Infraestrutura precisa acompanhar ritmo de expansão urbana do Brasil
Por Editorial / O GLOBO
As cidades brasileiras continuam a se expandir. De 2019 a 2022, o Brasil urbano ganhou quase 6 mil km², crescimento de 12,3%, de acordo com o “Mapeamento das Áreas Urbanizadas” do IBGE. Brasília está em primeiro lugar no ranking de municípios em que os núcleos urbanos mais cresceram, com 72 km². O crescimento se dá em cidades-satélites como Taguatinga ou Ceilândia. São Luís foi a segunda colocada.
A urbanização acompanha a evolução econômica. O campo se esvazia, à medida que a agropecuária se mecaniza, e as novas gerações vão para a cidade atrás de educação e empregos. A transformação não ocorre sem choques. A carência de investimentos em água, luz, esgoto, gás ou internet tende a degradar a qualidade de vida nas novas manchas urbanas. Grandes parcelas da população se veem obrigadas a migrar para longe das zonas centrais, pressionando a demanda por serviços de transportes. O resultado pode ser visto no dia a dia frenético das metrópoles. “O Brasil já é um dos países mais urbanos do mundo, o que não quer dizer mais urbanizado”, diz o arquiteto e urbanista Zeca Brandão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Faltam saneamento básico, bom sistema de mobilidade urbana, espaços públicos, não ter déficit habitacional e contar com infraestrutura para a dimensão do território urbano.”
O crescimento das manchas urbanas é inexorável. Ocorre mesmo em cidades que tomaram medidas de contenção com cinturões verdes, como os criados por Londres entre os anos 1930 e 1940 ou por Seul em 1971. “Em ambos os casos, o crescimento saltou por cima dos cinturões e continuou de forma dispersa”, diz o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, ex-secretário de Planejamento Urbano do Rio. Seu diagnóstico é consensual entre urbanistas: o problema brasileiro não é crescer a área urbana, mas crescer mais rápido do que a capacidade da infraestrutura.
Em metrópoles como São Paulo ou Rio, o movimento de expansão rumo à periferia, mais horizontal que vertical, ocorre ao mesmo tempo que o Centro se esvazia. Cria-se um paradoxo: amplas áreas com infraestrutura instalada são progressivamente abandonadas, enquanto ocupam-se áreas que exigem investimentos básicos.
Já existe nos municípios consciência do problema. Têm proliferado projetos de revitalização de áreas centrais, a exemplo do carioca e do paulistano. Cidades como Rio, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Luís, Manaus, Salvador, Campo Grande, Campinas e Niterói se reuniram para criar a Rede Brasileira de Urbanismo em Áreas Centrais. Ao mesmo tempo, o governo federal destina recursos de habitação a novas moradias, em geral nas periferias. “O governo pisa no acelerador do Minha Casa, Minha Vida e não consegue gerar soluções nem para as capitais”, diz Fajardo. “O MCMV responde por metade do mercado residencial formal, mas os investimentos em transporte de alta capacidade não acompanham esse ritmo de crescimento horizontal.” Falta, diz ele, um “Meu Metrô, Minha Vida”. Faz sentido.
Engarrafamento na Avenida 23 de Maio, em São Paulo — Foto: Edilson Dantas /Agência O Globo

