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Queda da fome não esgota desafios econômicos e sociais

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

A parcela da população do Brasil subnutrida ou em risco de subnutrição caiu abaixo de 2,5% no triênio 2022-24, o que mais uma vez retira o país dos destacados no Mapa da Fome divulgado periodicamente pela ONU. Trata-se de conquista a ser celebrada, mas também devidamente qualificada.

Não se pode subestimar o resultado, já que outros importantes e até mais ricos latino-americanos, como Argentina (3,4%), México (2,7%) e Chile (2,5%), ainda não atingiram o patamar tido como desejável —observado no mundo desenvolvido e em emergentes como China, Rússia, Turquia, Uruguai e Costa Rica.

Tampouco se deve considerar o feito como triunfo definitivo, entretanto. Cumpre apontar que tão somente voltamos a uma situação já conhecida desde 2014. Derrubar uma marca momentânea da pobreza extrema mal arranha os desafios que as políticas social e econômica têm de enfrentar pela frente no país.

Em grande medida, o indicador da fome repetiu aqui tendências globais. Houve uma piora durante o período da pandemia de Covid-19, quando o colapso da atividade levou as agruras da má nutrição a 3,4% dos brasileiros no triênio 2019-21; a partir daí, houve melhora paulatina, mas dificultada pela inflação de alimentos que se sucedeu à crise sanitária.

No mundo, o percentual saltou de 7,5% em 2019 para 8,8% em 2021, tendo recuado a 8,2% estimados em 2024. Os preços da comida tiveram elevação geral, com impulso inicial de juros mais baixos e elevação do gasto público.

No Brasil, mesmo depois de superado o pior do impacto pandêmico, a despesa pública se manteve em expansão nos últimos três anos, pressionando a inflação e os juros do Banco Central —e pondo em risco o progresso dos indicadores sociais.

A partir da ofensiva de Jair Bolsonaro (PL) pela reeleição, em 2022, o programa Bolsa Família, então chamado de Auxílio Brasil, teve suas dimensões multiplicadas. Os desembolsos, que historicamente rondavam o equivalente a 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), somaram 1,4% em 2024.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não se limitou a manter a ampliação do programa de transferência de renda, o que seria correto. Sua administração promoveu novos gastos permanentes, em particular com a retomada dos reajustes reais do salário mínimo.

Por óbvio, toda essa injeção de dinheiro público na atividade traz impactos para o aumento do emprego e a queda da pobreza. Mas não se pode tomar tal estratégia como alguma fórmula mágica para a superação de mazelas sociais ainda consideráveis.

Sem equilíbrio orçamentário, os gastos do governo federal resultam em inflação que resiste até a juros astronômicos de 15% ao ano. Tais taxas aceleram a escalada da dívida pública e trazem a ameaça de um colapso fiscal, que resultará em queda da renda nacional. Essas devem ser preocupações tanto da política econômica quanto da social.

CRIANÇA SEGURA TIGELA COM FARINHA

Planos de saúde começarão a atender pacientes do SUS a partir de agosto; entenda como vai funcionar

Escrito por Bergson Araujo Costa / DIARIONORDESTE
 
A partir de agosto, pacientes da rede pública também poderão ser atendidos por planos de saúde em todo o Brasil. A ação, anunciada pelo Ministério da Saúde, nesta segunda-feira (28), tem como objetivo ressarcir ao Sistema Único de Saúde (SUS) dívidas adquiridas pelas operadoras. 

Neste primeiro momento, o governo federal espera que R$ 750 milhões em dívidas sejam convertidas em mais consultas, exames e cirurgias com foco em áreas estratégicas e conforme a demanda apresentada pelos estados.

A medida, que faz parte do programa Agora Tem Especialistas, visa ampliar o atendimento e reduzir o tempo de espera na atenção especializada.

A portaria que viabiliza a troca de dívida de ressarcimento ao SUS por atendimento foi apresentada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, e pela presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Carla de Figueiredo Soares.

 “É a primeira vez na história do SUS que implementamos um mecanismo como esse. As dívidas que antes iam para o Fundo Nacional de Saúde, mas não se convertiam em atendimento, agora viraram ações concretas para reduzir filas e dar dignidade a quem mais precisa”, disse Alexandre Padilha.

COMO DEVE FUNCIONAR

A oferta de assistência aos pacientes do SUS pelos planos de saúde atenderá ao rol de procedimentos do programa Agora Tem Especialistas, que prioriza seis áreas de maior carência por serviços especializados: oncologia, oftalmologia, ortopedia, otorrinolaringologia, cardiologia e ginecologia.

