Cai apoio da população a governadores, o que pode beneficiar Bolsonaro, mostra pesquisa Este trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2020/04/24/cai-apoio-da-populacao-a-governadores-o-q
O jogo não virou, mas existe um novo ponto de equilíbrio na avaliação do eleitorado em torno da postura dos políticos no combate à covid-19 no Brasil. Há cerca de um mês, 70% dos brasileiros apoiavam os governadores, os principais responsáveis pela implementação das medidas de isolamento no país. Hoje, esse percentual caiu para 58%. Representa a maioria, mas perdeu um fôlego de 12 pontos percentuais nessa jornada.
Em paralelo, também há cerca de 30 dias, 64% afirmavam não confiar na capacidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em gerenciar a crise do novo coronavírus. Agora, essa desconfiança caiu para 52%. Tal cota também engloba a maior parte da população, mas o patamar de descrédito baixou. É isso o que indica uma nova rodada da pesquisa de
opinião realizada pelo Instituto Travessia, de São Paulo, com exclusividade para o Valor.
E o que está por trás dessas variações? Como observa Argelina Cheibub Figueiredo, professora de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), não se pode interpretar uma pesquisa de opinião tentando adivinhar o que as pessoas estavam pensando no momento da enquete. Para dar sentido às respostas, é preciso observar as circunstâncias, o que mudou na difusão de informações e no grau de exposição dos atores envolvidos na trama. Assim, pelo menos dois fatores podem ter contribuído para essas alterações.
Um deles é o desgaste natural da quarentena, movido pela perspectiva de queda de renda da população, aumento do desemprego e incertezas em torno da retomada da atividade econômica.
“Em grande medida, isso pode explicar a queda do apoio aos governadores, os responsáveis pela manutenção do distanciamento social”, diz Renato Dorgan Filho, sócio do Instituto Travessia. Sobre a redução das críticas à capacidade do presidente Jair Bolsonaro de gerir a crise, acrescenta o analista político, pode ter pesado o início da adoção por parte do governo de medidas concretas contra a pandemia. “Isso inclui, por exemplo, o pagamento do auxílio de R$ 600,00 para trabalhadores informais”, afirma Dorgan Filho. “Esse tipo de benefício faz grande diferença no atual contexto.”
Acrescente-se a esse quadro um temor em torno dos desdobramentos da crise. Na última edição da pesquisa, feita entre os dias 17 e 18 de abril, 64% dos entrevistados consideraram que o impacto do novo coronavírus não será menos do que “devastador” na economia do país. Na sondagem anterior, realizada entre 20 e 21 de março, 54% dos pesquisados compartilhavam dessa opinião. Ou seja, o pessimismo escalou dez pontos percentuais em pouco menos de um mês.
Hoje, 52% afirmam que o problema vai se arrastar por “muito tempo”. Apenas 9% dizem acreditar em uma solução de “poucas semanas” para o impasse. Há um mês, no entanto, a visão otimista (da turma das “poucas semanas”) alcançava 17% dos entrevistados.
Além do apoio aos governadores ter sofrido uma queda de 70% para 58%, a desaprovação desses líderes aumentou de 19% para 32%. Essa guinada negativa deu-se com maior intensidade em segmentos específicos da população.
Ela foi mais intensa, por exemplo, entre homens (a aprovação dos chefes dos Executivos estaduais caiu de 72% para 50%), nas regiões Sudeste (com queda de 69% para 49%) e Sul (80% para 67%) e nas faixas de renda mais polpudas, como entre 5 e 10 salários mínimos (78% para 50%) e mais de 10 salários (65% para 43%).
A avaliação dos prefeitos, no entanto, registrou um ligeiro aumento, embora eles também adotem em muitos casos medidas rigorosas de quarentena. Nesse caso, o endosso às iniciativas dos líderes municipais passou de 52% para 57%. “Mas as prefeituras têm uma atividade mais assistencialista, e isso muda um pouco o quadro nos municípios”, observa Carlos Melo, cientista político e professor do Insper.
“Quem está mesmo no centro da disputa política do ‘abre e fecha’ da economia com o presidente Jair Bolsonaro são os governadores. E eles são os primeiros a serem atingidos pelas tensões do isolamento, provocadas quer por tédio, quer por medo.”
Melo aponta ainda a existência de um componente particular no papel que cabe aos governadores nesta crise. Isso porque, à medida que eles apertam as engrenagens do distanciamento social - e se desgastam com a população -, as consequências do contágio diminuem. Com isso, o problema parece menor do que realmente é.
“Imagine se, antes do 11 de Setembro de 2001, o serviço de inteligência do governo americano tivesse detido os terroristas que realizariam os atentados às Torres Gêmeas”, afirma o professor do Insper. “Ninguém teria tido a menor ideia do tamanho daquela ameaça. Na verdade, impedir que alguma coisa ocorra tira a dimensão da tragédia que ela representa.
Assim, hoje, o discurso do presidente contra os governadores acaba sendo favorecido por esse elemento que pode ser definido como um não fato. Ele é típico das ações de prevenção.”
Argelina Figueiredo, a Uerj, ressalta que, para complicar ainda mais a tarefa dos governadores em manter populares as medidas de isolamento, o presidente Bolsonaro tomou maior pulso das ações do governo federal nas últimas semanas. Antes disso, destaca a professora, as ações do Planalto concentravam-se no ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta podem ter dado maior protagonismo ao presidente”, diz Argelina.
VALOR ECÔNOMICO

