Nas palafitas do Recife, com calor e sem água, se isolar contra coronavírus é inviável
Um bafo muito quente, turbinado por dois ventiladores no chão, sai de dentro de uma palafita de dez metros quadrados, na comunidade do Bode, no bairro do Pina, zona sul do Recife.
Lá, onde Verônica da Silva Lucena, 31, mora com duas filhas pequenas e o marido, a vida ainda não parou. Segue com ar de normalidade por absoluta falta de opção.
“É insuportável. É muito, muito, muito quente. Não temos condições de ficar em casa o tempo inteiro. Entre aqui e sinta”, convida Verônica.
Os moradores sabem do perigo que representa o coronavírus. Com resignação, alegam que sofrem em dobro. Em Pernambuco, há 95 casos confirmados da Covid-19 e 8 óbitos.
Apenas no Bode, em uma margem de rio de um quilômetro e meio, há 600 pessoas vivendo em palafitas. Deste total, 87% não têm sequer água encanada e saneamento básico.
Os dados constam em pesquisa realizada pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) em parceria com o coletivo Pão e Tinta, formado por ativistas sociais e grafiteiros do local.
No lugar onde a vida é separada por finos pedaços de madeira, Eliane Maria da Silva, 58, asmática e hipertensa, tem dificuldade para ficar dentro da palafita minúscula em que mora.
“O calor aqui é muito grande. Eu preciso respirar lá fora. Tenho que ir no tonel de água de instante em instante para tomar banho. Não aguento."
No sábado passado (29), ela tomou um susto. Faltou energia e não tinha como ligar o nebulizador. “Pensei que iria embora. Para a gente, tudo é mais difícil. Sofremos em dobro. Olhe aqui as brotoejas no meu corpo. É o calor”, fala.
A pequena televisão ligada dentro da palafita é ponto de aglomeração de crianças da rua. "Vejo o presidente falar, mas eu não sei direito o que ele acha sobre isso tudo", comenta com a filha.
Bem perto da casa de Eliane, na rua Boa Ventura Rodrigues, o movimento de pessoas é muito grande. Não há o distanciamento social, recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Esgoto a céu aberto, amontoados de lixo no meio da rua, amigos bebendo nas esquinas, funcionários da prefeitura trabalhando em uma obra e crianças correndo de um lado para o outro. Este é o cenário.
“É desumano morar numa palafita em um momento como esse. O calor é insuportável. Tem lugar com 12 pessoas. Elas não têm para aonde ir”, diz Sheila Cristina, agente de saúde que trabalha na comunidade.
Em uma das calçadas, um ventilador no chão vira ponto de alívio para um adolescente e quatro crianças que se divertem no celular grudadas umas nas outras.
“Não tem muito o que fazer. O calor influencia bastante. A situação das crianças é pior porque os pais não têm como proporcionar atividades em casa. É rua, infelizmente”, declara o conselheiro tutelar Paulo de Oliveira, que mora na comunidade desde que nasceu, há 40 anos.
Uma única mangueira serve para abastecer os recipientes levados pelos moradores. Não tem água todos os dias. O governo de Pernambuco prometeu reforçar a quantidade de caminhões-pipa em áreas desabastecidas.
O acelerador social Pedro Stilo, que integra o coletivo Pão e Tinta e a Livroteca Brincante do Pina, dois projetos sociais em atividade no Bode, cola, junto com amigos, poesia nas portas das casas e palafitas.
Em outras várias portas, a prefeitura do Recife colocou avisos educativos para orientar as pessoas a lavar as mãos constantemente ou usar álcool em gel. Em muitas casas, não há uma coisa e nem outra.
“A minha arma é o que a memória guarda”, diz um dos poemas. "A arte minimiza as dores. A poesia é o lado lírico e lúdico das coisas. Acreditamos que, se a gente se organizar certinho, vamos viver tempos de alegria, cultura, arte, música e voltar a cantar juntos", declara Pedro Stilo.
Ele explica que a quarentena nas favelas é diferente. “As pessoas não deixam de ficar em casa por negligência, mas sim por um problema estrutural. Não têm acesso a direitos que outras pessoas têm. É muito mais difícil”, avalia.
