Amazônia dominada pelo crime
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apresentou recentemente a quarta edição da pesquisa Cartografias da Violência na Amazônia com um preocupante diagnóstico da presença das facções criminosas no maior bioma do País.
Segundo o levantamento, há 17 organizações criminosas identificadas na Amazônia Legal, a região que compreende nove Estados do Norte, Centro-Oeste e Nordeste. E, para terror dessa população, vai se consolidando o poder do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre os municípios locais.
Em 2023, a facção fluminense estava presente em 128 municípios e, neste ano, domina 286 cidades da Amazônia Legal. Já o bando paulista perdeu 3 municípios e hoje comanda o crime em 90. De acordo com o estudo, nada menos do que 344 dos 772 municípios brasileiros da região, quase a metade deles, estão sob alguma influência de uma organização criminosa, o que expõe a derrota do Estado no controle de seus territórios.
Rumo ao norte do Brasil, as facções abrem novas rotas do tráfico de drogas para abastecer tanto o mercado interno como o externo, sobretudo com a cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Mas não só isso: essas organizações avançam sobre uma variada e lucrativa rede de negócios lícitos e ilícitos, como o garimpo de ouro, a extração de madeira e a pesca ilegais, para lavar, assim, o dinheiro oriundo do crime.
Na prática, a expansão das facções causa múltiplos e complexos problemas à população local. Primeiramente, como já afirmou o presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, os trabalhadores passam a depender economicamente do submundo, haja vista que, com a atuação em tantas atividades, o crime organizado virou o maior empregador na Amazônia.
E, além de subjugar a população na geração de renda, o crime organizado ainda impõe o medo na floresta, nos rios e nas cidades. O crescimento dos bandos do Sudeste na região e a convivência com os grupos locais, por óbvio, não se dão de forma pacífica, o que vitimiza ainda mais os amazônidas.
Prova disso é que, segundo a pesquisa do FBSP, em 86 cidades há alguma disputa entre facções. São intensos os conflitos entre os bandos, agravando um cenário de guerra, o que impacta os indicadores de violência. Para se ter uma ideia, a taxa de homicídios na Amazônia Legal é de 27,3 assassinatos por 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional.
E não bastassem os impactos do crime na economia e na segurança, a Amazônia Legal vive agora uma crise de saúde pública e humanitária, com o aumento do consumo de entorpecentes. Antes fenômenos dos grandes centros urbanos, minicracolândias pululam na região, onde usuários consomem uma droga ainda mais viciante que o crack. Trata-se do “óxi”, ou oxidado: um restolho da cocaína misturado a cal, querosene, gasolina e outros solventes, e que é destinado aos mais miseráveis.
Como bem destacam os pesquisadores do FBSP, existe hoje na Amazônia Legal uma perigosa sobreposição de crimes, violência e ilícitos ambientais. Isso tudo, por óbvio, demanda uma reação coordenada, inteligente e ostensiva de municípios, Estados e União no combate ao crime organizado na região a fim de promover o desenvolvimento sustentável e proteger o meio ambiente.
Por isso é justo perguntar quais são as políticas públicas eficazes ou as propostas legislativas relevantes que tenham tratado do enfrentamento do crime organizado na Amazônia Legal.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o Congresso neste momento discutem uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e um projeto de lei antifacção. Mas não há nessas iniciativas nenhuma linha com ações voltadas exclusivamente aos dilemas da Amazônia, onde, como todos sabem, o crime mais cresce, prospera e lucra.
Tamanha negligência das autoridades, mais preocupadas decerto com o calendário eleitoral, e as degenerações causadas pelo crime organizado põem em risco a soberania e a estabilidade do Estado brasileiro, as liberdades econômicas e o ambiente de negócios, a segurança e a saúde públicas da população – e, no limite, a própria democracia.
