Karl Ove Knausgård: 'Você só pode ser honesto até certo ponto'
Camilo Gomide e Natalia Timerman, especial para O GLOBO*
Brasil precisa cuidar melhor dos idosos que vivem em instituições

Os pilares do envelhecimento ativo incluem saúde, aprendizagem ao longo da vida, participação e segurança. Aspiramos os três primeiros, mas temos dificuldade em lidar com o último, a necessidade de proteger e cuidar dos mais frágeis.
Em todo o mundo, a pandemia da Covid-19 tornou evidente a vulnerabilidade das pessoas idosas, especialmente as institucionalizadas. Eram pessoas até então invisíveis para o Estado e para a sociedade.
No Brasil, fala-se em “instituição de longa permanência para idosos” (ILPI), mas se você perguntar a alguém como ou onde encontrar uma ILPI, o olhar de perplexidade será a reação mais provável.
O que seria uma ILPI? Os nomes mais conhecidos são asilo, lar, hotel ou clínica geriátrica, casa de repouso, residencial para idosos, entre outras variantes. Infelizmente, não sabemos quantas instituições existem, onde estão, quanto custa o cuidado, quem cuida e como.
Em 8 de abril, quando havia registro de 822 mortes por Covid-19 no Brasil, surgiu o movimento chamado Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI (frentenacionalilpi.com.br), ao qual rapidamente se juntaram mais de 1.200 voluntários de todo o país.
Essa frente tem produzido e divulgado, de forma gratuita e por meio virtual, orientações baseadas em evidências científicas, voltadas para a prevenção e o cuidado da Covid em ILPI. Já contabiliza mais de 130 mil acessos a documentos e vídeos de capacitação.
O movimento trabalha para superar a visão preconceituosa fortemente presente na sociedade e nas leis brasileiras, que ligam negligência e abandono à institucionalização.
A Constituição, a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso determinam que uma pessoa idosa somente poderá residir em uma instituição depois de ter esgotado todas as outras possibilidades de cuidado –que só existem no papel— e de fortalecimento de vínculos sociofamiliares –que muitas vezes já não existem.
Assim, quando uma pessoa idosa frágil e vulnerável precisa de cuidado, ela acaba se tornando uma questão da vida privada, pois o Estado permanece omisso e a sociedade se mantém distanciada. Resta, então, a cada família tentar cuidar dessa pessoa, conforme seus recursos ou a falta deles.
Por isso, a frente tem defendido a necessidade urgente de uma política de Estado, que seja abrangente e adequada, e que ofereça cuidados continuados no domicílio ou na instituição. A ideia é apoiar as pessoas –idosas ou não— que precisam de cuidados, mas que não têm família ou que a família não pode ou não consegue oferecer os cuidados necessários.
Essa iniciativa tem o apoio do Centro Internacional de Longevidade - Brasil, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e de outras entidades nacionais e internacionais, inclusive a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Afinal, a vida de toda pessoa idosa importa.
O debate da sustentabilidade e a importância da gestão ambiental no Brasil
Victoria Rizo*
27 de dezembro de 2020 | 08h00
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Victoria Rizo. FOTO: DIVULGAÇÃO
O uso da governança no manejo sustentável das organizações está cada vez mais em voga nas discussões políticas e de acordos comerciais. Cada vez mais as empresas estão compreendendo a necessidade de adequar suas práticas a uma atuação sustentável. Queimadas, crises e instabilidades com os desastres naturais no mundo este ano, geraram profunda preocupação ambiental. E o momento atual pede um planejamento que é positivo e responsável para o meio ambiente e para as corporações. Tudo o mais adequado possível às práticas de produção sustentáveis, dentro de modelos economicamente viáveis.
O Brasil está constantemente no centro de uma ampla e indiscutível dúvida: como produzir mais e melhor com os mesmos recursos ou podendo dispor de ainda menos custos. A chamada Environmental, Social and Governance (ESG na sigla em inglês, Governança Social e Ambiental) é o caminho para organizações traçarem um plano futuro de ação sustentável, com a governança aliada às práticas ecologicamente corretas e ao planejamento de riscos e ações.
A prática de ESG consiste em analisar riscos ambientais e todas as ações corporativas que potencialmente interfiram na natureza, na tomada de decisão das empresas. Um tipo de habilidade que cada vez mais será requisitado no mercado. A prática reflete inclusive no mercado financeiro, que vê valorizadas as ações de empresas que aderem à uma gestão sustentável. Com retorno imenso de valores de mercado e mais, com valor agregado à marca. Gigantes do mercado estão investindo em modelos sustentáveis.
Investir em práticas socialmente responsáveis é eficaz e indispensável às empresas nos dias atuais. O modelo ESG trata dos três fatores cruciais na medição da sustentabilidade e do impacto social de uma ação em um negócio. Sua implantação proporciona maior segurança em ações das corporações, que podem interferir em meios naturais, garantindo a mediação de riscos, melhor planejamento, além da prática sustentável das operações das empresas. As que aderem se colocam para o mercado, parceiros e contratantes, como socialmente conscientes, o que, além de gerar confiabilidade no que diz respeito a questão técnica, edifica uma boa reputação.
