O Supremo como deveria ser Na abertura do ano judiciário, Fachin desenhou o STF ideal. Agora, resta ver se
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, proferiu um discurso irretocável na abertura do ano judiciário. O texto merece ser lido e relido, principalmente por seus pares, como um raro momento de lucidez em uma Corte desgastada como nunca em seus quase 135 anos de história republicana – e graças, em grande medida, a falhas internas.
Na tarde de anteontem, Fachin desenhou o STF ideal. Um tribunal cioso de seus limites (“é hora de um reencontro com o sentido essencial da República, da tripartição real de Poderes”), íntegro do ponto de vista institucional (“unidade não é unanimidade”) e humilde (juízes não são “criaturas sobre-humanas”). São atributos que hoje são relativizados na Corte até no campo das intenções, que dirá no comportamento cotidiano de alguns ministros.
Ao tratar da necessidade de “autocorreção” diante dos colegas, Fachin reconheceu implicitamente que algo está errado no Supremo. Não é trivial um chefe de Poder admitir falhas em público. Lembrando que “momentos de adversidade exigem mais do que discursos” e que “os ministros respondem pelas escolhas que fazem”, o presidente do STF rompeu com o espírito de corpo e a autoindulgência que, em tempos recentes, levaram à confusão entre críticas legítimas à Corte e “ataques” contra a instituição. Fachin, desta vez, fez questão de explicitar que o “respeito à liberdade de expressão e de imprensa não são concessões” e que “a crítica republicana não é mesmo ameaça à democracia”. Este jornal não poderia esperar um posicionamento melhor do que esse.
As referências à autocorreção, ao respeito aos limites institucionais e ao resgate da reputação social do STF não foram gratuitas. Tampouco o é a proposta de um código de conduta, tratada por Fachin como um “compromisso de sua gestão” e materializada na indicação da ministra Cármen Lúcia como relatora do texto que, oxalá, verá a luz do dia no futuro próximo. Instituições só têm o valor que têm no Estado de Direito porque os cidadãos confiam que seus integrantes se pautam pela impessoalidade, pelo interesse público e pelo estrito cumprimento das leis e da Constituição. Quando essa confiança se esvai, instituições não são mais do que os mármores que as adornam.
Os fatos que têm degradado a confiança da sociedade no STF são irrefutáveis. Há ministros que parecem acreditar piamente que estão acima de quaisquer controles ou obrigações morais. O caso do Banco Master é o exemplo mais bem acabado dessa degeneração. Dias Toffoli não se sente impedido de relatar as investigações de executivos do banco suspeitos de crimes financeiros, não obstante seus irmãos terem mantido relações comerciais com alguns dos investigados. Seu colega Alexandre de Moraes, por sua vez, gravita perigosamente em torno do mesmo caso em razão da contratação do escritório de advocacia de sua mulher pelo dono do banco, Daniel Vorcaro, sem descrição de serviços prestados compatível com a exuberância dos honorários (R$ 129 milhões). A mera suspeita de compra de acesso a um ministro do STF é devastadora para a credibilidade da Corte.
É nesse contexto que as palavras de Fachin soam como música para os ouvidos dos verdadeiros democratas. Ao lembrar Piero Calamandrei, ao defender a liberdade de imprensa como pilar do debate público e ao reconhecer que o respeito à separação real de Poderes é condição indispensável para a saúde da República, o presidente do STF apontou o caminho correto. Mas discurso, por mais bem construído que seja, não substitui ação.
Se os ministros “respondem pelas escolhas que fazem”, como disse Fachin, é mais que hora de demonstrar a coragem e a humildade de assumir a responsabilidade que lhes cabe por comportamentos impróprios e em tudo contrários à dignidade da toga. É indispensável que conflitos de interesse sejam tratados com transparência, que a colegialidade seja restaurada e que, por fim, o Supremo abandone a tentação de governar o País a partir do plenário ou, pior, de um gabinete.
Fachin deu o norte. Agora, resta ver se seus colegas terão a coragem de se reconhecer no espelho que lhes foi apresentado para, finalmente, recobrar o prumo da institucionalidade.