A COP como ela é
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Mesmo antes do fim da COP-30, brotou forte na imprensa a leitura do “esgotamento do processo multilateral”, cujo emblema maior seria o fracasso em desenhar o “mapa do caminho” para a eliminação dos combustíveis fósseis. Mas o processo da COP funcionou como sempre: consensos mínimos, avanços graduais e acordos procedimentais. O que naufragou em Belém não foi a forma diplomática, mas o conteúdo de uma agenda que exige a supressão dos fósseis em ritmo acelerado, como se a física, a economia e a política fossem negligenciáveis.
Se esse voluntarismo energético foi frustrado, não é porque os países tenham desistido do clima, mas porque a aposta de que seria possível substituir rapidamente os fósseis a golpes de subsídios em energia eólica e solar – sem infraestrutura adequada ou capacidade de armazenamento – provou-se uma ficção cara. O mundo real puniu essa fantasia com inflação energética, perdas industriais e revolta do eleitorado. A Europa é um exemplo contundente: metas ambiciosas demais exauriram sociedades incapazes de absorver seus custos.
Países pobres e emergentes também se recusam a pagar a conta, notificando que não sacrificarão crescimento e industrialização. Energia barata e confiável é precondição de prosperidade. Os renováveis seguem crescendo, mas apenas somam – não substituem – a capacidade existente. Sem flexibilidade, transmissão e armazenamento, não há transição acelerada; há slogans.
O divórcio entre diplomacia climática e realidade material ficou claro em Belém. O palco segue maximalista, enquanto o mundo real migra para outra lógica: transições mais lentas, foco em adaptação e prioridade à segurança energética e à prosperidade como condição de resiliência climática.
Em três décadas, a obsessão por cortar na marra a oferta de combustíveis fósseis praticamente não alterou a trajetória das emissões. A insistência num modelo que não entrega resultados, mas multiplica custos, corroeu a legitimidade política da agenda. O cansaço dos eleitores não é negacionismo: é aritmética doméstica. Energia cara destrói o consenso social. A já folclórica coxinha a R$ 45 – ainda que os preços em Belém durante a COP não tenham relação direta com a energia – serviu involuntariamente como um aperitivo indigesto do custo de vida global se vierem a prevalecer as políticas energéticas exigidas pelo ambientalismo radical.
Sintomaticamente, a COP avançou justamente onde há realismo: adaptação, proteção florestal baseada em incentivos, métricas para resiliência e financiamento híbrido. Não é coincidência. Mais do que cortar emissões a qualquer custo, as nações querem fortalecer infraestrutura, saúde, saneamento, redes elétricas – elementos que, de fato, reduzem vulnerabilidades. A inflexão do tecnólogo e filantropo Bill Gates simboliza a ascensão de uma nova agenda climática, que coloca energia abundante, inovação tecnológica e desenvolvimento no centro.
O eixo que ganha força – e que a COP, ainda que a contragosto, confirmou – é simples: a transição energética só será viável se for barata, segura e politicamente vendável. Isso exige inovação maciça, barateamento tecnológico e crescimento. Países em desenvolvimento – que cada vez mais responderão pela esmagadora maioria das emissões – não serão convencidos por metas abstratas, mas por benefícios concretos: empregos, eletricidade confiável, agricultura forte.
Dizia-se que a COP-30 seria a “COP da Verdade”. E foi. Não a verdade idealizada pelo radicalismo ambiental, e sim a verdade vivida pelo mundo real. Mesmo as previsíveis falhas de infraestrutura serviram para mostrar ao mundo as necessidades sociais urgentes de populações pobres, como as da região amazônica. O que realmente fracassou foi a fantasia de que cúpulas de elite poderiam decretar, por chantagem moral, uma mutação histórica na oferta de energia sem antes resolver questões elementares de engenharia, capital e tempo. Quando o debate abandonar o pensamento mágico da “eliminação” dos fósseis e voltar a se orientar por prosperidade, tecnologia e realismo energético, o multilateralismo deixará de parecer impotente – e recuperará sua utilidade.