Ao lado de amigos, ele tem feito mobilizações para arrecadação de alimentos e distribuição de kits de higienização. Nos condomínios de classe média, inventou o “teste positivo para solidariedade”.
“A gente articula e uma das pessoas daquele prédio fica responsável por arrecadar alimentos que, posteriormente, distribuímos aqui. A pessoa que topar recebe o selo de que testou positivo para solidariedade”, explica.
A Prefeitura do Recife informou que, de acordo com estimativas do último Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS), de 2018, há 4.725 domicílios considerados precários (rústicos ou improvisados) na cidade. Entre estes, estão as palafitas.
Desde 2013, segundo a prefeitura, foram entregues 20 conjuntos habitacionais, totalizando 2.363 novas unidades, entre casas e apartamentos. Estima-se que mais de 10 mil pessoas tenham sido beneficiadas com as entregas.
Estados e municípios no país relatam subnotificação gigantesca de casos
Equipes de atenção básica em várias cidades e estados do Brasil afirmam que a subnotificação ao Ministério da Saúde de casos suspeitos de infecção pela Covid-19 tem sido gigantesca.
Isso vem ocorrendo mesmo depois de o ministro Luiz Henrique Mandetta ter solicitado, em 20 de março, que todos os casos suspeitos, independentemente da gravidade, fossem notificados por estados e municípios.
Nesse cenário, em que o avanço da epidemia pode ser muito maior do que se tem registro, muitos hospitais do país esperam que dentro poucas semanas comecem a faltar vagas em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs).
Em alguns estados e municípios, chega-se a 1 caso informado para cada 30 ou mais episódios em que pacientes podem estar doentes sem que as ocorrências sejam reportadas em nível federal.
A falta de kits para testes e a inexistência de uma portaria específica do Ministério da Saúde para determinar quais casos devam ser considerados confirmados ou suspeitos têm feito com que muitos doentes não entrem nas estatísticas, segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), que representa 6.000 médicos atuando em 47,7 mil equipes de atenção básica em todo o Brasil.
“O resultado é que estamos no escuro em relação ao que realmente notificar e sobre o número real de casos”, diz Denize Ornellas, diretora de Comunicação da SBMFC.
No Distrito Federal, até a semana passada a orientação era a de que fossem notificados apenas os chamados casos SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).
Nesta semana, isso mudou e agora são notificados todos os casos SG (Síndrome Gripal) —que incluem febre e mais um sintoma, como tosse.
“Com base na antiga orientação, notifiquei apenas um caso na semana passada. Depois da nova nota técnica, foram três só na segunda-feira”, diz Rodrigo Lima, médico de um posto na cidade satélite de Samambaia, no Distrito Federal, onde são atendidas cerca de 25 mil pessoas.
Segundo ele, não há kits de testes para aCovid-19 na região e as subnotificações “são imensas”. “Mesmo a orientação da nova nota técnica foi encaminhada pelo Whatsapp, e colegas não viram”, diz.
No Recife, o médico de família Bruno Pessoa —que atende cerca de 4.000 pessoas em uma unidade de saúde básica— estima que as notificações formais são de 1 para quase 40 casos suspeitos.
A capital pernambucana fez o inverso do Distrito Federal. Entre os dias 10 e 17 de março, a orientação era a de que todos os casos de Síndrome Gripal fossem notificados. Mas uma nota técnica do dia 19 de março limitou a exigência para os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave.
“A mudança ocorreu no dia em que ficou estabelecida a transmissão comunitária.” Segundo Pessoa, os hospitais de referencia da cidade com leitos de UTIs já estão “no limite”.
Segundo Rita Borret, médica no bairro carioca de Jacarezinho, a subnotificação de casos ao Ministério da Saúde também é grande no Rio.
“De cada 20 pacientes suspeitos, apenas 1 ou 2 são notificados no Ministério da Saúde”, diz Rita, que trabalha em uma clínica que atende 3.600 pessoas na região.
Em Minas Gerais, a médica Natália Madureira, que cuida de aproximadamente 5.000 pessoas em uma unidade básica, afirma que a falta de kits para testes e de orientações específicas da Saúde têm levado a muitas subnotificações. “Cada estado tem tratado as notificações de maneira diferente”, diz Natália.