Em vez de blindar emendas, Congresso deveria se esforçar por reduzi-las
Por Editorial / O GLOBO
Em seu discurso de abertura do ano legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não poderia ter sido mais explícito na defesa do mecanismo das emendas parlamentares. “Cabe a este plenário, soberano e independente, (…) fazer valer a prerrogativa constitucional de destinar as emendas parlamentares aos rincões Brasil afora que, na maioria das vezes, não estão aos olhos do Poder Público”, afirmou. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), secundou-o ao proclamar uma luta “pelas prerrogativas parlamentares e pela autoridade deste Congresso Nacional”.
No Brasil, como em qualquer democracia, é prerrogativa do Parlamento legislar sobre o Orçamento. Mas a execução dos gastos deve caber primordialmente ao Executivo, de acordo com políticas públicas estabelecidas no programa de governo que recebe o voto popular. A explosão recente das emendas parlamentares — destinadas sem exigências satisfatórias de transparência e eficácia — não encontra paralelo no mundo. De 2014 a 2026, seu valor mais que triplicou (em valores atualizados). Foi só graças a um veto oportuno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que deverá ficar neste ano ao redor de R$ 50 bilhões. Mesmo assim, é perto de um quarto dos gastos livres da União, num Orçamento engessado, com 95% de despesas obrigatórias.
Ao contrário do que sugere Motta, boa parte dos recursos é alocada aos “rincões” mais bem relacionados em Brasília, e não aos esquecidos ou aos que mais precisam. Além disso, as emendas abrem a porta a toda sorte de desvio e corrupção. Basta lembrar que, dias antes dos discursos de Motta e Alcolumbre, a Polícia Federal (PF) deflagrou mais uma operação para apurar suspeitas de desvios nas emendas. O alvo, desta vez, foi o deputado Eduardo Velloso (União-AC). A PF investiga R$ 912 mil remetidos por ele ao pequeno município acreano de Sena Madureira, para contratar uma empresa produtora de shows musicais em setembro de 2024. Velloso já foi citado em reportagens do GLOBO que revelaram o destino de emendas anteriores. O dinheiro chegou ao município e foi repassado a uma ONG que, por sua vez, o transferiu à clínica privada do pai dele.
Devido à total falta de controle sobre os recursos, diversas ações chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Desde 2024, estão sob a relatoria do ministro Flávio Dino, que tem tentado disciplinar as emendas por meio de várias liminares. Ainda neste primeiro semestre, ele começará a remeter casos ao julgamento do plenário da Corte. Na agenda de março já estão previstos processos que tratam de emendas da bancada de deputados da Paraíba, estado de Motta, e de repasses ao Mato Grosso. Os julgamentos desses processos deveriam levar o Congresso a promover uma reflexão profunda sobre os abusos contumazes com as emendas. Em vez de apoiar a alocação de valores tão exorbitantes em emendas, Motta e Alcolumbre deveriam criar mecanismos para contê-las e discipliná-las. A distorção já foi longe demais.
'Perícia de CSI' vai ajudar a PF a acessar dados do celular do dono do Master, cheio de contatos em Brasília
Por Eduardo Gonçalves — Brasília / O GLOBO
Em depoimento à Polícia Federal (PF), o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, admitiu que tinha “amigos de todos os Poderes” da República e se recusou a fornecer a senha do seu celular, alegando o receio de vazamento das suas “relações pessoais e privadas”. Mas o conteúdo do equipamento dele, de seus parentes e ex-sócios, e do investidor Nelson Tanure — apreendidos durante as duas fases da Operação Compliance Zero —, já foi extraído em uma sala de acesso restrito do Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, e depois encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Apesar de não ter contado com a colaboração do banqueiro, a PF dispõe de dois programas — um israelense e um americano — que conseguem quebrar a senha dos dispositivos e acessar boa parte dos arquivos. O teor das mensagens e áudios trocados por Vorcaro será determinante para manutenção ou não do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Relator do inquérito, o ministro Dias Toffoli já reconheceu a possibilidade de enviá-lo à primeira instância ao serem “encerradas as investigações”.
Junto com quatro peritos escolhidos por Toffoli, a equipe do procurador-geral da República, Paulo Gonet, já está se debruçando sobre o material.A extração dos celulares foi coordenada pelo perito Luiz Felipe Nassif, chefe do Serviço de Perícias em Informática da PF. Formado no Instituto Militar de Engenharia do Exército (IME), ele já atuou em grandes operações, como a Lava-Jato e a Lesa-Pátria, e é especialista em processar grande volume de dados e inteligência artificial.
