Paciente usa caneta emagrecedora — Foto: FreepikDesenvolvidas originalmente para ajudar no tratamento do diabetes tipo 2, as canetas que aplicam drogas como semaglutida ou tirzepatida passaram a ser usadas com inúmeras outras finalidades — do tratamento de obesidade ou males cardíacos ao de ansiedade e depressão. Também têm sido empregadas com frequência com fins exclusivamente estéticos. Ao se tornarem objeto de desejo, as canetas também caíram nas graças de políticos, especialmente neste ano eleitoral.Eduardo Paes (PSD), que deixou a Prefeitura do Rio para candidatar-se a governador, mencionou em sua última campanha a possibilidade de a cidade adotar o medicamento nas Clínicas da Família para combate à obesidade. Seguindo os trâmites indicados, a medida ainda depende da definição de protocolos clínicos e de verbas. Outras prefeituras Brasil afora têm tentado oferecer canetas gratuitas à população. A de Urupês (SP) anunciou um programa de tratamento de obesidade para 200 pacientes, por meio de canetas com tirzepatida (o laboratório Eli Lilly, fabricante do medicamento, diz que a caneta usa uma versão manipulada, que não passa pela mesma avaliação de segurança e eficácia).É necessário impedir que o emprego em massa, sem os devidos cuidados, venha a pressionar o próprio sistema de atendimento público de saúde. Tem sido frequente o contrabando de canetas desconhecidas e o uso de versões manipuladas sem controle. Não há, nessas canetas manipuladas ou de procedência desconhecida, o mesmo grau de validação exigido para medicamentos registrados. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apertou a fiscalização para apresentação de receita médica nas farmácias. O custo é outro aspecto a considerar. Em nota, o Ministério da Saúde informa ter solicitado à Anvisa prioridade no registro de medicamentos da classe em que estão incluídas as canetas, para produção nacional e criação de versões genéricas que derrubem os preços.Não há um problema intrínseco em prefeituras quererem oferecer acesso às canetas. Tudo depende de as autoridades responsáveis estabelecerem programas bem estruturados que as destinem às aplicações para as quais foram criadas. Elas não podem ser um simples modismo para apresentar nos palanques. Este ano, por ser eleitoral, exige atenção redobrada.