Eucalipto e cana-de-açúcar alteram paisagem da terra natal de Riobaldo
Mito. Adriana Maugeri, secretária-executiva da Associação Mineira de Silvicultura, avalia que a versão de que o eucalipto seca a terra é um “mito” que não contribui para o debate. Ela lembra que o País avançou em pesquisas e clonagens nos últimos anos, permitindo árvores de raízes curtas, de diâmetro ideal para indústria e que causam menos impacto ambiental.
Ela estima que as 19 grandes empresas do setor no Estado tem um total de 1,4 milhão de hectares de floresta plantada e 530 mil hectares de cerrado preservado ou recuperado, além de áreas de proteção permanente em altos de morro e beiras de rio. Ela defende os associados e diz que o processo de certificação obtido pelas empresas é mais exigente do que as legislações federais na área de meio ambiente. O gargalo estaria na faixa de propriedades menores. “A fiscalização precisa ser mais abrangente em Minas Gerais”, afirma. “Muitos produtores não associam árvores plantadas e recursos hídricos.”
SOJA CERCA PARQUE
GRANDE SERTÃO VEREDAS
Asede do município de Chapada Gaúcha (MG) tem ruas largas, bem planejadas. São poucos moradores, cerca de 10 mil, e muita poeira, especialmente nas estradas de acesso à cidade, por onde trafegam caminhões que transportam grãos. As margens das rodovias que cortam a área plana dos Gerais são tomadas de soja de um lado e outro.
Há pouca gente nas ruas, nas estradas. A paisagem, porém, é diferente da vista pelo bando de Zé Bebelo e Riobaldo, que pela região passou a caminho do Liso do Sussuarão, na Bahia. Os jagunços só encontraram “almas vivas” na Serra das Araras, hoje um distrito de Chapada Gaúcha. “Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia – lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros”, narrou Riobaldo. Foi ali que, sem Diadorim saber, o jagunço ficou com Nhorinhá, a meretriz filha de Ana Dazuza. “Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça, e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado.”
A paisagem homogênea dos plantios irrigados, intercalados por silos e torres de linhas de energia, tomou o lugar do cerrado do juriti-do-peito-branco, da pomba-vermelha, das lagoas de jacarés, de brejos e surucuiús que arrancavam ferradura de mula, para desespero dos jagunços. Nas terras onde hoje está Chapada Gaúcha, Riobaldo conversava com as palmeiras. “Pergunto coisas ao burití; e o que ele responde é: coragem minha. Burití quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”
É em Chapada Gaúcha que também está o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, de 231 mil hectares, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Embora esteja demarcado, o maior parque do cerrado brasileiro corre risco. Ambientalistas temem que os plantios de soja que chegam até os limites do parque tenham transgênicos e grande quantidade de agrotóxico. Aqui começa a região do Matopiba, fronteira agrícola que se expande para o oeste baiano e os cerrados de Piauí, Maranhão e Tocantins.
Vizinhos. A delimitação da área do parque, em 1989, incluiu terras de moradores antigos, como os Paçoca, que hoje formam uma comunidade de nove famílias. O clã está no sertão há mais de um século. Os limites da unidade de conservação não chegaram, porém, às terras ocupadas pelos gaúchos desde os anos 1970. Os Paçoca sofrem com uma indefinição. Eles continuam nas terras à espera de indenização do governo. Enquanto isso, não podem fazer melhorias na propriedade nem investimentos mais robustos na plantação e na criação de animais.
Antonio Teixeira de Almeida, o Tonico Paçoca, conta que o apelido da família que acabou virando sobrenome começou com o avô paterno, o tropeiro Antoninho Teixeira Marinho, que era conhecido por levar sempre no bornal farinha de mandioca e carne seca. O filho de Antoninho e pai de Tonico, João Teixeira Marinho, o João Paçoca, se estabeleceu numa área onde hoje está o parque. Comprou a terra com o dinheiro que ganhou no transporte de boiadas. “A terra dele era extensa, mas para pagar menos imposto ele não fez registro de tudo”, relata Tonico. “Essa terra toda era nossa.”
Em 1981, João morreu. Nessa época, o governo já tinha tomado a maior parte das terras dele e disponibilizado para um projeto de agricultura. Era a chegada dos empresários gaúchos que buscavam áreas planas para o cultivo industrial de soja.
O medo de Tonico é de ter de ir para a cidade. “Na cidade grande, o aperto tá demais. Tá tudo feio, cheio demais. Foi o tempo que se dizia: ‘Vai pra cidade com os meninos’. Hoje, não é isso, não”, afirma. “Já andei por Brasília, mas daqui não saio. Quem saiu hoje não consegue comprar terra igual, com água e mata. Acaba o que tem e não volta atrás nunca.”