Nassif foi o idealizador da ferramenta chamada Indexador e Processador de Evidências Digitais (Idep), software usado há mais de dez anos pela PF para identificar dados de interesse em meio a milhões de gigabytes. Num primeiro momento, os celulares foram acondicionados em um recipiente metálico que bloqueia ondas eletromagnéticas e o sinal de Wi-Fi. Desse modo, evita-se que o dispositivo se conecte a alguma rede e possa ter arquivos apagados remotamente. O conteúdo digital é tratado como espécie de “cena do crime” que precisa ser preservada — a chamada cadeia de custódia.
Recuperação de arquivos
Depois, os aparelhos costumam ser conectados por cabos a equipamentos dos programas Cellebrite (israelense) e Greykey (americano), que têm capacidade para romper senhas e barreiras para acessar os sistemas iOS (iPhone) e Android (Google). No caso do celular de Vorcaro — um iPhone 17 Pro, a última geração da marca — a extração pode levar mais tempo por ter mais obstáculos digitais. Esses programas precisam passar por atualizações constantes à medida que modelos são lançados. A praxe é que o processo de extração e análise leve de uma semana a um mês, mas isso depende do tamanho do material a ser avaliado.
Em seu WhatsApp, Vorcaro mantinha grupos que podem ser de interesse da PF, como “MasterFictor”, criado em 12 de novembro de 2025 — cinco dias antes de ele ser preso na primeira fase da Operação Compliance Zero. Pouco antes dela ser deflagrada, o grupo Fictor anunciou que compraria as ações de Vorcaro no Master por R$ 3 bilhões, com o apoio de investidores de Dubai, cujos nomes nunca foram revelados. Nesta semana, as empresas Fictor Holding e Fictor Invest entraram com um pedido de recuperação judicial para conseguir honrar dívidas e compromissos que somam R$ 4,2 bilhões.
No WhatsApp de Vorcaro aparecem cinco grupos que mencionam a gestora Reag ou seu fundador João Carlos Mansur, também alvo da operação. Assim como o Master, a Reag teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Parte desse material, obtido pelo GLOBO, chegou a ser repassado à CPI do INSS, mas depois teve o acesso bloqueado por decisão de Toffoli.
Outro perito escolhido por Toffoli para atuar no caso é Enelson da Cruz Filho, especialista em análise financeira da Polícia Federal. Formado em Ciências Contábeis, já atuou no caso dos descontos indevidos do INSS e deve ajudar na verificação de planilhas e tabelas que devem ser encontradas no material apreendido. A perícia da PF tem expertise em técnicas para recuperar arquivos, áudios e mensagens que foram apagados pelos alvos. Uma delas é o chamado datacarving, que varre o armazenamento bruto dos dispositivos, tentando recompor os dados excluídos ou corrompidos por meio de fragmentos.
Não saber matemática atrasa o Brasil
Dentre os fatores que explicam as últimas décadas de crescimento econômico baixo e irregular do Brasil, estão o nível precário de aprendizagem de seus alunos, principalmente em matemática.
Pesquisa da Fundação Itaú de 2024 mostrou que trabalhadores em ocupações que fazem uso intensivo da disciplina tinham rendimento médio que chegava ao dobro da média nacional.
Ainda segundo o estudo, em 2022, essas profissões geraram 4,6% do Produto Interno Bruto brasileiro —cerca de R$ 450 bilhões. Em países como Reino Unido e França, o percentual vai a 18% e tende a subir, num mundo movido a inovação tecnológica.
Os números mostram por que o Brasil está atrás nessa corrida.A taxa nacional dos alunos que concluíram o ensino médio até os 18 anos com aprendizado considerado básico em matemática foi de apenas 21,4% em 2023, ante 25,5% em 2019 —a pandemia só piorou o que já estava ruim.
O cálculo é do Índice de Inclusão Educacional, desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, que articula dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
Isso quer dizer que 8 em cada 10 estudantes não sabem resolver problemas com porcentagens ou lidar com situações numéricas do cotidiano. Nenhum estado consegui chegar a 30%, e as discrepâncias regionais são grandes. Enquanto o Paraná, primeiro colocado, obteve 28,1%, Amapá, na última posição, marcou 8,2%.
