Só 12,6% das cidades atendem meta da OMS, diz levantamento
Coluna do Estadão
06 de abril de 2020 | 02h00
Levantamento da plataforma Bright Cities, feito por causa da pandemia da covid-19, mostra que apenas 12,6% dos municípios brasileiros oferecem, considerando SUS e rede privada, pelo menos um leito de UTI para cada dez mil habitantes, o mínimo exigido pela OMS. São 41.311 leitos, boa parte já ocupada para o tratamento por outras doenças. A região onde a proporção de leitos é mais alta é a Centro-Oeste, com 2,46 para cada dez mil pessoas. Em seguida, vem Sudeste (2,37), Sul (2,0), Nordeste (1,41) e por último Norte (1,27). A base é o Datasus.
Dados regionais. O número de leitos da rede privada só é maior do que o do SUS no Sudeste e Centro-Oeste. A dependência da rede pública é maior no Norte (68%), no Sul (65%) e no Nordeste (60%), regiões onde o Sistema Único de Saúde responde pela maior parte das vagas existentes.
Magoei. Líderes partidários ficaram furiosos com a campanha do Novo pelo uso do Fundo Eleitoral no combate ao coronavírus. A leitura é de que faltou solidariedade: levantaram essa bandeira porque podem contar com a ajuda privada ou mesmo com dinheiro próprio, privilégio não estendido a outros partidos.
Magoei 2. Os insatisfeitos (na direita, no centro e na esquerda) pressionam Rodrigo Maia a deixar o Novo fora de comissões e de relatorias na Câmara.
Coerência. “Sempre fomos contra recurso público para partido político, o Brasil tem outras prioridades. E nada mais prioritário agora do que combater o coronavírus. Colocar a própria campanha eleitoral à frente dos interesses da sociedade não é nenhum pouco republicano”, diz Eduardo Ribeiro, presidente no Novo.
Insônia. Governadores da Amazônia estão preocupados com o aumento do desmatamento na região durante a pandemia. Em encontro recente com o vice-presidente Hamilton Mourão, eles relataram que a fiscalização foi reduzida.
‘Pandemia não pode virar uma farra fiscal’
06 de abril de 2020 | 05h00
BRASÍLIA - Envolvido na elaboração das medidas para enfrentar a crise da covid-19, o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, o “homem do cofre”, diz que o governo está preparado para gastar mais se for necessário para proteger as pessoas em situação de risco. Mas avisa: se o governante utilizar esse espaço para uma “farra fiscal”, poderá ter problemas no futuro com órgãos de controle e ou com os seus eleitores. Para ele, não existe dinheiro de “A ou de B” na ajuda da crise. “O dinheiro é do contribuinte, e todos os programas públicos são financiados com dinheiro de impostos e dívida.” Ele antecipou que prepara uma mudança para que Estados não sejam penalizados nas operações de empréstimos já analisadas e que podem ter problemas na aprovação final em decorrência do cenário de não pagamento de dívida recente. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Muitos acusam o Tesouro de ser xiita fiscal num momento de grave crise. Como o sr. responde?
Todos do Tesouro entendem a necessidade da expansão das despesas temporárias, em especial, gastos com saúde, para amenizar o efeito da crise nas famílias de baixa renda ou trabalhadores sem renda, e políticas para manutenção do emprego. Antes mesmo da declaração de calamidade pública, defendi a mudança da meta de primário para gastar mais com saúde e para combater os efeitos econômicos e sociais. Com todo respeito a quem critica, acho que não procede. Acontece que, para poder gastar, precisamos ter fonte para a despesa e cumprir com as regras fiscais em vigor. O decreto de calamidade pública afasta apenas a necessidade de cumprir a meta de primário (resultado calculado pela diferença entre as despesas do governo e as receitas com tributos, sem levar em conta os gastos com os juros da dívida), mas não excepcionaliza o cumprimento das demais regras, entre as quais, a regra de ouro, que é uma regra constitucional (impede o governo de se endividar para pagar despesas correntes, como salários, Previdência Social e benefícios assistenciais). Isso só foi resolvido com a liminar do ministro (do STF) Alexandre de Moraes e, posteriormente de forma definitiva, com a PEC do orçamento de guerra.
Se a crise piorar ainda mais, o governo está preparado para gastar mais e socorrer as pessoas e empresas. Há limite?
Não é questão de estar ou não preparado. Se isso acontecer, nós teremos de, necessariamente, fazer isso para garantir que não faltarão recursos para saúde e para proteger as pessoas em situação de risco. Mas por enquanto não esperamos que isso aconteça.O governo tem dito que as medidas ficarão restritas a 2020. Como o governo lidará com a pressão por continuidade do gasto num cenário de contas ainda deficitárias?
