Banco Central abre investigação interna sobre caso Master, e chefes de supervisão deixam cargos
Por Fabio Graner e Thiago Bronzatto — Brasília / O GLOBO
O Banco Central abriu uma investigação interna para entender o que aconteceu no escândalo do Banco Master. O objetivo é apurar eventuais falhas ocorridas no processo de fiscalização e liquidação da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro. A sindicância está sendo conduzida sob sigilo pela corregedoria e foi iniciada a partir de uma decisão do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, tomada no fim do ano passado.
Em meio ao avanço dessa investigação, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, que comandavam o Departamento de Supervisão Bancária (Desup), entregaram seus cargos. Não há, até o momento, acusações formais contra eles. Procurado, o BC afirma que “a alternância de nomes em cargos comissionados é uma prática normal no âmbito da administração pública”.
O primeiro a deixar o cargo foi Souza, ex-diretor de fiscalização do BC. Servidor de carreira, ele foi o responsável por autorizar a compra por Daniel Vorcaro do Banco Máxima, que passou a se chamar Master. Mais recentemente, atuava como chefe-adjunto do Desup e era responsável por acompanhar a solidez e a estabilidade do mercado financeiro.
O segundo foi Belline, chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC. Ele chegou a ser cotado para substituir Neves na diretoria de Fiscalização, que hoje é ocupada por Aílton de Aquino Santos. Belline assinou diversos ofícios e despachos do Banco Central enviados ao Ministério Público Federal relativos ao Master.
Um desses documentos foi citado pela defesa de Vorcaro na argumentação do banqueiro perante a Justiça. Em um ofício enviado ao Ministério Público Federal, Belline relata que uma operação de compra suspeita de carteiras fictícias de crédito pelo Master no fim de 2024 acabou sendo desfeita no início de 2025. Em outro trecho, diz que o BC não identificou indícios de irregularidades em transações de crédito consignado originadas pelo próprio Master.
“Queda de avião”
A ideia da investigação interna, segundo integrantes do BC, não é fazer uma caça às bruxas, mas sim obter uma radiografia mais profunda do escândalo do Banco Master — e, com isso, aprimorar regras e controles para o futuro. A lógica, segundo servidores da autoridade monetária, é semelhante à apuração de uma queda de avião em que precisa entender as causas que provocaram a tragédia.
O banco de Daniel Vorcaro teve um crescimento exponencial no mercado captando recursos via CDBs com taxas acima das praticadas pelos concorrentes. Em geral, os bancos emitem papéis com rendimento de até 98% do CDI, índice que acompanha de perto a taxa Selic. O Master, porém, fugia ao padrão ao oferecer retornos de até 140% do CDI.
Com o esgotamento desse modelo de negócios e a dificuldade para honrar os compromissos, o banco enfrentou problemas para se manter saudável no mercado e passou a ser monitorado mais de perto pelo Banco Central a partir de 2024. Enquanto a crise se agravava, Vorcaro negociou a venda da instituição para o BRB, que vinha socorrendo o banco ao longo do período por meio de compra de carteiras de crédito.
O escândalo do Master veio à tona em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central decidir liquidar a instituição financeira, encerrando as suas atividades, afastando seus administradores e bloqueando o patrimônio para pagar credores. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar suspeitas de fraudes em uma operação de venda de carteiras de crédito com indícios de irregularidade no valor de R$ 12,2 bilhões envolvendo o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal.
Tanto o Master quanto o BRB negam qualquer irregularidade e dizem que as carteiras de crédito suspeitas foram substituídas. Outra investigação da PF em parceria com o BC apontou indícios de irregularidades na relação do Master com a gestora de recursos Reag DTVM, que foi liquidada em 15 de janeiro deste ano. Segundo as apurações, a instituição financeira de Daniel Vorcaro fazia empréstimos para empresas que repassavam os recursos para inflar o resultado de fundos da Reag. O dinheiro, após uma série de transações relâmpagos, voltava para o próprio Master em aplicações de CDBs (Certificado de Depósito Bancário), título de renda fixa emitido por instituições financeiras.
O caso mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pela instituição financeira de Daniel Vorcaro para a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag. Conforme revelou O GLOBO, tão logo esses recursos foram recebidos pela empresa, o dinheiro foi repassado para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag 20 dias antes, com um patrimônio de R$ 15 mil.
A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc.
Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.
Procurados, Master e Reag negam qualquer irregularidade.
Com Selic em 15%, taxa de juros real é a mais alta em 20 anos
Felipe Gutierrez / FOLHA DE SP
Com a manutenção da Selic, a taxa básica de juros da economia, em 15% ao ano, a taxa real, aquela que inclui na conta a expectativa da inflação nos próximos 12 meses, se mantém em cerca de 10,6%. Trata-se do patamar mais elevado desde maio de 2006, quando era 10,7%.
Os juros reais passaram 20 anos abaixo de 10% e só voltaram a ultrapassar esse patamar em julho do ano passado, quando a Selic chegou a 15%. Desde então, as expectativas de inflação começaram a diminuir (no último boletim Focus, a mediana é de 4% neste ano), o que eleva a taxa real.
