscal e corrupção ligados ao Kremlin. Detido por autoridades russas, ele foi submetido a torturas e maus-tratos e morreu na prisão.
Ela permite que o governo americano adote sanções, inclusive econômicas, contra pessoas que cometam "grandes violações de direitos humanos reconhecidos internacionalmente".
Ao UOL o professor de direito da Universidade Nacional da Austrália, Anton Moiseienko, um dos maiores estudiosos da Lei Global Magnitsky, diz que a sanção não é uma pena de morte, mas uma "camisa de força financeira".
Apontada desde fevereiro como uma medida iminente contra Moraes pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a iniciativa foi alvo de questionamentos dentro do governo Trump.
O imbróglio girou em torno do embasamento jurídico que seria usado para justificar a aplicação da lei. Integrantes do Tesouro americano avaliaram, por volta de maio, que o argumento ainda não era suficiente para implementar a punição. Por fim, o órgão cedeu.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, será responsável por implementar e fiscalizar o cumprimento da ordem, podendo estabelecer novas regras e regulamentos. Um relatório inicial com nomes adicionais a serem sancionados deve ser entregue ao governo em até 60 dias.
Bessent, que até então não havia feito comentários críticos ao Judiciário brasileiro, disse que Moraes promove uma "campanha opressiva de censura".
Um dos fundamentos da aplicação da lei seriam decisões tomadas por Moraes contra empresas americanas, como Rumble e o X, e aliados de Trump e de Jair Bolsonaro em território americano.
Um relatório que está nas mãos dos integrantes do governo citam ações contra 14 pessoas, entre elas Jason Miller, que, numa visita em setembro de 2021, acabou detido para questionamentos pela Polícia Federal, no contexto do inquérito das fake news.
Flávia Cordeiro Magalhães, brasileira com cidadania americana, também consta no relatório. Moraes expediu um mandado de prisão contra Flávia pelo descumprimento de medidas cautelares anteriores. Ela teve as contas nas redes sociais bloqueadas no Brasil pelo ministro. Ela disse que a medida foi tomada por "emitir suas opiniões no X" e que está feliz com as medidas contra Moraes.
"Acho que não merecemos essa censura, essa perseguição enorme porque eu penso diferente de você. Acho que a justiça foi feita, isso não é vingança", afirmou.
O relatório com as autoridades americanas cita também Elon Musk, dono do X, e Chris Pavlovski, CEO do Rumble.
O Rumble e a Truth Social, rede social do presidente Donald Trump, recentemente adendaram com novas informações e pedidos uma ação contra Moraes em um tribunal federal da Flórida.
A aplicação da lei Magnistky é um passo adiante da medida tomada no último 18 de julho, quando, diante da decisão de Moraes de determinar o uso de tornozeleira eletrônica por Bolsonaro, o governo Trump resolveu proibir a entrada de Moraes e de "seus aliados da corte" nos Estados Unidos.
Segundo a Folha apurou, só 3 dos 11 ministros teriam sido poupados: Luiz Fux, André Mendonça e Kassio Nunes Marques —os dois últimos indicados por Bolsonaro ao tribunal.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também foi englobado na restrição de vistos, segundo pessoas que participaram da discussão.
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Enxurrada de golpes virtuais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Os quatro casos de estelionato registrados a cada minuto no ano passado confirmam tendência verificada desde 2020, quando, impulsionado pelo período de reclusão domiciliar da pandemia, esse tipo de crime começou a ganhar escala com o aumento de golpes virtuais. Desde então, o crescimento anual é expressivo e contínuo, chegando a quase 2,17 milhões de ocorrências em 2024, total que os pesquisadores do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que regularmente elabora esses e outros dados sobre violência no Brasil, consideram subestimado em razão de provável falta de notificações.
De tão frequente, o golpe virtual motivou, em 2021, uma alteração no Código Penal, com tipificação específica para essa modalidade de estelionato (artigo 171), com pena mais severa, de prisão de quatro a oito anos mais multa. Mas o desafio de reprimir modalidades eletrônicas de crime que a cada dia encontram novas formas de persuasão persiste, sem indicação de um freio. Golpes que até pouco tempo se concentravam em ligações telefônicas com comunicação de falsos sequestros ganharam novas versões com o uso da internet e até de inteligência artificial.
