Puro suco de Brasil
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Servidores do Ministério Público Federal (MPF) parecem bastante incomodados com o pagamento de penduricalhos. Em grupos de um aplicativo de mensagens, auxiliares dos procuradores da República passaram a criticar abertamente essas benesses. À primeira vista, poder-se-ia dizer que, enfim, o Brasil vê o surgimento de um levante contra essa profusão de privilégios injustificáveis. Mas esses servidores, na verdade, estão apenas indignados por não terem recebido seu quinhão desses benefícios. Ou seja, não foram convidados para a festa.
Conforme revelou reportagem do Estadão, os servidores compartilharam no WhatsApp mensagens nas quais afirmaram que houve a liberação do pagamento de um penduricalho de até R$ 1 milhão por procurador, o que é apenas um fato. As associações de membros do Ministério Público da União (MPU), do qual o MPF faz parte, pediram à Procuradoria-Geral da República (PGR) o pagamento retroativo de uma licença compensatória supostamente devida quando há um alegado excesso de serviço. Com as folgas convertidas em dinheiro, esse bônus levou alguns procuradores a terem o direito de receber essa bolada, bem acima do teto do funcionalismo, de R$ 46,4 mil.
A estratégia reiterada de promotores, procuradores e também magistrados de inflarem seus contracheques por meio de decisões administrativas chanceladas pelos conselhos superiores resulta nos chamados supersalários. Essa elite deliberadamente dribla a via legislativa. É o Congresso Nacional o único Poder que legitimamente pode decidir sobre a remuneração na administração pública federal. Nos grupos de mensagens, os servidores revoltosos disseram que esse movimento é um “sequestro orçamentário”. A bem da verdade, eles têm razão. O problema é que também eles querem sequestrar o Orçamento.
A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) se insurgiu contra a queixa dos seus auxiliares e enviou à PGR um ofício no qual alegava que as mensagens, ora vejam, maculavam a imagem da instituição. Segundo essa espécie de sindicato, os comentários “extrapolam a esfera da crítica legítima, configurando possível infração ao dever funcional de lealdade, moralidade e ética”, numa ameaça aberta à liberdade de expressão.
Mesmo assim, a PGR instaurou uma sindicância para apurar a conduta dos servidores, o que só explicitou o seu espírito autoritário e o distanciamento de suas funções constitucionais de defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis do povo brasileiro. Isso porque o que move os procuradores da República não é o bem comum da sociedade, mas a defesa de seus interesses pessoais. Por sua vez, o que move os servidores é sua pauta corporativista e seu inconformismo com a diferença salarial entre a categoria e os procuradores da República.
Como se vê, são todas motivações nada republicanas. É o exemplo do roto falando do rasgado. Nessa briga fratricida por dinheiro público, ninguém tem razão.
Educação deve ir além da retórica
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
“Não existe educação de direita e de esquerda, existe a educação do nosso país”, disse o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante a leitura do parecer do relator do Plano Nacional de Educação (PNE), deputado Moses Rodrigues (União-CE). A lembrança pode ser retórica ou não, mas não deixa de ser providencial para demarcar o que realmente importa: transformar o que hoje é uma prioridade resumida à retórica e às ilhas de exceção no País num plano concreto e articulado, movimento para o qual a aprovação do PNE é condição essencial. O novo PNE é um instrumento de planejamento e gestão da educação do novo decênio, orientador, portanto, das políticas educacionais dos próximos dez anos. Esperava-se que fosse aprovado ainda em 2024, quando apenas 4 das 20 metas estabelecidas no PNE anterior haviam sido parcialmente cumpridas. É hora de acelerar, seja na tramitação, seja no cumprimento das novas metas.
