Em nove estados, indústria volta ao nível de produção pré-pandemia
Rio - A produção industrial no país cresceu em 11 dos 15 locais pesquisados pelo IBGE em setembro, segundo a Pesquisa Industrial Mensal Regional, divulgada nesta terça-feira. Destes, nove estados recuperaram o patamar de produção pré-pandemia.
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O estado que teve o melhor desempenho foi o Paraná, com alta de 7,7%, puxado pelo setor de veículos, máquinas e equipamentos. A produção industrial no estado ficou 0,5% acima do nível registrado em fevereiro, antes do início da pandemia.
O setor de veículos automotores também influenciou o desempenho de São Paulo, que tem o maior peso na indústria nacional, e avançou 5% em setembro.
“A alta de 5,0% foi a quinta taxa positiva consecutiva de São Paulo. Nesse período, o estado já acumulou um ganho de 46,6% e está 4,4% acima do patamar de produção de fevereiro de 2020” explica o gerente da pesquisa, Bernardo Almeida.
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Ele destaca ainda outros estados que registraram altas acima da média nacional no período, Amazonas (5,8%), Espírito Santo (5,0%), Rio Grande do Sul (4,5%), Santa Catarina (4,5%) e Bahia (4,0%).
Por outro lado, Minas Gerais (1,9%), Ceará (1,3%), Região Nordeste (1,1%) e Goiás (0,4%) avançaram, porém, em ritmo mais lento.
Já o pior desempenho foi o do Mato Grosso (-3,7%), seguido pelo Rio de Janeiro (-3,1%), Pará (-2,8%) e Pernambuco (-1,3%). O Rio, no entanto, teve o melhor desempenho no acumulado dos últimos 12 meses, de 3,6%.
A indústria brasileira, especialmente a produção de bens duráveis, tem avançado nos últimos meses, embora ainda não tenha retornado aos patamares de antes da pandemia.
A produção industrial no país avançou 2,6% em setembro, na comparação com agosto, segundo a Pesquisa Industrial Mensal, divulgada na semana passada e que traz um panorama geral do setor.
Foi a quinta alta mensal seguida, eliminando as perdas de 27,1% acumuladas em março e abril, quando o setor registrou o patamar mais baixo na pandemia.
Justiça afasta coordenador da Vigilância Sanitária de São Benedito
A Justiça determinou o afastamento imediato do coordenador da Vigilância Sanitária de São Benedito, Luís Ribeiro Barbosa, acusado de improbidade administrativa. A decisão atende Ação Civil Pública do Ministério Público do Estado do Ceará.
Segundo a Promotoria de Justiça, o gestor teria enviado áudios em grupos de WhatsApp solicitando a presença das pessoas em reuniões de apoio a um candidato à Prefeitura do Município, que provocaram aglomerações.
A Justiça também determinou que Luís Ribeiro Barbosa seja proibido de exercer qualquer outra atividade na Coordenadoria de Vigilância Sanitária de São Benedito, e frequentar as dependências de quaisquer órgãos públicos municipais com atuação na área de Vigilância Sanitária. CN7 NEWS
Caso descumpra a decisão, Luis Ribeiro terá que pagar multa de R$ 15 mil, e o prefeito Gadyel Gonçalves R$ 30 mil.
‘No dia que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultra-esquerda’, diz Ciro
09 de novembro de 2020 | 15h16
O ex-ministro Ciro Gomes – que disputou a Presidência da República em 2018 pelo PDT e que já declarou que gostaria de concorrer novamente – reagiu nesta segunda-feira às notícias de união entre o ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, o apresentador Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria. Os três iniciaram conversas para se apresentarem ao eleitor em 2022 como uma alternativa de centro. “No dia que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultra-esquerda, o que eu nunca fui”, afirmou o presidenciável após evento com a militância de seu partido, o PDT, em apoio ao ex-governador Márcio França (PSB), candidato à Prefeitura de São Paulo em uma chapa com o pedetista Antonio Neto como vice.
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“Então vamos ter compostura. Moro vendeu a toga em troca de um cargo vitalício é um cara da extrema-direita. O Moro se veste como os fascistas italianos da década de 1930. Ele está sempre com uma camisa escura sobre um paletó escuro. O Moro é fascista. O Moro vendeu a toga, prendeu um adversário político, tirou o adversário político da eleição e, em seguida, aceitou ser ministro do que ganhou a eleição. Isso é uma lesão ética que transforma o Moro para mim em um grande malandro”, afirmou Ciro.
