Busque abaixo o que você precisa!

A dependência russa da China

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O presidente da China, Xi Jinping, recebeu, num curto intervalo de tempo, o presidente americano, Donald Trump, e o russo, Vladimir Putin. Os EUA são o principal rival estratégico de Pequim; a Rússia, o seu parceiro mais importante. Mas essas diferenças foram diluídas no simbolismo chinês: Trump e Putin passaram pela mesma capital, sob o mesmo ritual diplomático – coreografia feita para provar que a China tornou-se o eixo incontornável de disputas globais: Ucrânia, Irã, Taiwan, energia, sanções, cadeias produtivas e comércio.

 

Putin desembarcou com mais demandas que ofertas. A dependência russa não começou com a guerra da Ucrânia, mas foi acelerada por ela. Anos de sanções, desgaste militar e inflação transformaram a China em uma linha vital para Moscou. Petróleo, tecnologia de uso dual, liquidez financeira e cobertura diplomática passaram a fluir por canais chineses.

 

Essa hierarquia é simbolizada pelo gasoduto que vai ligar a Sibéria à China, tratado pelo Kremlin como projeto estratégico para redirecionar exportações perdidas na Europa. Pequim negocia sem urgência. Quer preços baixos e compromissos flexíveis que lhe permitam seguir diversificando fornecedores. Moscou negocia sob necessidade; a China, sob cálculo. A Rússia continua militarmente perigosa e capaz de desestabilizar a Europa. Mas sua margem de manobra encolheu.

 

Uma Rússia enfraquecida demais deixaria de cumprir funções importantes para a China. Moscou fornece energia e ajuda a corroer as bases da ordem liberal. Pequim sustenta essa parceria sem assumir integralmente seus custos. Fala em “paz” enquanto municia o esforço militar russo. Mantém retórica de neutralidade enquanto estreita laços com o Kremlin.

 

A guerra no Golfo tornou essa relação mais relevante. A crise no Estreito de Ormuz expôs a vulnerabilidade marítima chinesa. A energia russa ganhou valor adicional. Isso requalificou a assimetria. Pequim precisa de fornecedores; Moscou, de comprador.

 

Xi e Putin descrevem esse alinhamento como embrião de uma “ordem multipolar” mais “justa” e “democrática”. A retórica sugere equilíbrio entre soberanias. A prática aponta noutra direção. Ucrânia e Taiwan ocupam lugar central porque expõem uma visão comum: grandes potências devem recuperar capacidade de coerção para delimitar zonas de influência. Países menores passam a depender menos de regras universais e mais da condescendência dos vizinhos fortes.

 

O eixo revisionista sino-russo, contudo, é menos coeso do que sua retórica sugere. Moscou teme converter-se em fornecedora subordinada de commodities; Pequim evita dependências e administra a parceria em termos cada vez mais chineses. Xi e Putin continuam falando em amizade “sem limites”. Ainda assim, ela se parece cada vez mais com a amizade entre um vassalo e um suserano.

 

Na teoria, ambos pregam a “multipolaridade”. Na prática, o arranjo que desenham se parece mais com a partilha de esferas de influência que a lógica pós-guerra fria ensaiou conter: não uma pluralidade de soberanias equilibradas, mas um condomínio de grandes potências com prerrogativas especiais sobre suas vizinhanças – a começar pelas da China sobre a Rússia.

Compartilhar Conteúdo

444