Bolsonaro rebate críticas por escolha de amigo dos filhos para o comando da PF: “E daí?”
26 de abril de 2020 | 13h40
BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro rebateu, na manhã deste domingo, 26, críticas à indicação do delegado Alexandre Ramagem, próximo da família, para o comando da Polícia Federal. Em resposta no Facebook a uma seguidora que observou que Ramagem foi indicado pelo filhos do presidente, Bolsonaro respondeu: “E daí?”. A nomeação do novo chefe da Polícia Federal ainda não foi oficializada no Diário Oficial da União.
Na publicação na rede social, o presidente justifica que conheceu Ramagem, atual chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), antes de seus filhos. “E daí? Antes de conhecer meus filhos, eu conheci Ramagem. Por isso deve ser vetado? Devo escolher alguém amigo de quem?”, questionou.
Outro seguidor postou uma foto em que Ramagem aparece em uma festa de réveillon ao lado do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos): “Está tudo em casa, né, Vossa Excelência?!”, escreveu o homem.
O presidente respondeu com uma montagem feita com fotos antigas por um apoiador, em que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro aparece ao lado do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) e do apresentador Luciano Huck, cotado como um nome que pode concorrer à Presidência. “Entrou no Ministério da Justiça juiz e saiu político aliado da oposição, e se fazendo de coitadinho. Só se deixa enganar quem quer”, diz o texto da imagem republicada por Bolsonaro.
Cai apoio da população a governadores, o que pode beneficiar Bolsonaro, mostra pesquisa Este trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2020/04/24/cai-apoio-da-populacao-a-governadores-o-q
O jogo não virou, mas existe um novo ponto de equilíbrio na avaliação do eleitorado em torno da postura dos políticos no combate à covid-19 no Brasil. Há cerca de um mês, 70% dos brasileiros apoiavam os governadores, os principais responsáveis pela implementação das medidas de isolamento no país. Hoje, esse percentual caiu para 58%. Representa a maioria, mas perdeu um fôlego de 12 pontos percentuais nessa jornada.
Em paralelo, também há cerca de 30 dias, 64% afirmavam não confiar na capacidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em gerenciar a crise do novo coronavírus. Agora, essa desconfiança caiu para 52%. Tal cota também engloba a maior parte da população, mas o patamar de descrédito baixou. É isso o que indica uma nova rodada da pesquisa de
opinião realizada pelo Instituto Travessia, de São Paulo, com exclusividade para o Valor.
E o que está por trás dessas variações? Como observa Argelina Cheibub Figueiredo, professora de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), não se pode interpretar uma pesquisa de opinião tentando adivinhar o que as pessoas estavam pensando no momento da enquete. Para dar sentido às respostas, é preciso observar as circunstâncias, o que mudou na difusão de informações e no grau de exposição dos atores envolvidos na trama. Assim, pelo menos dois fatores podem ter contribuído para essas alterações.
Um deles é o desgaste natural da quarentena, movido pela perspectiva de queda de renda da população, aumento do desemprego e incertezas em torno da retomada da atividade econômica.
“Em grande medida, isso pode explicar a queda do apoio aos governadores, os responsáveis pela manutenção do distanciamento social”, diz Renato Dorgan Filho, sócio do Instituto Travessia. Sobre a redução das críticas à capacidade do presidente Jair Bolsonaro de gerir a crise, acrescenta o analista político, pode ter pesado o início da adoção por parte do governo de medidas concretas contra a pandemia. “Isso inclui, por exemplo, o pagamento do auxílio de R$ 600,00 para trabalhadores informais”, afirma Dorgan Filho. “Esse tipo de benefício faz grande diferença no atual contexto.”