Também será considerada a demanda dos estados e municípios, que vão apresentar as suas necessidades. Para participar, os planos de saúde devem aderir ao edital conjunto do Ministério da Saúde e da ANS.

ADESÃO DAS PRESTADORAS

O primeiro passo é solicitar ao Ministério da Saúde, via plataforma InvestSUS, a possibilidade de participação. Em seguida, a pasta consultará a regularidade da operadora.

Posteriormente, avaliará se os serviços de média e alta complexidade ofertados pelos planos de saúde atendem às demandas do SUS. Caso esses atendimentos supram as necessidades da rede pública, a adesão é aprovada.

Os valores a serem convertidos em atendimento deverão ser negociados com a ANS ou com a Procuradoria-Geral Federal; nesse último caso, para dívidas ativas. 

Ao SUS será, então, disponibilizado um rol dos serviços ofertados conforme a demanda existente no complexo regulatório local e regional.

Funcionará como uma prateleira de atendimentos especializados com os quais os estados, o Distrito Federal e os municípios poderão contar. A partir de então, os hospitais conveniados aos planos de saúde já poderão iniciar os atendimentos.

A operadora só será remunerada após a conclusão do conjunto de atendimentos. Os serviços prestados pelos planos de saúde vão gerar o Certificado de Obrigação de Ressarcimento (COR), necessário para abater a dívida com o SUS.

 

 

 

Petrobras gasta R$ 4 milhões diários com sonda parada no Pará à espera de autorização do Ibama

Por Denise Luna (Broadcast) / O ESTADÃO DE SP

 

A demora na marcação da Autorização Pré-Operacional (APO) pelo Ibama para a Petrobras explorar o poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira, tem provocado insatisfação na estatal. A companhia desembolsa mais de R$ 4 milhões por dia para manter a sonda ODN II pronta para operar. 

 

Na semana passada, o Ibama marcou uma reunião com a empresa para 12 de agosto, intervalo considerado excessivo e desnecessário pela Petrobras, que esperava realizar a APO nessa época.

 

Parada há um mês em frente a Belém, no Pará, a ODN II foi contratada em 2023 para explorar o poço Morpho e permaneceu na locação por quase seis meses, aguardando aval do Ibama. Em junho daquele ano, após cansar de esperar o sinal verde do órgão ambiental para prospectar a área, a Petrobras transferiu o equipamento para operações na Bacia de Campos.

 

Retorno à região Norte ocorreu em maio

A sonda retornou ao Norte do País em maio deste ano, depois de o Ibama autorizar a limpeza da unidade para remover coral-sol do casco e evitar contaminação na Bacia da Foz do Amazonas. A sinalização positiva levou a estatal a apostar que a licença ambiental sairia em julho, o que não ocorreu. Agora, a expectativa é de que a APO seja realizada em agosto e, em seguida, o Ibama emita a licença de exploração.

 

A Margem Equatorial brasileira é considerada a última grande fronteira de hidrocarbonetos no País. A Petrobras pretende perfurar a região para verificar se os reservatórios no lado brasileiro são tão prolíferos quanto os localizados na vizinha Guiana e no Suriname, onde já foram descobertos mais de 11 bilhões de barris de óleo equivalente.

 

A reposição de reservas é necessária porque o pré-sal deve entrar em declínio já na próxima década. Sem novas descobertas, o País pode voltar a importar petróleo, prática que abandonou em 2006, quando se tornou autossuficiente com as jazidas do pré-sal.

 

Esta notícia foi publicada no Broadcast+ no dia 28/07/2025, às 10:48. O Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

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NAVIO PETROLEIRO DA GRECIA

A tragédia das mães adolescentes

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Enquanto a taxa de 1,55 filho por mulher brasileira já é inferior à necessária para reposição populacional (2 filhos por mulher) e semelhante à de países de alta renda, dados sobre adolescentes que se tornam mães no Brasil mostram que, nessa faixa etária, a taxa é comparável à de países mais pobres.

 

É o que aponta a pesquisa “Maternidade na adolescência no Brasil: altas taxas de fecundidade e desigualdades marcantes entre municípios e regiões”, do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (Iceh/UFPel).

 

A cada ano, uma em cada 23 adolescentes dá à luz no Brasil. Entre 2020 e 2022, mais de 1 milhão de jovens entre 15 e 19 anos tiveram filhos.

