Em busca de Messias - ISTOÉ
Seu nome — Jair Messias Bolsonaro — soou quase como uma premonição. Sua atuação nesse momento conturbado do País o converteu em mito. Suas promessas e críticas ácidas aos descaminhos na política, economia e costumes lhe elevaram à condição de salvador da pátria. Não é de hoje, os brasileiros correm em busca de um mandatário que os conduza ao Olimpo político, econômico e social. Já nos anos de 1930, Getúlio Vargas revestia-se de “pai dos pobres”.
Nos idos de 1960, Jânio Quadros usaria sua vassoura para “varrer do país a corrupção”. Na década de 80, o povo declarou-se “fiscal do Sarney” na defesa do Plano Cruzado. Fernando Collor encarnava o protetor dos “descamisados”, o “caçador de marajás”. Nos anos 90 e 2000, as urnas consagraram o sociólogo FHC para “salvar” a economia e o ex-metalúrgico Lula, eleito sob a bandeira de exterminar a desigualdade social e acabar com o fosso profundo existente entre ricos e pobres no Brasil. Por fim, o País escolheu como mandatária Dilma Rousseff, embalada na campanha como a “mãe do PAC”.
A história determinou de forma inexorável o destino trágico da maioria dos salvadores anteriores. Vargas suicidou-se. Jânio Quadros renunciou. Sarney deixou o governo sob a pecha de presidente mais impopular do País. Collor e Dilma experimentaram o mesmo infortúnio, o impeachment, enquanto Lula, “o cara”, foi parar atrás das grades, condenado por corrupção. Segue-se assim a sina — mais que brasileira, latino-americana — da busca de um salvador da Pátria para resolver nossos complexos problemas. Sina que, até agora, só fez gerar grandes expectativas que se frustraram com o tempo.
Sonhos e realidade - FERNANDO GABEIRA
Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo
02 Novembro 2018 | 03h00
A vitória de Bolsonaro não é idêntica à de Trump. Mas antes e depois das duas eleições há pontos de contato. Não servem para explicar tudo, mas ajudam.
Um dos livros em que encontro as semelhanças é de Mark Lilla, uma crítica aos liberais com um subtítulo interessante: Depois das políticas de identidade. A julgar pelo livro de Lilla (The Once and Future Liberal: After Identity Politics), a vitória de Trump suscitou o mesmo movimento nos EUA e no Brasil: resistência. Lilla põe essa palavra entre aspas, pois significa uma oposição a tudo o que Trump representa, sem ainda uma visão clara de futuro.
A vitória de uma figura controvertida acabou despertando nos EUA uma grande solidariedade entre os derrotados, campanhas, marchas, abaixo-assinados. Mas ainda são raras aqui, no Brasil, onde Bolsonaro acaba de vencer, as visões críticas do período que abriu o caminho para que ele triunfasse.
Forças Armadas vão fazer parte de um superministério, promete BolsonaroForças Armadas vão fazer parte de um superministério, promete Bolsonaro
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, incluiu hoje (1º), pela primeira vez o Ministério da Defesa entre os três superministérios de seu futuro governo – os dois outros dois são o da Justiça e o da Economia. “A Defesa é um outro superministério. As Forças Armadas vão sim fazer parte da política nacional. Não vão ser relegadas como nos governos de Fernando Henrqiue e do PT”, anunciou, em entrevista coletiva para emissoras de televisão.
Bolsonaro também deu outros detalhes sobre a estrutura de seu futuro governo. Disse que o ministérios da Agricultura e Meio Ambiente deverão mesmo ficar separados, mas avisou que ele escolherá os dois ministros. “Não vão ser as ONGs”, afirmou, referindo-se à pasta do Meio Ambiente. Ele se disse “pronto para voltar atrás” neste caso porque, primeiramente, relatou, o setor rural defendeu de forma unânime a união dos dois ministérios, mas depois se dividiu, por entender que a fusão prejudicaria o agronegócio no Exterior – onde é exigido dos exportadores o cumprimento de normas ambientais.
O avanço da direita - ISTOÉ
Um tsunami de conservadorismo social e de ideologia política de direita cobre atualmente boa parte do mundo — e o Brasil, pela democrática soberania da vontade popular, acaba de ingressar justamente nesse cenário com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Entre os países que formam tal bloco, independentemente de suas localizações geográficas, há particularidades advindas da formação e do desenvolvimento de cada sociedade. Todos eles, no entanto, guardam um ponto em comum: a falência de regimes democráticos.
Isso é cíclico na história da humanidade, e impõe-se, aqui, a lembrança do estadista britânico Winston Churchill (ícone antifascista que Bolsonaro diz admirar) e da historiadora americana Barbara Wertheim Tuchman, autora do clássico “The Guns of August”. Churchill dizia que a “democracia é o pior dos regimes políticos, exceto todos os demais” — exercendo o inteligente e seco humor dos ingleses, ele criticava, assim, as recaídas dos povos em regimes que pendem para a extrema direita. Barbara preferiu referir-se a tal pêndulo histórico como a “marcha da insensatez”. Por que insensata? Porque é sempre um salto de alto trapézio. Pode-se ou não ouvir rufar de tambores. Mas nunca há rede de proteção.
Política em família - ISTOÉ
Com três filhos em cargos legislativos, o clã de Jair Bolsonaro se consolida no poder com uma força inédita na história do País
A equação de Bolsonaro - ISTOÉ
O grande inchaço da máquina pública, desde a redemocratização, ganhou forma entre os governos Fernando Collor e Itamar Franco. Em 1992, sob a administração do autoproclamado caçador de marajás, o Brasil possuía 14 ministérios. Pulou para 28 pastas — ou seja, dobrou — dois anos depois, na coalizão montada para dar sustentação ao vice do presidente deposto.
Foi quando o Ministério da Economia acabou desmembrado no tripé Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio. E ganhou vida o ministério do Meio Ambiente. De lá para cá, a Esplanada dos Ministérios só aumentou, embora não com o ímpeto daquele intervalo de apenas dois anos. Vinte e seis anos depois, o presidente eleito Jair Bolsonaro trilha o caminho inverso. Para a hercúlea tarefa de passar a tesoura na estrutura ministerial, sem se indispor com os aliados, o capitão reformado montou uma equação matemática simples e de lógica elementar.
Ao reduzir para 15 o número de pastas, dividiu-as em três grupos de cinco e criou sua própria regra de três: está concedendo cinco pastas para militares, como o General Augusto Heleno para a Defesa, cinco pastas para colaboradores da campanha, como Paulo Guedes, da Economia, e outras cinco para integrantes dos partidos aliados, como Onyx Lorenzoni, do DEM, escolhido para a Casa Civil. A vantagem dessa composição é que lhe sobra margem de manobra para encaixar mais apoiadores de outras legendas, como o DEM, caso encontre dificuldades mais adiante em seu governo. Nesse caso, ele pode sacrificar algum integrante da ala militar ou do grupo dos colaboradores de campanha, que lhe são fiéis, para agregar ao grupo dos 15 algum neoaliado com o propósito de alcançar a governabilidade.