Na mais recente edição do Pisa (2022), que avaliou jovens de 15 anos de idade de 81 países, o Brasil ficou no 65º lugar com a nota 379, ante 472 da média da OCDE; mesmo vizinhos como Peru, Colômbia e Chile nos superaram.
Já passa da hora de o país melhorar a gestão dos expressivos recursos destinados à educação para focar na aprendizagem.
Seguindo o exemplo de nações que apresentam bons resultados no setor, é preciso investir na formação e na capacitação contínua dos professores e na educação desde a primeira infância.
Políticas de progressão continuada (passar de ano sem obter aprovação) que não dão a devida atenção aos alunos em defasagem podem criar distorções; o mesmo cuidado é necessário com aqueles que ainda sofrem os efeitos da pandemia.
Ademais, avaliações de desempenho não são meros diagnósticos. Devem ser usadas para corrigir falhas, recompensar bons desempenhos dos docentes e diminuir desigualdades regionais.
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Brasil já desperdiça quase uma Belo Monte em energia renovável
Fábio Pupo / FOLHA DE SP
O Brasil deixou de usar cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida por suas usinas em 2025. A perda é motivada principalmente pelos cortes para conter o excesso de oferta no país e equivale à geração da hidrelétrica de Belo Monte, segunda maior do país, ao longo de dez meses.
As interrupções, chamadas de curtailment, têm sido aplicadas de forma crescente nos últimos anos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para evitar sobretudo que a geração exceda o tamanho da demanda. A medida é necessária porque o descompasso pode causar apagões.
O desequilíbrio durante o dia tem aproximado o país de um colapso, mostram dados compilados pela Volt Robotics. De acordo com os técnicos da consultoria, em pelo menos 16 dias de 2025 o sistema elétrico operou próximo ao limite de segurança devido ao excesso de oferta –um risco bem acima do observado um ano antes, quando houve apenas um dia crítico.
Os dados mostram que os momentos mais perigosos para o sistema têm sido os fins de semana, quando o fechamento da indústria e do comércio diminuem o consumo e a geração solar segue em plena produção. Nas segundas-feiras, o corte por excesso de energia equivale a 1.040 MW médios; aos domingos, salta para 5.135 MW médios.
A pedido da Folha, a Volt calculou o quanto a geração interrompida significa na prática. A eletricidade cortada seria o suficiente para abastecer, por um ano, toda a frota de carros elétricos no Brasil (cerca de 600 mil veículos) ou 40 data centers de grande porte.
O corte tem sido cada vez mais necessário em meio à expansão da chamada geração distribuída, representada sobretudo por painéis solares instalados próximos ao consumo e fora do controle do ONS (em residências, por exemplo). Como essa energia entra no sistema sem possibilidade de limitação, os cortes recaem sobre as usinas do sistema centralizado.
Segundo o ONS, a geração distribuída já ultrapassa 42 GW (gigawatts) de capacidade instalada, devendo chegar a 50 GW até 2028. O órgão estima ainda que, até 2029, quase um terço da matriz elétrica brasileira virá desse tipo de fonte, fazendo a sobreoferta de energia responder por 96% dos cortes.
"O que anteriormente se manifestava de forma pontual passou a assumir contornos estruturais", afirmou o Ministério de Minas e Energia durante consulta pública sobre o tema. A pasta afirma que há debates técnicos, regulatórios e jurídicos sobre os riscos e aponta necessidade de mudanças para garantir a "continuidade do desenvolvimento sustentável da indústria de energias renováveis no país".
Apesar da abundância de energia no período diurno, o país ainda precisa contar com termelétricas para dar conta do rápido crescimento da demanda assim que o sol se põe. Ou seja, sobra energia renovável de dia –mas falta no início da noite.
Donato da Silva Filho, diretor-geral da Volt Robotics, afirma que resolver o problema significa dar mais flexibilidade na geração e também no consumo, deslocando parte do uso de energia do fim do dia para a manhã. De forma específica, ele e outros especialistas apontam algumas alternativas para mitigar o problema.