A rapidez com que o estelionato digital avança, envolvendo redes sociais, golpes de Pix, falsas notificações previdenciárias e toda a sorte de crimes virtuais, acompanha o ritmo frenético da tecnologia e exige esforço conjunto de contenção. Em 2024, a alta de 17% dos casos veio sobre um total que já havia registrado aumento em relação ao ano anterior, numa progressão que, de acordo com o monitoramento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, inverteu a dinâmica dos crimes patrimoniais no País.
Se, de um lado, essa transformação do modo como o crime se organiza contribuiu para reduzir a violência física contra as vítimas, como destacam os organizadores do anuário, por outro eleva a sensação de desproteção da população. O senso comum sugere que idosos seriam os mais vulneráveis a esse tipo de golpe, mas levantamento feito no ano passado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, que entrevistou quase 22 mil pessoas, mostrou que jovens entre 16 e 29 anos representam 27% das vítimas e são os mais afetados. Os idosos são 16%.
As transações bancárias por aplicativos, celulares e navegadores de internet mais do que dobraram entre 2020 e 2024, de acordo com outra pesquisa, de Tecnologia Bancária, da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). A Febraban constatou o extraordinário avanço de 25 pontos porcentuais nas transações dos canais digitais em relação aos físicos em cinco anos. Mais de 90% das transações realizadas por pessoas físicas ocorrem por meio de plataformas móveis.
O aumento de golpes e fraudes digitais elevou os investimentos em segurança e tecnologia bancárias para cerca de R$ 5 bilhões. Mas uma ação de segurança pública coordenada, que envolva União, Estados e municípios, focada nesse tipo de crime, inclusive com cooperação internacional, como já fazem países europeus, seria uma resposta mais direta e eficaz no combate a essa enxurrada de crimes virtuais.
O copo meio vazio do Bolsa Família
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A melhora na renda fez com que quase 1 milhão de famílias saíssem do Bolsa Família no mês de julho, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, o que evidencia que, apesar do preconceito contra o programa arraigado em parte da sociedade, os contemplados não querem passar a vida dependendo de auxílio governamental.
Quando têm condições de aumentarem seus rendimentos, os brasileiros mais carentes se agarram a tais oportunidades. Tanto é assim que, das 1,7 milhão de vagas com carteira assinada criadas no Brasil em 2024, 98,8% foram ocupadas por pessoas cadastradas no CadÚnico do governo federal. Beneficiários do Bolsa Família responderam por 1,27 milhão (75,5%) das contratações. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Cerca de 536 mil famílias que deixaram de depender do programa atingiram o limite de 24 meses dentro da chamada regra de proteção. Por esse mecanismo, famílias com renda entre R$ 218 e meio salário mínimo por pessoa seguem recebendo 50% do valor do Bolsa Família por até dois anos. Apesar de deixarem o programa, essas famílias não saem do CadÚnico. Assim, se no futuro voltarem a ter renda familiar por pessoa inferior a R$ 218, têm prioridade para retornar ao programa.
Defensores de uma reforma profunda do Bolsa Família entendem que regras como a de proteção precisam ser repensadas de modo a incentivar que o imenso contingente de brasileiros que vive na informalidade busque a formalização. Uma redução mais gradual do benefício para quem consegue trabalho com carteira assinada ou o pagamento de um bônus para quem vira CLT seriam opções.
Em entrevista ao site Brazil Journal em junho, a professora do Insper Laura Müller Machado afirmou que é preciso acompanhar mais de perto quem vive na informalidade e promover a capacitação dessas pessoas, de modo que elas possam prosperar e deixar de temer a perda do benefício.