O cenário de maio de 2006 tinha algumas semelhanças com o atual: a Selic estava em 15,25%, e a expectativa de inflação, em 4,1%.
O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu manter a taxa em 15% pela quinta vez. A escolha foi unânime entre os diretores.
Bernardo Carvalho, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e colunista da Folha, afirma que no passado o patamar alto da taxa real era em torno de 7%, e que o patamar de 10% não é comum para os últimos anos da economia brasileira.
Carvalho afirma que os mecanismos de transmissão dos instrumentos da política monetária no Brasil são menos eficazes do que em outros países por dois motivos. Um deles é que aqui há muitas linhas de crédito direcionadas —por exemplo, habitação é financiada pela taxa da poupança, e empresas têm acesso a crédito do BNDES—, o que diminui o total de tomadores de recursos livres.
Mesmo quem não consegue linha especial não é tão afetado pela Selic, pois o spread bancário (diferença entre juros pagos pelos bancos ao captar recursos) costuma ser muito alto, e um aumento na taxa básica é pouco relevante se comparado ao patamar de juros do mercado.
Por isso, para que a política monetária tenha eficácia, o Banco Central precisa "dar uma porrada" nos juros, diz.
O economista também atribui os aumentos recentes ao medo do BC de perder credibilidade durante a transição de comando entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo.
Quando o último assumiu a presidência, havia expectativas –que Carvalho classifica como "completamente erradas"– de que ele afrouxaria a política monetária. Diante do risco de as expectativas de inflação "destrambelharem", o BC optou sucessivas vezes por elevar os juros em um ponto percentual, num movimento que Carvalho diz considerar excessivo.
O economista Ailton Braga, que é assessor técnico do Senado e já foi analista do BC, afirma que mesmo com a alta das taxas de juros reais, o gasto público primário de União, estados e municípios cresceu a um ritmo de 7% ao ano entre 2022 e 2024, e que esse impulso fiscal aumenta o consumo das famílias.
Ele diz que o mercado de crédito costuma ampliar a oferta quando há aumento de renda disponível, o que também dá impulso ao consumo.
A professora do Insper Juliana Inhasz diz que o ponto central da manutenção dos juros nominais e consequente alta dos juros reais é a inflação de serviços, que ainda é um ponto de grande preocupação.
"A alta de preços de serviços é resistente, ainda há expectativas desancoradas e o fiscal é um elemento de bastante transtorno", afirma ela.
Com 125 mm, Fortaleza tem a 2ª maior chuva de janeiro dos últimos 10 anos
Chuvas de pré-estação Neste período do ano, o Ceará registra chuvas de pré-estação que ocorrem entre dezembro e janeiro. Nesse período, o Estado geralmente passa a contabilizar chuvas mais frequentes, porém ainda irregulares e com baixa abrangência territorial. As chuvas de pré-estação, segundo a Funceme, são consideradas passageiras e de baixa previsibilidade, sendo bastante variável de um ano para outro.

É preciso proteger o FGC
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O empresário Daniel Vorcaro disse à Polícia Federal (PF) que o Banco Master tinha uma crise de liquidez e que tinha um modelo de negócios totalmente baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A admissão retira qualquer dúvida, se é que ainda havia, de que a liquidação extrajudicial da instituição financeira pelo Banco Central (BC) tenha sido uma medida precipitada, e evidencia que a fiscalização do sistema financeiro precisa de aprimoramentos constantes para evitar que problemas como o do Master se repitam.
Trechos do depoimento de Vorcaro que vieram a público mostram que ele se vê como vítima de uma campanha difamatória liderada por bancos de maior porte que, preocupados com sua crescente participação no mercado, passaram a defender mudanças no FGC que comprometeram os negócios do Master. Ora, não consta que o FGC sirva para ampliar a competição no mercado financeiro, mas sim para proteger os investidores e o sistema financeiro como um todo de crises como a que o Master poderia ter gerado se tivesse crescido ainda mais.
Ainda segundo Vorcaro, o Master se adequou a todas as exigências que o Banco Central fez ao longo do processo de venda ao BRB, mas foi surpreendido, em novembro, pela liquidação extrajudicial quando havia acabado de encontrar um novo comprador. Ele disse ainda que não estaria usando uma tornozeleira eletrônica se sua rede de contatos em Brasília fosse tão forte, ignorando movimentos públicos no Congresso e no Tribunal de Contas da União (TCU) para pressionar o Banco Central.
Há, no entanto, quem veja o oposto do que Vorcaro diz. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga avalia que, a julgar pelo tamanho do buraco que o Master gerou para o FGC, o BC demorou para agir. A desconfiança que o banco gerava no mercado não vem de hoje e, diferentemente do que pensa o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Arminio afirma que o BC tinha ferramentas para fiscalizar o Master, inclusive os fundos de investimento por meio dos quais o esquema prosperou.