Uma das mais comentadas é a ampliação do armazenamento, usando grandes baterias para guardar a energia de dia e usá-la quando necessário. Atualmente, o Ministério de Minas e Energia está planejando um leilão de baterias no país.
A lógica do armazenamento também pode ser aplicada às hidrelétricas, usando a eletricidade abundante no período diurno para bombear água de volta aos reservatórios. Isso ampliaria a possibilidade de tornar as usinas grandes baterias do sistema.
Outra medida seria a ampliação das tarifas diferenciadas por horário (hoje aplicadas de forma restrita no país), barateando o consumo durante o dia e encarecendo-o no horário de pico. A discussão está em consulta pública conduzida pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), embora haja dúvidas entre especialistas sobre sua eficiência neste momento.
"Resolver o curtailment significa ampliar a flexibilidade do sistema elétrico. Essa flexibilidade vem de equipamentos como baterias, de sinais de preço mais eficientes, de tarifas mais dinâmicas, de leilões para consumidores, do estímulo ao carregamento inteligente de veículos elétricos, de tarifas diferenciadas para bombeamento e da valorização da flexibilidade das hidrelétricas e termelétricas", afirma Donato.
Raquel Rocha, diretora de assuntos regulatórios da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), afirma que a estocagem da energia seria benéfica, mas que demanda novas regras. "Para destravar esse potencial, é indispensável um marco regulatório mais claro, atualizado e específico para armazenamento", diz.
Ela também defende o segmento, dizendo que as placas fora da rede centralizada não são responsáveis pelo curtailment por representarem menos da metade da capacidade da geração solar e eólica no Brasil. "Os episódios de curtailment decorrem, majoritariamente, da falta de expansão adequada da infraestrutura de transmissão e do crescimento desordenado da própria geração centralizada em determinadas regiões", afirma.
Marisete Pereira, presidente da Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), afirma que o curtailment exige um conjunto de medidas coordenadas. "A experiência internacional mostra que investimentos em armazenamento de energia, aliados a sinais econômicos mais eficientes, são fundamentais para reduzir desperdícios de geração. Além disso, é essencial que a expansão da matriz elétrica passe a ocorrer de forma alinhada às necessidades reais do sistema", diz.
Outro problema decorrente do curtailment é o prejuízo que geradoras afirmam ter por causa da interrupção das receitas. Só em 2025 foram R$ 6,5 bilhões de perdas, segundo cálculos da Volt.
Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), afirma que os geradores alvo dos cortes são obrigados a parar de produzir mesmo tendo contratos firmados e energia vendida. "Ao não entregar a energia contratada, outro agente precisa suprir essa obrigação, e o gerador que foi impedido de produzir acaba arcando com esse custo. Ou seja, além de não entregar sua mercadoria, ele ainda precisa pagar pela energia entregue por terceiros", diz.
No ano passado, o presidente Lula (PT) sancionou uma lei que prevê uma compensação às geradoras —mas não nos casos de excesso de oferta. O Ministério de Minas e Energia abriu uma consulta pública para regulamentar o tema e formulou uma primeira proposta de acordo para as empresas serem remuneradas em troca da desistência de ações judiciais. As associações das companhias impactadas têm demonstrado esperança no desfecho das discussões.
Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Absolar, afirma que anúncios de novos investimentos no setor estão travados à espera de uma solução viável para os cortes. "Com a previsão dos ressarcimentos, os agentes poderão planejar de forma mais assertiva sua operação", afirma.
O ONS afirmou que discute com o governo e a Aneel aprimoramentos no marco regulatório, como o avanço na controlabilidade dos geradores distribuídos para que seja possível fazer a gestão também sobre esse tipo de geração.
Além disso, fala que há iniciativas que vão além dos sistemas de armazenamento, como o fortalecimento da infraestrutura de transmissão e a incorporação de novas cargas eletrointensivas, "a exemplo dos data centers, que passam a compor de forma crescente a realidade do SIN [Sistema Interligado Nacional]".
"Os efeitos dessas medidas não estão associados a um prazo único ou previamente definido, pois dependem de um conjunto de fatores estruturais e comportamentais", diz o Operador. "Trata-se de um processo evolutivo, com resultados graduais".