Publicações diversas atestam que o Bolsa Família, lançado há mais de 20 anos, é um programa de transferência de renda bastante efetivo. Além de obviamente melhorar a renda dos mais vulneráveis, o programa evitou, por exemplo, mais de 700 mil mortes, além de 8 milhões de internações hospitalares, entre 2004 e 2019, segundo estudo publicado na revista científica The Lancet Public Health.
Ao mesmo tempo, também é de conhecimento público que o Brasil segue amargando índices vergonhosos na educação, negligenciando, sobretudo, a primeira infância, fase da vida determinante para o desenvolvimento cognitivo.
A universalização do saneamento básico segue sendo adiada para um futuro cada vez mais distante. Sem acesso a esgoto tratado, crianças ficam doentes, onerando a saúde pública, e deixam de frequentar escola. Quando adultas, acabam inevitavelmente por depender de ajuda governamental.
Por fim, o governo celebrou a redução do número de beneficiários do programa, que passou de 20,5 milhões em junho para 19,6 milhões em julho, como se isso fosse um sinal de que os brasileiros estão superando a pobreza.
Antes assim fosse, mas a verdade é que melhoras em indicadores sociais são apenas fotografias momentâneas e incompletas. É o caso do indicador de desemprego, que em maio deste ano foi o menor da série histórica (6,2%) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, o mesmo IBGE também apurou taxa de informalidade de 37,8% na população ocupada. São estratosféricos 39,3 milhões de brasileiros em trabalhos informais.
Ademais, como o governo só pensa em gastar, os juros se encontram em patamar elevadíssimo (15%), o que já pesa sobre as previsões de crescimento econômico e, consequentemente, da geração de empregos formais.
Importante, o Bolsa Família deveria ser uma rota de transição para que cidadãos desassistidos pelo Estado pudessem se estabelecer economicamente, e a partir daí prosperar por conta própria. Mas no país do esgoto a céu aberto, das escolas de lata e da falta de projetos de futuro, mesmo os bravos brasileiros que conseguem sair do Bolsa Família parecem mais destinados a retornar ao programa do que a viver com estabilidade.
A saúde pede ajuda
Zeina Latif / O GLOBO
A saúde pública deu um grande salto com a Constituição de 1988. Enquanto o SUS prevê o acesso universal ao sistema, o modelo anterior era restrito a pessoas com vínculo formal de trabalho.
Apesar do grande avanço na cobertura e nos indicadores, há demanda reprimida, refletida inclusive nas diferenças regionais. Na comparação mundial, o Brasil ainda apresenta taxas elevadas de mortes por causas evitáveis. Ajustes são necessários, inclusive para adequar o sistema aos novos tempos.
O contexto de crise fiscal e os limites para o aumento da carga tributária indicam que a saída passa essencialmente pela busca de eficiência e de parcerias com o setor privado.
Argumenta-se que o país gasta pouco com saúde em termos per capita — o valor é 32% da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas essa não é uma boa métrica, já que países ricos naturalmente conseguem gastar mais.
Dentre os emergentes, o Brasil se destaca pelo grande peso do Estado no financiamento da saúde, representando cerca de 40% do gasto total de 9,8% do PIB, cifras comparáveis às da OCDE. No Chile, por exemplo, o gasto per capita é 71% superior ao do Brasil, mas devido ao regime contributivo compulsório, e não à participação estatal.
A sociedade envelhece rapidamente e mostra-se mais vulnerável a doenças. Há aumento da obesidade (68% das pessoas têm sobrepeso) e de diagnósticos relativos à saúde mental, bem como sequelas da Covid-19. Adicionam-se ainda as doenças ligadas à falta de saneamento.
Enquanto isso, a “inflação da saúde” tem sido sistematicamente mais elevada do que a inflação média de outros setores, refletindo em boa medida as novas tecnologias — a inflação médica hospitalar foi de 16,9% em 2024, segundo a Abramge, ante 6,9% do IPA industrial (índice setorial de preços no atacado).
Cabe ainda citar o piso da enfermagem, criado em 2022, e a tramitação ativa no Congresso de propostas para ampliar os pisos salariais para outros profissionais de saúde, como médicos e auxiliares.
