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Estratégias regulatórias de combate à covid-19

Érica Gorga, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2020 | 03h00

O mundo debate as estratégias para lidar com a pandemia do coronavírus. Países ricos, como a Alemanha, os Estados Unidos e até a Inglaterra, acabaram adotando o isolamento horizontal, isto é, a paralisação do trabalho em estabelecimentos comerciais, exceto os considerados “serviços essenciais”.

Governadores e prefeitos brasileiros logo seguiram a estratégia dominante e decretaram o fechamento do comércio e dos serviços não essenciais, restringindo até transporte público em algumas cidades. Tais decisões foram desacompanhadas de quaisquer estudos que avaliassem o impacto econômico em médio prazo no País.

Acontece que a curva de transmissão da covid-19, recentemente divulgada pelo ministro da Saúde, prevê que o contágio se acelerará durante os meses de abril, maio e junho, com o platô começando a cair só em agosto e com queda mais acentuada em setembro. Nesse contexto, muitas autoridades parecem defender a paralisação de tudo até lá.

Todavia autoridades e médicos precisam, urgentemente, reconhecer as condições de vida da maioria dos brasileiros, que dependem do trabalho diário para sobreviver. O IBGE contabiliza 40 milhões de trabalhadores informais no País. Em estimativa conservadora, se cada um for responsável pelo sustento de mais um membro da família, tem-se 80 milhões de brasileiros sem perspectiva de renda. Entre eles, doceiras, pipoqueiros, vendedores ambulantes, manicures, etc. O governo federal propõe o pagamento de pouco mais de meio salário mínimo para famílias inteiras viverem isoladas, o que significa, na realidade, que passarão fome no ostracismo, acumulando contas para pagar. Sem falar dos atuais 12 milhões de desempregados e dos novos milhões que a eles já se somam, ainda não contabilizados. Com alto risco de o dinheiro não chegar a tempo.

É urgente admitir a incapacidade financeira – e histórica – do Estado brasileiro de alimentar os necessitados se a paralisação forçada persistir por meses a fio, afetando porcentagem que certamente ultrapassará com folga mais da metade da população.

Infectologistas renomados já se manifestaram contra políticas de isolamento na ausência de sintomas do vírus, como o professor titular Esper Kallás, do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP, em entrevista ao Estado (17/3). Kallás criticou políticas de fechamento de estabelecimentos de maneira descoordenada, que resultam em “apagão econômico”, pois “não dá para parar tudo por muito tempo”. Isso é, de fato, impossível, sem provocar fome generalizada e colapso social, com perspectiva de saques e aumento exponencial da criminalidade.

A política de isolamento horizontal ignora o fator tempo e os impactos sociais e econômicos decorrentes. Além disso, Kallás alertou que há sério risco de que, quando os governos permitirem a reabertura, o vírus volte a se alastrar e a contaminação cresça novamente.

É compreensível que autoridades tentem ganhar tempo para providenciar os leitos e equipamentos necessários para salvar vidas, mas é falacioso alegar que a paralisação até meados de abril resolverá o problema. A estratégia mais factível de médio prazo entre nós é a de “isolamento vertical”, a qual prevê o isolamento dos grupos de risco, permitindo que os mais jovens voltem a trabalhar, com as devidas precauções, para sustentar sua família. Deve-se pensar em como fazê-lo.

Em artigo no Estado (23/3), Zeina Latif corajosamente critica o fechamento de todas as escolas de ensino fundamental em comunidades carentes, que não levou em conta a situação dramática de crianças confinadas em favelas sem saneamento básico, sem ventilação, sem comida em casa e sem merenda – e até expostas a possível aumento da violência doméstica. Atente-se para o exemplo da Inglaterra, que, apesar de fechar escolas, autorizou atendimento escolar especial a filhos de colaboradores críticos que precisam trabalhar. Também aqui a solução deveria ser mista, permitindo o seu funcionamento quando necessários.

Analisando o impacto da paralisação, editorial do Wall Street Journal (19/3) colocou-se contra a política americana do apagão econômico, defendendo não ser sustentável. Trump disse que quer reabrir a maior parte da economia dos Estados Unidos antes da Páscoa, pois sabe que nem o pacote proposto de US$ 2 trilhões sustentaria a paralisação por vários meses.