Acrescente-se a esse quadro um temor em torno dos desdobramentos da crise. Na última edição da pesquisa, feita entre os dias 17 e 18 de abril, 64% dos entrevistados consideraram que o impacto do novo coronavírus não será menos do que “devastador” na economia do país. Na sondagem anterior, realizada entre 20 e 21 de março, 54% dos pesquisados compartilhavam dessa opinião. Ou seja, o pessimismo escalou dez pontos percentuais em pouco menos de um mês.
Hoje, 52% afirmam que o problema vai se arrastar por “muito tempo”. Apenas 9% dizem acreditar em uma solução de “poucas semanas” para o impasse. Há um mês, no entanto, a visão otimista (da turma das “poucas semanas”) alcançava 17% dos entrevistados.
Além do apoio aos governadores ter sofrido uma queda de 70% para 58%, a desaprovação desses líderes aumentou de 19% para 32%. Essa guinada negativa deu-se com maior intensidade em segmentos específicos da população.
Ela foi mais intensa, por exemplo, entre homens (a aprovação dos chefes dos Executivos estaduais caiu de 72% para 50%), nas regiões Sudeste (com queda de 69% para 49%) e Sul (80% para 67%) e nas faixas de renda mais polpudas, como entre 5 e 10 salários mínimos (78% para 50%) e mais de 10 salários (65% para 43%).
A avaliação dos prefeitos, no entanto, registrou um ligeiro aumento, embora eles também adotem em muitos casos medidas rigorosas de quarentena. Nesse caso, o endosso às iniciativas dos líderes municipais passou de 52% para 57%. “Mas as prefeituras têm uma atividade mais assistencialista, e isso muda um pouco o quadro nos municípios”, observa Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.
“Quem está mesmo no centro da disputa política do ‘abre e fecha’ da economia com o presidente Jair Bolsonaro são os governadores. E eles são os primeiros a serem atingidos pelas tensões do isolamento, provocadas quer por tédio, quer por medo.”
Melo aponta ainda a existência de um componente particular no papel que cabe aos governadores nesta crise. Isso porque, à medida que eles apertam as engrenagens do distanciamento social - e se desgastam com a população -, as consequências do contágio diminuem. Com isso, o problema parece menor do que realmente é.
“Imagine se, antes do 11 de Setembro de 2001, o serviço de inteligência do governo americano tivesse detido os terroristas que realizariam os atentados às Torres Gêmeas”, afirma o professor do Insper. “Ninguém teria tido a menor ideia do tamanho daquela ameaça. Na verdade, impedir que alguma coisa ocorra tira a dimensão da tragédia que ela representa.
Assim, hoje, o discurso do presidente contra os governadores acaba sendo favorecido por esse elemento que pode ser definido como um não fato. Ele é típico das ações de prevenção.”
Argelina Figueiredo, a Uerj, ressalta que, para complicar ainda mais a tarefa dos governadores em manter populares as medidas de isolamento, o presidente Bolsonaro tomou maior pulso das ações do governo federal nas últimas semanas. Antes disso, destaca a professora, as ações do Planalto concentravam-se no ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta podem ter dado maior protagonismo ao presidente”, diz Argelina.
VALOR ECÔNOMICO
NORDESTE, O ALVO MAIS VULNERÁVEL DO CORONAVÍRUS NO BRASIL

Na zona rural de Inajá, município do Sertão pernambucano a cerca de cinco horas da capital, Recife, o distanciamento social ainda não faz parte da rotina da agricultora Maria das Graças Ferreira. Aos 51 anos, Maria enfrentou uma viagem de 40 minutos por uma estrada de terra no último dia 14 até o centro da cidade, que ainda não tem casos confirmados do novo coronavírus, para entrar na fila de distribuição de alimentos. “Tive de vender um perfume para comprar a passagem e chegar aqui. Meus três netos me pedem uma bolacha e eu não tenho”, lamentou Maria, que vive com o marido, José Ferreira, de 67 anos, em uma residência de pau a pique, sem acesso a água encanada e rede de esgoto. Quando ficam doentes, Maria e José usam uma carroça puxada por um burro para chegar ao posto de saúde local. A pandemia global que já deixou mais de 150 mil mortos é percebida por dona Maria como mais um fator — mas não o único — que deixa a vida por um fio no Semiárido do Nordeste. “Já piorou. Antes eu passava na casa do povo e me ajudavam. Agora parece que ninguém tem condições de ajudar ninguém.”
