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Espionagem digital chinesa levanta preocupação mundial com segurança

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

A espionagem digital se tornou já há algum tempo preocupação crítica na defesa nacional. Um quinto domínio — o cibernético — já se consolidou como campo de ação militar, além dos quatro consagrados (terra, mar, ar e espacial). Desde que o informante Edward Snowden expôs, em 2013, a extensão assustadora dos sistemas espiões da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, vários episódios incriminaram outros países (nem o Brasil escapou da exposição negativa quando ficou clara a arapongagem do Paraguai nas negociações sobre Itaipu). São raríssimos, porém, casos com a gravidade da denúncia publicada no início do mês contra a China, pelas principais agências de inteligência mundiais.

 

Um comunicado assinado por 23 serviços de espionagem ou segurança — de Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia, Alemanha, Japão, Polônia, Itália, República Tcheca e Finlândia — acusa a China de invadir redes globais de governos, transportes, telecomunicações, alojamento e infraestrutura militar. “As agências instam os defensores das redes a enfaticamente caçar atividades maliciosas e adotar as medidas de mitigação deste documento para reduzir as ameaças patrocinadas pelo Estado chinês”, afirma o texto.

 

Depois de um ano de investigação de um amplo ataque cibernético da China deflagrado por meio de um grupo conhecido como Salt Typhoon, foram identificadas invasões a sistemas de 80 países. Entre os alvos estavam empresas de telecomunicações, com o objetivo de rastrear políticos, espiões e ativistas. “Não consigo imaginar que algum americano tenha sido poupado”, afirmou ao jornal New York Times Cynthia Kaiser, ex-executiva graduada na divisão de cibernética do FBI.

 

Não se sabe quem foram os alvos do Salt Typhoon, mas a ação marca uma nova fase da espionagem cibernética, caracterizada por ataques por todo o mundo, com “alto nível de sofisticação técnica, paciência e persistência”, nas palavras de Jennifer Ewbank, ex-diretora adjunta de inovação digital da CIA. “A China se posiciona para dominar o campo de batalha digital”, escreveu Anne Neuberger, funcionária de cibersegurança no governo Biden, na revista Foreign Affairs. “O Salt Typhoon foi mais que um sucesso isolado de inteligência da China.” De acordo com ela, a Rússia também traz riscos.

 

Nem a imprensa está a salvo de invasões. Em abril e maio, a infraestrutura digital do Washington Post foi esquadrinhada por invasores chineses. Eles acessaram contas de e-mail de jornalistas especializados em assuntos de segurança nacional, política econômica e China. O mundo empresarial também é outro espaço visado. Há pouco, foram acessadas informações pessoais da maioria do 1,4 milhão de clientes da subsidiária americana do grupo segurador alemão Allianz.

 

Casos assim já se tornaram rotineiros, como decorrência da digitalização inexorável do cotidiano. Não há como pensar em segurança pessoal, corporativa ou nacional sem encarar a segurança cibernética como prioridade.

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