Ele diz que não aceita ir para assentamentos. A família só sai da terra se o governo der um dinheiro suficiente para comprar outra propriedade com água e vereda. “O recurso que a gente tem é a terra. Se não tiver a terra para produzir e comprar outra, vamos sofrer”, avalia. “Quem sai vai sofrer. Peleja para voltar e não volta.”
As crianças da comunidade estudavam numa pequena escola ali mesmo. A partir da criação do parque, a escola foi fechada e os alunos foram transferidos para uma outra no centro do município. “Quando chegou o Ibama, acabou a escola. A gente teve de ir estudar lá embaixo”, lembra Fábio, de 19 anos, um dos cinco filhos de Tonico, todos eles de olhos verdes.
A última parteira da Serra das Maravilhas

Numa casa de telhas e barro mora Joaquina Gonçalves dos Santos, de 85 anos, e sua filha Osvaldina Lemos do Prado, de 59. Alta, magra e de sorriso sereno, Joaquina é nora de Geminiano. Os pais dela, Brasilina e Avelino Gomes dos Santos, foram agricultores que passaram a vida toda na Serra das Maravilhas. “Fui parteira aqui. Peguei menino de perder a conta. Nunca tive problema, não. Era só na reza, não dava nada para a mulher tomar. Só depois, um chá”, lembra. “Mas me aposentei.” Ela se esforça para lembrar da última criança que ajudou a trazer ao mundo. “Foi o filho de um vaqueiro, do começo da serra, da fazenda do seu Abel. Mas faz muito tempo, uns 20 anos.”
Osvaldina conta que há seis anos nasceu a última criança do lugar. “Mas nasceu no hospital da cidade. É de uma família que não mora mais aqui. De lá pra cá não nasceu ninguém. Só sai gente”, relata. “Sei porque foi na mesma época em que resolveram fechar a escolinha”, completa. “As pessoas mais novas foram tentar a vida em João Pinheiro, em Brasília, bem longe daqui, onde tem emprego. Ficou quem é velho, não aguenta mais andar direito, suportando esse calorzão que só aumenta de ano para ano.”
Joaquina afirma que o cerrado de seu tempo de parteira era de muita chuva. “Chovia muito mais.” Ela mostra o chão em volta da casa, duro, rachado. Mais adiante, uma plantação de mandioca sem vida. “Não tem mais como plantar nada, não. Por isso, o pessoal foi embora. Tudo era vereda cheia de água, muita. Precisava conhecer o tempo da jataí, dava uma abelha nesses buritis, nesses jatobás.”
O Rio Verde, que vai desaguar no Paracatu, está mais adiante. Do lado de cá, onde fica a casa de Joaquina, os sitiantes que restaram não tiveram recursos para canalizar a água do rio. Da outra margem, onde se instalaram grandes empresários do setor agrícola, tubulações retiram toda a água que ainda resta do Verde, de outros cursos e das veredas, para suas plantações mecanizadas. O negócio do eucalipto e da cana trouxe divisas, mas não gerou emprego nem fixou os moradores das Serra das Maravilhas na região.
ESCOLINHA DA SERRA
DAS MARAVILHAS
FECHOU HÁ CINCO ANOS
Acerca de 30 km do asfalto da MG-181, por uma estrada de chão, está o povoado da Serra das Maravilhas, ou o que restou dele. Com o êxodo rural, o lugar perdeu vigor. Casas e comércios estão de portas fechadas. Um posto telefônico trancado com cadeado ainda está de pé. Mas a construção que se destaca mesmo por ali é a de uma escolinha inaugurada em 1991 pela Prefeitura de João Pinheiro. O prédio e o pátio estão abandonados, tomados por mato e arbustos que cresceram onde crianças brincavam.
Perto da portaria da escolinha, há um pequeno bar com uma mesa de sinuca e algumas cadeiras. Numa delas, um jovem está sentado. Não há refrigerantes ou salgados para vender, apenas alguns litros de aguardente. Eduardo Soares tem 34 anos e não mostra ânimo para falar do lugar. “Estudei nessa escolinha, fiz até o terceiro ano”, conta. “Não continuei os estudos.”
A uma pergunta sobre o abandono da escola, Eduardo diz que a prefeitura resolveu fechá-la há uns cinco anos. A mudança das famílias acabou com a demanda por estudo, relata. “Os mais novos foram embora, diminuiu gente. Homem, mulher, todos saíram. Então menino também acabou.”
Com duas salas de aula e um pátio, a escola está tomada por ervas daninhas. Pássaros fizeram ninhos nas calhas do telhado. Morcegos se abrigam ali. Não há sinais de vandalismo ou depredação. Todo o abandono parece ter marcas apenas do tempo e da falta da presença de pessoas. Da antena parabólica, do lado de fora, restou uma carcaça redonda. Casas de cupins estão pelos cantos da construção. O ESTADO DE SP



