Por enquanto, aqui e no resto do mundo, se trabalha com um cenário de distanciamento social por alguns meses. Não faz sentido neste momento especular o cenário de retomada da economia. O aumento do gasto público este ano, em uma situação de calamidade pública, é totalmente legítimo e necessário. Por enquanto, ninguém espera que essa situação se repita no próximo ano e, sendo este o caso, não há porque continuar com políticas que só se justificam em um contexto de calamidade.Coronavírus: SP projeta 220 mil casos e pede mais de R$ 500 milhões ao Banco Mundial
Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA - O governo de São Paulo projeta 220 mil casos do novo coronavírus e prepara pedido de empréstimo de US$ 100 milhões (mais de R$ 500 milhões) ao Banco Mundial para ações de combate à doença, conforme documentos obtidos pelo Estado.
A Secretaria de Saúde estadual estima que ao menos R$ 1,2 bilhão extra será preciso para enfrentar a doença, o que torna o financiamento do Banco Mundial "muito significativo", afirma o coordenador de Serviços da Saúde de São Paulo, Ricardo Tardelli. O governo de João Doria (PSDB) espera ter o recurso em mãos em cerca de dois meses.
O valor poderá ser usado também para ressarcir gastos já feitos contra o novo coronavírus. O prazo previsto para extinção do empréstimo é de 35 anos. A contrapartida para o governo é de US$ 25 milhões, ou seja, no total, o projeto é de cerca de US$ 125 milhões (mais de R$ 625 milhões).
São Paulo é o epicentro do novo coronavírus no Brasil. Segundo balanço deste sábado, 4, o Estado tem 4.466 casos e 260 óbitos. A região ainda acumula 48% das hospitalizações por síndrome aguda respiratória grave (SARG) do País neste ano. O dado indica grande número de casos da covid-19 ainda não identificados, pois há uma explosão de "gripe grave" no Brasil a partir da metade de março sobre o mesmo período do ano passado.
No projeto, o governo estadual estima que 40 mil pacientes teriam de usar leitos de internação durante a pandemia. Já outros 11 mil teriam quadros mais graves, exigindo UTI.
"Quando escrevemos o projeto, há 10 dias, a projeção de que tínhamos era algo nessa ordem (220 mil casos). Vamos precisar esperar, ver o efeito do isolamento em São Paulo. É uma expectativa positiva", disse Tardelli.
O Estado tem 15 mil leitos de UTI públicos e privados, sendo 7,2 mil leitos dedicados ao SUS. "Sabe-se que dos 3.600 leitos de UTI adulto disponíveis a população, a taxa de ocupação é de 85 a 90%. Com base nestas informações, estima-se que a ampliação de leitos de UTI é imprescindível para o enfrentamento do COVID-19”, afirma o governo Doria em carta-consulta enviada para análise do Ministério da Economia na última segunda-feira, 30.
'Temos governos que não acreditam na ciência', diz Joseph Stiglitz
05 de abril de 2020 | 05h00
O economista Joseph Stiglitz avalia que líderes que emergiram da negação da política mostram-se, nesta pandemia do coronavírus, oportunistas e focados em seus projetos eleitorais, com posturas hesitantes que trarão consequências desastrosas. Prêmio Nobel de Economia em 2001, ele critica a atuação do americano Donald Trump e do brasileiro Jair Bolsonaro para defender um novo contrato entre o mercado, o Estado e a sociedade civil. Em entrevista ao Estado, o professor da Universidade Columbia afirma que a atual crise destaca a importância de um equilíbrio da economia e da ciência, que precisa pautar os governos. “É notável a rapidez com que conseguimos analisar o vírus e descobrir de onde ele veio, desenvolvendo o teste. E toda a ciência é baseada em apoio governamental”, observa. “No Brasil e nos Estados Unidos, temos governos que não acreditam em ciência e estamos vendo as consequências.” As avaliações de Stiglitz também serão detalhadas num livro que o economista lançará, em setembro, no Brasil: People, Power and Profit (Pessoas, Poder e Lucro, numa tradução literal – ainda não tem título em português).
Varejo fechado, ruas vazias e consumo menor de energia mostram País 'parado'
05 de abril de 2020 | 05h00
Shoppings e restaurantes fechados, aeroportos vazios, grandes cidades sem engarrafamentos e cinemas às moscas mostram que, com o avanço do coronavírus, a economia brasileira realmente parou, num movimento nunca antes visto. Esse impacto real ainda deve demorar a ser medido – os dados oficiais de atividade econômica costumam levar algum tempo para serem compilados –, mas os indicadores que começam a sair já dão uma ideia do que ocorreu com a economia em março.
O faturamento do varejo, por exemplo, teve uma queda de 22,6% no mês passado, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), calculado pela companhia de máquinas de cartão com base nas transações de seus clientes. É um tombo inédito, segundo Gabriel Mariotto, diretor de inteligência da Cielo.
As lojas de produtos essenciais, como supermercados e farmácias, ainda tiveram alta no faturamento em março, mas o segmento de serviços, que inclui salões de beleza, bares e restaurantes e atividades de lazer viu a receita cair à metade na comparação com um ano antes. Os postos de gasolina tiveram queda no faturamento de 20% na comparação anual.
