SÃO FRANCISCO MOLHAR ATÉ ONDE DER

É um rio que já foi tanto, bem menor o de hoje porque seca seguidamente de tão pouca chuva, vai descendo agora também para outros nordestes. Enche o rio Paraíba até Campina Grande, é esperado antes de Fortaleza colapsar. Terá volume para todos? Os homens decidiram assim, o santo há de prover. Promessa feita de milagre alheio. Fim de tarde, o ondulado brilha de pôr de sol. Água dourada, o belo clichê de sempre de rio tocando o céu. Fachadas sombreando, escurecendo, noite... E o São Francisco indo. Até onde der.
NO SÃO FRANCISCO FILA POR VAGAS

Cícero Cornélio (à esquerda na foto), 55, carpinteiro, está desempregado há um ano. De 2008 a 2016, trabalhou entre canteiros da ferrovia Transnordestina e da transposição do São Francisco. É de Jati, mas circulou em frentes de serviço de Penaforte, Missão Velha, distrito de Ingazeiras em Aurora - todas do Ceará - enquanto esteve contratado. Saiu quando a Mendes Júnior abandonou o projeto.
ÁGUA DE CARTÃO POSTAL
Campina Grande cresceu. Já cantou o conterrâneo Jackson do Pandeiro: "Alô, alô, minha Campina Grande/Quem te viu e quem te vê/ Não te conhece mais...". Antes de torres comerciais de até 40 andares, avenidas largas e congestionamentos, foi o pequeno Açude Velho, de 440 m³, que segurou o abastecimento. Por 120 anos, entre 1830 e 1950. Virou cartão postal no Centro da cidade. Todo dia, a limpeza de lixo e plantas no espelho d’água é feita por Roçado e o filho Roçadinho - Antônio Alves, 52, e o filho Edigley Alves, 27. A água é usada para regar praças. À margem está o Museu de Arte Popular da Paraíba, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. OPOVO
SÃO FRANCISCO TEMPO DE GUARDAR
Trecho do canal da transposição inaugurado em Monteiro (PB), em março. Com direito a evento oficial de Temer e, poucos dias depois, nova festa "simbólica" de Lula e Dilma. À direita, ponto de erosão na barreiura. OPOVO
A data para o fim do racionamento em Campina Grande estava marcada. Deveria ter sido no último sábado, 26 de agosto. Porém, o Ministério Público local preferiu desconfiar que a água vinda do São Francisco não estaria armazenada em quantidade suficiente. E foi apresentada ação civil pública cobrando explicações. Com a chegada da água à região, o segundo maior município paraibano, de 400 mil habitantes, já pode se dar o luxo de parar de poupar água?
DEIXA O RIO DESAGUAR

O forró, de mais de duas décadas, é de autoria do sergipano Aracílio Araújo. O intérprete e sanfoneiro Flávio José, paraibano de Monteiro, gravou Deixa o rio desaguar em 2000. Os versos são da época de FHC presidente, mas trazem descrição precisa da atualidade: “O São Francisco com sua transposição/ No meu Nordeste o progresso vai chegar/ Se é que o Brasil agora está na mão certa/ Na contramão o meu sertão não vai ficar...”.
A letra também cita a secura do Jaguaribe e do Castanhão. Do projeto, Flávio José diz querer saber “quando vão definir o uso dessa água pela zona rural. O agricultor vendo o São Francisco passar e não poder usar. A esperança é que esclareçam, para as pessoas poderem trabalhar”. OPOVO
ENTRE ORAR, DESFRUTAR E VIGIAR

Em Monteiro (PB), a água do São Francisco está corrente no canal da transposição. Cerca de 3 mil litros por segundo (3 m³/s). Já foi mais do dobro disso (7,8 m³/s), no início operacional do projeto. Poderia estar entre 9 m³/s ou até 12 m³/s, como eram previstos. Oficialmente, o período atual ainda é de testes. Em 10 de março deste ano, o presidente Michel Temer (PMDB) levou foguetório e aliados para o ato inaugural na cidade. Abriu as comportas e ‘liberou’ formalmente a água para o restante do sertão.