A ampliação do mercado das consultorias do setor ambiental é potencialmente promissora se as corporações brasileiras passarem a investir na gestão sustentável como algo essencial. E investindo em ESG, investem em segurança, responsabilidade, cuidado e responsabilidade social. Mais que pensar na questão da reestruturação corporativa e no cumprimento de leis e avaliações de riscos e manutenção nos padrões de regulamentos, trata se da construção de reputação. E claro, da prática da educação ambiental, através da implementação da gestão responsável. A Técnica ESG cerca de garantias as empresas, os contratantes e mercado de planejamento e ajuda a medir e afastar riscos. Saem na frente as relações corporativas, a preservação ambiental, o mercado e as marcas das empresas. É o tipo de investimento na evolução, na segurança e no futuro, que é mais que necessário.
*Victoria Rizo é CEO da 2Tree Consultoria Ambiental / O ESTDO DE SP
Feminicídio: quando a lei não é o bastante
Mauro Argachoff* o estado de sp
27 de dezembro de 2020 | 07h30
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Mauro Argachoff. FOTO: DIVULGAÇÃO
É uma tendência natural que se acredite que quanto mais severa a legislação criminal, quanto mais elevadas as penas, menos crimes ocorrerão. Afinal, sabendo aquele que está prestes a delinquir sobre o pesado fardo que terá que carregar no caso de uma eventual condenação, pensará duas vezes antes de agir ao arrepio da norma. Seria ótimo se fosse verdade.
Ao término de um dos mais difíceis anos que a humanidade tem vivido, a juíza Viviane Vieira do Amaral Arronezi, com 45 anos de idade, foi morta a facadas pelo seu ex-marido. O crime ocorreu na presença das três filhas do casal. Notícias veiculadas pela imprensa dão conta de que o casamento, que durara 11 anos, chegou ao seu término e o autor do crime “não aceitava a separação”, fazendo com que a vítima tenha registrado ocorrência policial e permanecido por algum tempo andando sob escolta.
O crime de homicídio, dentre as diversas formas qualificadas descritas na lei, prevê o chamado feminicídio. Em tal situação a pena pode chegar a 30 anos de prisão. A mesma lei ainda agrava a reprimenda se a mulher for morta na presença de descende, bem como se o agressor descumprir medidas protetivas que haviam sido impostas. Situações presentes no caso da juíza carioca. Como se observa, ausência de quantidade elevada de pena não existe no caso de feminicídio, mas infelizmente o crime aconteceu inobstante o rigor da norma. Ocorreu com a Viviane juíza e continua ocorrendo com as Vivianes caixas de supermercado, faxineiras, engenheiras, médicas, advogadas, funcionárias públicas, donas de casa, desempregadas, etc. Só no ano de 2019 foram 1326 delas. Mas por quê?
Quando uma pessoa se predispõe a ingressar na marginalidade ela não se preocupa com a pena que estará sujeita. Um indivíduo não deixa de explodir um caixa eletrônico de agência bancária após ler o Código Penal e constatar as elevadas penas impostas para referido crime. É evidente que tais penas devem existir e serem rigorosas, mas de nada adiantarão se não forem efetivamente cumpridas. O efetivo cumprimento da pena, este sim, com o passar do tempo pode ser um fato gerador de desencorajamento da prática de delitos. Não para todos evidentemente, mas para os criminosos não contumazes ao menos.
Mas voltemos ao feminicídio, onde tal tese parece não ter aplicação. A historiadora Lilia Schwarcz, lembra que vivemos em uma sociedade absolutamente patriarcal, desde a época da colonização, em que os “homens se acham donos dos corpos das mulheres e detestam reconhecer a autonomia das mesmas”. Segundo o Instituto Vladimir Herzog, em pesquisa realizada em 2017, 39% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de preconceito na escola ou faculdade relacionado ao gênero. Em pleno século XXI esse número é altíssimo e inaceitável.
Mas é justamente nesse ambiente escolar que pode estar a chave para que se encete a mudança desse quadro. Isso não acontecerá da noite para o dia, mas é urgente que se inicie. Somente através da educação é que os meninos de hoje não se transformarão nos homens de amanhã que irão dizer “não aceitar o final do relacionamento”, pelo simples fato de se acharem superiores, não sabendo lidar com a rejeição, principalmente se vinda de uma mulher. O enfrentamento ao feminicídio requer, além da forma legal, uma profunda análise estrutural.
Enquanto o assunto não for encarado com a seriedade e planejamento que merece, continuaremos só com a lei, mas já deu pra notar que esta sozinha, não é o bastante.
*Mauro Argachoff, delegado de polícia e Mestre em Direito Penal pela USP
Pedido indecente - FOLHA DE SP
Todos são iguais perante a lei, apregoa a Constituição. Na corrida pela vacina contra a Covid-19, no entanto, os ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça imaginam ser mais iguais do que os demais brasileiros.
Depois de um grupo de promotores paulistas pedir prioridade à imunização da categoria no início de dezembro, recuando após a má repercussão, coube agora às duas cortes superiores o disparate.