O pedetista poupou Huck de muitas críticas, sugerindo apenas que ele não tem experiência em governo para conseguir orientar o País. “O Luciano Huck é um apresentador de televisão. Ok, é uma tarefa das mais dignas. Isso prepara para enfrentar a maior crise social, econômica? O posicionamento internacional do Brasil, o Congresso hiper fraturado?”, indagou. “Só a irresponsabilidade de algumas pessoas da elite Brasileira é que permitem a gente acreditar isso”, afirmou. Sobre Doria, Ciro disse que ele foi um prefeito que mentiu para o povo, se referindo à promessa feita pelo tucano de que ele não deixaria o mandato na Prefeitura para disputar o governo do Estado.
“Ele já resolveu: vai terceirizar a Prefeitura para o MDB, vai terceirizar o governo do Estado para o DEM. Esse é o plano dele, para ele ser o presidente da República. E vocês que se arrebentem”, afirmou.
Encontro com Lula
A repórteres, Ciro confirmou que encontrou o ex-presidente Lula em setembro. O petista tem sido alvo de muitas críticas do pedetista desde o desfecho das eleições 2018, em que o atual presidente Jair Bolsonaro, se elegeu.
“Eu tive (um encontro com Lula). Fui convidado pelo governador Camilo Santana (petista que administra o Ceará e é próximo à família Gomes) e tive uma conversa muito franca, muito franca mesmo. As pessoas gostariam de que eu usasse uma expressão popular: lavamos a roupa suja, para valer”, explicou o ex-ministro de governo do PT.
De acordo com Ciro, ambos continuaram com suas opiniões sobre a situação do País, mas que o fato de haver diálogo é positivo. “Eu diria que, sob o ponto de vista das compreensões da questão brasileira para trás e para frente, continuamos como estávamos antes de conversar. Mas a mim me agrada a ideia de que a gente faça política conversando. Sabe? O que pega é catapora”, argumentou.
De acordo com o ex-ministro, nenhum dos dois deu qualquer sinalização concreta de plano para o futuro.
A iniciativa do encontro partiu de Santana, que procurou Ciro e Lula, aparou arestas e viabilizou a reaproximação. A tarefa demandou mais de um mês e dezenas de telefonemas. Desde então Lula tem incluído Ciro no rol de nomes fortes da esquerda para 2022 e o pedetista cessou os ataques ao PT.
Apoio a Márcio França
O presidenciável elogiou a postura do candidato Márcio França, que tem evitado nacionalizar a disputa pela Prefeitura de São Paulo e têm criticado seus oponentes por vincular suas imagens à de um potencial candidato em 2022. Ao longo da campanha, França vem se apresentando como o candidato para o eleitor que quer um prefeito e não um presidente.
Para Ciro, a estratégia é acertada. “Se você olhar em Fortaleza, onde o meu título de eleitor é, nós entendemos que o que está em debate é uma eleição municipal. Os meus adversários estão querendo fazer isso (nacionalizar a disputa e com cabos eleitorais de fora da cidade) lá. O Lula todo dia na televisão, o Moro entrou na televisão lá no Ceará, Bolsonaro entrou na televisão no Ceará e eu não vou”, afirmou. Em Fortaleza, Ciro apoia José Sarto (PDT) enquanto Lula apoia Luizianne Lins (PT) e Moro gravou um vídeo para o deputado Capitão Wagner (Pros).
De acordo com pesquisa Ibope divulgada no último dia 3, Sarto (PDT) tem 29% das intenções de voto, contra 27% de Capitão Wagner e 24% de Luizianne.
“E eu não vou (participar do horário eleitoral), porque eu não vou deixar que eles distraiam o povo de Fortaleza. Nunca perdi uma eleição no Ceará. Na última agora (em 2018), eu ganhei para presidente da República no Estado todo e o Bolsonaro foi para terceiro lugar. Então eu não tenho problema de relação com o meu povo. O que eu não posso permitir é que queiram transformar o meu povo, a quem eu devo tudo, em pecinha de xadrez do jogo que vai ser jogado em 2022”, acrescentou.
De acordo com o marqueteiro de França, Raul Cruz Lima, Ciro não será usado no horário eleitoral gratuito da campanha peesebista. “O Márcio é o cara que tem falado o tempo todo na imagem das sombras – tem uma sombra (de campanha presidencial) atrás de cada candidato. O Russomanno com o Bolsonaro, o Lula atrás do (Jilmar) Tatto e do (Guilherme) Boulos. E ele o Márcio está se mostrando como o cara independente que não tem o rabo preso com ninguém. Na campanha (de rádio e TV), não estamos programando nada com o Ciro”, afirmou ao Estadão.