No início de março, o Ministério da Saúde publicou o Protocolo de Manejo Clínico do Coronavírus na Atenção Primária à Saúde, voltado aos profissionais da atenção básica. Depois de várias atualizações, o documento diz, na página 19, que devem ser notificados todos os casos de Síndrome Gripal e de Síndrome Respiratória Aguda Grave por meio de uma plataforma.
Após mais mudanças no sistema, os casos devem ser notificados agora no chamado e-SUS, onde os profissionais da atenção básica entram com login e senha para o registro.
No estado de São Paulo, a secretaria da Saúde publicou em 17 de março, no Diário Oficial, resolução orientando que os casos sem gravidade não fossem comunicados.
Até agora, não houve publicação de outro documento alinhando a orientação ao que o ministério passou a preconizar a partir de 20 de março.
Apesar de o Diário Oficial dizer o contrário, a assessoria da pasta sustenta que a orientação é notificar casos suspeitos graves ou não.
MAIS :A verdade sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina

Nas redes sociais, duas drogas viralizaram, com o perdão da expressão, como se fossem o bálsamo definitivo para a Covid-19 — a cloroquina e a hidroxicloroquina, associadas. Comumente usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como o lúpus, elas se transformaram em portos seguros. Funcionam? Sim, informam alguns estudos ainda em fase inicial de investigação — mas, ressalve-se, o protocolo impõe outras experiências para conceder aval definitivo ao par de drogas. Há ansiedade, porém é preciso calma, ancorada na ciência. O deflagrador da onda foi um estudo francês com 24 pacientes, amostra pequena, que observou os efeitos positivos dos remédios. “Essas medicações devem ser tomadas com controle, dados os efeitos colaterais, como arritmia e problemas visuais”, afirma Ludhmila Hajjar, coordenadora de ciência, tecnologia e inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Os primeiros resultados, animadores, levaram Donald Trump a divulgar a boa-nova, com pressa e um tantinho de irresponsabilidade. Bolsonaro seguiu a onda. Para aumentar o alarde, um áudio com informações falsas sobre o assunto começou a ser compartilhado no WhatsApp. De acordo com a gravação, um estudo da Universidade Stanford teria mostrado que o uso das substâncias combinadas com outro composto, o antibiótico azitromicina, teria curado quarenta pacientes com Covid-19. O áudio é falso. Diz Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Albert Einstein: “Não há um heureca, mas um grupo de pessoas trabalhando duro e junto”.
No Brasil, dois amplos estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina foram deflagrados. Um deles já começou e envolve instituições de várias regiões do país, como o Hospital Estadual Geral de Goiânia, a Fundação Oswaldo Cruz e a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, e é liderado pelo reputado infectologista Marcus Vinicius Guimarães de Lacerda, da Fiocruz Amazônia. A ideia é analisar os efeitos em 880 doentes graves, em doses diferentes.
O outro trabalho é resultado da união entre o Hospital Albert Einstein, o Hospital do Coração e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que usarão a medicação em doentes com suporte de oxigênio, em estado mais ou menos grave da enfermidade. Ambos os estudos foram aprovados em menos de uma semana pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, instituição responsável pela validação dos estudos científicos no Brasil. Há pressa. Afirma Alexandre Biasi, diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração: “O que até então levava seis meses no universo científico agora é feito em dois dias”. As conclusões dos trabalhos sairão em até dois meses, no máximo.
Na quarta-feira 25, o Ministério da Saúde anunciou que vai liberar 3,4 milhões de unidades do medicamento cloroquina para que os médicos possam avaliar sua utilização em pacientes graves. A decisão foi tomada com base em um protocolo detalhado e rigoroso, que prevê cinco dias de tratamento, sempre dentro do hospital e monitorado por um médico. Aviso: não adianta sair comprando as substâncias por aí.
Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680
Clube Militar ataca ministro do STF por queixa-crime contra Bolsonaro
Guardião da turma da caserna, o Clube Militar fez duros ataques ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF, por ele ter dado prosseguimento a uma notícia-crime contra Jair Bolsonaro.
