Um terço dos adultos no Brasil está no grupo de risco do coronavírus
Juliana Dal Piva, Pedro Capetti, Juliana Castro e Marlen Couto / O GLOBO

RIO — Responsável pela morte de mais de 2 mil pessoas desde março, o novo coronavírus representa uma ameaça de vida maior para mais de 50 milhões de brasileiros que fazem parte do grupo de risco da Covid-19. O levantamento, feito a pedido do GLOBO por pesquisadores da Fiocruz que trabalham no projeto Monitora Covid-19, estima que um em cada três brasileiros (33,5%) acima de 18 anos tem ao menos um dos cinco principais fatores associados a complicações da doença: hipertensão, diabetes, doenças do coração ou do pulmão e ainda os que têm idade acima de 60 anos.
O dado foi calculado a partir das respostas do questionário da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE), feita em 2013. O levantamento mostra como o chamado “grupo de risco da Covid-19” reúne pessoas em todas as faixas etárias.
— Essas doenças ocorrem em todos os grupos de idade. A faixa de idade de 18 a 29 anos realmente é menos afetada, mas após os 30 anos a gente já tem grandes proporções que estão em risco. É interessante chamar atenção sobre isso porque nesse isolamento vertical você está colocando pessoas que têm problemas de saúde sujeitas a ser infectadas e ter gravidade na doença — explica Celia Landmann Szwarcwald, coordenadora da PNS e do levantamento.
Ministério da Saúde enviou respiradores sem peças para o Amazonas
Primeiro estado a sofrer um colapso na saúde, o Amazonas vive um drama para controlar a expansão do coronavírus. Em uma semana, o número de vítimas letais cresceu 360%, para 124 mortes, e os casos confirmados da doença aumentaram 192%, para 1719 infectados. A falta de leitos e equipamentos acenderam o sinal de alerta do Governo Federal, que decidiu ajudar.
O Ministério da Saúde, ainda sob o comando de Luiz Henrique Mandetta, enviou vinte aparelhos respiradores para o estado. No entanto, metade deles não funcionava, porque não tinha dois tipos de acessórios essenciais: traqueia e cabo de força. O restante dos equipamentos era destinado a transporte – e não para leitos. Essa falha foi listada num dossiê elaborado pela Casa Civil da Presidência e usada para desgastar o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, conforme VEJA revelou.
“Demos um jeito de driblar essa situação. Tive que improvisar alguns equipamentos de última hora”, conta o governador Wilson Lima (PSC). “Utilizei as traqueias e os cabos de forças de outros respiradores antigos e os instalei nos que foram enviados pelo ministério da Saúde”, explica ele.
Antes dessa gambiarra, o governo do Amazonas havia recebido 15 aparelhos respiradores do Ministério da Saúde, emprestados de uma rede privada de hospitais. A ideia era ampliar o número de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas cinco equipamentos não estavam funcionando – e se estão em manutenção.
Mandetta foi demitido na última quinta-feira. Procurado, o Ministério da Saúde confirma que cinco aparelhos “estavam com algum problema de funcionamento e podem ser recuperados”. A pasta ainda diz que “enviou mais 20 respiradores em perfeitas condições”, mas não esclareceu se esses equipamentos estavam sem dois acessórios. “Até 30 de abril mais 20 respiradores estão previstos para serem enviados para Manaus”, afirma. VEJA
Coronavírus: como o Brasil começa a corrida para testar a população

Chamando a atenção de quem chega ao Rio de Janeiro pela Avenida Brasil, o castelo em estilo mourisco fincado no alto de um morro sedia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um complexo de laboratórios que são referência internacional em pesquisa de saúde pública. Ali, no 5º andar de um prédio moderno com ares de ficção científica, enfileiram-se os tubinhos mais falados do momento: testes para a detecção do novo coronavírus, dos quais a Fiocruz é o maior produtor nacional, responsável por abastecer toda a rede pública de saúde. A reportagem de VEJA acompanhou uma manhã de trabalho na “fábrica” e testemunhou o excepcional esforço da equipe que organiza o mais ambicioso salto da história da instituição: nos próximos dias, a produção semanal vai decuplicar, passando de 20 000 para 200 000 kits. A iniciativa, espetacular, ainda está longe de suprir a demanda que o combate à pandemia requer, mas segue corretamente na direção que o Brasil precisa. A experiência em outras nações mostrou que testar, testar e testar, na definição da OMS, é a chave para exercer algum controle na fase de subida para o pico da curva da doença e, no momento seguinte, para ter um mínimo de segurança no processo de volta à vida normal. Hoje, ainda apresentamos números modestos na distribuição do teste que salva. Mas, com produção local e importações feitas por empresas públicas e privadas, esse panorama começa a mudar.
Efeito instantâneo da crise sobre o varejo
Entre os segmentos afetados mais rapidamente pela crise do coronavírus está o comércio – com poucas exceções, as lojas estão de portas fechadas e perdem bilhões de reais em vendas. A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP) calcula uma diminuição do faturamento do varejo do País no trimestre abril/junho de 2020 entre R$ 115 bilhões e R$ 138 bilhões. Sendo impossível delimitar as consequências da pandemia, os prognósticos não são conclusivos, mas dão uma boa ideia do custo em que comerciantes e empregados no varejo terão de incorrer até que a crise seja vencida.
Antes da pandemia, a FecomercioSP estimava em R$ 1,96 trilhão o faturamento do varejo em 2020, alta de 2,4% em relação a 2019. Instalada a crise, o faturamento deverá cair, num cenário moderado, para R$ 1,85 trilhão; e num cenário agudo, para R$ 1,82 trilhão.