Diante do avanço do novo coronavírus pelo país — uma em cada cinco cidades brasileiras já tinha casos confirmados até a última terça-feira —, a calamidade no Nordeste, uma região populosa e com indicadores socioeconômicos abaixo da média nacional, pode ser pior do que no restante do Brasil. Quatro em cada dez municípios com casos de Covid-19 já confirmados são nordestinos e reúnem problemas como falta de saneamento adequado, população em extrema pobreza e ausência de estrutura para tratar os doentes. Segundo o Ministério da Saúde, entre todas as capitais brasileiras, três do Nordeste — Fortaleza, São Luís e Recife — têm as maiores incidências do vírus para cada 1 milhão de habitantes. “Essas capitais têm alguns dos maiores fluxos internacionais do país. A densidade demográfica e a movimentação global de pessoas são fatores mais graves para o avanço do vírus do que a presença de locais desassistidos. É por isso que o distanciamento social tem importância central”, explicou o médico e cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, grupo montado por governadores da região para lidar com a pandemia.

Além do acúmulo de casos nos grandes centros de estados como Ceará, Pernambuco e Bahia, a chegada da Covid-19 — a pequenos municípios e povoados marcados pela miséria no Semiárido nordestino — acendeu o alerta dos governos estaduais em razão da falta de hospitais e de estrutura básica para que a população pratique as medidas de higiene exigidas para combater o vírus. No interior nordestino, já chega a 182 o número de municípios com registros da Covid-19 que não têm leitos de UTI na rede pública, tampouco respiradores — essenciais para o tratamento de casos mais graves. “Com o coronavírus, tudo parou. Não chegam alimentos, os caminhões-pipa que levam água para as cisternas dos povoados pararam de circular e também falta transporte para ir às cidades. Estamos falando de povoados que ficam a 30, 40 quilômetros dos centros urbanos”, afirmou Alcione Albanesi, presidente da ONG Amigos do Bem, que tem percorrido a região, desde o último dia 8, com outros dez voluntários, para distribuir 60 mil cestas básicas, 20 mil kits de saúde e higiene e 25 milhões de litros d’água. Uma das cestas foi entregue a dona Maria das Graças no centro de Inajá.
As negociatas com o Centrão - ISTOÉ

O estimulo às manifestações pedindo o fechamento do Congresso faz parte de uma estratégia mais ampla de Bolsonaro para formar uma base de apoio ao seu governo na Câmara, onde ele vem perdendo as principais votações nos últimos tempos, como a ocorrida há dez dias, quando os deputados aumentaram o volume de recursos aos Estados de R$ 40 bilhões para R$ 90 bilhões, enchendo o caixa dos governadores que se opõem a ele. Bolsonaro teria sido alertado pelos órgãos de espionagem do governo que haveria um movimento feito a partir do presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), seu desafeto, com a ajuda dos governadores e suas bancadas na Câmara, para articular seu impeachment. Por mais delirante que seja, o presidente resolveu minar o poder de Maia.
Quer fazer sua própria bancada e trabalhar para eleger o novo presidente da Câmara. Nesse sentido, o mandatário tenta cooptar mais de 200 parlamentares do Centrão, especialmente do PP, PL, PSD, PTB e Republicanos. Deste último partido, Bolsonaro pensa em fazer o deputado Marcos Pereira (SP) candidato a presidente da Casa. Pastor evengélico, Pereira é ligado à Igreja Universal, sua aliada. É no Republicanos que seus filhos Flávio e Carluxo se filiaram no Rio. Caso não emplaque Pereira, o mandatário pode lançar mão de Arthur Lira (PP-AL) para o projeto de dominar a Câmara. Em troca da adesão, o governo oferece aos parlamentares cargos em ministérios e estatais. O governo pretende, assim, lotear o governo como o PT de Lula fez no passado e que acabou no maior processo de corrupção da história — mensalão e petrolão.
