Relação com Ciro Nogueira é nova frente no caso Master
As ligações entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro eram comentadas em Brasília desde os tempos em que o hoje ex-banqueiro era conhecido apenas pela agressividade no mercado e pela vida pessoal extravagante.
Agora, elas se tornam objeto de investigação formal de suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro.
Como de costume nesse escândalo, os detalhes são escabrosos e superlativos. A Polícia Federal acredita que o senador recebia uma espécie de mesada, intermediada por um primo de Vorcaro, de R$ 300 mil, elevados em algum momento a R$ 500 mil. Os mimos ao parlamentar incluiriam ainda empréstimo de um imóvel, jatos para viagens internacionais e diárias em um hotel de luxo.
Presidente nacional de seu partido, Ciro Nogueira é o típico oligarca regional que se tornou um expoente do centrão, o grupo amorfo de legendas dispostas a negociar apoio a qualquer governo em troca de cargos e verbas.
Se o centrão ganhou mais protagonismo e autonomia com o aumento dos poderes do Congresso Nacional nos últimos anos, Ciro ganhou notoriedade ao ocupar a chefia da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL). Desde então, transita mais à direita, mas já foi aliado de administrações petistas.
Há poucos dias, envolveu-se, ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no episódio rumoroso de um voo bancado por empresário de apostas digitais, que trouxe de uma ilha caribenha cinco volumes que não passaram por raio-X na chegada ao Brasil.
Será tarefa inglória para o senador, decerto, sustentar que suas relações com Vorcaro não passam de amizade desinteressada. Ainda caberá à PF apontar, de todo modo, o que Ciro pode ter feito pelo ex-banqueiro no Executivo ou no Legislativo.
O indício mais importante divulgado até agora é uma proposta apresentada, ao que parece a mando do Master, de elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura individual do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), um instrumento-chave nas operações temerárias, quando não fraudulentas, do banco.
O senador também tem relações com Ibaneis Rocha (MDB), que governava o Distrito Federal quando o Banco Regional de Brasília (BRB) aventurou-se em uma desastrosa tentativa de compra do Master. Na época, o centrão pressionou o Banco Central a aprovar a operação, sem sucesso.
Está claro que Vorcaro cercava com dinheiro e agrados quem pudesse e aceitasse lhe ser útil em todos os Poderes e níveis de governo. Já se descobriram evidências claras de sua influência no Supremo Tribunal Federal (STF), em estados e em municípios. O Congresso pode ser uma nova frente.
Que o avanço da apuração leve o ex-banqueiro a fazer uma delação ampla e consistente enquanto é tempo, se é que ela será necessária. O número de delatores em potencial cresce a cada dia.