A caixa-preta dos fundos de servidores
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O caso do Banco Master certamente terá ainda muitos desdobramentos em vários âmbitos. Um deles, que não poderá faltar, é a governança dos fundos de Estados e municípios, também conhecidos como Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Descobriu-se que várias dessas entidades aplicaram quantias astronômicas em títulos do Banco Master, caracterizando uma gestão temerária, para dizer o mínimo.
Instituídos pela Lei n.º 9.717, de 27/11/1998, os RPPS são os veículos que permitem aos funcionários públicos das três esferas de poder fazerem a sua poupança previdenciária complementar, o que se tornou especialmente importante depois que várias legislações estabeleceram tetos para a aposentadoria do funcionalismo, sendo que o complemento viria das contribuições dos próprios funcionários públicos a essas entidades. Note-se, portanto, a importância da boa gestão desses recursos.
Boa gestão que, com certeza, não se viu no caso da compra de títulos do Banco Master. Não que não se possa errar na escolha dos investimentos. Afinal, pela sua própria natureza, todo investimento tem risco – não existe almoço de graça. Mas o que se exige do gestor é que administre o dinheiro de terceiros com a prudência com que faria a gestão dos seus próprios recursos. Não é o que se viu no caso dos RPPS que tinham títulos do Banco Master em suas carteiras de investimento.
O caso mais grotesco é o do Rioprevidência, RPPS dos funcionários do Estado do Rio de Janeiro. O montante em títulos do Banco Master somava quase R$ 1 bilhão, o que representa cerca de 10% do patrimônio da entidade no final de 2024. Quem, em sã consciência, aplicaria 10% da sua carteira em um único investimento, ainda mais sendo títulos de um banco pequeno e com práticas para lá de arriscadas?
Mas o Rioprevidência não está só. Segundo reportagem do Estadão, outros 17 fundos de Previdência de Estados e municípios aplicaram recursos em títulos do Banco Master. Uma dessas entidades, o RPPS de Maceió, afirmou em nota que “os títulos do Master representam menos de 10%” do total do patrimônio da entidade. Inacreditável. Como se “menos de 10%” fosse prova de gestão prudente, e não o contrário.
Agora, algumas dessas entidades querem jogar o prejuízo causado por suas decisões na conta da viúva. Em nota, o Rioprevidência afirmou que vai tentar converter essas aplicações em precatórios federais. Era só o que faltava. De qualquer forma, o rombo causado pela incúria deverá recair sobre os funcionários públicos ou sobre os contribuintes de cada unidade da Federação, a depender de quem for chamado a cobrir o prejuízo.
Algumas dessas entidades podem ter sido levadas a investir em títulos do Banco Master por simplesmente seguirem regras internas de leilão de taxas, como se a gestão de investimentos pudesse ser feita seguindo a mesma lógica de certames de contratação de serviços pelo poder público. Outras entidades podem ter tido motivações menos republicanas para entrarem nesse tipo de operação. Mas um fato é inescapável: todas, de uma forma ou de outra, mostraram falhas imperdoáveis de governança.
Como contraste, não houve registro de nenhum fundo de pensão ligado a empresas, sejam estatais ou privadas, que tivessem investido em títulos do Banco Master. Mesmo os fundos de pensão estatais – que já serviram, em várias ocasiões, como veículos de decisões de investimentos duvidosos por motivações políticas – neste caso mostraram uma governança exemplar. Essas entidades são supervisionadas pela Previc, um órgão federal, ao passo que os RPPS respondem aos governos e tribunais de contas regionais, abrindo espaço para a influência política nas decisões de investimento.
Pela sua própria natureza, o patrimônio dos RPPS pode servir como instrumento financeiro nas mãos de políticos inescrupulosos, ou como fonte de recursos para funcionários corruptos. É tarefa urgente rever a governança dessas entidades. Essa é uma agenda que os próprios funcionários públicos afetados deveriam abraçar.
A caminho da verdade do clima na COP30
Em que pesem avaliações negativas que se podem traçar da COP30, a cúpula sobre mudança climática de Belém do Pará, cumpre não subestimar as várias conquistas do evento. Entre as mais notáveis, que a reunião se tenha concluído no prazo usual, isto é, com o atraso regular dos últimos anos.