No evento com Ciro, França e Antonio Neto, foram feitas gravações para serem postadas na internet. França saiu mais cedo para uma entrevista na Rede Record.
Bolsonaro na campanha de Russomanno
Perguntado se o deputado Celso Russomanno (Republicanos), oponente de França na disputa pela Prefeitura, estava errado ao estava usar Bolsonaro em sua campanha, Ciro, que não custuma medir palavras, disse disse que foi uma decisão “idiota”.
“Desculpe dizer. O Bolsonaro é um idiota e o Russomanno não é do ramo. O Russomanno vive de explorar essa popularidade que a televisão da, ele está aí nos programas popularescos, mundo cão, tal que ele é desse ramo, e acha que isso vai transformar o povo em idiota. Isso é muito bobo, porque nunca será assim que o povo vai votar”, defendeu.
O ex-ministro também disse que o atual presidente vai “levar uma sova” nas grandes metrópoles do País. “O Bolsonaro é um imbecil completo. Por quê? Porque vai levar uma sova grande em São Paulo, outra grande no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais não está vendo nem o azul. Não se apresentou no Rio Grande do Sul, não se apresentou nem no Sul, onde ele tem força. No Nordeste brasileiro, ele não vai levar em canto nenhum”, argumentou.
Para o presidenciável, a expectativa de que aliados do presidente percam em grandes cidades acena para a possibilidade de que que o eleitorado está começando a rejeitar extremos. “Parece que o bolsonarismo boçal e o lulopetismo corrompido vão levar uma grande surra no Brasil inteiro”, disse.
Vila militar da Borges de Melo começa a ser demolida e receberá Centro de Segurança
O conjunto de residências de oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) localizado na avenida Borges de Melo, em Fortaleza, começou a ser demolido nessa semana. O processo ocorre após a União ter cedido o terreno onde os imóveis se encontram para o Governo do Ceará - conforme publicado no Diário Oficial do Estado de 5 de outubro (página 7). O espaço deverá ser parte do Centro Integrado de Segurança Pública do Estado (Cisp). A intenção é unir no mesmo espaço as sedes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), da Polícia Civil e da Polícia Militar, que já funciona próximo dali, na avenida Aguanambi, e que deverá ser parte do complexo.
As residências militares estavam esvaziadas há cerca de oito meses, devido à redução do contingente de militares presentes na Base Aérea de Fortaleza (BAFz). O Governo do Ceará se encontrava em negociação pelo terreno desde o ano passado, conseguindo agora a Cessão de Uso Gratuita da área.
De acordo com informações da Casa Civil, o espaço onde os imóveis se localizam é destinado a projeto comandado pela Superintendência de Obras Públicas do Estado (SOP).
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"A demolição prevê a remoção apenas de estruturas de alvenaria, no terreno localizado ao lado do Comando Geral da Polícia Militar, desde o cruzamento entre as avenidas Borges de Melo e Aguanambi até vizinho ao prédio da Polícia Federal", destacou ainda a superintendência em nota enviado ao O POVO, quando questionada sobre as árvores que compõe o local.
O posicionamento do complexo é estratégico, uma vez que o equipamento ficará próximo a outros terrenos adquiridos pela SSPDS. Procurada, a pasta afirmou que só poderia repassar informações durante o "expediente administrativo" e não deu mais detalhes sobre a obra.
Faltam dois anos - Pedro S. Malan, O Estado de S.Paulo
Em política, como na guerra e, por vezes, na economia, dias podem valer semanas; semanas, meses; e meses, anos. Dois anos são prazo suficiente para pôr em marcha as medidas de que precisa o País para enfim conhecer crescimento razoável e sustentado e com isso atender às necessidades da população?
Muitos sustentam que é preciso aguardar a marcha dos acontecimentos: as eleições municipais iminentes ditarão os contornos das futuras coligações, partidárias ou não. Em dezembro e janeiro a atenção será consumida por eleições para as presidências da Câmara e do Senado, e então, de lideranças, mesas diretoras e presidência das principais comissões das duas Casas do Congresso. Aí já estaremos em março de 2021, abril talvez, caso o Executivo decida promover reforma ministerial para refletir o cenário resultante das urnas e com isso construir base de apoio mais sólida no Congresso. O restante de 2021 e o início de 2022 é quanto haveria para a gradual constituição de alianças e chapas com vista às eleições de outubro. E então, seis meses de intensa campanha.