Quanto o Brasil desperdiçou
Os cortes de geração solar e eólica totalizaram 4.021 MW médios em 2025, um desperdício equivalente a:
- Desligar a usina Belo Monte por 10 meses
- Consumo mensal de cerca de 16 milhões de residências
- Consumo médio de 600 mil carros elétricos por ano (frota brasileira)
- Consumo médio de 40 data centers de grande porte por ano
O churrasco de Lula com Motta e Alcolumbre tem um só cardápio: eleições
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu agir rapidamente e chamar logo na primeira semana de trabalhos do Congresso os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e líderes de partidos para um churrasco de confraternização. De olho não só na pauta legislativa, mas também na organização da sua campanha à reeleição.
A ideia inicial era fazer o encontro os dois presidentes e os líderes partidários nesta quarta-feira, 4. Mas, em função da ausência de vários congressistas em Brasília, houve um remanejamento. Primeiramente o convescote será com Motta e a base aliada na Câmara. A conversa com Alcolumbre e os líderes no Senado ficou para depois do Carnaval.
A relação do Planalto com o Parlamento nos três primeiros anos de governo foi conflituosa, apesar de Lula ter conseguido aprovar praticamente toda a sua agenda econômica. Além disso, a gestão Lula 3 tem sido marcada por queixas de que ele não conversa mais com os congressistas, no tête-à-tête, como fazia no passado.
Diferentemente de alguns antecessores - e das próprias práticas passadas, o presidente raramente tem audiências individuais com parlamentares na agenda oficial. Prefere se reunir com o núcleo-duro para as decisões mais importantes e ter encontros reservados com Motta e Alcolumbre.
No fim de 2025, foi numa dessas reuniões que o petista pacificou a situação com Alcolumbre, no Palácio da Alvorada. Os dois alinharam uma relação que andava estremecida especialmente depois que Lula decidiu indicar Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre fazia campanha pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Acenos a Hugo Motta
Também no fim do ano, o presidente chamou Motta ao Planalto para visitar com ele uma maquete feita a seu pedido sobre as obras do rio São Francisco. Os dois desceram com os ministros da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e com Gustavo Feliciano, que viria a ser o novo ministro do Turismo. Foi uma forma velada de anunciar informalmente Feliciano, indicado ao cargo justamente pelo presidente da Câmara.
Agenda eleitoral de Lula
Apesar de o governo ter encerrado 2025 com poucas pendências, sendo as duas principais as medidas provisórias do Gás do Povo e do ReData, Lula deve usar o Congresso nos próximos meses como forma de melhorar a popularidade com temas que pretende encampar nas eleições. E quer azeitar imediatamente essas tratativas com os presidentes da Câmara e do Senado, que têm o poder da caneta sobre a pauta nas duas Casas.
O primeiro tema é a regulamentação dos trabalhadores de aplicativo. O Executivo já recebeu sinalização positiva do presidente da Câmara sobre a tramitação. Motta deve se reunir com o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, nesta semana para discutir o tema. Outro é o fim da escala 6x1. O presidente da Câmara também indicou ao governo que topa colocar a proposta para andar. Ele não deve, no entanto, levar sua tropa à rua para ajudar a aprovar o projeto.
Pouco importa para o governo, porém, aprovar ou não essas proposições. Os dois projetos, se caminharem nos próximos meses, darão ao Planalto um discurso em pleno período de campanha eleitoral. São duas iniciativas com apelo entre trabalhadores formais, afetados pela 6x1, e informais, de entrega e transporte por aplicativos. É o que basta para Lula neste momento.
No Senado, ele precisa de Alcolumbre principalmente para assegurar a aprovação de Jorge Messias para a vaga aberta no STF. A influência do presidente do Senado, no entanto, não para por aí.
Alcolumbre é quem mais tem se movimentado para que o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) seja candidato. No momento, Pacheco tem andado distante do PT e do governo. O Planalto quer que Alcolumbre trabalhe para reaproximá-lo nos próximos meses.
Lula ainda acredita que o ex-presidente do Senado pode ser seu candidato ao governo de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do País. Como mostrou a Coluna do Estadão, Lula está com o palanque vazio para a disputa ao governo de Minas Gerais em 2026. Já a direita tem um festival de candidatos ao Palácio da Liberdade.