Ambas solicitaram à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que fossem reservadas milhares de vacinas para seus servidores e integrantes do Conselho Nacional de Justiça. Ao que parece, para as excelências, a toga as coloca à frente de grupos de risco e agentes de saúde.
O pedido não faz sentido, inclusive, quando se leva em consideração que o Judiciário tem funcionado razoavelmente bem com o trabalho remoto, até com aumento de sua produtividade.
Como se o escárnio já não fosse evidente o bastante, o Supremo chegou a afirmar no ofício encaminhado à Fiocruz que o pedido seria “uma forma de contribuir com o país nesse momento tão crítico da nossa história”.
Ao menos o ministro Marco Aurélio Mello expressou, ao jornal O Estado de S. Paulo, discordância veemente. “Todo privilégio é odioso.”
A Fundação Oswaldo Cruz, felizmente, rejeitou o pedido vexatório das cortes superiores que, em português claro, pretendiam furar a fila da imunização na pandemia.
Os mesmos tribunais têm relutado em proteger um grupo de risco real para a contaminação pelo novo coronavírus, caso da população carcerária. O STJ indeferiu em abril deste ano um habeas corpus coletivo para os presos potencialmente mais vulneráveis à doença.
O Supremo têm resistido a conceder habeas corpus durante a pandemia —entre março e maio de 2020 atenderam-se apenas 6% dos pedidos. Somente neste mês concedeu-se o benefício a detentos de grupos de risco em presídios superlotados, em decisão do ministro Edson Fachin.
Espanta, ademais, que STF e STJ façam pouco caso do que diz a legislação: cabe ao Ministério da Saúde, não à Fiocruz, elaborar o plano de imunização nacional.
Mais uma vez o Judiciário brasileiro se comporta como se fosse uma aristocracia, envolta em benesses vultosas a custo do dinheiro público, e não um órgão republicano, responsável por garantir o direito à saúde a todos.
Mancha, com isso, seus méritos inegáveis no enfrentamento das omissões e sabotagens do governo Jair Bolsonaro na pandemia.
Há luz no fim do túnel = Nelson Barbosa

É natal e resolvi escrever um texto positivo para encerrar 2020.
Tivemos e temos vários desafios econômicos e políticos pela frente, mas também houve grandes avanços na última década, fruto de investimentos e trabalho de várias pessoas, no governo e no setor privado.
Para dar um exemplo de avanços de governo, nesta semana a Folha reconheceu (do seu jeito) a inclusão social promovida pelos governos do PT em nossas universidades. Falo da matéria: “Negros estão na faculdade, e não (só) para fazer faxina”, que menciona a Lei 12.711 de 2012 (Governo Dilma).
Segundo o texto da lei: “As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas.”
A Lei 12.711 diz, ainda, que dos 50% destinados a estudantes de escola pública, metade deve ser reservada para “estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo per capita”.
Seis anos depois, segundo outra matéria da Folha: “Pela primeira vez, há mais pretos e pardos no ensino superior público no Brasil do que brancos, (...) Os dados, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), são de 2018 e apontam 50,3% de pretos e pardos nas universidades públicas brasileiras. Apesar do aumento, ainda havia subrepresentação do primeiro grupo —na população em geral, 55,8% são negros (pretos e pardos, pelo critério do IBGE).”
Outra boa notícia da década 2011-20 veio do setor de energia, fruto de investimentos de empresas com incentivo governamental. Falo da queda do custo de fontes de energia renovável, sobretudo de energia solar e eólica nos últimos 10 anos.
Em texto no site “Our World in Data”, Max Roser relata que, de 2009 a 2019, houve queda de 89% do custo de geração de energia solar, e de 70% de energia eólica. As estatísticas consideram o valor do investimento (Capex) e despesas correntes (Opex) para construir novas usinas sem subsídio.
Para os leitores interessados, o texto de Rose detalha como foi possível reduzir o custo de geração solar e eólica tão rapidamente, mas isto não é novidade na história humana.
Novas tecnologias tendem a começar caras (lembrem dos primeiros telefones celulares) e depois se tornar baratas devido a economias de escala (aumento do volume de produção) e de aprendizado (aperfeiçoamento do processo produtivo), além de novas inovações ao longo do processo.
No caso da energia, chegamos ao final desta década com usinas solares e eólicas tendo implantação mais barata do que usinas que queimam combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás). O mercado já reagiu à mudança de custo. Segundo Roser, fontes renováveis responderam por 72% da expansão de capacidade de geração elétrica no mundo em 2019.
A queda dos preços de fontes renováveis de energia cria esperança de um desenvolvimento mais sustentável. Além disso, a reconversão da matriz energética do mundo para fontes mais renováveis também oferece oportunidades de investimento e geração de emprego aos países que souberem aproveitar seu potencial na nova tecnologia.
O Brasil tem grande potencial para avançar nas duas frentes, eólica e solar, fornecendo energia barata para a agricultura, indústria e serviços, e gerando milhões de empregos na transição entre tecnologias com, espero, com inclusão social.
Feliz natal a todos!