Mais de 60 mil delegados de quase duas centenas de países passaram pela metrópole de 2,7 milhões de pessoas encravada na floresta e envolta nas águas abundantes da amazônia. Padeceram com calor, umidade e alagamentos, amostra do que já enfrentam populações mais vulneráveis a eventos extremos do aquecimento global.
Houve consideráveis percalços, como a tentativa de invasão da zona azul —área restrita a negociadores— e um incêndio no mesmo espaço. Sinais de despreparo, que por sorte não fez vítimas graves, só arranhões na reputação dos organizadores.
O desastre logístico predito por não poucos não chegou a se materializar. Por outro lado, no que toca à substância de decisões e documentos, houve poucos avanços, como a entronização do ideal de transição justa, mecanismo para dar a sociedades desfavorecidas meios para renunciar a combustíveis fósseis e adaptar-se à mudança do clima.
Teria sido melhor detalhar tal compromisso com cifras e prazos, mas assim procedem as COPs: palavra por palavra, até que em futuro incerto o verbo coalesça em metas identificáveis, desprovidas porém de controles para cumprimento. Assim caminha o multilateralismo imprescindível, com lentidão aquém da emergência climática.
Na prática, abusa-se do poder de veto. Arábia Saudita, China, Índia e Rússia incineraram o mapa do caminho para longe dos fósseis que a presidência brasileira preconizava. A União Europeia travou o financiamento, ficando apenas a promessa genérica de triplicar os recursos a desembolsar por países desenvolvidos.
Restam pouco mais de 11 meses, até a COP31 na Turquia, para produzir o roteiro prometido pelo Brasil, doravante por conta própria. A diplomacia nacional confia no apoio de 80 países, e uma reunião separada sobre o tema espinhoso deverá ocorrer na Colômbia no primeiro semestre.
O avanço possível se deu não no item principal da mitigação (redução das emissões de carbono), mas no da adaptação. No jargão das COPs, trata-se de enfrentar as condições ameaçadoras criadas pela omissão internacional, 33 anos após adotada a Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas, na neutralização dos fósseis que a ciência prescreve para 2040.
A COP30 seria a COP da verdade e foi: nunca esteve tão evidente o abismo que separa governos comprometidos com deter a crise climática —para esta e para futuras gerações— dos que trabalham há um terço de século pela precedência dos próprios interesses econômicos e estratégicos, doa a quem doer.
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Master e BRB fizeram negócio de R$ 303 milhões com empresa de atendente de lanchonete investigada por golpe
Por Thiago Bronzatto — Brasília / o globo
O banco Master vendeu ao BRB uma carteira de crédito (direitos sobre empréstimos) de R$ 303 milhões gerada por uma empresa registrada em nome de uma atendente de lanchonete investigada por aplicar um golpe de maquininha de cartão. Essa transação, segundo o Ministério Público Federal (MPF)
Essa operação chamou a atenção do Banco Central, que passou a olhar com lupa todas as carteiras de crédito vendidas pelo Master ao BRB. Em meio ao aperto da fiscalização da autoridade monetária, o banco controlado por Daniel Vorcaro comunicou que, dois meses depois de fazer negócio com a instituição do Distrito Federal, em fevereiro de 2025, decidiu recomprar as carteiras de crédito da The Pay Soluções de Pagamentos Ltda. Segundo o BC, após essa transação, “não foram realizados novos exames” no negócio.
Mas o caso entrou na mira da Polícia Federal e do MPF, que tomaram conhecimento da operação após questionar o BC sobre outras operações suspeitas realizadas entre o Master e o BRB.
“Além das fraudes realizadas em 2025, para desviar recursos do BRB, no total de R$ 12,2 bilhões, a pequena amostra analisada pelo Banco Central de 2024, apenas de dezembro, mostra que fraude semelhante vinha sendo realizada no ano anterior, em prejuízo do banco público de Brasília”, afirmou o MPF em uma manifestação durante as investigações. “É possível que estejamos diante de uma das maiores fraudes bancárias da história do Brasil, pelo volume de recursos desviados ilicitamente”, complementou.