Os problemas de saúde pesam também nas políticas sociais. Assiste-se ao crescimento do auxílio-saúde e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para Pessoas com Deficiência (PcD), inclusive com inclusão de mais patologias, de forma desordenada e sem fonte de receita. Exemplo disso foi a decisão recente de considerar a fibromialgia uma deficiência para fins de acesso ao programa.
O número de concessões do BPC para PcD cresce em ritmo acelerado, com aumento de 33% desde 2022, ultrapassando 6,3 milhões de pessoas ao final de 2024. Possivelmente reflete a mudança da legislação, em 2020, que passou a permitir a concessão de mais de um benefício a membros da mesma família, bem como a ampliação do rol de deficiências elegíveis, notadamente o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Tem havido também mudanças no entendimento da Justiça sobre o tema, com flexibilização dos critérios formais.
Quantas patologias mais poderão ser acrescentadas no futuro próximo, lembrando que pessoas portadoras de deficiências leves são também elegíveis? Importante não confundir problemas de saúde, que são assuntos do SUS, com incapacidade laboral.
No caso do auxílio-doença, tem acelerado a concessão, após o recuo entre 2017-2021, que foi fruto de pente-fino e de critérios mais rigorosos do INSS na sua concessão, bem como às dificuldades impostas na pandemia. O número de benefícios saltou para 1,4 milhão ao final de 2024, ante 876 mil em 2021.
Especialistas atribuem o crescimento dos últimos anos à criação do Atestmed, em 2022, uma ferramenta que permite a concessão de benefícios sem perícia médica presencial. Abriu-se espaço para fraudes e concessões inadequadas, sem levar ao encolhimento da fila.
Para além da necessidade de coibir fraudes, é essencial que os benefícios sejam bem focalizados em quem realmente precisa da assistência social, pelas reais condições de saúde e pela baixa renda familiar, não cabendo ao Judiciário atuar além de suas competências.
A máquina estatal, nas três esferas, precisa estar mais bem preparada para aumentar o atendimento da saúde, ainda na atenção primária, e para identificar quem realmente precisa de assistência social, o que passa pelo compartilhamento de informações e pelo aprimoramento do Cadastro Único (autodeclaratório de baixa renda). E decisões legislativas e judiciárias precisam atender às reais necessidades da sociedade, em meio às restrições fiscais.

A dois dias do tarifaço de Trump, governo tenta dar ar de normalidade à entrada em vigor da taxa de 50%
Por Sérgio Roxo — Brasília / O GLOBO
A 48 horas da entrada em vigor das tarifas para exportações de produtos brasileiros para os Estado Unidos, o governo tenta dar um ar de normalidade para o caso e evitar que as possíveis consequências das medidas sejam tratadas como uma catástrofe.
Sem sinalizações claras por parte de Trump para abertura de diálogo via Casa Branca, o Planalto demonstra enxergar poucos caminhos para agir diante da exigência do presidente americano de que Jair Bolsonaro deixe de ser investigado pelo 8 de janeiro, ponto inegociável.
O governo tenta ainda se mostrar aberto para as demandas dos empresários brasileiros que sofrerão diretamente a taxação de 50% com as reuniões comandadas pelo vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, com diversos setores. Mas, ao mesmo tempo, o Planalto evita dar detalhes dos planos de compensação.
As medidas do governo brasileiro para compensar as empresas só devem ser anunciadas depois que as tarifas efetivamente começarem a ser cobradas.
Nesta quarta-feira, Lula dedicou sua agenda também a outros temas do governo como a discussão da promoção de militares com os comandantes das Forças Armadas, e o apoio do União Brasil ao governo com os ministros do partido.
Em entrevista nesta terça-feira à CNN Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentou sintetizar o clima que o governo tenta vender diante do início da cobrança efetiva das tarifas:
— Não podemos fazer do dia 1º de agosto um dia fatídico. Vamos continuar negociando, os canais estão sendo desobstruídos, vagarosamente, mas estão.

