Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas da eleição nos EUA
“Vá se danar”, foi o recado de Doug Ford, primeiro-ministro da província de Ontário, ao presidente americano. Na verdade, Ford usou palavra ligeiramente diferente, antes de concluir: — Trump nos subestima. Eis o grande erro.
Percorrendo trajetória oposta, o Brasil caiu de joelhos. Lula obteve, em longo telefonema a Trump, a reabertura de negociações, com a meta minimalista de alargar a lista de exceções esculpida pelas conveniências da Casa Branca. Trata-se de atender aos interesses imediatos de setores exportadores, como se representassem o interesse nacional. É a nação definida como coleção de grupos empresariais. Nada de retaliação assimétrica via exportações de nióbio, aviões regionais ou carnes.
A carne ilumina a servidão voluntária brasileira. Confrontado com inflação de alimentos, Trump abriu uma importação extraordinária de 300 mil toneladas de carne para hambúrguer, sem cotas ou tarifas, mas exigindo desconto de 25% dos exportadores. Único país capaz de fornecer imediatamente tal quantidade, o Brasil prontificou-se a exportar. As celebrações unem a Casa Branca à trindade JBS, Marfrig e Minerva Foods. Os Estados Unidos tarifam o conjunto da economia brasileira; em troca, o Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas das eleições americanas.
O objetivo estratégico do tarifaço contra o Canadá é eliminar a indústria automobilística do país, transferindo-a para os Estados Unidos. A Casa Branca almeja, desse modo, enfrentar o avanço chinês no mercado global de veículos. Contudo o resultado provável será romper as cadeias produtivas integradas nos três países da América do Norte, cedendo o mercado canadense às empresas da China. Chrystia Freeland, antiga vice-chefe de governo do Canadá, acerta na mosca ao qualificar as tarifas punitivas como “mau negócio mesmo para os Estados Unidos”.
Mark Carney, primeiro-ministro canadense, conclamou sete meses atrás, em Davos, as potências médias democráticas a se unirem contra a guerra tarifária de Trump. A maioria delas preferiu o caminho do apaziguamento, o que só estimula a Casa Branca a multiplicar suas investidas. Mesmo quase sozinho, o Canadá decidiu quebrar o ferrolho da jaula americana em que a História e a geografia o trancaram.
O Brasil, que vive fora da jaula, tecendo redes de intercâmbios globais, escolhe a submissão na hora do aperto.
— Não há interesse em retaliar ninguém — assegurou o apaziguador Alckmin, deixando a Lula o papel farsesco de proferir bravatas dirigidas ao público interno.
Inexplicável? Nem tanto: os Joesleys nos governam.