Mas não é trivial o simbolismo de que, na comissão que analisa o plano, pareçam convergir numa só direção diferentes colorações partidárias: além de Rodrigues, registre-se o trabalho da presidente da comissão, a deputada Tabata Amaral (SP), do PSB, e nomes do PT, do PP e do MDB – além de mais de 3 mil emendas discutidas desde que o Ministério da Educação (MEC) apresentou o projeto de lei, em junho do ano passado. Foi essa união de forças que permitiu ao relatório produzir avanços significativos em relação à proposta originalmente enviada pelo MEC, sobretudo ao estabelecer em lei um cronograma mais rígido para que Estados e municípios aprovem seus planos, ao exigir a necessária prestação de contas sobre os porcentuais cumpridos para as metas definidas pelo PNE, ao facilitar o acompanhamento das metas e ao propor incentivos por meio de um fundo de infraestrutura, abastecido por royalties de petróleo e gás natural.
Outro avanço é a inclusão de alguns dispositivos para o monitoramento das metas, de modo a corrigir rotas quando necessário e em tempo hábil. Prevê-se, por exemplo, a divulgação, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de indicadores de alcance bienal, com metas nacionais e por Estado. O texto mantém a premissa, sugerida pelo MEC, de que ao Inep caberá elaborar projeções das metas nacionais por ente federativo, oferecendo subsídios técnicos para a construção dos chamados planos subnacionais, de modo que cada realidade local seja contemplada e ajustada. Um dos grandes desafios do PNE é justamente o cumprimento das metas estabelecidas, já que o anterior passou por três gestões federais e está sendo concluída na quarta, todas com prioridades e entraves distintos – sem que tenhamos visto ações corretivas durante o percurso. Esse é um grave problema que prejudica os estudantes e desacredita o plano.
Mas não faltam poréns que precisam ser alertados. O primeiro deles, por óbvio, é a necessidade de que o próximo ciclo escape desse histórico de resultados alardeados, mas não cumpridos. Segundo cálculo da organização Todos Pela Educação, dos 53 indicadores monitorados, afinal, apenas 4 conseguiram atingir ou ultrapassar suas metas, 15 ficaram próximos (mais de 90%), 14 alcançaram entre 50% e 80%, e outros 9 nem sequer chegaram à metade dos valores pretendidos. O segundo alerta é que o ajuste das metas, decorrente das falhas do PNE anterior, não pode ser sinônimo de suavização. Como este jornal já sublinhou neste espaço, a essência do próximo ciclo deve ser combinar ambição com realismo. Um outro alerta vem de especialistas: é preciso metas de aprendizagem mais realistas. Previstas na proposta do MEC e mantidas no texto substitutivo, as metas de aprendizagem parecem pouco factíveis diante das condições atuais.
Por fim, e tão importante quanto, é preciso ver o Plano Nacional de Educação aprovado e sancionado ainda neste ano, de modo que o Brasil comece 2026 com um plano de voo para os dez próximos anos. Um plano ao mesmo tempo concreto, ambicioso e realista.
Um debate crucial para o País
Por Notas & Informações / ESTADAO DE SP
A operação policial que provocou mais de cem mortes nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio, colocou o País diante de um debate inadiável. O Brasil precisa decidir se o avanço do poder bélico e financeiro das grandes organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), ainda pode ser enfrentado como uma questão ordinária de segurança pública, ou se já estaríamos numa situação de “conflito armado não internacional” – que em alguns casos pode ser chamado também de guerra civil –, o que demandaria uma abordagem substancialmente diferente da atual.
Esse debate precisa ser travado sem embaraços ideológicos ou políticos, porque o resultado afetará a todos. E, sobretudo, seja qual for a escolha democrática que se faça, roga-se que a violência do crime organizado não sirva de pretexto para a supressão de direitos e a adoção de medidas de caráter excepcional, ao arrepio das leis e da Constituição. Mesmo as guerras – se decidirmos que estamos em uma – têm regras.