Sempre atrasado? Saiba porque umas pessoas ligam mais para pontualidade do que outras
No início do relacionamento, antes de se casarem, Anne Kelsh trabalhava em casa e gostava de preparar o jantar para seu parceiro, o que ela chamava de "a diversão do papel doméstico".
Ele disse que gostaria de jantar quando chegasse em casa às 18h. Isso era um pouco cedo para Kelsh, mas ela estava disposta a se adaptar —até que eventualmente percebeu que "quando ele dizia 18 horas, ele queria dizer 18 em ponto".
Para ela, o horário era mais como uma sugestão. "8 horas é o horário em que a cortina sobe em um espetáculo, e você deve estar lá às 8 horas", disse ela. "Mas jantar, é jantar. É jantar na nossa própria casa. Eu não conseguia entender esse senso de rigidez."
A pontualidade tornou-se uma fonte constante de atrito. Kelsh, que lutou a vida toda com a dificuldade de fazer as coisas no horário, costumava dizer: "Eu me casei com você, não me alistei no exército".
Enquanto isso, seu marido frequentemente se incomodava com sua incapacidade de chegar pontualmente a compromissos e reuniões, um hábito que ele considerava rude.
Discussões sobre pontualidade são comuns, mas especialistas dizem que muitas vezes são realmente sobre algo completamente distinto: as diferentes maneiras como nos relacionamos com o tempo. Cientistas sociais trabalham há quase um século para entender nossas várias abordagens em relação ao relógio. Na década de 1950, o antropólogo Edward T. Hall cunhou os termos "monocrônico" e "policrônico" para descrever diferentes atitudes culturais em relação à gestão do tempo.
No norte da Europa e nos Estados Unidos, que Hall rotulou como sociedades "monocrônicas", ele escreveu que as pessoas tendiam a enfatizar prazos e trabalhar sequencialmente, completando uma tarefa antes de passar para a próxima. Na América Latina, África e Oriente Médio, ele encontrou o que chamou de sociedades "policrônicas", onde observou que as pessoas se sentiam mais confortáveis em mudar de direção no meio de uma tarefa e eram menos rígidas em seguir um cronograma.
As percepções do Hall inspiraram gerações de teóricos organizacionais e especialistas em gestão. E embora ele originalmente tenha feito observações sobre sociedades, ele e outros observaram que os estilos individuais de uso do tempo das pessoas também variam consideravelmente.
Estudos sugerem que as pessoas são mais criativas, motivadas e produtivas quando podem trabalhar em seu estilo preferido, seja alternando entre múltiplas tarefas ou focando como um laser em uma única. Tomar consciência de sua própria relação com o tempo pode facilitar sua vida e ajudá-lo a negociar conflitos com as pessoas ao seu redor.
Uma coisa de cada vez ou tudo ao mesmo tempo?
Uma boa maneira de avaliar seus valores em relação ao uso do tempo é observar como você responde a interrupções. Se você está preparando uma apresentação quando um colega liga para discutir outra coisa, você atende e diz que está ocupado? Ou você arranja tempo para o que pode se tornar uma conversa de 20 minutos?
Se sua resposta a esse cenário é que você enviaria a ligação diretamente para o correio de voz, você provavelmente é "monocrônico", afirma Dawna Ballard, especialista em cronêmica, da Universidade do Texas, em Austin. Pessoas que gerenciam seu tempo como uma série de tarefas para riscar da lista de afazeres tendem a viver pelo relógio e estão predispostas, pelo menos durante o horário de trabalho, a priorizar obrigações em vez de relacionamentos.
Para alguém assim, "uma interrupção, quase por definição, é irritante", diz Allen C. Bluedorn, professor emérito de gestão da Universidade do Missouri e autor de "A Organização Humana do Tempo".
Pessoas "policrônicas", por outro lado, tendem a dar primazia a experiências e relacionamentos que nem sempre se encaixam perfeitamente em agendas pré-estabelecidas. Outro dia, um primo de Kelsh de outra cidade estava visitando. Embora ela tivesse uma tarefa para fazer no trabalho, decidiu adiá-la por um dia para que pudessem fazer uma caminhada juntos. Nem todo prazo é realmente urgente, diz ela, então "quando surgem interrupções e sinto que são valiosas o suficiente, isso me faz repriorizar".