A investigação
A operação envolvendo carteiras de crédito entre o Master e o BRB foi além de 2024 — e, mesmo sob fiscalização do BC, continuaram em 2025. As transações realizadas neste ano, segundo os investigadores, apresentam indícios de fraudes e foram feitas numa manobra para socorrer o banco privado, que necessitava de um fôlego financeiro para sobreviver no mercado.
Em sua manifestação sobre o caso, o MPF afirmou que o Master “teria adquirido carteiras de crédito” neste ano de uma empresa dirigida por um ex-funcionário do banco “sem realizar qualquer pagamento” e, logo em seguida, revendeu esses títulos ao BRB, recebendo pagamento imediato, “resultando na transferência, de janeiro a maio de 2025, de R$ 12,2 bilhões”.
Ao justificar essa operação ao BC, o Master informou em 25 de março deste ano que a carteira de crédito tinha como origem duas associações de servidores do estado da Bahia, que teriam sido criadas por um diretor do banco privado.
Uma auditoria do BC, porém, constatou que “as cessões de crédito passaram a envolver CPFs de diversas localidades do país” e que as movimentações financeiras eram incompatíveis com as duas associações envolvidas na transação.
Diante dessa suspeita, o Banco Central passou a fazer um pente-fino numa amostra de 30 supostos clientes tomadores de créditos das operações cedidas pelo Master ao BRB em janeiro de 2025. A instituição constatou que não foi possível estabelecer qualquer correspondência das transações com o fluxo financeiro, o que “corrobora os indícios de insubsistência”. O termo significa inconsistência ou falta de fundamento que comprove a existência de algo.
A partir disso, o BRB apresentou ao BC uma nova amostra com informações de 100 contratos de créditos adquiridos do Master. Ao analisar os documentos, a autoridade monetária reforçou que havia “indícios de insubsistência, que sinalizam a existência de possível engenharia contável e financeira para viabilizar a captação de recursos”.
Após o questionamento do BC, a titularidade desses títulos passou a ser atribuída à Tirreno, criada no final de 2024 por uma pessoa que registrou outras firmas semelhantes. Segundo os investigadores, esse é um indício de que se tratava de uma "empresa de prateleira" para viabilizar a operação de socorro ao Master.
Tão logo foi lançada no mercado, a Tirreno ampliou o seu capital para R$ 30 milhões, passou a ter como diretor um ex-funcionário do Master e realizou mudanças societárias — que, de acordo com a PF, foram formalizadas somente após o início da operação financeira envolvendo o BRB.
O Ministério Público Federal destaca que o contrato inicial de parceria entre Master e Tirreno e um dos instrumentos de cessão de crédito “sequer estão autenticados em cartório”, enquanto os demais documentos da operação foram registrados formalmente apenas alguns meses depois da transação.
“Mostra-se atípico e desarrazoado que somente após a provocação do Banco Central sobre as informações, o BRB passou a exigir documentos adicionais, situação bastante suspeita para quem realizaria operação neste montante (R$ 12,2 bilhões) e que deveria se cercar de cuidados objetivos e mínimos para a viabilidade deste tipo de transação”, afirmam os investigadores.
Diante desses indícios, a Polícia Federal realizou uma operação para prender Daniel Vorcaro, que estava embarcando para uma viagem internacional, e outros executivos do Master. O então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo. As defesas dos envolvidos negam qualquer irregularidade.
Em nota, o BRB disse que “sempre atuou em conformidade com as normas de compliance e transparência, prestando regularmente informações ao Ministério Público Federal e ao Banco Central do Brasil sobre todas as operações relacionadas ao Banco Master”.
A defesa de Daniel Vorcaro classificou como “desnecessária e ilegal” a prisão decretada pela Justiça e disse ainda que o banqueiro viajaria para os Emirados Árabes Unidos, quando foi detido no aeroporto internacional de Guarulhos, para concluir a venda da instituição financeira para um grupo de investidores liderado pelo Grupo Fictor, anunciada ao mercado. Os advogados recorreram ao Superior Tribunal de Justiça.