No Brasil, com renda per capita tremendamente inferior à americana, o confinamento da população por meses mostra-se inviável, pois haverá crescimento real do número de mortes decorrentes da rápida subnutrição e perda de imunidade, resultando em probabilidade maior de contaminação por coronavírus. Por essas e outras razões, é provável que a estratégia de isolamento horizontal, no longo prazo, leve à morte mais pessoas do que haveria com a adoção da estratégia de isolamento vertical.

DOUTORA EM DIREITO COMERCIAL PELA USP, COM PÓS-DOUTORADO PELA UNIVERSIDADE DO TEXAS, FOI PROFESSORA NAS UNIVERSIDADES DO TEXAS, CORNELL E VANDERBILT, DIRETORA DO CENTRO DE DIREITO EMPRESARIAL DA YALE LAW SCHOOL E PESQUISADORA EM STANFORD E YALE

Pandemia da miséria - ISTOÉ

ALTA DENSIDADE DEMOGRAFICA

 

A crise atual tem um impacto ainda mais perverso sobre a população de baixa renda. Muitos profissionais sobrevivem da economia informal ou dependem de remuneração por serviços pontuais para pagar as despesas do dia a dia. Com a paralisação geral provocada pelo coronavírus, a maioria dos serviços não essenciais foram cancelados ou adiados.

 

Para piorar a situação, o isolamento individual recomendado pelas autoridades médicas nem sempre é uma opção para quem divide o pequeno teto com famílias muitas vezes numerosas. Em localidades onde a densidade populacional é alta e as necessidades básicas são mais altas ainda, as perspectivas com a situação atual são as piores possíveis.

 

É assim que vivem moradores de Paraisópolis, a segunda maior comunidade da cidade de São Paulo. Próxima ao Morumbi, um dos bairros mais nobres da capital paulista, Paraisópolis tem cerca de 100 mil habitantes espalhados por 21 mil domicílios em uma área de 10 quilômetros quadrados. Enquanto a densidade demográfica do Morumbi é de 4,1 mil habitantes por quilômetro quadrado, a de Paraisópolis tem mais que o dobro: 10 mil.

 

O problema é tão sério que Paraisópolis decidiu desenvolver o seu próprio sistema para enfrentar a crise da Covid-19. A estratégia criada pela associação de moradores, formada por 420 líderes comunitários, instituiu a figura do “presidente de rua”, cuja função inclui cuidar de cerca de 300 moradores. “Eles vão fazer aquilo que o poder público não faz”, afirma Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis. Segundo ele, os presidentes de rua vão mapear os 10 quilômetros quadrados de área da favela e organizar o fluxo de doações, cestas básicas e itens de higiene. “Fazer quarentena é possível para quem mora em prédios. Na favela é difícil”, diz o morador Marcus Vinícius Conceição dos Santos.

“Na favela é difícil fazer quarentena. É por isso que o trabalho da Associação dos Moradores é essencial para conter o coronavírus” Marcus Vinicius Conceição dos Santos, morador de Paraisópolis

Quarentena não remunerada

De acordo com levantamento do Data Favela, organização que mapeia o comportamento e o consumo das comunidades de baixa renda, 72% da população de Paraisópolis não têm dinheiro para suportar a condição de quarentena.

A pandemia agrava a condição de precariedade das pessoas que vivem na favela. Ainda segundo o Data Favela, 84% dos moradores em comunidades acreditam que terão redução da renda por causa do coronavírus — 79% já começaram a cortar gastos. Embora a recomendação geral seja para que todos mantenham a higiene e lavem as mãos, o acesso à água e saneamento é escasso.

“Aqui ainda tem lugares em que falta água. Temos caixa d’água há apenas um ano”, conta Jéssica dos Santos, auxiliar de enfermagem. Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, apesar de quase toda a população de São Paulo ter abastecimento de água, as formas irregulares de obtenção que ocorrem em pontos da favela podem prejudicar. “Em dois dias a água armazenada irregularmente apodrece e pode causar doenças”, afirma o médico. Segundo suas estimativas, cerca de 60 mil pessoas podem ser infectadas pelo coronavírus na comunidade de Paraisópolis, o que significa que pelo menos três mil delas vão precisar de internação em unidade intensiva. “Seria uma calamidade” diz ele.

