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Desventuras de um banco estatal

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em depoimento à Polícia Federal (PF) no fim do ano passado, o diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino, disse que o BRB pode ter de arcar com perdas de mais de R$ 5 bilhões em razão da malfadada tentativa de compra do Banco Master. O número exato do rombo ainda será calculado por uma auditoria independente, mas o que se sabe, até agora, é que o banco já teve de provisionar R$ 2,6 bilhões para cobrir prejuízos relacionados ao Master.

 

A conta certamente vai aumentar, e é bem provável que parte dela recairá sobre o governo do Distrito Federal, principal acionista do BRB. Em janeiro, o banco admitiu, por meio de nota, que tinha um plano de capital que previa um “aporte direto do controlador”. Pegou mal, pois só mesmo à base de muito malabarismo fiscal o governador Ibaneis Rocha conseguiria socorrer o banco sem comprometer o orçamento.

Na semana passada, um novo plano foi apresentado ao BC pelo presidente do BRB, Nelson de Souza. Ele prevê alternativas, como empréstimos junto a um consórcio de bancos ou diretamente com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a estruturação de um fundo com ativos imobiliários do Distrito Federal e a venda de carteiras de crédito que pertenciam ao Master. A injeção direta de recursos, ao menos por enquanto, está descartada.

Nelson de Souza admitiu, em entrevista ao Estadão, que o BRB terá de dar “um passo atrás” e voltar a ser um banco regional de desenvolvimento, mas não será nem privatizado nem federalizado. De fato, a venda de carteiras de crédito pode reforçar a liquidez e reduzir a necessidade de aporte de capital pelo controlador, mas reduzirá o tamanho de um banco que desde 2019 almejava tornar-se uma instituição de alcance nacional.

Ibaneis pouco tem falado sobre o assunto e tenta sair ileso de um imbróglio cheio de digitais suas. O governador indicou toda a diretoria do BRB e celebrou a “visão empresarial” do banco quando da tentativa de compra do Master, que, à época, ele considerou ser um “dia de festa”. Pois a festa ficou bem mais cara do que ele imaginava.

Até a crise do banco estatal, o caminho estava praticamente livre para que Ibaneis fizesse sua sucessora, a vice-governadora Celina Leão, e conquistasse uma vaga no Senado nas eleições deste ano. Agora, antigos aliados tentam se descolar de sua imagem enquanto a oposição se refestela sobre o espólio da crise. Chega a ser um insulto à inteligência o governador afirmar que não é parte do problema, mas que será “parte da solução”, quando todos sabem que o governador fez da expansão do banco um de seus principais projetos políticos.

Escândalos como esse eram mais comuns no passado, quando quase todos os Estados tinham um banco para chamar de seu. Era por meio deles que os governadores financiavam projetos políticos via caixa dois, abrigavam aliados políticos e escondiam déficits públicos. Era um modelo de negócios insustentável e que só parava em pé por causa da hiperinflação.

Por meio do Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária (Proes), o governo FHC incentivou a liquidação e a privatização desses bancos como contrapartida à renegociação das dívidas estaduais com a União. Alguns poucos sobraram, mas com papel bem mais reduzido e focado no fomento da economia local.

Era o caso do BRB, que, até 2018, tinha 625 mil clientes e era responsável pela folha de pagamento dos funcionários do governo distrital. Após a posse de Ibaneis, o BRB mudou o perfil, assumiu a liderança no crédito imobiliário em Brasília, tornou-se patrocinador oficial do Flamengo e passou a contar com 9 milhões de correntistas.

A compra do Master, parte do projeto de expansão do BRB para os Estados do Nordeste, surpreendeu o mercado financeiro e levantou desconfianças. A pressão do governo distrital e de parlamentares do Congresso Nacional pela aprovação da operação pelo Banco Central expôs a rede de contatos que o banqueiro Daniel Vorcaro construiu em Brasília. Dado o histórico dos bancos estaduais, não parecia um modelo de negócios viável, e agora se vê que não era mesmo.

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