 

De acordo com a pesquisa, a taxa de fecundidade (TFA) nessa faixa etária no Brasil foi de 43,6 por cada mil adolescentes em 2022, enquanto nos demais países do Brics (como China e Rússia) a TFA máxima foi de 16,3. Em países de renda média alta como o Brasil (aqueles que segundo o Banco Mundial têm renda per capita entre US$ 4.466 e US$ 13.845), a TFA média é de 27,8, ou seja, bastante inferior à brasileira.

 

Ainda mais estarrecedor é saber que, entre 2020 e 2022, nasceram 49 mil crianças cujas mães tinham entre 10 e 14 anos, faixa etária na qual, de acordo com a lei, qualquer relação sexual configura estupro de vulnerável.

 

Esses números alarmantes são um retrato sombrio da desigualdade brasileira, já que as taxas mais elevadas estão fortemente associadas à pobreza. Embora nas regiões mais ricas do Brasil a gravidez na adolescência ocorra com mais frequência do que em países de renda média, é nos municípios mais pobres, sem infraestrutura e acesso à educação, que o fenômeno explode.

 

De acordo com o Iceh/UFPel, a TFA mediana entre jovens de 15 a 19 anos na Região Sul foi de 35 por mil adolescentes, semelhante à do Sudeste (35,8). Já na Região Norte, a TFA foi de mais que o dobro, 77,1, enquanto no Nordeste ficou em 52,8. No Centro-Oeste, a TFA mediana foi de 46,6.

 

Embora questões culturais específicas de cada região, além de maior ou menor acesso à informação e planejamento familiar, contribuam para o índice de gravidez precoce, a falta de perspectiva é determinante para que crianças continuem engravidando e gerando crianças em níveis inaceitáveis no Brasil.

 

Não é à toa que as taxas mais elevadas de gravidez na adolescência sejam observadas nas Regiões Norte e Nordeste, nas quais um sem-número de municípios apresenta indicadores pífios de desenvolvimento, onde faltam escolas, hospitais e saneamento básico.

 

É nessa intersecção de falta de absolutamente tudo e, mais importante, de políticas públicas que realmente promovam o desenvolvimento onde ele é mais que necessário que o ciclo de exclusão se perpetua.

 

Crianças que deveriam estar na escola estudando para terem um futuro digno são empurradas para a gravidez, gerando filhos aos quais muito provavelmente também será negado tudo. E infelizmente não há nenhum sinal de que essa realidade aviltante esteja perto de mudar.

Um crime resume o Brasil do atraso

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O Brasil se acostumou a conviver, há muitos anos, com a tragédia cotidiana da violência no trânsito. Mas há alguns episódios que, de tão grotescos, tão carregados de absurdos e privilégios, destacam-se como uma espécie de síntese dos males estruturais deste país: o desprezo pela vida humana, o abuso de poder e o corporativismo que resiste em se submeter ao imperativo republicano fundamental, a igualdade de todos perante a lei. O caso do juiz aposentado Fernando Augusto Fontes Rodrigues Junior, de 61 anos, que atropelou e matou a ciclista Thais Bonatti, de apenas 30 anos, é um desses eventos singulares.

 

Na manhã do dia 24 passado, o sr. Rodrigues Junior dirigia sua caminhonete bêbado, conforme exame clínico de embriaguez realizado por um médico legista da Delegacia Seccional de Araçatuba, no interior de São Paulo. O exame era dispensável: de acordo com a Polícia Civil, o juiz apresentava fala desconexa, falta de coordenação motora e forte odor etílico quando foi abordado pelos agentes. Para piorar, o indigitado ainda guiava com uma mulher nua sentada em seu colo.

 

A inconsequência do juiz é estapafúrdia por si só, mas o caso é ainda mais revoltante pelo tratamento privilegiado conferido ao autor pela Polícia Civil paulista: o motorista foi inicialmente indiciado apenas por lesão corporal culposa – o que permitiu que ele fosse solto sob pagamento de fiança no valor de R$ 40 mil. De fato, a vítima estava viva no momento do registro da ocorrência, razão pela qual, por óbvio, não cabia tipificar o crime como homicídio naquela ocasião. Mas o dolo eventual estava mais do que bem caracterizado. Afinal, o que mais um sujeito precisaria fazer, além de estar embriagado ao volante e com uma pessoa adulta no colo, para que restasse evidente que assumiu o risco de machucar ou matar terceiros?