Como os governadores brasileiros preparam o relaxamento da quarentena

Duas semanas depois da primeira morte por coronavírus no Brasil, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), em 11 de março, deu a largada: mesmo que de forma limitada, abriu a porteira dos decretos em série que botaram a nação de quarentena praticamente de cabo a rabo. O inimigo chegara ao país deixando um rastro de milhares de mortos mundo afora, e o clima que se instalou por aqui tinha muito de medo — o que ajudou na adesão ao apelo para ficar em casa — e outro tanto de incerteza: por quanto tempo seria preciso isolar a população até que o mal estivesse sob controle? Era comum apontar junho, quando, segundo o Ministério da Saúde, a pandemia entraria em declínio. Mas, na mesma velocidade com que o vírus se espalhou, cresceu a pressão para afrouxar a política de ruas vazias e lojas fechadas que atingiu os grandes centros. A angústia que tomou conta da economia ganhou ares de desespero diante dos prolongamentos sucessivos das medidas de isolamento. O setor de comércio calcula em 115 bilhões de reais o prejuízo no período. Sob a ameaça de quebradeira geral e com o aumento das vozes contrárias soprando nos ouvidos, governadores de alguns dos principais estados acharam por bem fazer ao menos um gesto político: indicar uma data e um plano para o início do fim do isolamento em massa.

O gesto mais representativo veio de São Paulo, estado que tem o maior número de mortos e infectados e o que mais fincou trincheira na defesa da política de isolamento social quando esta virou alvo das críticas e gestos de confrontação diários do presidente Jair Bolsonaro, desde sempre o maior patrocinador do desmonte da estratégia, tida pela Organização Mundial da Saúde como a mais eficaz contra a Covid-19. Mais recentemente, em razão dessa opção, o tucano João Doria virou alvo de carreatas pelas ruas e pedidos de impeachment nas redes sociais de gente que defende a volta ao trabalho (veja a reportagem na pág. 36). Para acalmar os ânimos, anunciou um plano de relaxamento da quarentena a partir de 11 de maio, por regiões, segundo parâmetros de saúde como número de casos e capacidade do sistema público para absorver pacientes graves, baseados em estudos de monitoramento da doença feitos pela Unesp. Liderada pelos secretários Patricia Ellen (Desenvolvimento Econômico) e Henrique Meirelles (Fazenda), a ala econômica do governo fez ecoar no Palácio dos Bandeirantes o forte recado das entidades empresariais. “O comércio está pagando a conta da pandemia”, diz Alfredo Cotait Neto, presidente da poderosa Associação Comercial de São Paulo e um aliado de Doria.
Bolsonaristas convocam nova manifestação para Brasília

Circula por grupos de WhatsApp de apoiadores de Bolsonaro vídeos de convocação para a ocupação de uma semana da Esplanada dos Ministérios, a partir desse domingo, 26. O protesto foi batizado de Marcha para Brasília, e entre os seus organizadores estão a youtuber bolsonarista Sara Winter, que é conhecida por ser ex-feminista, e um perfil do Instagram chamado Robô – que conta com 3.276 seguidores, entre eles Flávio e Carlos Bolsonaro, os filhos do presidente.
A proposta dos organizadores é acampar em frente ao Congresso Nacional e pedir a a saída de Rodrigo Maia da presidência da Câmara. Os organizadores estão convocando militares da reserva e mulheres de militares da ativa de baixa patente, justamente aqueles que, durante o período em que esteve como parlamentar, Bolsonaro manteve entre seus eleitores mais fiéis, prometendo defendê-los no Congresso.VEJA