Nos cinemas, onde o público vinha crescendo nas primeiras semanas do ano, apenas 815 pessoas foram assistir a um filme nas salas do País na terceira semana de março, quando as recomendações para se evitar aglomerações começaram a ser ampliadas e mais seguidas. O dado é da consultoria Filme B.
O fluxo aéreo também foi solapado pelos efeitos da pandemia. No Brasil, nos últimos dias de março, 90% dos voos foram cancelados, seguindo um movimento global. O vaivém de aviões caiu pela metade em todo o mundo, segundo Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), informando dados da consultoria Flightradar24. No último dia 31 foram registrados 80,9 mil voos em todo o mundo. Nos dois meses anteriores a média diária foi de 175 mil voos.
Primeiras impressões
Essas, na verdade, são ainda as primeiras impressões de uma crise “sem precedente na história moderna”, segundo Eduardo Zilberman, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio. É uma crise inédita porque derruba, em todo o mundo ao mesmo tempo, e com efeitos em cadeia, tanto a oferta de trabalho, afetando a produção, quanto a demanda (a capacidade das famílias para consumir).
No Brasil, esses números iniciais apontam para quedas na produção e no consumo de magnitude superior ao visto na recessão de 2014 a 2016, quando a economia encolheu na casa de 3% em dois anos seguidos. Consultorias, bancos e corretoras vêm, dia após dia, revisando para baixo suas projeções para o desempenho da atividade econômica este ano. Já há instituições, como o ASA Bank, prevendo queda de até 5% no PIB deste ano.
Os dados que têm sido divulgados ainda não são suficientes para saber o tamanho do tombo, mas são importantes para dar uma ideia. “Quando ocorre esse tipo de choque, é muito importante ter indicadores rápidos, de alta frequência, até diários, para sabermos para onde a economia vai e onde já foi feito o estrago”, disse Bentes. A CNC já estimou que o setor de turismo perdeu R$ 2,2 bilhões apenas na primeira quinzena de março.
Um dos indicadores de atividade econômica, o fluxo de veículos desabou como consequência direta do isolamento social. Os engarrafamentos nas duas maiores metrópoles do País, Rio e São Paulo, caíram a um sexto na segunda quinzena de março na comparação com o mesmo período de 2019, segundo o índice de tráfego da TomTom, desenvolvedora holandesa de aplicativos de navegação.
Às 18 horas do último dia 26, uma quinta-feira, o índice foi de 15% em São Paulo – significa que um trajeto de 30 minutos era feito em tempo 15% maior do que seria com o trânsito completamente livre. Só que esse horário é de pico no trânsito. A média para as 18 horas de quintas-feiras, em 2019, foi de 91%.
Consumo de energia
Indicador usual da dinâmica da economia, o consumo de energia elétrica também está marcado por quedas desde meados de março, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Na última quarta-feira, por exemplo, o total de eletricidade no sistema ficou 12% abaixo de igual dia de março de 2019.
Com base em parte desses indicadores de alta frequência, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revisou, na última segunda-feira, sua projeção para o PIB brasileiro de avanço de 2,1% para retração de até 1,8%, caso as medidas de isolamento social durem três meses.
O ineditismo da crise, porém, deixa a tarefa de fazer projeções ainda mais árdua, disse o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, José Ronaldo de C. Souza Jr: “Não tem nada na história para buscar lá atrás e tentar saber o que estamos vivendo.”
Apesar da orientação, muita gente desrespeita pedido de isolamento social
A orientação é para todo mundo é clara: fique em casa. Tudo para diminuir o contágio pela Covd-19. A maioria dos brasileiros está seguindo à risca. Mas, neste sábado (4), a equipe do Jornal Nacional flagrou muita gente desrespeitando esse alerta fundamental.
As imagens são deste sábado e foram feitas por um morador de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em Rio das Pedras, na mesma região, outro flagrante do desrespeito ao isolamento social.
Na favela da Tijuquinha, a boa ação juntou gente demais: aglomeração na distribuição de cestas básicas em frente à associação de moradores.
Mas um passeio pelo Rio mostra que, na maior parte da cidade, a quarentena está sendo respeitada. Poucos carros, poucas pessoas.
O sábado foi de sol e calor no Rio, mesmo assim, as praias ficaram praticamente vazias, até porque o mar parecia estar comprometido com o esforço de impedir aglomerações.
A ressaca ajudou que todo mundo respeitasse o decreto que proíbe entrar na areia, mas não impediu o movimento grande no calçadão em Copacabana, Ipanema, Leblon.
“Não aguentei ficar em casa. Sabadão”, disse um pedestre.
“Tem que reforçar: permaneça em casa, fica em casa este final de semana, não saia, tenha paciência. Agora, quero sair para dar uma caminhada, estou com criança pequena, é importante tomar um pouco de sol, vitamina D, então faça isso com muita parcimônia. Guarde uma distância de 2,5metros, três metros das pessoas. Faça isso de uma maneira pontual. Desestressou um pouco, volta para casa”, orienta o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.