 

Eis a fossa abissal que, em mais de 130 anos de experiência republicana, separa os brasileiros comuns daqueles cidadãos que desfrutam de uma espécie de salvo-conduto para fazer o que bem entendem. Esse odioso crime expôs com tintas fortes o quadro de um Brasil que se esforça para fracassar como projeto de nação.

 

Fernando Rodrigues Junior é retrato do privilégio. Aposentou-se cedo no serviço público, aos 55 anos de idade, e recebe, entre salários e penduricalhos, vencimentos que ultrapassam em muito o teto constitucional, hoje fixado em R$ 46,3 mil. Só neste ano, o juiz aposentado recebeu, em média, cerca de R$ 130 mil por mês. Ou seja, freio moral não era mesmo com ele.

 

Pode-se argumentar que nem todo magistrado aposentado tem as taras do juiz em questão, mas todos os que como ele ganham acima do teto constitucional e estão em paz com suas consciências certamente se consideram acima dos demais mortais no País, aqueles para os quais as leis se aplicam na sua integralidade.

E o privilégio não se limita ao salário inconstitucional tornado “legal” por meio de hermenêutica finória da casta judicial. O tal magistrado, a despeito de sua gravíssima conduta, foi tratado com escandalosa condescendência pelo delegado responsável pelo caso, reproduzindo o padrão corporativista dessa casta.

 

A sociedade parece ter se habituado com a impunidade de quem provoca as tragédias diárias no trânsito. Mas o que dizer quando quem mata ao volante é justamente alguém que integrou o Judiciário e, portanto, foi aprovado pelo Estado como alguém digno de confiança e, ademais, dotado da temperança para exercer a judicatura? Se os valores que vêm com a toga – e que não se esvaem com a aposentadoria – não bastaram para impedir uma prática criminosa, tampouco podem servir de escudo para as consequências. Nesse sentido, a atuação do Ministério Público (MP) de São Paulo será determinante para que esse crime tenha o devido tratamento, assegurando a seu autor, naturalmente, todas as garantias do devido processo legal.

 

A memória de Thais Bonatti exige isso. A confiança da sociedade nas instituições republicanas, em particular no MP e no Judiciário, também.

Tadalafila: remédio para ereção ganhou fama no pré-treino; entenda motivos e riscos

Por Fernanda Bassette / O ESTADÃO DE SP

 

O consumo de tadalafila disparou no País. As vendas do medicamento, que originalmente é indicado para o tratamento de disfunção erétil e de problemas relacionados à micção, saltaram de 21,4 milhões de unidades em 2020 para 67,7 milhões em 2024, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)

 

Por trás desse aumento está o uso indiscriminado, inclusive entre pessoas que buscam melhorar o desempenho na prática esportiva. Embora o medicamento seja seguro e eficaz quando utilizado sob orientação médica, o consumo sem prescrição traz riscos e preocupa profissionais de saúde, que são enfáticos: ele não tem indicação para uso no pré-treino.

 

A seguir, entenda como o medicamento age no organismo, quando ele é indicado e as consequências do uso indevido, que podem variar desde disfunção erétil até problemas cardíacos.

 

Como funciona a tadalafila?

A tadalafila é um inibidor seletivo da enzima fosfodiesterase tipo 5 (PDE5) e aumenta a ação do óxido nítrico, promovendo o relaxamento da musculatura lisa e a dilatação dos vasos sanguíneos. Isso melhora o fluxo de sangue em diversas regiões do corpo, inclusive nos músculos. “Essa ação explica seu uso aprovado para disfunção erétil, hipertensão arterial pulmonar e sintomas do trato urinário inferior”, diz o urologista Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

 

Tanto a tadalafila (Cialis) quanto a sildenafila (Viagra) regulam o fluxo sanguíneo e a principal diferença entre os dois medicamentos está no tempo de ação: a tadalafila tem um efeito mais prolongado, durando até 36 horas, enquanto a sildenafila geralmente atua por cerca de quatro a seis horas.

 

Uso em treinos

Por conta de seu efeito vasodilatador e da melhora no fluxo sanguíneo, com maior fornecimento de oxigênio para os músculos, surgiu a crença de que o medicamento poderia potencializar os resultados físicos durante os treinos. Não demorou, então, para que a tadalafila ganhasse popularidade entre atletas amadores e frequentadores de academia. A suposta vantagem, no entanto, não é respaldada por evidências científicas.