É muito ou pouco tempo? Do ponto de vista político, pareceria prazo razoável fosse outra a situação econômica e social – menos incerta, tensa e volátil. Mas não é esse o caso. A complacência, essa característica tão nossa, é luxo a que não nos podemos dar. Em meu artigo mais recente (Corredor estreito, tempo curto) apontei a exiguidade do espaço de manobra na área econômica. Para muitos, a política ditará o ritmo em que se pode avançar. Como se, conhecidos os resultados das eleições de novembro no Brasil e nos EUA, 2020 estivesse, como ano político, encerrado. Seria diferente caso o Executivo fosse capaz de definir, em diálogo consistente com as lideranças e presidências da Câmara e do Senado, conteúdo e timing da agenda legislativa, pela qual se bateria então com determinação e articulação. No entanto, o chefe do Poder Executivo parece ter outras prioridades em mente, agora talvez acentuadas pelo resultado das eleições norte-americanas e pelo destino de seu modelo ideal de presidente da República.
Na área econômica, ocorre-me apontar possíveis lições das transições de 2002-03 e de 2016. Entre abril e outubro de 2002 o câmbio foi de 2,3 a 4 reais por dólar e o risco Brasil multiplicou-se por mais de quatro vezes. Era o resultado de preocupações de investidores internos e externos, ditadas por dúvidas quanto à condução que daria à economia o governo a ser eleito em outubro de 2002. A resposta, prática, veio por meio da escolha dos nomes que estariam à frente da condução da política econômica. Ganhou credibilidade concreta o compromisso, assumido durante a campanha, com o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida-PIB, preservar a inflação sob controle e respeitar contratos. Ao final de dezembro o câmbio havia passado para 3,5 e 3,3 ao final de março, e o Brasil foi em frente, ajudado por contexto internacional extraordinariamente favorável.
Também 2016 oferece lições úteis. O governo Temer teve início sob situação extraordinariamente adversa. O investimento havia começado a declinar no terceiro trimestre de 2013, a recessão começara em abril de 2014. 2016 seria o terceiro ano de déficit primário e a pressão estrutural por gastos públicos era crescente. Situações difíceis não são sinônimo, no entanto, de falta de opções. A primeira, na área econômica, envolvia – uma vez mais – escolher pessoas certas para posições-chave, que, por sua vez, pudessem atrair e reter outros profissionais competentes. Na área política, criar base de sustentação no Congresso e com isso definir agenda legislativa que atendesse a prioridades claras.
Os dois episódios encerram lição útil para a situação atual e para 2022 – que pode parecer muito distante, mas não está, dada a gravidade da situação nos três níveis de governo. Lição útil, caso queiramos evitar a reedição em 2022 da polarização que marcou as eleições de 2018; que ocorreria em circunstâncias ainda muito mais difíceis nas áreas econômica e social que as daquele momento.
São dois anos para construir apoios, com serenidade e humildade, mas também com o sentido de urgência que impõe a crise das finanças públicas. Para adotar medidas difíceis, em diálogo com o Congresso e com o Judiciário. Para explicar a ambos e à opinião pública não só por que é preciso enfrentar a situação atual, mas também como fazê-lo. Não apenas por necessidades fiscais, mas para que o País possa conhecer crescimento razoável e sustentado; para que o setor público possa prestar melhores serviços à população, especialmente em saúde e educação; por maior inclusão social e igualdade de oportunidades; para que seja possível investir mais e melhor em infraestrutura, ciência e tecnologia. Para aumentar a confiança de investidores domésticos e externos no Brasil e em seu futuro.
Ao que tudo indica, o resultado eleitoral da semana passada significa que o presidencialismo de confrontação foi derrotado nos Estados Unidos. Cumpre trabalhar para que a moderação com visão de futuro possa prevalecer também no Brasil pós-2022.
ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FHC
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Nova Constituição? - Modesto Carvalhosa, O Estado de S.Paulo
A declaração de Ricardo Barros, líder do governo na Câmara dos Deputados, propondo constituinte para elaborar nova Carta para o Brasil suscitou reação imediata dos que temiam tratar-se de manobra do presidente da República para consolidar o seu poder com viés populista e autoritário. Mas a ideia pertenceria só a Barros, expoente do Centrão que já serviu a FHC, Lula e Temer, além de ter relatado a distorcida e depenada Lei Anticrime, que acabou enfraquecendo a Lava Jato, operação de que o agora líder de Bolsonaro – quanta coincidência! – também foi alvo há pouco menos de dois meses.
