Trump desmoraliza a negociação
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Sob a ameaça de um novo tarifaço de 50% sobre US$ 20 bilhões em exportações para os EUA, o Canadá passou semanas negociando de boa-fé com a gestão do presidente Donald Trump. Era uma tentativa de mitigar o renovado ímpeto protecionista do republicano, que busca novos meios de reerguer seu muro tarifário desde que a Suprema Corte dos EUA deliberou, em fevereiro deste ano, que as bases para os impostos de importação anunciadas por Trump em 2025 eram ilegais. Mas se o Canadá estava disposto a negociar, o que Trump realmente queria era humilhar o parceiro e vizinho – há anos, o republicano refere-se jocosamente ao Canadá como um “Estado” americano. De acordo com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de última hora a gestão Trump apareceu com exigências “inaceitáveis”.
Uma delas limitaria a capacidade do Canadá de negociar de forma independente acordos comerciais com outros países. Outras buscavam limitar a produção de conteúdo em regiões do Canadá nas quais o idioma francês, e não o inglês, é majoritariamente utilizado.
Tal tipo de demanda em nada favorece a arte da negociação e o fechamento de um acordo. Muito pelo contrário. Se realmente apresentou tais exigências, Trump quis obter dos canadenses uma capitulação, não um entendimento.
Diante de tamanho despropósito, o Canadá resolveu retirar-se da mesa de negociações. O tarifaço de 50% sobre as exportações para os EUA, que Trump chegou a suspender por três dias, já vigora. Em resposta, Carney mandou retaliar “dólar por dólar” as ações americanas a partir de 8 de setembro.
Trump, por sua vez, sem negar as demandas de última hora que tanto ofenderam os canadenses, agiu como dele se espera, afirmando que os EUA não precisam do Canadá, e que, a partir de janeiro de 2027, produtos e carros canadenses exportados para os EUA, hoje penalizados com uma tarifa de 25%, passarão a pagar pedágio maior, de 50%.
Embora muito possa acontecer até 8 de setembro, quando terá início a retaliação canadense, e mesmo diante das perdas vultosas para o Canadá, que exporta mais de 70% do que produz para os EUA, o sentimento vigente hoje no país é de união contra Trump.
De acordo com o instituto Angus Reid, 76% dos canadenses entendem que encerrar as negociações com os EUA foi a medida correta. A repulsa a Trump não vem de hoje.
Enquanto o canadense comum se vinga do republicano boicotando produtos americanos e evitando ir ao país vizinho – as viagens de lazer de canadenses aos EUA caíram mais de 20% no ano passado –, o governo do país se aproxima da China e explora parcerias comerciais com outros países, inclusive com o Mercosul.
Ao tratar o Canadá como uma colônia de exploração tal como vem fazendo, Trump apenas consolida a visão de que os EUA já não são mais o parceiro confiável que costumavam ser.
Já para os canadenses, e também para o mundo, fica a lição de que não se pode depender excessivamente de ninguém, mesmo de parceiros que um dia pareciam confiáveis. Diversificar relações e manter múltiplos destinos para as exportações é cada vez mais um imperativo.

