A boca do jacaré
Por Merval Pereira / O GLOBO
Mais importante do que o empate numérico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição, é a tendência que a nova pesquisa Quaest mostra: a chamada “boca do jacaré” fechando em favor da oposição. Essa gíria estatística acontece quando os índices a favor de um candidato vão se aproximando do antigo favorito, desenhando no gráfico uma “boca de jacaré” se fechando. Quando isso acontece, muito mais agora, em que estamos a menos de um mês das urnas, é sinal de que o eleitorado está tendendo para um lado.
Mais que isso no nosso caso. Os números do presidente Lula estão demonstrando que ele tem um teto que já teria sido previsto, pois não apenas no segundo turno contra Flávio, mas também contra Caiado, e até de Cury, ele fica em empate técnico. Só contra Zema e Renan Lula consegue uma vitória folgada, mesmo assim longe dos índices que já obtiveram nas eleições anteriores.
Lula em propaganda eleitoral e Flávio Bolsonaro em evento na Avenida Paulista — Foto: Reprodução e Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo
Na eleição de 2006, contra o hoje seu vice-presidente Geraldo Alckmim, mesmo depois do mensalão, Lula conseguiu 60% dos votos válidos no segundo turno, depois de ter sido descoberto pela votação do então tucano no primeiro. Desta vez, Lula está com uma limitação clara de votos, e envolvido em diversas crises, tão ou mais graves que o mensalão. Naquela ocasião, Lula teve que pedir desculpas pelo que aconteceu, disse-se traído, e não tinha o histórico das crises de hoje.
Dessa vez o presidente está envolvido, sempre indiretamente, com suspeitas sobre a ação de seu filho Lulinha no escândalo do INSS e também no ministro do Supremo Alexandre de Moraes, identificado por palavras e atos como um aliado do presidente Lulinha, envolvido até o escândalo em escândalos de corrupção com o banqueiro-bandido Daniel Vorcaro.
A espécie de Lula, se é possível falar assim, é que seu principal adversário é Flávio Bolsonaro, também envolvido com Vorcaro no financiamento do filme “Dark Horse”, sobre seu pai. Esse dinheiro percorreu um caminho tortuoso que só os financiamentos ilegais percorrem, e não se sabe o que realmente financiou além do filme. Como Flavio Bolsonaro não foi capaz até agora de mostrar onde esse dinheiro foi parar fora do país, é legitimamente imaginável que houve um desvio de finalidade em algum momento.
Não há dúvidas de que se o candidato da oposição fosse outro, com melhores condições cognitivas e de oratória, a disputa seria muito mais difícil para Lula. A tendência à direita no mundo é evidente, especialmente com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, que interfere nas eleições latino-americanas para garantir que o que considera seu “quintal” permaneça sob controle americano. A região hoje tem uma maioria flagrante, com 13 países governados pela direita ou centro-direita, contra seis governos de esquerda ou centro-esquerda.
Na Europa essa onda também avançou, com a direita ou centro-direita dirigindo diversos países. Mas o pior resultado foi a direita nazista com a eleição da AFD na Saxônia-Anhalt, região da Alemanha. Pela primeira vez o partido de extrema-direita venceu uma eleição no país marcado pelo surgimento do nazismo na Europa. A Alemanha continua sendo um país governado pela centro-direita, mas a vitória da extrema-direita deixou estupefatos os próprios governantes alemães, que já se posicionaram contra possíveis medidas extremistas na região da Saxônia-Anhalt.
Voltando às eleições brasileiras, uma campanha presidencial será fortemente impactada por esses fatores externos. O presidente Lula está utilizando a defesa da soberania nacional como tema de sua campanha e do desfile de ontem da Independência. A vitória da direita nazista numa região alemã, com todo o peso simbólico, deve fortalecer a campanha contra a volta da direita no país, enquanto a direita, por seu lado, deve buscar a reafirmação de que a tendência atual no mundo é a vitória da direita. A política externa, pela primeira vez em muitos anos, tem influência importante na eleição brasileira.