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Coronavírus: como têm sido as autópsias das vítimas fatais

TIBO DE ENSAIO TESTE

A autópsia dos corpos vitimados por Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, é mais uma questão a ser considerada pelas autoridades de saúde durante a pandemia do vírus que já levou 57 pessoas à morte no Brasil, de acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde.

Com o alto risco de contaminação por contato com os corpos, o serviço requer equipamentos e tecnologia indisponíveis à esmagadora maioria dos laboratórios especializados no serviço de verificação de óbitos no país — são estimados cerca de 43 locais que fazem este tipo de serviço atualmente.

Cabe como única exceção o trabalho realizado há uma semana no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Por lá, ocorre um tipo de procedimento minimamente invasivo que garante a proteção dos especialistas envolvidos no processo, por preveni-los de qualquer contato direto com o corpo a ser analisado.

Os especialistas só podem iniciar o trabalho após colocar todo o aparato de segurança. “São 30 minutos para vestir o equipamento de proteção”, diz Paulo Saldiva, professor de patologia na Faculdade de Medicina da USP. “Para retirar são outros 20 minutos”, diz.

Passam pela análise casos suspeitos e confirmados de Covid-19, previamente atendidos no hospital. O procedimento ocorre após o corpo ser totalmente embalado em um plástico protetor. Com um aparelho de ultrassom, localizam-se os órgãos dos quais serão tirados materiais para o estudo que incluí análises moleculares. A coleta é feita por grandes agulhas inseridas em pontos estratégicos do corpo. “Somos um dos únicos no mundo fazendo este trabalho”, garantiu o professor Saldiva.

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Polícia da Índia espanca cidadãos que quebram quarentena

NA INDIA ESPANCEMENTO DO CIDADÃO PELA POLICIA

Na Índia, vídeos gravados pela população mostram que a polícia está usando a violência para reprimir quem viola a quarentena total no país, decretada pelo presidente Narendra Modi na terça-feira 24 como tentativa de interromper a propagação do novo coronavírus.

As redes sociais repercutiram gravações de autoridades espancando e açoitando cidadãos nas ruas. Vídeos mostraram a polícia indiana forçando grupos de homens a fazer agachamentos e flexões como punição.

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Coronavírus: apoiadores de Bolsonaro fazem carreatas por fim da quarentena

CARREATA NO BRASIL DE HOJE

Carreatas organizadas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que pedem o fim da quarentena estão sendo organizadas em uma série de cidades pelo país, como São Paulo, Presidente Prudente (SP), Blumenau (SC), Boa Vista (RR), Curitiba e Belo Horizonte, entre outras. Com bandeiras do Brasil, os manifestantes pedem a volta imediata do funcionamento dos chamados serviços não essenciais, o que inclui o comércio, após decretos de governadores que interromperam as atividades econômicas para tentar reduzir a transmissão do coronavírus pelo país. As redes sociais também estão sendo usadas para convocar novas manifestações nos próximos dias.

O movimento é consequência da defesa por Bolsonaro de que as quarentenas – prática adotada nas principais cidades do mundo e apoiadas por médicos, cientistas e entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) – sejam suspensas ou flexibilizadas para que a atividade econômica não seja prejudicada. “Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa’, defendeu em rede nacional de TV na terça-feira 24. O pronunciamento foi alvo de um intenso panelaço, recebeu duras críticas de especialistas e acirrou a disputa política que vem travando com os governadores estaduais, que adotaram o isolamento em massa.VEJA

 

Contra a quarentena, Bolsonaro agora vai bater no aumento da violência

Depois de martelar a questão do desemprego como argumento para contrariar a estratégia global de combate ao coronavírus, Carlos Bolsonaro definiu o próximo passo do pai na tese do “voltem às ruas”: o aumento da violência.

Jair Bolsonaro vai ajustar o discurso nos próximos dias para dizer que o aumento do desemprego levará as pessoas a promoverem saques a supermercados, investirem em assaltos, roubos e outras atrocidades.

Um lote de vídeos já está sendo espalhado pelo gabinete do ódio nas redes. VEJA

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