A razão, felizmente, prevalece
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
As longas filas que se formam nos postos de saúde de São Paulo nos últimos dias, quem diria, são motivo de alívio, não de apreensão. Desde sábado passado, no primeiro fim de semana da campanha de vacinação contra o sarampo, é grande a procura por esse e outros imunizantes. Na véspera, 109.584 doses de vacinas foram aplicadas em um único dia – 84.632 delas exclusivamente contra o sarampo. A Prefeitura de São Paulo, que já vacinava em estações de metrô, estendeu a operação para supermercados, padarias, academias e shoppings, num esforço logístico digno de um serviço da mais relevante utilidade pública.
Essa resposta da população, a um só tempo disciplinada e altruísta, tem duplo valor: atesta que os paulistas confiam nas vacinas como um escudo contra doenças preveníveis e prova, por nítido contraste, que o negacionismo científico segue circunscrito às obsessões das franjas mais radicalizadas do bolsonarismo, hoje personificadas na triste figura do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Fez muito bem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao reagir a um vídeo em que Eduardo, foragido da Justiça nos Estados Unidos, celebrou ter assinado, em uma agência postal do Texas, onde vive, uma isenção que exime sua filha de apresentar comprovante de vacinação para ser matriculada na escola. Questionado sobre o desatino do aliado político, Tarcísio não poderia ser mais direto. “A vacina do sarampo é consagrada e segura. A gente tem feito um esforço muito grande aqui em São Paulo para aumentar a cobertura vacinal”, disse o governador, que ainda recomendou que todos os cidadãos elegíveis procurem os postos de vacinação.
Eduardo não chafurda sozinho no esgoto da desinformação. Dias antes, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também publicou um vídeo distorcendo completamente a audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos, tratando perguntas de senadores hostis a Fauci como veredicto científico e o silêncio do depoente como confissão. Nikolas regurgitou a suposta eficácia da cloroquina e da ivermectina contra a covid-19, sepultada por ensaios clínicos robustos, e insinuou que um problema de saúde que acometeu o próprio Fauci, meses após a vacinação, seria efeito colateral oculto. O parlamentar mineiro, é evidente, não apresentou uma nesga de evidência que sustentasse suas acusações. Nem precisava. A intenção desses irresponsáveis não é provar coisa alguma, mas sim disseminar a dúvida, base psicológica para teorias da conspiração que excitam as mentes bolsonaristas.
Vale lembrar de onde vem essa marcha da insensatez. A condução da pandemia de covid-19 pelo governo Jair Bolsonaro custou mais de 700 mil vidas brasileiras – número que seguramente seria menor se o então presidente da República tivesse colocado vacinas à disposição da população e incentivado a vacinação, em vez de zombar dos doentes. Não é à toa que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, tentou se livrar dessa pesadíssima herança ao dizer que é “o Bolsonaro que tomou vacina” contra a covid-19. Mas o irmão Eduardo tratou de mostrar que os Bolsonaros são incorrigíveis.
A segurança das vacinas não é tema de debate sério há muito tempo. É consenso médico e social há décadas. Mesmo no auge da pandemia, com o então presidente da República fazendo campanha abertamente contra a imunização, o negacionismo não convenceu a maioria dos brasileiros a abandonar o autocuidado e o compromisso cívico com a construção da imunidade coletiva. A verdade dos fatos aí está para demonstrar que, tão logo as vacinas contra a covid-19 começaram a ser aplicadas no País, começou o descenso do número de óbitos em decorrência da doença.
Agora, sem o Palácio do Planalto a seu favor e com Eduardo insistindo em retomar, a distância, um tema altamente tóxico para o sobrenome Bolsonaro, o discurso antivacina cola ainda menos – e o preço político dessa obsessão recairá sobre Flávio Bolsonaro. Mas isso é problema dessa desajustada família. À luz do interesse público, as filas nos postos de saúde de São Paulo provam que a razão, felizmente, prevalece.