A confusão conceitual que envolve o combate ao crime organizado ficou evidente. O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), por exemplo, afirmou que a polícia não enfrenta mais traficantes comuns, e sim “narcoterroristas”, e as autoridades de segurança dizem que a polícia está lutando uma “guerra irregular”. A nomenclatura não é acidental: na prática, se o Rio está em “guerra” e se o inimigo é “terrorista”, o uso da força para matar, e não para prender, estaria justificado – o que tiraria a questão do terreno da segurança pública e a transformaria num problema militar.
Considerando a percepção crescente de que o Estado perdeu o controle sobre largas porções de seu território, nas quais vigora a lei das facções, e que estas constituem hoje verdadeiros exércitos não raro mais bem armados que a polícia, as leis atuais e o ferramental à disposição das autoridades para o enfrentamento desse fenômeno são claramente insuficientes.
Eis por que uma pergunta crucial para o futuro do País se impõe: PCC e CV são problemas de polícia ou se tornaram um ataque à soberania nacional? A resposta definirá tanto o tipo de técnica operacional que o Estado deve adotar, como, sobretudo, o arcabouço jurídico apto a legitimá-la. Se se trata de segurança pública, operações policiais como a que houve no Rio são inúteis. É preciso mudar os métodos de ação e adequar as leis ao avanço do crime, sempre considerando que os criminosos devem ser prioritariamente presos, e não eliminados.
Se, ao contrário, o País reconhece que está diante de um conflito entre forças estatais e grupos organizados com estrutura hierárquica e capacidade militar, então a questão muda de natureza. Será preciso aprovar um novo marco legal, instrumentos operacionais específicos e protocolos compatíveis com a legislação internacional em vigor sobre esse tipo de combate. Hoje, o Brasil não dispõe desse arcabouço. Do ponto de vista operacional, o emprego das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem para prover segurança pública urbana é sabidamente ineficaz há décadas.
A premência desse debate impõe mais responsabilidade. As discussões não podem se orientar pelas paixões ideológicas nem serem instrumentalizadas por conveniências políticas de ocasião. A disputa eleitoral que se avizinha é terreno fértil para o populismo de viés autoritário nessa seara. O discurso da “guerra ao crime” seduz uma sociedade esgotada pelo medo, mas é perigoso. No limite, pode levar a excessos e ilegalidades que agravam a violência que se pretende combater, sem que o problema se resolva. Por outro lado, a recusa em reconhecer as reais dimensões do CV e do PCC – tratando as facções como mera questão de segurança pública – pode retardar a adoção de medidas que, de fato, tenham o condão de resolver o problema de uma vez por todas. Entre o belicismo exacerbado e a tibieza, há uma via racional e republicana que o País precisa encontrar.
O Estado deve agir com firmeza, mas também com legitimidade. E, para isso, precisa primeiro saber com clareza o que está enfrentando. O combate ao crime organizado exige estratégia, coordenação e propósito – e isso deve ser pactuado por todos, como nação.
Retomar território é essencial no combate ao crime
Por Editorial / o globo
A megaoperação no Rio contra o Comando Vermelho (CV) reacendeu o debate sobre os desafios do combate a organizações criminosas que dispõem de armamento de guerra e sofisticação militar. Operações policiais são necessárias para enfraquecê-las. Mas os resultados costumam ser parciais e, quase sempre, efêmeros. Há décadas, diferentes governos tentam enfrentar as quadrilhas, mas o problema persiste. É preciso políticas mais consistentes e duradouras. Retomar e manter o território é crítico para garantir a segurança das cidades e o bem-estar da população.
Apesar de os estados canalizarem recursos vultosos à segurança pública, é o crime que tem se expandido. Na Região Metropolitana do Rio, entre 2008 e 2023, a extensão territorial sob domínio de facções criminosas ou milícias cresceu de 8,8% para 18,2%. O avanço não ocorre só no Rio e é visível para o cidadão comum, exposto a uma rotina de tiroteios e crimes de toda sorte.