Promover essas interações sociais em vez de interrompê-las pode atrapalhar o cronograma de uma pessoa —um inconveniente que alguns estão dispostos a tolerar. "Se você tende a se atrasar porque está tentando encaixar as necessidades de várias pessoas em seu dia, você é policrônico", diz Ballard, autora do próximo livro "Tempo por Design: Como Comunicar Devagar Nos Permite Ir Rápido".
Cada estilo de tempo tem benefícios e desvantagens
Mara Waller, pesquisadora sênior da Faculdade de Negócios da Universidade Estadual do Colorado, se delicia com sua monocronicidade. Focar intensamente "nos dá a oportunidade de mergulhar profundamente em nossas tarefas, ser realmente reflexivos", afirma ela.
Esse estilo de tempo também permite que as pessoas vejam um único projeto até sua conclusão: "Para certas tarefas, é tão eficiente, porque você está bloqueando todo o resto", acrescenta Ballard. Uma desvantagem, no entanto, é que você pode ficar tão "preso ao plano" que perde a serendipidade e não percebe oportunidades quando elas surgem, diz Bluedorn.
Waller, que estuda o trabalho de equipes sob alta pressão, tem profunda admiração por pessoas capazes de lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. Anos atrás, para um projeto de pesquisa, ela se sentou com controladores de tráfego aéreo no que agora é o Aeroporto Intercontinental George Bush em noites movimentadas de fim de semana, observando-os gerenciar dados críticos e dar ordens sem perder a calma. "Se você vê alguém que é realmente policrônico em uma situação de multitarefas, e eles têm um bom controle sobre isso, às vezes parece uma espécie de balé", afirma ela.
Pessoas que facilmente alternam entre tarefas também têm vantagem quando se trata de lidar com a desordem da vida. "Um dos benefícios é que você tem uma visão realista da vida, e assim não ficará angustiado quando as coisas não se encaixarem no seu tempo", diz Ballard.
Você também tem menos probabilidade de se esgotar por perseverar em uma única tarefa, afirma Bluedorn. Um estudo de 2023 com pessoas equilibrando a faculdade com trabalho quase em tempo integral revelou que aqueles que naturalmente assumiam múltiplas tarefas ao mesmo tempo eram mais capazes de equilibrar obrigações concorrentes sem ficarem emocionalmente exaustos.
Mas, por outro lado, essas pessoas flexíveis podem se distrair facilmente e podem se envolver no que Bluedorn chama de "hesitação improdutiva" e ter dificuldade para terminar o que começam.
Como fazer seu estilo de tempo funcionar para você
Estilos de uso do tempo são uma preferência, não uma característica, afirma Waller, o que significa que as pessoas podem adotar uma abordagem diferente —só não se sentirá tão confortável. Mudar quando isso lhe serve, no entanto, tornará você mais eficaz, diz Ballard.
"Seu objetivo aqui é construir relacionamentos? Então seja policrônico", afirma ela. "Se seu objetivo é completar uma tarefa, então precisamos ser monocrônicos por um período de tempo e eliminar todas as distrações."
Para aqueles que organizam suas vidas em um cronograma rigoroso, Ballard sugere incluir períodos de intervalo de até uma hora entre compromissos, para que "se as coisas começarem a se estender, você não fique estressado". Enquanto isso, pessoas que se desviam de seus cronogramas poderiam tentar o inverso —anotar compromissos meia hora antes do que realmente são.
E para pessoas compulsivamente pontuais que se frustram facilmente com os atrasos dos outros, Ballard sugere levar um livro; você pode se manter produtivo nos momentos em que alguém o faz esperar. Se você não sentir que seu tempo foi desperdiçado, pode ficar menos irritado.
A chave é remover o julgamento, diz Ballard. "Para ambas as personalidades, o que ajudará é reconhecer que nem todos veem o tempo da mesma forma que eles."


