NOVAS VEREDAS: O MAPA DO GRANDE SERTÃO NOS 50 ANOS DA MORTE DE GUIMARÃES ROSA

“...Quando eu era menino, no sertãozinho da minha terra – baixo de ponta da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres, tapera dum sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o Verde que verte no Paracatu. Perto de lá tem vila grande – que se chamou Alegres – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os nomes eles vão alterando.”
Florestas de eucalipto e canaviais ocuparam pastagens tradicionais de gado e matas da Serra das Maravilhas, que separa as cidades de João Pinheiro, antiga Alegres, e Brasilândia, no noroeste mineiro. É lá que no livro Grande Sertão: Veredas nasce o jagunço Riobaldo.
Quando o livro foi escrito, as montanhas pertenciam à Fazenda das Maravilhas, cujos limites atingiam praticamente todas as margens do Rio Verde, hoje um filete de água escura por onde deságuam outros filetes ainda menores vindos de veredas quase secas.
A fazenda pertencia a Geminiano Lemos do Prado, que fez fortuna e foi influente na serra nas primeiras quatro décadas do século 20. Se fosse real, o jagunço Riobaldo, criado apenas pela mãe, um “órfão de conhecença e de papéis” de pai, certamente teria sido um agregado ou vaqueiro de Geminiano. É que a propriedade do fazendeiro ocupava praticamente toda a área, do sopé da Serra das Maravilhas ao sopé da Serra dos Alegres, ponto que Guimarães Rosa assinalou como local de nascimento do personagem.
A história da família Lemos do Prado tem semelhanças com a narrativa do romance Buddenbrooks, clássico de 1901 do alemão Thomas Mann (1875-1955), que fala de quatro gerações de uma família burguesa alemã, seu apogeu e seu declínio financeiro. Mais exato seria dizer que a história da família de Geminiano é um retrato do produtor médio de Minas Gerais e dos impactos de decisões governamentais e ciclos econômicos nos últimos cem anos. Na década de 1940, Geminiano morreu influente politicamente – subdelegado de polícia e fazendeiro –, mas sem conseguir vencer um câncer. Os filhos tocaram a grande propriedade, que empregava dezenas de vaqueiros, até os anos 1970, quando o governo federal incentivou a destruição do cerrado para alimentar caldeiras do Brasil Grande. Nas duas décadas seguintes, o ciclo das carvoarias deixaria cicatrizes profundas na região, com o assoreamento de córregos, o aterramento dos buritizais e a destruição das árvores retorcidas.
Quando o cerrado acabou, as carvoeiras foram embora e com elas o governo, as fontes de água, a vegetação nativa e qualquer perspectiva da família para garantir que a terra voltasse a dar renda.
Sem tecnologia para acompanhar a nova dinâmica da pecuária e da agricultura que floresceu nos anos 1990, os netos de Geminiano se juntaram à leva de agregados que migraram para cidades em busca de emprego. A Fazenda das Maravilhas começou a ser dividida e vendida para produtores que passaram a produzir eucalipto sem técnicas de manejo ou para grandes grupos que se instalaram para cultivar grandes áreas irrigadas. Os pequenos não tinham crédito para implantar canais e pivôs e aproveitar as águas do rio. Hoje, os bisnetos de Geminiano são mototaxistas, vendedores e diaristas em cidades mineiras e de outros Estados.
Serra das Almas. O acesso à área da antiga Fazenda das Maravilhas se dá por uma estrada de terra que começa à esquerda da MG-181, a cerca de 30 km do centro de João Pinheiro, na direção de Brasilândia. Na estrada que corta plantios de eucalipto, sob o sol abrasador, um homem anda de bicicleta. Pedimos para parar. Trata-se de Davi Lemos do Prado, de 63 anos. Ele conta que passa uns dias na casa da mãe. Há anos vive em Uberlândia. Também morou em São Paulo, sempre trabalhando como pedreiro. “Aqui deu muita carvoaria de 1973 até o tempo que não lembro mais. Depois, apareceu plantação de pivô (cana) mais pra lá. Ficou fraco de serviço, então o pessoal foi embora.”
Ele aponta para a serra que descemos como sendo a das Maravilhas. “Sou neto de Geminiano, o antigo dono da fazenda. Tudo aqui era dele, do Rio Verde até subindo a serra, que outros chamam de Serra das Almas. Mas o pessoal aqui chama mesmo de Maravilhas, por isso o nome da fazenda.” Geminiano morreu há mais de 60 anos, de bexiga, câncer na próstata. “Tinha muita terra, tinha muito gado. Fabricava sela cutuca, era subdelegado daqui. Nego alto, boa gente. Mais dele, não sei. Quem sabe, morador mais antigo mesmo, é minha mãe, Joaquina, que foi casada com meu pai, Joaquim, filho dele. Se quiserem falar com ela, ela mora numa casa numa estrada depois de um campinho de futebol, a uns 5 km.”
O caminho até a casa de Joaquina é de veredas sem água, um cerrado que se recompõe depois dos longos anos de carvoarias. Mas a água para os bichos e as árvores crescerem foi cortada para abastecer grandes plantações de cana, a uns 3 km de distância. Por drone, é possível ver uma grande usina de cana, alguns quilômetros além. A plantação está verdinha, bem diferente do cerrado quase morto, das veredas de buritis sem água. O lugar ainda é cercado por uma floresta de eucaliptos. Passamos por um, dois, três rios secos. Borboletas de um azul brilhante, cobras cinzentas e gaviões estão pelas margens da estrada.
Diminuição do rebanho. Pecuaristas de João Pinheiro estão em pé de guerra com o eucalipto. “João Pinheiro é o município de maior extensão de Minas Gerais. Tínhamos um rebanho de 400 mil cabeças de gado. Aí entrou o tal de eucalipto e acabou com 50% da pecuária”, afirma Geraldo Porto. Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de João Pinheiro, ele diz que a opção dos proprietários de terra por eucalipto se mostrou um “problema”, especialmente agora que a produção das siderurgias, que consomem carvão, está em baixa. Atualmente, ele estima que a floresta de eucalipto ocupe 600 mil hectares no município. A seca que assola a região há três anos foi outro fator para o êxodo rural e a falta de água dos córregos e veredas, assim como a dificuldade de crédito agrícola e a alta dos juros. “Acabou a pecuária e não tem lavoura irrigada (na Serra das Maravilhas)”, diz, referindo-se, especialmente, aos pequenos proprietários rurais. “Sem pecuária, o povo foi para a cidade procurar emprego.” Geraldo Porto avalia como fator positivo o setor da cana. “O que está nos salvando mais ou menos é a cana, que tem cinco usinas com irrigação de cotejamento.” O ESTADO DE SP










