Os Sem-Massa - Eliane Cantanhêde
“Governar não é tão simples como pensam os motoristas de táxi”, declarou o ex-ministro Milton Seligman, hoje professor do Insper, no seminário sobre reforma política promovido pelo Estado. Pois é. Governar não é simples, não é fácil e o alerta é que pode fazer muito mal à saúde. Depois de dois impeachments em 25 anos, agora Michel Temer dribla popularidade abaixo do razoável, recuperação lenta da economia, desemprego crescente, pressões infernais da base aliada e bloqueio de ônibus e quebra-quebra comandados pela oposição.
Falta do que fazer? Carlos José Marques
O oportunismo marca de forma evidente a chamada “greve geral” que sindicalistas e entidades ligadas ao Partido dos Trabalhadores organizaram para tentar convencer a todos de que o País vive o caos. Parece falta do que fazer. Por trás de bandeiras dispersas, aproveitando-se de um final de semana prolongado para motivar a massa incauta a enforcar um dia a mais, os líderes do movimento tinham intenções bem definidas, embora inconfessáveis: a maior delas, para além do enfraquecimento dos adversários que buscam há muito custo levar adiante medidas estruturais (como as reformas da previdência e trabalhista) que consertem o País, era montar massa crítica com o intuito de impedir no Congresso a votação do fim do imposto sindical.
Greve com desemprego é soma negativa
A “greve geral” de sexta-feira não foi geral. Foi parcial e dependeu quase que exclusivamente dos piquetes na área de transporte. Em Fortaleza, um milhão de pessoas usam ônibus nos dias úteis. Parar o sistema, mesmo que em partes, vai sempre causar grandes transtornos, faltas e atrasos forçados ao trabalho. Pneus furados e chaves quebradas na ignição como argumento marrento. Porém, no fim das contas, o movimento ficou aquém das expectativas.
O direito de parar e o direito de trabalhar
Sou a favor do direito de greve. Contra a imposição de greve. A favor do direito de trabalhar e do direito de ir e vir. A favor de paralisação, resguardados os serviços essenciais. Contra os piquetes violentos. Contra a ditadura sindical. A favor do direito de manifestação contra reformas do governo. Contra a imposição de um pensamento único. Contra o uso da força e pneus queimados para impedir a população de trabalhar e trafegar. Contra bombas de gás, balas de borracha e tropas de choque para impedir protestos pacíficos.
As reformas propostas por Temer prejudicam os pobres? NÃO
ÉPOCA – Como a reforma da Previdência afeta os mais pobres?
Marcelo Neri – A reforma da Previdência não vai punir os mais pobres. A discussão da Previdência é muito afeita à classe C [a mais numerosa, com cerca de 100 milhões de pessoas], mas não à classe E. Não se pode usar o nome dos pobres em vão. Estamos falando dos 10% da população com renda mensal abaixo de R$ 100 por pessoa, segundo a definição de pobreza extrema, e de R$ 223, na faixa de pobreza. Eles têm interesses diretos e diferentes daqueles que criticam a reforma. Estão relegados ao último plano da discussão. A reforma da Previdência não prejudica tanto esses mais pobres. Eles são afetados principalmente no lado dos benefícios, por um aspecto muito simples: sem a reforma, não vai ter dinheiro para fazer nada.
As reformas propostas por Temer prejudicam os pobres? 1
ÉPOCA – Qual é o impacto das reformas propostas pelo governo federal sobre os pobres?
Clemente Ganz Lúcio – A regra proposta para a Previdência exclui os mais frágeis. Estimamos que um terço da população hoje com mais de 55 anos, ao chegar aos 65, não terá cumprido 25 anos de contribuição [o mínimo para requerer a aposentadoria]. São pobres, que transitam entre ocupações precárias, entre os mercados formal e informal. Numa vida laboral de 30, 40, 50 anos, não acumulam 25 anos de contribuição. E o sistema não compensa isso com assistência. O governo poderia dizer: quem não tiver aposentadoria tem assistência. Mas não, diz o contrário. Os miseráveis terão alguma assistência aos 68 anos. Os que não chegam a ser miseráveis ficarão desassistidos. Diz o governo: “Se ele tem 20 anos de contribuição, pode trabalhar mais cinco e chegar aos 25 de contribuição”. Os dados nos dizem que 80% dos que seguem trabalhando após os 65 anos ficam na informalidade. Qual é a chance de esse cidadão, que não cumpriu o tempo de contribuição mínimo ao longo da vida, conseguir na velhice inserção no mercado formal?