Já houve, é verdade, experiências positivas. O projeto Favela-Bairro, implantado no Rio nos anos 1990, procurava qualificar o espaço urbano das comunidades, mas foi interrompido. As promissoras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) num primeiro momento contribuíram para reduzir os índices de violência, mas foram colocadas a serviço de um projeto eleitoral que as expandiu demasiadamente. O Alemão, um dos símbolos das UPPs, virou quartel-general do CV.
Há caminhos a seguir com base em exemplos bem-sucedidos, segundo análise do Insper. A cidade de Medellín, na Colômbia, era uma das mais violentas do mundo quando vivia sob o jugo dos narcotraficantes. Reverteu a calamidade adotando políticas voltadas não só para policiamento, mas também para transporte, cultura, esporte, educação e cidadania — classificadas como “urbanismo social”. Com medidas bem desenhadas e com apoio consistente de sucessivos governos, empresas e sociedade, Medellín reduziu os homicídios de 395 por 100 mil habitantes em 1991 para 11,7 por 100 mil em 2024 — e virou referência no combate à criminalidade. No Brasil também há experiências exitosas. A Região Metropolitana de Belém, uma das mais violentas do país, se transformou com ideias inspiradas em Medellín.
“Tem que existir a polícia de proximidade que evite o crime” diz Ricardo Balestreri, coordenador do núcleo de urbanismo social e segurança pública do Insper Cidades e ex-secretário nacional de Segurança. “Mas hoje se faz incursão e depois evasão.” Os projetos de urbanismo social unem policiamento permanente a políticas sociais, em especial construção de escolas. Mas também postos de saúde, teatros, centros culturais, agência de bancos, correio e serviços públicos que dão à população a sensação de ser dona do território.
Ao julgar a ADPF das Favelas, em abril, o Supremo Tribunal Federal determinou que o governo fluminense elaborasse um plano para retomar os territórios ocupados pelo crime. É a deixa para implantar um novo modelo. Operações policiais sempre serão necessárias para conter o avanço de facções e milícias. A situação é insuportável, e revertê-la exigirá alguma dose de violência. Mas é preciso ir além. Não se pode perder a oportunidade de apresentar planos consistentes para retomada dos territórios. É hora de pôr em prática as ideias testadas que dão certo no longo prazo, ou mais uma vez haverá retrocesso depois da saída da polícia.
Sem retrocessos na educação especial
Parlamentares vinculados à direita conservadora mais uma vez criam disputa ideológica para tratar de políticas públicas, que deveriam ser avaliadas com base em leis e evidências. Agora, o alvo é o ensino de crianças e jovens com deficiência.
No dia 21 deste mês, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou decreto que institui a Política e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. A norma pouco faz mais do que consolidar o que já está na Constituição, em tratado internacional do qual o Brasil é signatário, na lei de 1996 que estabelece as diretrizes e bases da educação e no Estatuto da Pessoa com Deficiência de 2015.
Tal legislação estabelece que a educação desse estrato da população deve ser inclusiva em todos os níveis e se dar preferencialmente na rede regular de ensino.
Prevê ainda, quando necessário, "serviços de apoio especializado na escola regular para atender às peculiaridades da clientela de educação especial", além da atuação de instituições privadas sem fins lucrativos —capacitadas para educar crianças e jovens com deficiência física ou intelectual— que podem receber apoio técnico e financeiro do Estado.
Diretrizes condizentes estão no decreto ora publicado, como assegurar acesso e aprendizagem dos alunos em classes comuns nos estabelecimentos de ensino e o Atendimento Educacional Especializado (AEE), atividade pedagógica de caráter complementar à escolarização —preferencialmente na rede regular, mas também em centros especializados da rede pública ou em instituições sem fins lucrativos conveniadas às secretarias de educação.
Mesmo assim, deputados e senadores alegam de modo insensato que o decreto retira autonomia das famílias e dificulta o funcionamento de instituições especializadas. Como resposta, colocaram em pauta proposições para sustar a norma do governo.