MUITO Há muito a explicar no caso Master
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Dois meses após acertadamente reprovar a compra de parte do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), o Banco Central (BC) decretou ontem a liquidação extrajudicial do Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal em aparente tentativa de fuga do Brasil.
Embora a decisão do BC soe como um epílogo para o banco de Vorcaro como instituição financeira, o caso ainda vai pairar por muito tempo sobre o sistema financeiro e sobre o mundo político. Muita gente deve explicações e esclarecimentos sobre o escândalo – a começar pelo próprio Banco Central, sob cuja supervisão o Master atuou com temeridade gritante.
Outra entidade que precisa dar explicações é o BRB. Mesmo sem ter a necessária autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal (DF) para o negócio com o Master, o BRB anunciou a transação em março deste ano alardeando que se tratava de uma excelente oportunidade.
Somente em agosto, e por determinação da Justiça, os legisladores do DF deram seu parecer sobre um negócio estimado em R$ 2 bilhões. Àquela altura o BC já vinha, semanas a fio, avaliando a propriedade do negócio, que vetaria no mês seguinte. Notícias sobre atividades obscuras envolvendo o Master pululavam na imprensa.
Ainda assim, a Câmara do DF levou apenas uma tarde para aprovar a compra do Master pelo BRB. Consta em Brasília que Vorcaro tem excelentes relações com poderosos membros do governo local e do Congresso Nacional, como o senador Ciro Nogueira e com o deputado Arthur Lira.
Agora, a investigação da PF e do Ministério Público Federal revela que tudo é muito pior do que parecia ser. Indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB foram descobertos. Além disso, o banco de Vorcaro entregou documentos falsos ao BC, numa tentativa de tornar justificável a operação com o banco público do Distrito Federal.
Tudo sugere que a compra do Master pelo BRB faria parte de uma encenação para encobrir fraudes bilionárias do banco de Vorcaro. Como o BC vetou o negócio com o banco público, o Master tentou então uma salvação por meio de um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e um grupo de investidores árabes desconhecidos. O arranjo suspeitíssimo felizmente teve vida curta. Menos de um dia depois, a PF prendeu Vorcaro e o BC anunciou a liquidação do Master.
É importante reconhecer que, desde que o negócio entre BRB e Master foi anunciado, o BC vem atuando como se espera: de forma técnica e sem arroubos. Mas não foram poucas as tentativas de constranger a autarquia. Como os meses corriam e a aprovação do negócio entre BRB e Master não saía, lideranças do Centrão tentaram emplacar um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC, prerrogativa exclusiva do presidente da República. Embora não tenha avançado, a estapafúrdia proposta dá a dimensão dos interesses nada republicanos envolvidos no caso.
O crescimento vertiginoso do Master ocorreu por meio de uma estratégia bastante temerária. O banco oferecia produtos bancários, como CDBs, com rendimentos muito superiores aos do mercado como um todo, usando o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como chamariz. Criado nos anos 90, o FGC recebe aportes de instituições financeiras para garantir estabilidade aos investidores.
Ocorre que todo e qualquer investimento, por mais seguro que seja, envolve riscos e, na prática, o que o Master fez foi usurpar o FGC. O banco de Vorcaro usava os recursos dos investidores para fazer seus negócios nebulosos contando com o apoio do fundo, como se fosse o parente que gasta o dinheiro do aluguel sabendo que os demais membros da família economizaram recursos para pagá-lo.
Foi só após o Master ter se transformado num risco excessivo para o FGC que as regras de contribuição dos associados ao fundo foram endurecidas.
Agora, só resta esperar que todo e qualquer ente público com negócios com o Master, especialmente após a negativa ao acordo com o BRB, seja investigado. E que não seja necessário outro caso como esse para que regras que garantem o bom funcionamento do sistema financeiro sejam ajustadas.

