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A página que Flávio não virou

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Na semana passada, em São Paulo, o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) disse que o caso de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, é “página virada”. Não é. Em maio passado, o sr. Flávio prometeu mostrar “em 30 dias” como foi usada a dinheirama que ele recebeu do sr. Vorcaro a título de financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. Passados mais de três meses, o sr. Flávio ainda não cumpriu a promessa, razão pela qual a imprensa, fazendo o que dela se espera, decidiu voltar ao tema – o que irritou bastante o candidato, que se acha dispensado de dar explicações.

 

“Vocês vão parar no tempo?”, reagiu Flávio quando os jornalistas tocaram no assunto depois de um evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O candidato, que tenta aparentar uma imagem de moderado em contraste com a notória truculência do pai, em particular com os jornalistas, não consegue superar a natureza quando se sente sob pressão. Na mesma resposta, Flávio, bem ao estilo de Jair, mandou que os jornalistas fossem ao Google procurar por reportagens que, segundo ele, diziam que a prestação de contas sobre o filme já havia sido feita. O que há, na verdade, é a menção ao inquérito policial sobre um contrato da produtora do filme com a Prefeitura de São Paulo, e nesse inquérito a tal empresa menciona os gastos com a produção cinematográfica, mas não apresenta notas fiscais nem explica a origem dos recursos. Ou seja, não há esclarecimento nenhum.

 

Portanto, a página não está virada, pois isso depende das explicações do sr. Flávio. E elas são necessárias, porque quem pretende presidir a República não pode ter em sua biografia uma relação obscura com um banqueiro preso por fraudar em bilhões o sistema financeiro – a quem, recorde-se enfaticamente, o candidato chamava de “irmão”.

 

Quem aspira à liderança da Nação deve satisfações claras, inclusive documentais, sobre fatos de sua vida que são de interesse público. Flávio insiste que o dinheiro foi dado por Vorcaro numa “relação privada”, sem envolver recursos públicos, razão pela qual não haveria crime. Ora, isso é ofender a inteligência alheia. O dinheiro que Vorcaro distribuía a mancheias a seus “irmãos” Brasil afora, como Flávio, era fruto de fraudes bilionárias – e o candidato a presidente certamente sabia disso. Se há crime ou não, a Justiça decidirá a seu tempo. Mas é absolutamente imoral – e se o sr. Flávio não consegue perceber isso, então não está moralmente qualificado para ser presidente da República.

 

A intimidade fraternal – desde maio tornada pública – entre Flávio e um notório fraudador é o escândalo público por definição, ainda mais envolvendo um aspirante ao principal cargo executivo do País.

 

Cabe à Polícia Federal esclarecer o que foi feito do dinheiro dado a Flávio por Vorcaro – e a troco de quê. Há indícios de que parte dos recursos pode ter sido direcionada ao “caixa dois” da campanha do candidato e outra parte ao sustento da dolce vita do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Insistimos, porém, que, no que concerne ao interesse público, a questão vital continua sendo a obscuridade das razões que levaram Flávio e um escroque como Vorcaro a construir uma relação tão íntima e financeiramente proveitosa.

 

Goste Flávio ou não, no curso da campanha a imprensa cumprirá o seu dever de lhe fazer as perguntas incômodas, tanto sobre o caso Master, como sobre quaisquer outras suspeitas que ainda pairam sobre ele sem explicação – caso das “rachadinhas”, do envolvimento com milícias do Rio de Janeiro e da aquisição de imóveis em dinheiro vivo, entre outras. O País precisa saber o motivo pelo qual um postulante à Presidência da República manteve uma relação afetuosa – e generosamente financiada – com o responsável pela maior fraude bancária já apurada no Brasil.

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