Por sua vez, falando em mera “cirurgia plástica na fisionomia do Estado”, o ex-presidente Michel Temer, embora concorde “com algumas preocupações do deputado Ricardo Barros”, tomou posição contra a ideia de constituinte, que só teria por justificativa uma ruptura institucional.
Ora, mas essa ruptura já ocorreu e só não a reconhece quem não quer. Afinal, o que é uma ruptura institucional? Trata-se da ausência de legitimidade das instituições, refletida na perda do respeito da cidadania pela autoridade do Estado e na incapacidade manifesta dos mandatários de exercerem suas funções em prol do interesse público. Diante da imoralidade da conduta de mandatários que governam e legislam em causa própria, diante de magistrados de cúpula incapazes de interpretar a Constituição a favor da ordem pública, da segurança da sociedade e da paz social, o povo não mais acata espontaneamente o poder constituído, nada mais sendo necessário para caracterizar o divórcio entre a Nação e o Estado. A ruptura político-institucional não precisa ser fruto de revolta sangrenta, como a que persiste há um ano no Chile. Basta o sentimento permanente de indignação e de repulsa da sociedade civil contra o sistema vigente.
O povo brasileiro quer mais do que uma nova Constituição, quer uma nova República que seja capaz de desmontar essa estrutura odiosa que torna o País cronicamente inviável. Quer uma República de oportunidades para todos, instaurando um regime de isonomia, equidade e acesso da cidadania à vida pública, acabando com o arquicorrupto profissionalismo político.
Não se pode falar em democracia baseada apenas nas liberdades públicas que já conquistamos. Os direitos individuais, coletivos e sociais são um dos seus três fundamentos. Porém não existe regime democrático sem igualdade de direitos e deveres para todos os membros da coletividade. Não há democracia sem oportunidades para todos. Não há democracia num país como o nosso, onde 11,5 milhões de pessoas vivem sem o menor risco econômico, enquanto 100 milhões (população economicamente ativa) assumem todos os riscos na luta pela sobrevivência. O povo brasileiro está inconformado com os privilégios do estamento estatal e com as regras constitucionais de dominação da sociedade, que são a causa do nosso atraso, das injustiças sociais, da pobreza crescente, da decadência de nossa indústria e da falta de oportunidades de desenvolvimento pessoal, social e econômico.
É urgente a criação de uma nova República realmente democrática, fundada numa Constituição com os seguintes princípios normativos: proibição de reeleição; voto distrital puro; voto não obrigatório; partidos federais, estaduais e municipais autônomos e independentes entre si, em face do regime federativo; apuração pública das eleições mediante voto impresso acoplado às urnas eletrônicas; candidaturas independentes dos partidos políticos, para todos os cargos eletivos, nas três esferas federativas; perda de mandato por iniciativa dos eleitores (recall); eliminação do Fundo Partidário, do fundo eleitoral e das emendas parlamentares ao Orçamento; reformas constitucionais mediante plebiscito; vedação aos eleitos para o Poder Legislativo exercer qualquer cargo no Poder Executivo; eliminação dos cargos em comissão; regime de estabilidade restrito a magistratura, Ministério Público, oficiais das forças armadas e delegados das polícias judiciárias; regime previdenciário único para os setores público e privado; regime trabalhista único CLT para os setores público e privado; não prevalência do direito adquirido no âmbito do Direito Público; eliminação de adicionais e verbas indenizatórias dos servidores; seguro de obra pública (performance bond); trânsito em julgado mediante decisão de segundo grau; fim do foro privilegiado; transformação do STF em Corte Constitucional, com ministros com mandato de oito anos, nomeados pelo regime de antiguidade dos magistrados das Cortes superiores (o mesmo sistema para procurador-geral da República e para os tribunais de contas); todos os recursos do Orçamento discricionários e contingenciáveis, não podendo a folha de pagamento dos servidores exceder 25% do Orçamento; fim da exploração econômica pelo Estado; dever do Estado e da sociedade de defesa e preservação do meio ambiente.
Essas e outras dezenas de normas estruturais são necessárias em qualquer Constituição que pretenda pôr o Estado a serviço da Nação, e não o contrário, como é hoje, sob o regime de 1988.
ADVOGADO, É AUTOR, ENTRE OUTRAS OBRAS, DE ‘UMA NOVA CONSTITUIÇÃO PARA O BRASIL: DE UM PAÍS DE PRIVILÉGIOS PARA UMA NAÇÃO DE OPORTUNIDADES’ (NO PRELO)