Na hipótese aguda, a queda das vendas poderá atingir 15%, superando os 10% registrados no biênio 2015/2016, no auge da recessão da era petista. Entre 2013 e 2017, quase 100 mil empresas do varejo foram fechadas.
O varejo brasileiro abriga 1,3 milhão de empresas que empregam, em tempos normais, 8,5 milhões de trabalhadores. Com a crise, estima-se que 47 mil empresas fecharão as portas, reduzindo em 444 mil o número de pessoas empregadas no setor. Destas empresas, 44 mil serão micro, pequenas e médias que eliminarão 191 mil vagas.
No Estado de São Paulo, o cenário agudo contempla uma redução do faturamento da ordem de R$ 70 bilhões em 2020, para R$ 713 bilhões, queda de 4,9% reais em relação a 2019.
Facilidades creditícias e consumo de capital próprio – quando este capital existe – ajudarão os varejistas a sair da crise no segundo semestre. A FecomercioSP afirma em nota que “entende e aceita as restrições impostas ao funcionamento do comércio e à circulação de pessoas, que devem permanecer em suas casas para evitar a contaminação, mas tem cobrado dos governos estadual e federal mais profundidade e velocidade das ações já anunciadas para a manutenção das empresas e dos empregos, bem como um plano de retomada da economia”. É o possível, quando saúde e economia devem andar juntas.
Maia sofre maior ataque do ano nas redes sociais
Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo
Após ser alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro na noite de quinta-feira, 16, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sofreu o maior ataque do ano a suas redes sociais. Apenas no Twitter, 238 mil perfis publicaram 1,6 milhão postagens contra o parlamentar nos últimos dois dias.
Segundo levantamento feito pela consultoria Bites, que considerou o uso da hashtag (palavra-chave) #ForaMaia das 21h de quinta-feira às 18h de sexta, a soma dos ataques bolsonaristas no Twitter equivale a 71% de tudo o que se falou de negativo sobre o parlamentar na rede social em 2020. Isso levou a hashtag ao topo das frases mais mencionadas no Twitter.
Na quinta, Bolsonaro afirmou que a atuação de Maia era “péssima” e insinuou que o deputado trama contra seu governo. “O sentimento que eu tenho é que ele não quer amenizar os problemas. Ele quer atacar o governo federal, enfiar a faca. Parece que a intenção é me tirar do governo. Quero crer que esteja equivocado”, disse o presidente à rede de TV CNN.
Maia reagiu dizendo que não iria atacar Bolsonaro. “O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores”, afirmou, também à CNN. No mesmo dia, junto ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ele divulgou uma nota em defesa de Mandetta e dizendo que sua saída não é positiva e será sentida por todos.
Deputados
Os ataques a Maia também partiram dos próprios parlamentares. Foram mapeadas 29 postagens contra ele no Twitter, Instagram e Facebook, com um alcance total de 323 mil interações. O recordista foi o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente. Em publicação no Facebook em que reproduz entrevista em que o presidente confronta Maia, o filho do presidente conseguiu 53 mil interações. Outro ataque partiu da deputada Alê Silva (PSL-MG), que atingiu 7,6 mil curtidas as escrever que Maia ataca a economia para desestabilizar o governo.
O CRIME NOS TEMPOS DO CORONAVÍRUS - GIAMPAOLO MORGADO BRAGA -
O país está experimentando, nas últimas semanas, uma nova dinâmica social. Que cria, obrigatoriamente, uma nova dinâmica criminal. Índices descem, índices sobem, e é uma oportunidade rara para ver o que acontece, em termos bandidos, numa sociedade confinada.
Ainda não há índices fechados, finais, porque em alguns estados as delegacias online ainda vão filtrar os registros feitos diretamente pelas vítimas. Mas não é muito difícil inferir que os roubos tenham tido uma queda expressiva, principalmente aqueles que acontecem na rua — a pedestre, de veículo, em ônibus etc. Sem potenciais vítimas nas ruas, não há roubos.
Homicídios também devem ter caído, bem como as mortes pela polícia, em confrontos. Outra situação que poderá acontecer é uma mudança no perfil da vítima e do assassino. Talvez aumentem os crimes movidos pelas paixões, fruto da convivência contínua e prolongada em espaços exíguos.
Aliás, algo que parece ter já aumentado são os casos de violência doméstica, ao menos no Rio de Janeiro, segundo o G1 (https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/03/23/casos-de-violencia-domestica-no-rj-crescem-50percent-durante-confinamento.ghtml). Possivelmente, esse crescimento é resultado dessa convivência sob o mesmo teto, 24 horas por dia, sete dias por semana. A maior parte das vítimas, segundo a matéria, é do sexo feminino.
De qualquer forma, os índices que emergirem desse período de quarentena estarão estatisticamente comprometidos. Serão ótimos para estudos de especialistas em segurança pública, mas estarão distorcidos. Só para esclarecer, o que as polícias de todo o país contam são registros de ocorrência, não crimes. Como saber que os registros não foram feitos porque a delegacia estava fechada ou porque os crimes efetivamente não aconteceram? Ou porque a vítima não tinha acesso à internet? Provavelmente, acontecerá o mesmo fenômeno que ocorreu na greve da Polícia Civil no Rio, no início de 2017. Os dados ficaram comprometidos.
No meio dessa confusão, entram ainda na dança as ações de tráfico e milícia nas favelas que dominam no Rio de Janeiro. Toques de recolher, ameaça a moradores que saírem às ruas, ações de controle social que, de longe, se parecem muito com as adotadas pelo governo estadual. Para quem está achando que traficantes e milicianos adquiriram consciência social e resolveram se unir ao Estado contra a pandemia, vale uma máxima que se aplica tanto aqui como em outros casos: o inimigo do seu inimigo não necessariamente é seu amigo. ÉPOCA