Para os clientes que aplicaram suas economias nos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Master, o pior, felizmente, já passou. Os investidores tiveram de aguardar dois meses para o FGC começar a restituí-los, tempo que reduziu substancialmente os ganhos adicionais que os papéis ofereciam, mas os pagamentos finalmente começaram na semana passada. Mal o dinheiro pingou na conta, iniciou-se um assédio para que reapliquem suas economias em outros ativos, entre eles alguns de retorno tão elevado – e arriscado – quanto o do Master.
Bancos e corretoras querem assegurar que ao menos uma parte dos R$ 40,6 bilhões que acabam de ser devolvidos aos investidores prejudicados pelo Master permaneça em suas carteiras. Espera-se que, dessa vez, os escaldados investidores sejam mais prudentes na escolha de suas aplicações. Ademais, os pesos-pesados do setor financeiro não parecem dispostos a bancar outra festa semelhante.
Em Davos, o presidente do Itaú, Milton Maluhy, cobrou, em entrevista ao Estadão/Broadcast, que as regras do FGC sejam atualizadas, de forma que todos os participantes, inclusive distribuidoras e plataformas que vendem esse tipo de ativo e lucram com comissões elevadas, contribuam proporcionalmente mais com o fundo.
O debate deve ganhar força com a perspectiva de que o FGC faça uma chamada de capital. O fundo perderá um terço de sua reserva de liquidez com os desembolsos relacionados ao Master e, agora, ao Will Bank, que era parte do conglomerado e também foi liquidado na semana passada pelo BC, e pretende antecipar cinco anos de contribuição de seus associados para recompor seu caixa em R$ 30 bilhões.
A defesa de mais mudanças no FGC sugere que alguma lição tenha sido aprendida, ainda que ela tenha custado caro. Sob o ponto de vista econômico, a fiscalização do setor financeiro precisa ser cada vez mais diligente e previdente, antevendo movimentos oportunistas como o uso do FGC como uma alavanca de expansão.
Politicamente, no entanto, Vorcaro e sua ampla rede de contatos ainda têm muito que explicar.
Caso Master vai se aproximando perigosamente do governo Lula
Por Redação / COLUNA Fernando Schüler
Em seu comentário nesta terça-feira, 27, o colunista Fernando Schüler fala da aproximação do escândalo do Banco Master do governo federal. Ele questiona, por exemplo, a razão pela qual seria necessário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fizesse uma reunião com Daniel Vorcaro e Gabriel Galípolo para determinar que o Banco Central simplesmente cumprisse sua função.
“Uma reunião, aliás, articulada pelo Guido Mantega, que foi ministro da Fazenda de governos do PT, que tem uma relação histórica com o presidente Lula, que foi contratado pelo Banco Master como economista ou como articulador ou, enfim, não se sabe bem como, por indicação do líder do governo no Senado, o senador Jaques Wagner, que funcionou como uma espécie de headhunter de economistas para o Banco Master”, disse ele, completando:
“O fato é que o caso Master vai se aproximando perigosamente, delicadamente no ano eleitoral da esfera de poder do governo federal, não é?”.
Além disso, ele cita a revelação do portal Metrópoles de que o escritório do ministro Ricardo Lewandowski manteve contrato com o banco. “O ministro Lewandowski, manteve durante todo o seu mandato (no ministério da Justiça), praticamente todo o seu mandato, até setembro do ano passado, um contrato, seu escritório de assessoria jurídica institucional estratégica com o próprio Banco Master. O que que significa exatamente isso? Assessoria jurídica e institucional estratégica seria uma assessoria de relacionamento”, conclui.
Lula gera incerteza no campo com desapropriações
Por Editorial / O GLOBO
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Por sua complexidade, o tema não enseja soluções imediatistas. No início de dezembro, o Senado aprovou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria um marco temporal para a demarcação de terras indígenas, dando aos povos originários direito apenas às terras que ocupavam até a promulgação da Constituição de 1988. Não é o que entende o STF, que tem rechaçado a tese nas ações que tramitam na Corte. Também está em discussão a forma de indenização aos proprietários que, de boa-fé, ocupam áreas nessas terras. A proposta apresentada pela Advocacia-Geral da União (AGU), cobrindo 60% do valor via precatórios, tem sido alvo de críticas. Além disso, a Câmara aprovou em novembro Projeto de Lei restringindo desapropriação para reforma agrária quando a propriedade não cumpre função social. Ela só ocorreria no caso de terras improdutivas.
Na lista de terras desapropriadas a que O GLOBO obteve acesso, está a Fazenda Nova Alegria, em Felisburgo (MG), onde cinco trabalhadores do MST foram assassinados por pistoleiros em 2004. É verdade que o país deve enfrentar os conflitos agrários sangrentos, mas eles não serão resolvidos numa penada. Os acenos populistas de Lula são preocupantes sobretudo porque, diante de tema delicado debatido no âmbito do Legislativo e do Judiciário, alimentam a insegurança jurídica e afastam investidores. E estão longe de promover a paz no campo, como quer fazer crer o governo. Ao contrário, medidas controversas só servem de combustível a novos conflitos.

