O valor da preservação da memória
NOTAS E INFORMAÇÕES / O ESTADÃO DE SP
A morte de Carlos de Almeida Prado Bacellar, no dia 15 passado, suscita uma reflexão além da justa homenagem ao historiador da Universidade de São Paulo (USP). Neste espaço, portanto, vai mais do que um necrológio. Não se trata apenas de registrar a trajetória de um acadêmico respeitado em seu campo nem de louvar o gestor público que o professor Bacellar foi. Trata-se também de lançar luz, a partir de seu trabalho, sobre o valor da preservação da memória e do acesso à informação como bases para a construção de um futuro mais auspicioso para o País.
À frente do Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) entre 2007 e 2013, Bacellar contribuiu decisivamente para que a instituição deixasse de ser tratada como uma repartição burocrática qualquer, como de resto sói acontecer com quase todos os órgãos dedicados à guarda documental. Sob sua gestão, o Apesp ganhou posição destacada entre os interesses do Estado. Dotado da rara capacidade de materializar o espírito público, Bacellar demonstrou, na prática, que arquivos não são colônias de traças, mas centros de cidadania, transparência e memória.
Essa compreensão já estava enraizada em seu trabalho antes de ele assumir a coordenação do Apesp. Bacellar foi supervisor técnico-científico do Museu Republicano Convenção de Itu, da USP, entre 2004 e 2007. Ou seja, como gestor, o historiador acumulou experiência em lidar com o acervo da história política paulista, sobretudo em uma instituição que guarda estreita relação com os valores republicanos que inspiraram a criação deste jornal, há mais de 15o anos. Ali, como depois no Apesp, Bacellar provou que preservar a memória é condição indispensável para a vivacidade de uma sociedade democrática.
Ao promover a modernização do Arquivo Público, com a transferência para uma sede mais condizente com seu propósito, e ao impulsionar a digitalização de acervos, Bacellar materializou, como já dito, a ideia segundo a qual a informação pública deve ser, de fato, acessível. A abertura de documentos sensíveis, como os do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), por exemplo, não só ampliou o acesso de pesquisadores a páginas cruciais de nossa história, como reavivou o compromisso democrático com a verdade factual. A relevância disso em um país que até hoje peleja para lidar com as cicatrizes de seu passado autoritário é imensurável.
Bacellar compreendia, como demonstrou em uma de suas muitas entrevistas ao Estadão, os limites da tecnologia e quão ilusória pode ser a garantia formal do acesso à informação. Uma advertência sua, feita em 2012, permanece atual: “Não adianta você querer dar acesso à informação se você não acha a informação”, disse o professor, lamentando o fato de, à época, órgãos públicos escolherem “os piores lugares” para armazenar documentos, não raro de forma “caótica”.
Nesse sentido, sua gestão teve uma dimensão institucional decisiva. Foi no período em que Bacellar esteve à frente do Apesp, como oportunamente notou este jornal, que o órgão deixou a Secretaria de Cultura e passou para a alçada da Casa Civil. O que poderia ser uma mudança administrativa banal, na prática, revelou-se um ato de elevação da memória paulista à condição de requisito para a eficiência governamental e para a devida prestação de contas do poder público à sociedade.
Brasil afora, lamentavelmente, ainda se convive com arquivos precários e políticas de gestão documental erráticas, quando não erradas ou inexistentes. O risco dessa incúria não é apenas de esquecimento, o que já é grave por si só, mas de distorção oportunista da verdade factual, a depender das vontades dos poderosos de ocasião. Não formam uma nação os cidadãos que são incapazes de chegar a consensos mínimos sobre sua história e objetivos comuns, baseados em fatos reconhecidos como tais por todos.
Em tempos de revisionismos convenientes e ampla disseminação de desinformação, a existência de órgãos como o Arquivo Público do Estado de São Paulo, que Bacellar ajudou a modernizar, são fundamentais para assegurar a integridade e a acessibilidade dos registros históricos. O futuro de uma sociedade que maltrata sua própria memória jamais será promissor.