A peça foi apresentada ao STF pelo deputado petista Reginaldo Lopes (MG). Em suma, acusou o presidente da República por, seus atos, propagar do coronavírus no país com seu comportamento contra isolamento.
Em nota, o clube diz que o objetivo é criar constrangimento a Bolsonaro.
“Diferente de outras autoridades que nesse momento de crise se enclausuram emsuas luxuosas residências, se alimentando de lagosta e vinho francês, o presidente permanece ouvindo o povo para buscar as melhores soluções para resolver suas angústias”.
Diz o Clube Militar que defender o fim do isolamento total nesse tempo de coronavírus não é crime.
E ataca o ministro do tribunal.
“O próprio ministro Marco Aurélio, que deve ser especialista no assunto, liberou geral para governadores e prefeitos tomarem suas decisões. Surpreende-nos que, ao invés de dar celeridade aos processos contra políticos corruptos, com seus foros privilegiados, que apodrecem à espera da prescrição, o ilustre ministro prefira dar continuidade a um pedido que não mereceria nem a lata de lixo da justiça”. VEJA
Acidentes de trânsito caem 61% durante isolamento social

A dinâmica do espaço urbano mudou a partir das confirmações de pacientes infectados pelo coronavírus Sars-CoV-2 no Ceará. Os casos positivos para a Covid-19, doença pandêmica em crescimento, obrigaram a reclusão social, sobretudo com o decreto estadual que interrompeu serviços. Com mais gente dentro de casa e consequentemente, menos carros, motos e bicicletas, o número de acidentes de trânsito recuou. Se entre 17 e 31 de março de 2019 os sinistros chegaram a 123, em igual período deste ano, foram apenas 48, o que aponta uma redução de 61% nos números.
Os registros de óbitos por acidentes também acompanharam o cenário de quedas. Em igual intervalo de tempo, as mortes decresceram de 21 para 9. Os dados foram encaminhados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE), após solicitação do Sistema Verdes Mares. O órgão, no entanto, não detalhou em quais municípios e rodovias estaduais as ocorrências foram registradas.
A Capital, por sua vez, que concentra a maioria dos casos com diagnóstico positivo da Covid-19, acumula também a maior baixa no quantitativo de acidentes. Segundo balanço da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), os chamados para atendimentos de incidentes em ruas e avenidas caíram 73% entre 19 (feriado estadual de São José) a 29 de março últimos, em comparação a iguais dias de 2018.
Enquanto em 2020, Fortaleza contabilizou apenas 95 acidentes, no ano passado, o total chegou a 351. A AMC inclui na lista atropelamentos, colisão com e sem vítimas e choques com postes de energia. Já sobre os incidentes que levam usuários de transportes a óbito, o órgão indica um declínio de 20%, e para as ocorrências com o registro de vítimas, 58,2% a menos.
"Essas reduções proporcionam a melhoria do sistema de atendimento de emergência. Isso porque, menos pessoas estão correndo risco nas ruas e acabam dando a oportunidade de quem, nesse momento, precisa efetivamente desse serviço encontrar vagas de imediato nas redes públicas e particular", justifica o superintendente da Autaquia Municipal, Arcelino Lima.
Trump despacha força naval para a Venezuela
O presidente americano, Donald Trump, anunciou o envio de uma frota para as proximidades da região da Venezuela a fim de combater o narcotráfico. O anúncio foi feito na Casa Branca quase uma semana depois de o Departamento de Justiça (DoJ) do governo americano ter oferecido recompensa pela captura do ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e de outros integrantes de seu governo, acusados de tráfico de drogas.
A frota enviada é composta de navios de guerra e de combate, aviões e levará helicópteros para fazer a vigilância da região. O presidente americano estava acompanhado do secretário de Defesa, Mark Esper, durante o anúncio. E o Comando Sul da Marinha dos Estados Unidos retuitou logo em seguida a decisão do presidente. "Os Estados Unidos estão lançando uma operação de luta contra o narcotráfico no hemisfério ocidental para proteger os americanos das ações dos narcotraficantes", afirmou Trump.


