Narcogarimpo ameaça segurança da Amazônia
Por Editorial / O GLOBO
A informação de que o Sul do Pará volta a ser ocupado por balsas do garimpo ilegal, apesar de sete operações realizadas apenas neste ano na região, reflete a dificuldade de estabelecer uma política eficaz de segurança pública para a região. Tal política não pode se resumir às operações, cujo efeito se assemelha a enxugar gelo. As distâncias na Amazônia podem ser maiores, mas, como nas áreas urbanas, o combate à ilegalidade exige informação e estratégia para sufocar os criminosos.
Os alvos mais recentes dos garimpeiros são a Terra Indígena Kayabi e o Refúgio de Vida Silvestre Rio São Benedito e Azul, criado pelo governo do Pará em 2021. A corrida à região é motivada pela duplicação do preço do ouro em apenas um ano, para R$ 630 por grama. A rentabilidade do negócio se tornou tão grande que garimpeiros, ao ser surpreendidos, preferem afundar suas balsas e tentar recuperá-las depois. Em reportagem do GLOBO, um morador da região comparou o que acontece no Sul do Pará à descoberta de ouro em Serra Pelada nos anos 1980, quando era comum habitantes de fora venderem tudo o que tinham para tentar a sorte no garimpo.
A grande diferença — para pior — é que agora o crime organizado está presente. O estudo “Cartografias da violência na Amazônia”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), registra que, em 1990, cinco anos depois da redemocratização, relatório do Serviço Nacional de Informações (SNI), ainda operante, já alertava sobre a possibilidade de o ouro retirado da reserva ianomâmi “servir para lavar rendimentos do narcotráfico, dadas as facilidades para cruzar a fronteira”. Ao longo da última década, a chegada à Amazônia de facções criminosas como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), aliadas a grupos locais, sedimentou o vínculo entre garimpo ilegal e crime organizado para formar o “narcogarimpo”. As facções compartilham com os donos de garimpos ilegais toda a infraestrutura, inclusive pistas de pouso clandestinas, usadas para reabastecer aviões que transportam drogas. Tudo é pago com ouro, rendendo lucros para ambas as partes.
Há em Brasília consciência do problema, como mostram a sucessão de operações policiais na região e o número crescente de inquéritos policiais federais. Em cinco anos, houve aumento de 93,5% nessas investigações. Mas é preciso mais. É necessário um plano efetivo de vigilância constante e combate consistente, integrado e permanente da criminalidade ambiental e de sua aliança com o tráfico, com recursos compatíveis com o tamanho do desafio. Há na Amazônia Legal, excluindo a área das vastas reservas indígenas, 260km² para cada policial civil, mais que o dobro da média nacional. Portanto, além da necessária articulação entre União, estados e Forças Armadas — vitais na segurança amazônica —, uma política ampla deve prever os meios necessários para erradicar o domínio do crime na região. Trata-se de uma prioridade, levando em conta a importância da Amazônia para os objetivos ambientais, militares, econômicos e estratégicos do Brasil.