 

“Essa hipótese ganhou força principalmente em atividades de endurance, como corrida, ciclismo ou triatlo, e em locais de altitude, onde o oxigênio é mais escasso. Mas essa crença nem sempre é sustentada por evidências sólidas. A resposta depende muito do indivíduo e, mesmo nesses casos, os efeitos não são garantidos para todos”, afirma o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

 

Diante desse cenário, a SBU publicou uma nota contraindicando o uso do medicamento sem expressa recomendação clínica. “As evidências disponíveis sugerem que a tadalafila atua predominantemente no corpo cavernoso, não na musculatura estriada esquelética, que é o alvo principal de treinos de força e hipertrofia”, diz o comunicado.

 

“Além disso, a sensação de ‘pump’ (inchaço muscular momentâneo) relatada por usuários provavelmente se deve à vasodilatação periférica transitória e representa um efeito placebo, sem benefício funcional real. Estudos controlados são limitados e não sustentam o uso da tadalafila como substância para melhora de desempenho esportivo”, acrescenta o documento da SBU.

 

Quais são os riscos?

Além da ausência de benefícios claros, os riscos são numerosos. Entre os efeitos colaterais mais comuns estão dor de cabeça, tontura, rubor facial, dor nas costas, desconforto gástrico, queda da pressão arterial e alterações visuais.

 

A queda súbita da pressão arterial pode levar a desmaios e complicações, e o uso em treinos intensos, especialmente quando a tadalafila é combinada com substâncias pré-treino ou álcool, pode provocar desmaios e problemas cardiovasculares.

 

“Ao alterar a resposta hemodinâmica, a tadalafila pode aumentar o risco de arritmias ou queda de pressão durante atividades físicas intensas, especialmente em pessoas com doenças cardíacas não diagnosticadas”, destaca a cardiologista e médica do esporte Luciana Janot, assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

 

Outro ponto de atenção é que o uso recreativo e sem orientação médica, especialmente entre jovens saudáveis, pode gerar uma dependência psicológica do medicamento — tanto no contexto sexual quanto nas atividades físicas, mesmo sem necessidade real.

 

“Isso pode evoluir para um quadro de disfunção erétil de origem psicogênica. A pessoa se condiciona ao efeito da medicação a ponto de acreditar que, sem ela, irá falhar. Com isso, passa a tomar todos os dias, não por uma dependência química, mas por um bloqueio psicológico que se instala”, explica Torres.

 

Há ainda o risco de mascarar sinais importantes de doenças como hipogonadismo orgânico, em que há diminuição da testosterona, e problemas cardíacos. Por exemplo: um homem com disfunção erétil por um quadro subjacente pode “driblar” a questão com o medicamento e retardar a busca por diagnóstico e tratamento. O sintoma melhora temporariamente, mas a causa permanece evoluindo silenciosamente.

A situação é ainda mais alarmante quando o medicamento é usado em conjunto com hormônios como a testosterona, prática comum em academias. “A combinação pode gerar sobrecarga cardíaca, alterações de pressão arterial e risco aumentado de arritmias”, adverte Macedo.

‘Distorção perigosa’

Em nota enviada ao Estadão, a Anvisa reforça que a tadalafila só pode ser vendida mediante prescrição médica, ainda que não exija retenção da receita. Segundo a agência, entre 2019 e 2025, foram registradas 76 notificações de eventos adversos relacionados à substância no sistema VigiMed, com queixas como cefaleia e falta de eficácia. Embora os números sejam considerados baixos, houve aumento progressivo das notificações, o que reforça o alerta para o uso sem acompanhamento profissional.

 

“Todo medicamento apresenta riscos relacionados ao seu uso, principalmente quando administrado sem orientação médica”, diz a nota oficial. A agência expressa preocupação com o crescimento da automedicação e do uso de medicamentos como a tadalafila para fins estéticos ou de performance. “Essa prática pode gerar efeitos colaterais graves e compromete a saúde pública ao estimular comportamentos de risco e banalizar o uso de substâncias controladas.”

 

“Nenhuma sociedade médica reconhece a tadalafila como substância ergogênica (capaz de melhorar a performance nas atividades físicas)”, salienta Macedo. “Utilizá-la com esse objetivo é uma distorção perigosa, sem respaldo científico e cercada de riscos à saúde.”

 

Luciana complementa: “O uso indiscriminado de medicamentos que alteram a circulação, especialmente quando combinado com hormônios, representa uma ameaça real à saúde e vai na contramão de uma prática esportiva segura. Qualquer uso deve ser feito com orientação médica e, idealmente, após avaliação cardiovascular adequada.”

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