O movimento evoca a iniciativa de viés segregacionista tentada por Jair Bolsonaro (PL) em decreto de 2020, que previa a identificação de alunos que não se beneficiam das escolas regulares inclusivas e seu direcionamento a escolas especializadas.
É consenso antigo entre pesquisadores em todo o mundo que a inclusão no ensino regular é medida benéfica para toda a comunidade escolar, ao promover diversidade pedagógica e autonomia das pessoas com deficiência.
Em vez de promover retrocessos como cavalo de batalha, deputados e senadores devem, se for o caso, propor aperfeiçoamentos no texto do governo, sem jogar por terra os avanços da legislação brasileira no setor.
Consumidores podem pagar até R$ 7 bi para indenizar geradoras eólica e solar que sofreram cortes
Por Alvaro Gribel, Renée Pereira e Mariana Carneiro / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA - Os consumidores de energia poderão ser obrigados a pagar uma conta de até R$ 7 bilhões para indenizar geradores de fontes eólica e solar que foram obrigados a cortar a geração a mando do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o chamado “curtailment”. Uma emenda apresentada de última hora pelo deputado Danilo Forte (União-CE) no plenário da Câmara, na medida provisória (MP) que reformulou o setor, permitiu que essa indenização fosse repassada para a conta de luz.
Interlocutores do Ministério de Minas e Energia afirmam, sob reserva, que a medida está sob revisão do governo e pode ser alvo de veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A estimativa foi feita pela Abrace Energia, associação que representa os grandes consumidores. Segundo o presidente da entidade, Paulo Pedrosa, os consumidores estão sendo forçados a arcar com esse prejuízo.
“Mais um custo imposto aos consumidores, que agora vão pagar por um problema que não deveria ser deles. É como se alguém que fosse a um restaurante tivesse de pagar pelo prejuízo da mesa vazia ao lado da sua. Isso estraga nossa energia limpa e barata, tira emprego do País e recursos para o governo tocar políticas sociais. Mais uma decisão contra os consumidores brasileiros”, afirmou Pedrosa.
De acordo com a MP, esse custo será bancado pelo Encargo de Serviço do Sistema (ESS) e será ser repassado para a conta de consumidores “cativos”, atendidos pelas distribuidoras de energia, ou livres, que podem comprar de comercializadoras.
O “curtailment” acontece porque há sobreoferta de energia no País, ou seja, a capacidade de geração é maior do que o consumo. Isso força o ONS a escolher quais fontes podem gerar energia e quais devem permanecer paradas.
A sobreoferta de energia tem sido causada principalmente pela escalada da geração distribuída (GD), aquela produzida pelos consumidores com painéis solares instalados no telhado das residências e estabelecimentos comerciais.
“A GD ficou como estava (na Medida Provisória). Não pagam nada e vão cada vez mais desequilibrar o sistema”, diz o Coordenador geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro.
O risco de apagão também entra no cálculo de risco do ONS. Em 2023, um apagão em uma linha de transmissão no interior do Ceará teve como um dos motivos falhas nos equipamentos dessas geradoras eólica e solar, que não ofereceram estabilidade de tensão e de frequência na energia enviada ao sistema nacional.
Os subsídios dados à geração distribuída têm acelerado esse problema, porque provocam um crescimento desordenado e atrapalha a operação do sistema.
“O aumento da Micro e Minigeração Distribuída traz desafios adicionais para a operação do sistema, pois com o crescimento da geração distribuída e de usinas conectadas na rede das distribuidoras, a projeção é que, em 2029, apenas 45% da capacidade instalada estará sob a coordenação do ONS”, afirma o órgão, em nota.
Apesar da crise, a MP não trouxe nenhuma solução para evitar o “curtailment”. “O excesso de energia ocorreu por causa dos subsídios para os painéis solares nas residências e para os consumidores do mercado livre, que não pagam muitos dos penduricalhos do setor”, diz Nivalde Castro. Esses benefícios aceleram os investimentos nesse tipo de geração.


